terça-feira, 15 de junho de 2021

Guiné 61/74 - P22282: Manuscrito(s) (Luís Graça): Tenho um fascínio pela pedra








Marco de Canaveses >Paredes de Viadores > Candoz > Quinta de Candoz, 19 de maio de 2021 > Vinha de vinho verde > Muro de suporte







Marco de Canvaveses > Vila Boa de Quires > Obra do Fidalgo >
 "Apesar de nunca ter sido terminada, e de estar em ruínas, a imponente fachada da casa de Vila Boa de Quires é suficiente para determinar a imponência e monumentalidade do projecto, iniciado por António de Vasconcelos Carvalho e Meneses. Não é certa a data do início da construção, que deverá ser balizada entre 1740 e 1760, muito embora a gramática decorativa do alçado principal, já rocaille, se inscreva na segunda metade da centúria" (Fonte: Património Cultural)


Museu de pedra


Tenho um fascínio pela pedra, 

não pelas pedras.

Do latim, "petra".

Não rima com nada a pedra,

Nem é coisa que medra.

Não cresce não mingua a pedra.



Não, não gosto  da pedra da pedreira em estado bruto.

É preciso saber extraí-la renomeá-la e reordená-la.

Não resisto à beleza da pedra "in su situ",

o muro da vinha ou a fachada da obra do fidalgo.

Fascinam-me as ruinas, cobertas de musgo e líquenes

mas não de heras que escondem a pedra.

As ruínas escondidas 

por detrás dos grossos carvalhos e castanheiros.



A pedreira ou mina a céu aberto deprime-me.

Não suportaria o buraco do ozono depois da implosão da terra.

Não há beleza petrificada.

Há apenas a beleza da pedra humanizada.

Há apenas a pedra trabalhada talhada cortada recortada.

Há apenas a pedra lascada aparada esculpida.



Não percebo nada de minas e pedreiras.

Mas já estive a 700 metros de profundidade no interior da terra

numa mina "underground".

O que esmaga é o silêncio, seguido das explosões

dessa substância explosiva formada pela nitroglicerina e areia

e a que os mineiros chamam dinamite.



Não, não é o fogo adormecido que me encanta na pedra,

mas a pureza rugosa e fria  da sua superfície.

Gosto de todas as pedras, 

e em especial do granito de Alpendurada,

a pedra com que há séculos suportamos os socalcos da terra de Candoz.

E que sustenta o carvalho o castanheiro o sobreira a vinha a vida.



Não amo o mármore.

Muito menos o dos cemitérios.

Os humanos gostam de descobir na pedra as marcas do tempo.

A patine do tempo.

A pedra que fala.

A pedra que canta.

A pedra que chora.

A água a cair na pedra. 

O fio de água da mina a burilar a pedra.



Por detrás de um muro de pedra há lendas e narrativas.

Há mouros e mouras, 

encantados desencantados ou ainda  por desencantar.

Há trabalhos (es)forçados. 

Sangue de batalhas antigas.

De Tongóbriga à ponte do Arco sobre o rio Ovelha.



E sobre a pedra põe-se a toalha de linho,

O pão e o vinho sobre a mesa.

E a cebolinha do talho comida com sal.

No tampo da mesa de  pedra.

Acompanhe-se com vinho tinto verde,

bebido em caneca de porcelana.



A pedra é preciso pô-la a falar.

Com o escopro.

Com o maretelo.

Com o cinzel.

Os velhos canteiros da Rota do Românico sabiam fazê-lo.



Gostaria de saber um dia  construir um muro de granito,

outrora a 60 euros o metro cúbico.

Mas nada sei desta arte antiga.

Só sei que gosto das pedras dos nossos muros, 

sobrepostas calafetadas calçadas.

Gostaria de saber calçar uma pedra de mais de uma tonelada,

com mais de vinte vezes o peso do meu corpo.

 

Não invejo a eternidade da pedra. 

Limito-me a fotográ-la

para  a poder rever antes de  morrer.

 
Luís Graça

Candoz, 23 de maio de 2021

___________

Nota do editor:

Último poste da série > 30 de maio de 2021 > Guiné 61/74 - P22238: Manuscrito(s) (Luís Graça) (202): Parabéns, régulo da Tabanca do Atira-te ao Mar, Joaquim Pinto Carvalho, muita saúde e longa vida porque tu mereces tudo!

10 comentários:

Anónimo disse...

BOM DIA CAMARADA LUIS,

GRANDE ? POESIA? NEM SEI O TERMO
MAS UMA BOA HISTOR IA DA PEDRA QUE TAMBEM ADORO.
MENOS AQUELAS, QUE COM AS FISGAS, ENTRE GUERRAS DE MIUDOS, ATIRAVAMOS UNS CONTRA OS OUTROS.
FELISMENTE NUNCA MORREU NINGUEM (ECEPTO OS PASSAROS) MAS NESSA ALTURA TODOS ERAMOS UNS SELVAGENS, EU PELO MENOS, MAS NÃO ASSASSINO.
FAZES VERSOS COM TUDO, PORRA, E EU NÃO TENHO ESSE JEITO.

ESCRITO, COM UMA MÃO, A OUTRA ESTOU A OUVIR MUSICA DA AT, AGUARDANDO UMA RESPOSTA SOBRE O REEMBOLSO DO MEU IRS.

POIS É MEU, JÁ FOI PAGO HÁ MAIUS DE UM ANO, E JÁ ME DEVIAM TER PAGO.
AO PAGAREM AGORA, JÁ É COM O DINHEIRO RETIDO NESTE ANO DE 2021.
O ESTADO ESTÁ SEMPRE Á FRENTE.
POR ISSO AS LETRAS SÃO MAIUSCULAS.

PARABENS, PELAS EXCELENTES FOTOS DOS MUROS DAS VINHAS DA TUA CANDOZ.

VOU CONTINUAR A OUVIR MUSICA, É PENA NÃO A PASSAR PARA AQUI MAS JA TODOS A CONHECEM.

AB,
VIRGILIO

Anónimo disse...

Luís,
mas que grande “Pedrada”

Meu pai trabalhou a pedra (granito), mais escultor que pedreiro dada a arte como a trabalhava. Construi a casa de família com a ajuda de amigos, colocando pedra sobre pedra. Mas que beleza de casa. Mais tarde, nós, os seus filhos, não resistindo ao modernismo cobrimos toda a pedra, e a sua arte, com cimento. Felizmente, hoje, os netos retiraram o cimento e resgataram a beleza da pedra.
As voltas que o(a) mundo (pedra) dá !

Moral da História; Nem todas as “pedradas “ são más !

Um abraço
Joaquim Costa
Um abraço
Joaquim Costa

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Joaquim, concordo contigo... Houve uma altura em que a malta do Norte teve "vergonha" das "humildes" casas de pedra onde nasceu... Frias, desconfortáveis, miseráveis, de telha vã, em que se coabitava com os animais... E toca de rebocá-las com cimento e pintá-las com as cores modernaças... Ou a fazer ao lado as "maisons" da França, da Alemanha, da Suiça...

E as nossoas terras, pobres vilórias, queriam ser cidades: e ergueram-se edifícios altos, com grande volumetria... Ah!, os nossos estúpidos complexos de inferioridade...

Hoje, felizmente, está-se a reabilitar o granito das nossas memórias!... E a cuidar do nosso Património. E a contratra arqueólogos e arquitetos para as nossas autarquias...

Dou os meus parabéns aos municípios do Vale do Sousa, do Vale do Tâmego e do Vale do Douro que meteram mãos à obra e (re)criaram a Rota do Românico... Estão aqui s mais belas de Portugal!... Malta, do Norte e do Sul, têm que conhecer a Rota do Românico, antes de arrumar as botas e a mochila!...

https://www.rotadoromanico.com/pt/

Anónimo disse...

Bom!
Não deve ser só a malta do norte mas também os haver noutras províncias portuguesas. Mas a regra está clara até fazia dor na alma ver as barbaridades. Ainda ontem num passeio à pé com a minha mulher vimos um muro, já não sei onde mas vou fotografar. Estava rachado e vai-se na vertical como eram feitos, pedras encostadas e seguras com massa de saibro, não havia cimento tal como tantas tabancas em vez de cimento e saibro levam terra amassada, acho eu.
Temos aqui na Vila uma quinta enorme com 4 frentes e só de pedra num total de uns 5km por 2 de altura o valor desta obra bem tratada dava para comprar um bom apartamento. Era da família do Eng carvalho da fábrica do Mindelo, com uma grande mansão ao centro que nem se vê.
Uma das poucas coisas de bem que tem esta terra. Deixem estar é um pulmão em frente à nossa urbanização.
Agora se estamos a falar de pedra, granito, temos o país inundado, ruas, praças, passeios tudo é granito, polido claro.
Ab, Virgílio Teixeira

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Correm várias lendas sobre esta maravilhosa ruina,de que só ficou a fachada e pouco mais. É um projecto em estilo barroco e rococó O arquitecto seria espanhol e tera morrido precocemente. O proprietário era um fidalgo rico com interesses no Brasil. A acabou-se o ouro.
Ou o homem morreu. Tudo acaba. Ficaram as pedras. Classificadas como imóvel de interesse público





Valdemar Silva disse...

Luís
As pedras são umas pedras, não há volta dar.
Mas podemos com uns "tiros" dar-lhes serventia em muros de pedras soltas. Só a "tiro" coitadas.
Esses muros de pedras soltas têm a mestria de inginheiros populares com fio de prumo de corda e pedra na ponta a nivelar para assentar. E faziam segredo na técnica do assentamento. Destes pedreiros dizem muita coisa, até dizem que por causa deles é que estamos como estamos.
Tretas de engenheiros, que a seguir não sabem explicar como é que os incas de Cusco fizeram os muros da Calle Hatum Rumiyoc sem a engenharia dos senhores donos das pedras.
As pedras, como os oceanos e outras coisas não deviam ter donos. As pedras coitadas querem lá saber do dono, os oceanos desde que não lhe cuspam também não se importam quem por eles navegue e as outras coisas é uma chatice saber quem é o verdadeiro dono.
Em criança brincava junto de um muro de pedra solta, enquanto a minha avó lavava roupa num tanque ao lado dumas vacas piscas a beber água, por estarem soltas demais uma das pedras do muro caiu-me em cima da cabeça não morri da pedrada e tenho indo aguentando as pedradas desta vida.
Continua a atirar-nos destas belas pedras de Candoz, que eu vou me lembrando da minha prima Luiza que me dizia: não me atiras pedrinhas para cima do meu telhado, atira-me pedras com cuidado, tem cuidado.

Abraço e venham mais poesias com pedras (será que perceberam?)
Valdemar Queiroz

Hélder Valério disse...

Caro Luís

Espero e faço votos para que já estejas "lançado" em nova fase da tua luta contra os teus "incómodos".
Vens aqui, hoje, falar da "pedra". Em verso....
Ora bem, muito do que referes é uma boa chamada de atenção para a História (assim, com H grande).
Se bem notares, a "pedra", pela sua longevidade (relativa, é certo) foi, tem sido, um bom meio de perpetuar, tanto quanto possível, as manifestações humanas, sejam de carácter artístico, fúnebre, religioso, etc.
Até mesmo nas paredes de cavernas ou de desfiladeiros, as pedras foram utilizadas para testemunhar as vivências da época e por isso, ainda hoje, nos é possível conhecer essas realidades.
Os "construtores de catedrais" tornaram-se na Idade Média os possuidores dos "segredos" da construção e ainda hoje nos podemos maravilhar com essas portentosas realizações.
De igual modo os construtores desses socalcos que nos mostras são merecedores da nossa admiração e reverência pois isso permitiu e permite o aproveitamento de terrenos e de culturas que, de outro modo, não existiriam.
Só não percebi, nem subscrevo, a tua "implicância" com o mármore...

Hélder Sousa

Anónimo disse...

eduardo francisco (by email)
15 jun 2021 15:33

Boa tarde Luís!
Grande trabalho poético sobre as pedras que vamos encontrando no meio do nosso caminho.
Com as tuas palavras , pintas uma tela onde o engenho e a criatividade dos homens que a moldam fica mais engrandecido.
Bem hajas por nos brindares com o ritmo dos teus escritos.
Abraço fraterno.
Eduardo Estrela.

Anónimo disse...

Luis vou-te enviar algumas fotos das pedras desta terra, que serão mais ou menos iguais a outras.
Vai num mail mas já estão no watsapp.ab. Virgílio Teixeira

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Amigos/as:

Às vezes dá conforto pensar nas pedras
que não amam nem odeiam,
como diria o Alberto Caeiro...
E sobretudo porque estão cá
muito antes de nós
e vão ficar muito depois de nós...

Chicorações "empedernidos"... Luis