quinta-feira, 10 de março de 2016

Guiné 63/74 - P15840: Memórias de Gabú (José Saúde) (61): Companhia de milícias guineenses jurou bandeira. Dia de ronco.


1. O nosso Camarada José Saúde, ex-Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523 (Nova Lamego, Gabu) - 1973/74, enviou-nos a seguinte mensagem.

As minhas memórias de Gabu

Companhia de milícias guineenses jurou bandeira
Dia de ronco

A plateia estava bem composta e o dia era para celebrar a passagem a pronto de uma companhia de milícias africanos, sendo que o pessoal de Gabu correspondeu em pleno a um acontecimento que resvalou para uma jornada de ronco.

Na parada do quartel novo de Gabu, Nova Lamego, os pelotões marcharam, apresentaram armas, juraram bandeira e comprovaram fieldade ao exército português. Na retaguarda os civis não perderam a oportunidade em assistir ao evento e as mulheres grandes, as bajudas e os homens, alguns ostentando o traje da sua condição de régulos, lá fizeram a festa.

Afirmo, seguramente, que as vestes das mulheres transmitiam coloridos encantadores, próprios, aliás, de uma África próspera em esplêndidos encantos. As bajudas, essas meninas deslumbrantes, mostravam, vaidosas, a sua “mama firme” e lançavam piropos sobre o enviesado marchar dos rapazes da tabanca que, esporadicamente, lá trocavam o passo.


Recordo, com alguma intensidade, o inolvidável momento. O quartel encheu-se de gentes que aplaudiram o “esforço” ofertado à Pátria pelos soldados guineenses. A tropa, para eles, era sinónimo de uma maior estabilidade quer ela se tratasse pelo angariar de uns magros pesos ou mais uma “mão-cheia” de arroz que tanta falta fazia no seio familiar.

Citei, intencionalmente, a palavra Pátria porque naquele tempo poucos ousariam contradizer os poderes políticos instalados. Batiam-se palmas aos discursos escutados pelos “maiorais” e apelava-se ao sentido nato da defesa integral de uma Nação que se confrontava com três frentes de guerra no Ultramar.

Mas tudo era, ou parecia, absurdo. Sintetizando o conteúdo da mensagem que o bom do soldado lusitano conheceu, rompemos as amarras do tempo e falemos abertamente que a tropa nativa formava um esquadrão que via no exército da Metrópole um meio para satisfazer uma imensidão de caridades que o seu extrato social carecidamente impunha. 


Ora, é lógico que elogiemos a sua camaradagem, bem como aquela doada por uma população que demonstrava a sua inequívoca gratidão. A guerra, por outro lado, partilhava instantes insólitos e de autênticas disparidades. Com eles, camaradas guineenses, aprendi uma imensidão de circunstâncias que me ajudaram a conhecer o teor de uma peleja onde a imprevisibilidade de um adensado mato se apresentava literalmente como um verdadeiro enigma. 

Sendo o dia de ronco, e com a entrada do quartel franqueada ao povo, deixo nesta temática, que por ora trago à estampa, três fotos: a primeira comigo (à direita), com o alferes Santos, oficial de dia, ao meio, e à esquerda um camarada furriel miliciano mecânico, que não recordo o seu nome. As outras fazem parte do convívio com a população. 


Remato a narrativa com a pertinente questão que ainda hoje nos ocorre à memória e que, por vezes, serve de diálogo: Qual terá sido o futuro daqueles mancebos que naquele dia, 14 de março de 1974, juraram bandeira sob a proteção de uma Pátria distante e sabendo-se que no mês seguinte, em Lisboa, a ditadura caiu e a Revolução dos Cravos estourou, dando-se o memorável 25 de Abril e, naturalmente, a entrega das antigas colónias ultramarinas aos movimentos que ao longo dos anos lutaram no terreno em defesa da sua liberdade?

Um abraço, camaradas 
José Saúde
Fur Mil Op Esp/RANGER da CCS do BART 6523

Mini-guião de colecção particular: © Carlos Coutinho (2011). Direitos reservados.
___________ 
Nota de M.R.: 

Vd. último poste desta série em: 

7 DE FEVEREIRO DE 2016 > Guiné 63/74 - P15717: Memórias de Gabú (José Saúde) (60): A fuga

4 comentários:

Antº Rosinha disse...

"Ora, é lógico que elogiemos a sua camaradagem, bem como aquela doada por uma população que demonstrava a sua inequívoca gratidão".

José Saúde, passados 20 anos, ainda aparecia gente junto de portugueses, como eu e muitos colegas meus da Soares da Costa, e da antiga Tecnil e da Somec, a perguntar por soldados, furrieis e alferes, com fotos de militares "tugas" e sabiam o nome das terras desses militares, e se podiamos trazer "carta" para eles.

Claro que faziam isso longe de olhares de "membru" do partido.

José Saúde eu sei, ou julgo, que tu sabes que não penso como tu.

Mas sem ofensa digo-te não julgues aquela gente, com tanta "menoridade", e mesmo como muitos aqui fazem, que seria por ignorância e fome, o comportamento deles em relação à tropa.

Porque eles sabiam muitíssimo bem o que não queriam, e sabiam que nós estávamos a colaborar com eles para evitar o pior.

José Saúde, com a nossa política podiamos enganar alguns por algum tempo, mas não podiamos enganar muitos milhões por tanto tempo.

Porque tu só viste essa meia dúzia em Gabu-Sara e uma recruta apenas, mas foram milhares de recrutas iguais a essa em várias latitudes de África com a mesma atitude.

O que se passava em Gabu ou Canchungo, passava-se na Huila ou no Congo.

Também assisti ao fim, como tinha participado no início como assisti no após,por isso é obrigação minha e nossa contar o que vimos.

E sem ofensa para ninguèm aviso sempre "o preto não era burro", e sabia muito bem o que queria.

Por ignorância, mas nossa dos portugueses sobre África, é que temos assistido a atritos diplomáticos constantes com Angola e com a Guiné

Cumprimentos



José Pedro Neves disse...

Bom dia Amigo e ex-Camarada de armas, Ranger Saude e que, ao tempo, fomos do mesmo curso de Operações Especiais, vulgo RANGER, em Penude/Lamego.
Estou de acordo contigo e com a tua linha de pensamento, pois o que vi, por exemplo em Binta, sector de Farim, vai ao encontro sobre o que disseste, dos parcos pesos, que contribuíam para uma ajuda á sobrevivência das famílias Guineenses, desde que os seus homens estivessem ao serviço da tropa, como militar do serviço regular ou milícia de proteção ás Tabancas.
Quando eram confecionadas as refeições, os nossos cozinheiros, faziam sempre um pouco mais, principalmente a "bianda" (arroz) e era ver os "Djubis" (garotos), com as famosas latas de oleo ou de conservas, vazias, á espera de serem servidos, qual "self service", para levarem a comida para a família.
O António Rosinha, terá, na minha opinião, razão sobre outros factores que menciona no seu comentário, mas neste é inegável que o interesse primeiro era a sobrevivência, depois então viria a fidelidade á Pátria.
Conheci alguns militares Guineenses, um deles Furriel Mil., que foi fuzilado depois do 25 de Abril e que estava no serviço militar obrigatório e disse-me que estava na "tropa" porque era obrigado, aliás como a esmagadora maioria de nós. Devo acrescentar, que o sentido de Pátria, só o "encontrei" na Guiné, talvez devido ao que se passava ao nosso redor, porque enquanto estive por cá, na recruta, e na especialidade, a minha condição era de revolta, porque tinha um emprego estável e "arrancaram-me" do seio familiar, para ir combater, por uma causa, quanto a mim, injusta, mas no terreno, a "revolta" transformou-se numa luta pela sobrevivência.
Já me desloquei á Guiné-Bissau, depois da Independencia, 51 (cinquenta e uma) vezes, em trabalho e tenho vários amigos Guineenses, que com o tempo foram mudando de opinião e se em 1991, se mostavam hostis á nossa presença, foram mudando de atitude ao longo dos anos, talvez devido á instabilidade governativa e ao aproveitamento politico de alguns países que em vez de os ajudar, pelo contrário, tiraram-lhes as suas riquezas naturais, com contrapartidas bizarras, mas que não vou aqui comentar, por agora. Á cerca de 5 (cinco) anos que não vou á Guiné-Bissau, mas sei o que se vai passando por lá, devido aos meus contactos. Em breve, deverei constatar "in loco", como vai aquele maravilhoso Povo e País.
Saude, um Abraço para ti e para todos os Amigos e Camaradas "Tabanqueiros".

Antº Rosinha disse...

José Pedro Neves, para a história ficar bem relatada por todos nós, não nos devemos deixar embalar pelo que à posteriori se nos apresentam os acontecimentos.

Nem pelo que um jovem de 20 anos pensava, com os cornos na lua, ver-se numa situação daquelas.

Eu sei que quem lá estava por 24 meses de arma na mão dentro do arame farpado era uma estopada horrível, revoltante com 20 anos naquela "merda sem sentido".

Falo também por mim, detestava a farda. o arame farpado e tinha azar com capitães.

(Tive a sorte, dei-me bem com os turras, nenhum me chateou, 13 anos, foi obra)

José P. Neves, quando se fala da miséria da lata na mão dos garotos junto dos quartéis, talvez muita gente que lá andou 24 meses, nunca se apercebeu que esse aspecto de "fome" não era tradição africana,e nem havia mesmo esse tipo de fome nas Áfricas, embora não houvesse bacalhau nem latas de sardinha nem chouriços.

José Pedro Neves, os jovens tropas africanos, as bajudas lavadeiras, e os djubis de lata na mão, cujas famílias devido à guerra ficaram desestabilizados e até realojadas junto de quarteis longe das suas lavras de agricultura, e com todos os condicionamentos da guerra foi tudo uma violência da qual o povo simples não tinha qualquer culpa e nem queria.

Daí a carência da sua mandioca, da sua mancarra, chabéu, cabras e ovelhas e vacas, arroz, pesca nos canais vazantes e enchentes, batata doce e inhame, José Pedro Neves, essa miséria de lata na mão à europeia, portuguesa, espanhola de "Dios se lo pague", ou na inglaterra de Charles Dickens, essa miséria em África negra não existia.

Embora o guineense tenha aquele hábito de querer que o branco ou a visita ou o amigo "parta" com ele, tudo e mais alguma coisa, não é com aquele sentido de que não tem nada e precisa de tudo.

Sabes o que quero dizer com o "partir" dos guineenses, mas é chato e complicado explicarmos aqui.

Mas aonde quero chegar, é que devemos, para deixar o que vimos bem historiado, porque é que aquela gente toda cirandava à volta dos quartéis, anos e anos, activamente, não submissamente?

Será que era mesmo, e apenas pela lata da bianda? Ainda ninguém aqui se perguntou, porque com a promiscuidade da proximidade quartéis/população, nunca houve qualquer relato de uma sabotagem dentro dos quarteis? o que era simple e podia ser terrível?

Todos aqueles jovens e bajudas e os próprios tropas africanos mais velhos só participavam naquela comunhão com a tropa metropolitana com a devida orientação dos mais velhos.
Nesse tempo era assim que funcionava a sociedade africana, tudo sob o olhar dos mais velhos.

Os mais velhos, que em 73 estavam todos com Spínola e a sua Guiné melhor, que pode ter sido o grande azar de Cabral em Connacry em Janeiro de 1973.

José Pedro Neves, os guineenses (e os outros mais a sul), daquele tempo sabiam o que não queriam, e por isso nos agarravam pela gola do casaco.

Agora os guineenses quer de Bissau, de Cacém ou de Arcena e da Moita, sabem também o que não querem, mas agora é tarde, têm que se desenrascar, que nós também estamos na mesma, à rasca temos que nos desenrascar também.

Claro que ontem era ontem, hoje é outra coisa.

Cumprimentos

José Pedro Neves disse...

"Partir"= Dividir, dar um pouco, etc.

Abraço Amigo-