segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Guiné 63/74 - P3925: Efemérides (16): Portugal e o Futuro, de António Spínola, um best-seller há 35 anos

Guiné > Região de Tombali > Cumbijã > CCAV 8351 (1972/74) > 14 de Abril de 1973 > Spínola, de visita ao aquartelamento de Cumbijã > Aqui ao centro, seguindo com o olhar um ponto no horizonte que lhe é apontado pelo Cap Mil Vasco da Gama. À sua direita, o Comandante do BCAÇ 3852, com sede em Aldeia Formosa.

Foto: © Vasco da Gama (2008). Direitos reservados.


1. Há 35 anos, a 22 de Fevereiro de 1974, era publicado pela editora Arcádia, de Lisboa, o livro Portugal e o Futuro, do General António de Spínola. Nele defendia-se a ideia de que a solução para o problema colonial português passava por outras vias que não a solução militar.

Recorde-se que, a 17 de Janeiro de 1974, Spínola fora nomeado vice-chefe do Estado-Maior das Forças Armadas, por sugestão de Costa Gomes. Menos de 2 meses, a 14 de Março, os dois generais serão afastado do cargo devido à recusa em participar na manifestação de apoio ao Governo e à sua política ultramarina.

O livro, de 248 páginas, tornou-se um best-seller. Mais de 300 mil exemplares foram vendidos, num ápice, dentro e sobretudo fora do circuito normal do mercado livreiro. Mas poucos leitores, na época, terão tido a pachorra de o ler de fio a pavio. Eu fui um deles. A obra era um estopada. Mesmo assim há quem pense que foi um dos livros que abalou uma época e um regime.

Na revista Visão, desta semana (edição nº 833, de 19 a 25 de Fevereiro de 2009), Luís Almeida Martins publica, a propósito desta efeméride, um artigo com o título (irónico), "Portugal e o passado", e que termina com este parágrafo:

" (...) Poucos dias antes de morrer, a 13 e Agosto de 1996, com 86 anos, [Spínola] foi visitado no Hosital da Estrela por Nino Vieira, presidte da Guiné-Bissua e antigo comandante do PAIGC. Ao sair do quarto, Nino trazia uma lágrima no olho. Os guerreiros têm uma concepção própria da vida e da morte. Não sabem é ler o futuro, como o livro de Spínola demonstrou à saciedade"... (Curiosamente, Nino voltou a referir este episódio, na audiência que concedeu, em 6 de Março de 2008, a um grupo de participantes do Simpósio Internacional de Guiledje).

De qualquer modo, o livro abalou Marcelo Caetano e o seu regime, defende o jornalista da Visão. "Pela primeira vez, um oficial general atrevia-se a discordar da doutrina oficial"... E não era um oficial qualquer. O homem do "pingalim e monóculo" ganhara uma "aura castrense talvez só suplantada pelas de Mouzinho de Albuquerque e de outros chefes militares das campanhas coloniais da viragem do século. Dando uma np cravo e outra na ferraedura, combatia a guerrilha, enquanto, de pingalim na mão, organizava congressos dos povos guineenses e delegava poderes nas autoridades tradicionais. O seu monóculo tornou-se lendário. Alcunharam-no de Caco e tinha uma corte de admiradores de camuflado que bebiam as suas palavras" (...).

O alcance efectivo da obra de Spínola e da sua tese do federalismo e do diálogo com os movimentos de libertação, a começar pelo PAIGC (como solução política para uma guerra que não poderia ter solução militar), ainda é hoje objecto de discussão entre especialistas e historiador. De qualquer modo, importa sobretudo sinalizar a efeméride. Ao fim e ao cabo, Spínola foi o comandante de muitos de nós... A sua figura, a sua conduta, o seu pensamento e a sua estratégia não deixaram ninguém indiferente. (LG)


2. Recortes de imprensa Itálico (excertos)

O livro que abalou o regime, por Elmano Madail.

Jornal de Notícias, 22 de Fevereiro de 2009


A manhã despertou estranha há 35 anos. Num país atrasado e prenhe de analfabetos, orçados em 25,9% da população - embora os funcionais ampliassem de sobremaneira a estatística -, havia gente que esperava, à porta das livrarias das principais cidades, pela oportunidade de comprar... um livro!

Um "best-seller" instantâneo que trazia, lá dentro, em páginas densas e cheias de considerações que soariam estranhas a muitos dos ansiosos compradores, o germe do golpe de Estado que fulminou o mais longo regime ditatorial da Europa, chamado de Estado Novo. Na alvura da capa discreta, inscrevia-se a negro "Portugal e o futuro", coroado pelo nome do autor insuspeito: o general de Cavalaria António de Spínola, vice-chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas e ex-governador da Guiné Portuguesa. A autoridade que o título hierárquico lhe conferia, a par da fama de guerreiro prestigiado, converteram aquele livro num ícone da Democracia.

Eventualmente mais do que as teses ali defendidas. Volvidos 35 anos, que memória fica desse volume aos que o leram? E que outros livros foram capazes de estimular o público, desassossegar o poder e marcar tempos assim conturbados? E hoje, o livro tem ainda o mesmo poder de mobilização?

Nuno Canavez, dono da Livraria Académica, no Porto, recorda que "a primeira edição esgotou num abrir e fechar de olhos. Foi uma corrida ao livro". Inusitada, não obstante ser habitual, na época, a urgência de comprar obras adversas à doutrina oficial: "Sempre que saía qualquer coisa contra o regime, tinha muita venda e rápida, porque vinha a censura e limpava tudo", garante o livreiro com 60 anos de profissão. E a limpeza podia ser radical.

(..) "Sucede, porém, que "o livro do Spínola não chegou a ser retirado", afirma Canavez. Para ele, "dava a impressão que havia até, por parte de alguns do Governo, uma vontade de mudança". A que viria não estava prevista no livro de Spínola, muito menos radical do que o futuro forjado em Abril. Face a uma guerra colonial, longa de 13 anos e sem termo à vista, que empurrava a juventude para o desperdício de quatro anos em armas, quando não o da própria vida, Spínola advogava a autodeterminação das colónias - mas não a independência -, e a federação dos territórios ultramarinos com a metrópole. Curta ambição.

"O livro do Spínola dizia coisas banais, e até evidentes", considera José Medeiros Ferreira, que foi ministro dos Negócios Estrangeiros no I Governo Constitucional. E, sem retirar méritos à obra, sublinha que, um ano antes, havia enviado do exílio em Genebra, ao III Congresso da Oposição Democrática, "uma comunicação lembrando que a questão colonial não tinha solução militar e que era necessária a independência das colónias. E apontava o possível papel das Forças Armadas no derrube da ditadura e no processo de democratização de Portugal", diz o docente da Universidade Nova de Lisboa.

Alguns intelectuais duvidam mesmo da autoria exclusiva de Spínola, sugerindo que "os autores foram o sobrinho de Mário Soares, José Manuel Barroso, que prestou serviço militar na Guiné sob o comando de Spínola, e o embaixador Nunes Barata. Esses terão participado na discussão e organização do livro, senão até na redacção", cogita o sociólogo e cientista político Manuel Villaverde Cabral. E realça que grande parte do impacto, designadamente enquanto catalisador do Movimento das Forças Armadas, "deveu-se ao eco dado por Soares, que o citou em dois artigos no 'Le Monde'". Após o 25 de Abril de 1974, o livro "perdeu completamente a relevância", circunscrita à qualidade de mobilizador dos capitães golpistas, segundo Villaverde Cabral.

Já Nélson de Matos, editor de longa data, considera que "Portugal e o futuro", a par de "Portugal amordaçado", de Mário Soares - saído em França, em 1972, e em Portugal após a Revolução dos Cravos -, "são as obras fundadores da nossa Democracia". Publicadas na Arcádia, onde trabalhava Nélson de Matos.

(...) E agora? 35 anos após "Portugal e o futuro" ter esgotado edições e inflamado paixões, há ainda espaço para livros doutrinários, filosóficos ou programáticos que sejam mobilizadores? "Se fosse muito claro nas propostas, e correspondesse a uma saída para um problema social grave, claro", admite Medeiros Ferreira. Tal como Veiga, aliás: "Há condições para livros com igual importância e densidade", garante. E Nélson de Matos, que publicou obras "de vários políticos e tendências diversas ao longo da carreira", advoga até o potencial de vendas interessante.

Veiga alerta, porém, para "a perda de influência dessas obras". Por um lado, "porque os media não estão interessados, visto não serem convertíveis em manchetes". Depois, porque "há novos media, como os blogues, que vieram ocupar muito do espaço desses livros", sublinha Medeiros Ferreira.

E, por fim, porque os tempos mudaram. Muito. "Desapareceu o 'maître à penser', pensadores que indicavam caminhos, escreviam obras que fortaleciam convicções e se tornavam referências", diz Miguel Veiga. "Hoje, impera o 'pensamento mole', as sociedades são cinzentas e, com as novas tecnologias, sabe-se cada vez mais e pensa-se cada vez menos". Agora, as revoluções fazem-se no ciberespaço...

__________


Nota de L.G.:

(*) Vd poste de 20 de Janeiro de 2009 > Guiné 63/74 - P3765: A história dos Tigres de Cumbijã, contada pelo ex-Cap Mil Vasco da Gama (7): A visita do General Spínola

(...)
No dia 14 de Abril, mais uma vez recebemos a visita do General Spínola.

Parei este texto neste parágrafo, vai para mais de quinze dias. Problemas da vida pessoal, mas fundamentalmente o medo de não saber expressar, ou fazê-lo de forma menos correcta, os sentimentos acerca do General Spínola, homem controverso que suscitou, e pelos vistos continua a suscitar, sentimentos de amor e desamor, tão depressa acusado como louvado, que na guerra tentava encontrar soluções ou pela via diplomática junto de Shengor, ou invadindo países vizinhos, como aconteceu com a Operação Mar Verde, autor de Portugal e o Futuro (mais vale tarde que nunca), abandonando o Guileje ou pelo menos não lhe dando hipóteses de uma defesa racional, recusando o convite de Marcello Caetano para ministro do Ultramar em finais de 1973, recusando-se também e juntamente com o General Costa Gomes a fazer parte da Brigada do Reumático que foi prestar vassalagem a Caetano. Este homem, que foi também o primeiro Presidente da República após o dia da libertação – 25 de Abril de 1974 - este homem heterodoxo, será no decurso da história que vou escrevinhando acerca da minha Companhia, analisado apenas e só através de um discurso substantivo que se limitará a descrever a vivência que os Tigres do Cumbijã com ele tiveram.

No dia 14 de Abril de 1973 recebemos então a visita do General Spínola. Recordo-me da primeira pergunta que me fez:
- É do quadro ou miliciano?
Recordo-me da resposta imediata e eventualmente atrevida que lhe dei:
- Neste buraco?… Sou miliciano.
Vi nele o esboço de um sorriso, seguido de nova questão:
- Falta-lhe alguma coisa?
- Tudo!
- Tudo o quê? (...)

10 comentários:

Anónimo disse...

Meu Caro Luís:merece um comentário, não tão apressado.Há dias enviei dois mails- Artigo da Visão que citas -Não é por ser a 22 ou 23 que o livro saiu - é, isso sim por nesse artigo vir, cito de cor, "que raramente haviam combates frontais, as principais razões das baixas das NT erm as minas e os acidentes de viação...a defesa era feita em aldeias estratégicas ...recorriam, as NT claro, aos massacres e ao napalm".
Agora afirmo que:ou o livro ou uma tomada de posição eram esperadas, nesse tempo (73) por muitos. Quando apareceu o livro abriu-se uma janela de esperança...não totalmente lido pela maioria, eu incluido, em parte ao correr da página, até por discordância com o conteúdo. Foi uma bandeira ou um marco. A partir dali e com o que estava a acontecer nada iria ficar na mesma. Mas O General Costa Gomes aprovou e era o CEMGFA. Certamente outros estavam de acordo;possivelmente foi"escrito" ou transcritas as ideias de Spinola por outros.O importante foi a pedrada no charco e o ficar bem plasmado que o problema colonial tinha uma solução politica e não militar.
Merecia um comentário mais extenso e um conteúdo mais aprofundado. Não ha espaço ou tempo. Há mérito e posterior demérito...mas os Generais Spinola e Costa gomes são figuras incontrnáveis ddo nosso País, da guerra colonial e do pós 25 de Abril. Páro por agora,
Abraços Torcato

Luís Graça disse...

Meu caro Torcato:

Não tenho dúvidas que foi uma pedrada no charco... Sabe-se que o Spínola a 18 de Fevereiro de 1973, antes de sair nas livrarias, ofecereceu uma cópia autografada ao Marcello Caetano com quem, de resto, tinha uma relação afável, se não mesmo amistosa. Há correspondência epistolar que atesta isso.

No Brasil, no exílio, Marcello afirmaria, em depoimento, que ao ler o livro do Spínola ficou com a certeza do princípio do fim... O título era, só por si, inquietante, Portugal e o Futuro...A sociedade portuguesa e a elite do Estado Novo estavam exangues, sem ideias, sem imaginação, sem homens, sem recursos, para continuar o esforço de guerra... E sobretudo sem cabos de guerra. Houve quem apostasse no Spínola para dar a volta por dentro. Caso do Sá carneiro. Mas já era demasiado tarde.

Tu e eu e muitos de nós fomos testemunhas da incrível onda de esperança que despertou o livro (que o Ministro do Ultramar fez questão de dizer que não tinha lido, mesmo dando luz verde à sua publicação ...). E de mobilização de gentes e de vontades. O livro vendia-se porta a porta...

Creio que na altura o impacto do livro do Spínola acabou por ser subestimado, sobretudo pela chamada oposição democrática, sendo ultrapassado pela vertigem dos acontecimentos... 16 de Março, 25 de Abril... Foi pena não ter aparecido em 1961, o mais tardar 1968/69... Mas nunca poderia ter sido escrito antes, sem a experiência guineense de Spínola e da sua 'entourage'...

Luís Graça disse...

Meu caro Vasco (da Gama), grande Tigre de Cumbijã:

Adorei a tua foto de "timoneiro", apontando o caminho... ao Com-Chefe... Como eu costumo lembrar, o líder - etimologicamente falando - é "o que vai à frente, mostrando o caminho"...

Um Alfa Bravo. Luís

Anónimo disse...

Quanto ao livro, deixo para os estudiosos...
Agora, enviar tropa macaca para o "inferno"...
Onde é que andavam os seus meninos bonitos!!!
Um abraço
Bernardo Godinho

Anónimo disse...

É triste que gente como esse vilaverde cabral queira vir retirar o mérito a quem escreveu o livro e sobretudo a quem por ele deu a cara.

É a "trampa" da política...

Abraço camarigo do
Joaquim Mexia Alves

Luís Graça disse...

Enconteri o seguinte "curriculum vitae" do José Manuel Barroso, aqui citado neste poste:



José Manuel Barroso

José Manuel Barroso é jornalista de profissão, desempenhando
actualmente as funções de Administrador Executivo da Agência de Notícias Lusa.

Iniciou a sua carreira na imprensa regional, no semanário «Comércio do Funchal», em 1967. Trabalhou depois nos diários «República», «Diário de Lisboa» e «Jornal Novo».

Foi Director das agências noticiosas ANOP, Notícias de Portugal e Lusa, entre 1977 e 1987.

Regressou à imprensa diária, como director do jornal «O Primeiro de Janeiro» e, depois, como editor-executivo do «Diário de Notícias», no Porto, entre 1987 e 1992. Regressou à redacção deste matutino, em Lisboa, do qual foi grande repórter e Director Interino.

Entre 1972 e 1974 prestou serviço militar em África, na Guiné-
Bissau, como capitão miliciano, trabalhando directamente com o
general António de Spínola. Foi membro da Comissão Coordenadora
do Movimento das Forças Armadas, na Guiné.

Foi, ainda, dirigente
do Sindicato dos Jornalistas, candidato a deputado pela Oposição
Democrática, em 1969, e, nos tempos de universidade, presidente da Associação de Estudantes do Instituto Superior de Ciências
Económicas e Financeiras.

No «Diário de Notícias», desenvolveu trabalhos de investigação jornalística sobre a Guerra Colonial, a Descolonização e a Revolução do 25 de Abril, alguns dos quais foram reunidos no livro «Segredos de Abril».

Fonte: Página do Instituto Português de Relações Internacionais (IPRI) / Universidade Nova de Lisboa (UNL)

http://www.ipri.pt/eventos/pdf/CV_JMB_PT.pdf

Anónimo disse...

COMO LI O LIVRO DE SPINOLA:

Um antigo 1º sargento que trabalhava no 25 de Abril, na vida civil, tirou do fundo de um velho baú um livro proibido pela censura, de NORTON DE MATOS, e disse para uns amigos, entre eles eu: O PORTUGAL E O FUTURO, está todo, capítulo por capítulo, aqui neste velho livro.

E era verdade, até a ordem dos capítulos era semelhante.

Só que Norton de Matos disse as mesmas coisas com menos páginas.

Luis Graça, o que sou eu se tantos doutores e jornalistas e políticos de 1ª água, alguns super dotados que já sabiam a solução para todos os males da governação não o fazem, para fazer uma afirmação em que Spínola não fez mais que transcrever algo que um antigo militar já escrevera?

Antº Rosinha

Zé Teixeira disse...

Eu sou um dos que comprou o livro, mas não conseguiu digeri-lo. Foi para mim, apenas um sinal de que algo ia mudar, mais dia menos dia, porque deu um rombo na estrutura militar. A "brigada do reumático" apareceu de seguida a bajular o Poder politico. Honra aos dois homens que tiveram a coragem de dizer-assim,não.

Anónimo disse...

Camaradas,
Sobre o federalismo como solução para as colónias, e as condicionantes da política colonial portuguesa, proponho a quem se interessar pela matéria, que leia "A Pátria em Perigo", do Cunha Leal. Trata-se de uma obra de 1962 com sentido patriotico, que, afrontando o Situacionismo, analisa a história colonial, as nuances políticas introduzidas desde a Sociedade Das Nações até à Carta Das Nações Unidas, bíblia da O.N.U., organização onde Portugal conseguiu participar a partir de 1956, após a emenda constitucional de 1954, golpe de esperteza que tenderia a perpetuar a nação do Minho a Timor, constiruída pela metrópole e pelas provincias ultramarinas.
Quanto ao "Portugal e o Futuro", foi uma pedrada no charco, apesar de não lhe reconhecer qualidade substantiva, apenas porque a oposição lhe atribuíu relevo especial.
Abraços fraternos
José Dinis

joão coelho disse...

Já agora, lembro também os escritos de Henrique Galvão sobre as colónias, e a publicação, em 1962, de "Portugal, o Ultramar e o Futuro", de Manuel José Homem de Mello, com prefácio de Craveiro Lopes..Ou seja, não faltou quem chamasse a atenção para os problemas provocados pela "politíca ultramarina" de Salazar, que deu no que deu.
Spínola mexeu com as águas, percebeu-se, com a publicação do seu livro, que andavam coisas no ar.
Foi um militar e um homem controversos, que apreciava ser visto como um cabo de guerra, à alemã - recordo-me de a revista "Paris Match" ter feito capa com ele, com o seu monóculo, de camuflado, em pose marcial, chamando-lhe o "Von" não sei quantos português. Tentou, esforçadamente, contrariar a independência das colónias, procurando ressuscitar movimentos e líderes que o ajudassem a esbater a predominância do PAIGC, MPLA, Unita, FNLA e Frelimo nas negociações com Portugal. Em S.Miguel, Açores, tínhamos um angolano exilado, Simão Toco, fundador de um movimento religioso denominado "tocoísmo", que fora desterrado por receio de que levasse os seus seguidores à contestação ao regime. Feito o 25 de Abril, recebemos instruções de Lisboa - eu trabalhava no então Emissor Regional dos Açores, da EN - para entrevistarmos Simão Toco, entrevista que foi transmitida a nível nacional. A ideia era transformá-lo num líder com estatuto, para intervenção nas negociações, mas o homem queria era falar com Jesus..
E quando Spínola provocou o encontro com Nixon na ilha Terceira, sabe-se que a intenção era garantir o apoio dos americanos aos projectos do general, mas o presidente dos EUA já estava demasiado enredado no Watergate..Tendo estado na Terceira nessa altura, ainda hoje estou convencido de que o Jorge Jardim também lá estava, fazendo-se passar por oficial paraquedista..mas essa é outra história.
Concluindo: julgo que ainda há muito por saber sobre Spínola..

João Coelho