É justo fazermos-lhe aqui uma pequena homenagem (*), por três ou quatro ou três razões:
(i) é uma figura de referência da medicina, da saúde e do ensino em Portugal.
(ii) teve um papel inovador no desenvolvimento da pediatria em Portugal;
(iii) pelas suas mãos passaram muitos dos nossos filhos e netos;
(iv) mas o que poucos sabem é que também fez a guerra colonial, como jovem médico no BCAÇ 1887 (Farim, 1966/68), o mesmo batalhão a que pertencia o dr. Adão Cruz, nosso grão-tabanqueiro, alf mil médico, CCAÇ 1547, Bigene, 1966/68) (*), mas também o Domingos Gonçalves, ex-alf mil, CCAÇ 1546.
Notável foi o seu envolvimento com as populações: organizou consultas para crianças locais, inclusivamente aprendeu fula (algumas palavras e expressões em fula, imaginamos...), para comunicar diretamente com as famílias (desconfiava que os tradutores não transmitiam tudo), e confessou que enfrentou epidemias de sarampo com mortalidade elevadíssima.
Trabalhou, em Farim, com escassez de medicamentos, instalações inadequadas e recursos limitados, co.o qualquer outro médico. De resto. Tinha-se licenciado em 1962. A guerra ensinou-lhe a resiliência e a importância da empatia, lições que transportou para a pediatria: "A guerra deu-me uma preparação brutal para a vida" (sic).
A pediatria acabou por ser a sua paixão e missão. Uma paixão que nasceu da relação com Jácome Delfim (seu padrinho de casamento) e do sogro, também ele pediatra. Mas foi a experiência na Guiné que solidificou o seu compromisso com os direitos da criança e a abordagem holística e humanista.
Seria ele quem viria a introduzir, nos anos 80, em Portugal, a consulta pré-natal de pediatria, defendendo que o vínculo entre pais e bebé começa ainda no útero.
2. Eis alguns excertos dessa entrevista ao Notícias Magazine, em 2017 (*)
(...) JN - Quando acabou o curso, em 1965, estava prestes a ser pai. Com a paternidade, passou a olhar para a pediatria de outra perspetiva?
JGP - O nascimento de um filho, ainda por cima quando o pai não é suficientemente maduro – só tinha 23 anos – é um marco decisivo e mudou essencialmente a minha sensibilidade.
Pouco meses depois de ser pai, fui para a Guiné, para a guerra colonial. Lembro-me de aterrar, sair do avião, sentir o bafo de calor e pensar «não consigo ficar aqui nem umas horas».
No mato não havia nada, mas eu organizei uma consulta específica para crianças e fiz questão de aprender a falar fula, porque desconfiava que o enfermeiro-tradutor não relatava tudo o que os pais me contavam. A mortalidade era elevadíssima, em dois anos «apanhei» duas epidemias de sarampo.
A guerra, à qual pensei fugir, deu-me uma preparação brutal para a vida. Desde logo pelas saudades que tinha do meu filho Tiago, sempre presente nas minhas descobertas.
JN - Porque não fugiu?
JGP - A razão essencial foi a de saber do desgosto que causaria à minha mãe, com quem tinha uma relação muito forte. O não poder regressar a Portugal era um imperativo a par da responsabilidade de já ter uma família. Percebi também que seria o fim de uma carreira de médico em Portugal. Uma carreira sonhada. Por isso, decidi assumir a guerra.
JGP - Lembro-me da minha primeira consulta privada. Vi a primeira criança, uma rapariga com 7 anos, numa clínica da Baixa, onde trabalhavam vários médicos à espera que alguém batesse à porta. Um dia, entrou uma senhora à procura de um pediatra. A miúda tinha umas manchas, talvez alergia. Vi-a mais uma ou duas vezes.
(...) "Na altura, era ainda clínico geral, mas já se destacava pela sua competência e humanismo, mesmo em condições extremamente precárias. Apesar das dificuldades, ele e os outros os médicos do batalhão conseguiam 'fazer milagres' e davam assistência não só aos militares, mas também às populações civis locais." (...)
O Domingos Gonçalves testemunha que o João Gomes-Pedro organizou consultas específicas para crianças na Guiné.
(Pesquisa, condensação, revisão / fixação de texto: LG)
A importância que a Guiné teve nas suas opções futuras foi destacada por ele em entrevista que deu ao Notícias Magazine (que sai com o Jornal de Notícias e Diário de Notícias), em 5 de junho de 2017 (**),
A entrevista acaba por ser um retrato fascinante da sua vida e obra, sendo a experiência na guerra colonial (1966-1968), na região do Óio, algo que muito valorizou por ter moldado o seu percurso como homem, pediatra e professor.
Também ele sentiu, como qualquer um de nós, ao desembarcar naquela terra verde-rubra, um choque térmico e emocional: "Não consigo ficar aqui nem umas horas". Também bebeu a água do Geba e do Cacheu ... Mas a saudade do filho recém-nascido (Tiago) e a responsabilidade familiar (especialmente para não desiludir a mãe) e a paixão pela carreira médica levaram-no a assumir a missão.
Notável foi o seu envolvimento com as populações: organizou consultas para crianças locais, inclusivamente aprendeu fula (algumas palavras e expressões em fula, imaginamos...), para comunicar diretamente com as famílias (desconfiava que os tradutores não transmitiam tudo), e confessou que enfrentou epidemias de sarampo com mortalidade elevadíssima.
Trabalhou, em Farim, com escassez de medicamentos, instalações inadequadas e recursos limitados, co.o qualquer outro médico. De resto. Tinha-se licenciado em 1962. A guerra ensinou-lhe a resiliência e a importância da empatia, lições que transportou para a pediatria: "A guerra deu-me uma preparação brutal para a vida" (sic).
A pediatria acabou por ser a sua paixão e missão. Uma paixão que nasceu da relação com Jácome Delfim (seu padrinho de casamento) e do sogro, também ele pediatra. Mas foi a experiência na Guiné que solidificou o seu compromisso com os direitos da criança e a abordagem holística e humanista.
Seria ele quem viria a introduzir, nos anos 80, em Portugal, a consulta pré-natal de pediatria, defendendo que o vínculo entre pais e bebé começa ainda no útero.
Foi pioneiro na abordagem centrada na família, inspirado por médico norte-americano Berry Brazelton (1918-2018), e na valorização do comportamento e da afetividade, e não só da doença.
Rompendo com séculos de preconceitos em relação às crianças, defendia que o bebé tem direito a uma consulta antes de nascer, pois já ouve, vê e distingue vozes no útero.
O prof doutor João Gomes-Pedro usou os avanços da neurociência para validar cientificamente o que a intuição e Brazelton á lhe diziam: os bebés comunicam desde o nascimento.
Criou também uma "via verde" no consultório para adolescentes, onde podiam falar de tudo (namoros, cursos, dúvidas existenciais).
Criou também uma "via verde" no consultório para adolescentes, onde podiam falar de tudo (namoros, cursos, dúvidas existenciais).
Enfim, deixa um legado importante: a Fundação Brazelton-Gomes Pedro, criada por ele e por Brazelton em 2010, que tem como missão formar profissionais em "Ciência do Bebé e da Família", defendendo que a felicidade da criança depende da confiança e competência dos pais.
Era um médico e um homem de primeira grandeza: sempre disponível, atendia chamadas a qualquer hora ("Doutor, parece que vai estar sol, acha que ponha um chapéu à menina logo de manhã?").
Era um médico e um homem de primeira grandeza: sempre disponível, atendia chamadas a qualquer hora ("Doutor, parece que vai estar sol, acha que ponha um chapéu à menina logo de manhã?").
Para ele, a pediatria era "brincar com crianças" e descobrir quem é cada uma, para além dos sintomas.
Criticava o stress da sociedade moderna e os índices altos de separação divórcio em Portugal, alertando para o impacto negativo nas crianças do disfuncionamento familiar. Defendia a igualdade parental e a importância do afeto na construção da resiliência.
Mesmo após a jubilação como professor catedrático, e diretor do Departamento da Criança e da Família da Unidade Local de Saúde de Santa Maria, continuava a trabalhar 10 horas por dia, e mantinha ligações afetivas com pessoas que acompanhava desde bebés (muitos já adultos, voltavam só para conversar).
Criticava o stress da sociedade moderna e os índices altos de separação divórcio em Portugal, alertando para o impacto negativo nas crianças do disfuncionamento familiar. Defendia a igualdade parental e a importância do afeto na construção da resiliência.
Mesmo após a jubilação como professor catedrático, e diretor do Departamento da Criança e da Família da Unidade Local de Saúde de Santa Maria, continuava a trabalhar 10 horas por dia, e mantinha ligações afetivas com pessoas que acompanhava desde bebés (muitos já adultos, voltavam só para conversar).
É autor de diversas obras relevantes nas áreas da pediatria e neuropediatria.
Eis algumas frases que destacamos da sua entrevista de 2017 ao JN:
Eis algumas frases que destacamos da sua entrevista de 2017 ao JN:
- "A guerra deu-me uma preparação brutal para a vida."
- "O pediatra tem de ser um detetive do comportamento, não só da doença."
- "O grande objetivo é a felicidade da criança."
- "Os pais são os grandes mestres da natureza do seu bebé."
A Guiné ensinou-lhe que "a única maneira de não entrar em depressão era viver intensamente África e as suas culturas" - lição que aplicou ao cuidar de cada criança como um universo único.
2. Eis alguns excertos dessa entrevista ao Notícias Magazine, em 2017 (*)
(...) JN - Quando acabou o curso, em 1965, estava prestes a ser pai. Com a paternidade, passou a olhar para a pediatria de outra perspetiva?
JGP - O nascimento de um filho, ainda por cima quando o pai não é suficientemente maduro – só tinha 23 anos – é um marco decisivo e mudou essencialmente a minha sensibilidade.
Pouco meses depois de ser pai, fui para a Guiné, para a guerra colonial. Lembro-me de aterrar, sair do avião, sentir o bafo de calor e pensar «não consigo ficar aqui nem umas horas».
No mato não havia nada, mas eu organizei uma consulta específica para crianças e fiz questão de aprender a falar fula, porque desconfiava que o enfermeiro-tradutor não relatava tudo o que os pais me contavam. A mortalidade era elevadíssima, em dois anos «apanhei» duas epidemias de sarampo.
A guerra, à qual pensei fugir, deu-me uma preparação brutal para a vida. Desde logo pelas saudades que tinha do meu filho Tiago, sempre presente nas minhas descobertas.
JN - Porque não fugiu?
JGP - A razão essencial foi a de saber do desgosto que causaria à minha mãe, com quem tinha uma relação muito forte. O não poder regressar a Portugal era um imperativo a par da responsabilidade de já ter uma família. Percebi também que seria o fim de uma carreira de médico em Portugal. Uma carreira sonhada. Por isso, decidi assumir a guerra.
A Guiné foi uma experiência importantíssima na minha vida. Percebi que a única maneira de não entrar em depressão era viver intensamente África e as suas diferentes culturas. Foi um tempo em que estudei e aprendi muito com as populações e com os meus companheiros de batalhão.
JN - Na Guiné viveu seguramente momentos terríveis.
JN - Na Guiné viveu seguramente momentos terríveis.
JGP - Muitos. Surgiram-me, no posto clínico de Farim, três soldados com queimaduras extensíssimas, provocadas pela explosão de uma mina, que se agarraram a mim, a gritar de dor, chamando pelas suas mães, pedindo-me aos gritos que não os deixasse morrer.
JN - Pediatria, a carreira sonhada. Fale-me dos primeiros tempos dessa carreira. JGP - Tenho pensado nisso, agora que tenciono deixar a clínica, em 2018.
JN - Pediatria, a carreira sonhada. Fale-me dos primeiros tempos dessa carreira. JGP - Tenho pensado nisso, agora que tenciono deixar a clínica, em 2018.
JGP - Lembro-me da minha primeira consulta privada. Vi a primeira criança, uma rapariga com 7 anos, numa clínica da Baixa, onde trabalhavam vários médicos à espera que alguém batesse à porta. Um dia, entrou uma senhora à procura de um pediatra. A miúda tinha umas manchas, talvez alergia. Vi-a mais uma ou duas vezes.
Nessa altura, a pediatria ia apenas até aos 10 anos, mas não me importava. Passei a ver crianças muito mais velhas. A adolescência ganhou um capítulo essencial da pediatria que na altura não tinha. Foi em 1968, já vão lá 49 anos. O pediatra era um médico que aplicava apenas a metodologia clássica. (...)
(O resto desta entrevista é obrigatório ler, aqui, para se perceber a importância que este nosso camarada da Guiné (, camarada, apesar da deferência com que tratávamos os alferes milicianos médicos.... ) teve na mudança de paradigma da pediatria em Portugal. Recomendo a sua leitura aos pais e avós... (Declaração de interesse: conheci-o pessoal mas circunstancialmente, há maais de vinte anos, na Faculdade de Medicina de Lisboa, já era uma sumidade, mas eu não sabia que tinha estado na Guiné.)
3. Segundo o testemunho do nosso camarada Domingos Gonçalves (ex-alf mil CCAÇ 1546/BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68), o batalhão tinha três médicos, sendo João Gomes-Pedro um deles.
(O resto desta entrevista é obrigatório ler, aqui, para se perceber a importância que este nosso camarada da Guiné (, camarada, apesar da deferência com que tratávamos os alferes milicianos médicos.... ) teve na mudança de paradigma da pediatria em Portugal. Recomendo a sua leitura aos pais e avós... (Declaração de interesse: conheci-o pessoal mas circunstancialmente, há maais de vinte anos, na Faculdade de Medicina de Lisboa, já era uma sumidade, mas eu não sabia que tinha estado na Guiné.)
3. Segundo o testemunho do nosso camarada Domingos Gonçalves (ex-alf mil CCAÇ 1546/BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68), o batalhão tinha três médicos, sendo João Gomes-Pedro um deles.
"Como pessoa, apenas posso referir que era um homem excepcional."
(...) "Na altura, era ainda clínico geral, mas já se destacava pela sua competência e humanismo, mesmo em condições extremamente precárias. Apesar das dificuldades, ele e os outros os médicos do batalhão conseguiam 'fazer milagres' e davam assistência não só aos militares, mas também às populações civis locais." (...)
O Domingos Gonçalves testemunha que o João Gomes-Pedro organizou consultas específicas para crianças na Guiné.
Os outros dois médicos chamavam-se: um Carlos Alberto, e outro, Adão [Cruz, nosso grão-tabanqueiro].
(...) As condições em que trabalhavam eram precárias, quer no que respeita a instalações, quer no que respeita a medicamentos, ou outro material médico. Regra geral, mesmo não sendo santos, às vezes conseguiam fazer milagres. Num relatório sobre diversas matérias, o comandante do batalhão a que pertenci, queixava-se.
" No Serviço de Saúde há grandes atrasos na recepção dos medicamentos, e o não fornecimento de vários produtos requisitados, o que perturba o fornecimento da assistência, que é ainda prejudicada pelas deficientes instalações dos postos de saúde." (...)
(...) As condições em que trabalhavam eram precárias, quer no que respeita a instalações, quer no que respeita a medicamentos, ou outro material médico. Regra geral, mesmo não sendo santos, às vezes conseguiam fazer milagres. Num relatório sobre diversas matérias, o comandante do batalhão a que pertenci, queixava-se.
" No Serviço de Saúde há grandes atrasos na recepção dos medicamentos, e o não fornecimento de vários produtos requisitados, o que perturba o fornecimento da assistência, que é ainda prejudicada pelas deficientes instalações dos postos de saúde." (...)
Será que alguém mais se lembra dele ? O Domingos Gonçalves, sim. O dr. Adão Cruz também se deve lembrar do colega.
(Pesquisa, condensação, revisão / fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:
(*) Último poste da série > 26 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27773: In Memoriam (571): Rui Manuel da Silva Felício (1944-2026), ex-alf mil at inf, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Dulombi e Galomaro, 1968/70): natural de Coimbra, vivia na Ericeira, Mafra; era um dos sobreviventes do desastre do Cheche (ia na trágica jangada, tendo perdido 11 homens do seu pelotão, em 6/2/1969)
(**) Publicada originalmemnte no Notícias Magazine > João Gomes Pedro, o homem que revolucionou a pediatria em Portugal | Entrevista de Alexandra Tavares-Teles | Foto de Jorge Simão | 5 de junho, 2017 às 01:41
(*) Último poste da série > 26 de fevereiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27773: In Memoriam (571): Rui Manuel da Silva Felício (1944-2026), ex-alf mil at inf, CCAÇ 2405 / BCAÇ 2852 (Dulombi e Galomaro, 1968/70): natural de Coimbra, vivia na Ericeira, Mafra; era um dos sobreviventes do desastre do Cheche (ia na trágica jangada, tendo perdido 11 homens do seu pelotão, em 6/2/1969)
(***) Vd. poste de 15 de junho de 2013 > Guiné 63/74 - P11706: Os nossos médicos (48): O BCAÇ 1887 (1966/68) tinham três médicos, mas a minha CCAÇ 1546 não chegou a ter nenhum em permanência... Um deles era o dr.João Gomes Pedro, mais tarde ilustre pediatra no Hospital de Santa Maria e professor da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa (Domingos Gonçalves)


1 comentário:
Nascido em 1939, João Gomes-Pedro licenciou-se em Medicina na FMUL em 1964, e, no ano seguinte, ingressou no internato geral do Hospital de Santa Maria, instituição que viria a ser a “sua casa ao longo de mais de cinco décadas de serviço exemplar” (sic), escreveu o "Expresso"... Mas nem uma linha sobre a sua "passagem" pela Guiné... (o seu batalhão, o BCAç 1887 esteve no CTIG de 13Mai66 a 25Jan68)...
A Guiné foi, para ele, também uma grande escola... O que é um jovem clínico sabia, quando era chamado para a tropa ? Não é por acaso que o João Gomes-Pedro diz que "a guerra deu-me uma preparação brutal para a vida." Não é o "elogio da guerra", é também a denúncia da "medicina do desenrascanço" que os jovens milicianos médicos eram obrigados a praticar, dando assistência, simultaneamente, a militares e civis.
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