sábado, 2 de janeiro de 2010

Guiné 63/74 - P5578: Memórias de um alferes capelão (Arsénio Puim, BART 2917, Dez 69/Mai 71) (7): Mancaman, mandinga, filho do chefe da tabanca do Xime, um homem de paz


Guiné-Bissau > Região de Bafatá ~> Xime > 10 de Janeiro de 2006 > "Os meus irmãos, mais velhos, irmãos de sangue, Fodé Biai, o primeiro a contar da direita para a esquerda, e Bacar Biai, o segundo na mesma ordem e Malam Mané, o quarto, dos que estão de pé, meu primo-irmão. O Fodé e o Malam cumpriram o serviço militar em Farim e depois Bissau, sendo o Malam depois transferido para Bambadinca. O Bacar sempre esteve em Xime" (J. C. Mussá Biai)... Será que algum deles poderá o Mancaman, que nos fala o Arsénio Puim ?


Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Xime > 10 de Janeiro de 2006 > Rua principal da actual povoação do Xime



Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Xime > 10 de Janeiro de 2006 >  A escolinha...

"O curioso de tudo isso, quem tirou as fotografias é um colega meu, o Domingos Fonseca, trabalhei junto com ele na Escola do Ensino Básico Preparatório Amizade Guiné Bissau - Suécia, em Bissau. Ele leccionava a língua portuguesa e eu matemática, antes de ele ir tirar o curso de engenheiro técnico agrário na Argélia. Estive com ele no ano 2000 em São Domingos onde ele estava como responsável de AD" (J. C. Mussá Biai).


Fotos: © Domingos Fonseca / AD - Acção para o Desenvolvimento (2006). Direitos reservados


1. Mais um texto do nosso camarada Arsénio Puim, açoriano de Santa Maria, a viver na Terceira, antigo Alf Mil Capelão, natural de Santa Maria, Açores, e antigo capelão do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72):



Recordando... VII > Em homenagem de Mancaman: um homem da Guiné defensor da paz 

por Arsénio Puim

Mancaman vivia na tabanca do Xime, contígua ao quartel onde estava estacionada a CART 2715 (**). De trinta e poucos anos, magro e um pouco alto, filho do chefe da tabanca - Mancaman (pai). Era mandinga, do que se orgulhava, por reconhecer a supremacia histórica e cultural desta etnia no quadro guineense e africano.

Não gostava dos Fulas e apreciava o espírito laborioso e a coragem dos Balantas. Falava, com muita graça e expressividade, o português, além do crioulo, o mandinga e o fula. Inteligente, muito humano e sabedor no que toca à guerra da Guiné, nas suas duas faces. Era-nos dedicado, correcto, amigo. E pertencia mesmo às milicias populares, armadas pelo exército português.

Não obstante, era um homem algo complexo e não facilmente transparente aos nossos olhos europeus, atraindo mesmo algumas suspeitas, para as nossas tropas, de que mantinha contactos com o «outro lado» e dizendo-se, até, que tinha «arroz turra» a vender na tabanca.

Nunca galgou a graduado de 2.ª linha; negou-se, certa vez, a ir numa operação para além de Ponta Varela; odeia os militares portugueses que maltrataram prisioneiros «turras» para obter declarações; condena com grande revolta as chacinas praticadas pelas tropas prtuguesas nos primeiros anos da guerra; e sempre que os oficiais de artilharia fazem fogo para o acampamento do Poidon (****), que ele deu a entender estar muito fraco e já não ser o que foi em tempos atrás, ele olha-os com uns olhos de fúria, o que poderia sugerir a presença de membros da tabanca ou mesmo de pessoas de família naquela área.

Na relação que travei, durante as minhas estadias no Xime, com Mancaman, não me pareceu, porém - com certa estranheza minha - que Mancaman tivesse um ideal de revolução e independência. Antes, diz que não sabe ler e não pode desejar a Guiné independente. Que se os portugueses sairem, vai haver manga de guerra entre os Fulas e os Balantas e que, por si, terá que ir para o Senegal (talvez por se achar de algum modo comprometido com o exército português). E receia ainda que os outros países que deram armas ao PAIGC se metam na Guiné.

Mais: não aprecia Amílcar Cabral nem Sekou Touré, da Guiné ex-Francesa. Tem consideração porém, por Senhgor, do Senegal, porque «ele não quer um Estado só de pretos, mas tem muitos brancos a ajudá-lo», referiu.

Para mim, Mancaman é, acima de tudo, um homem que, como confessou, «não gosta da guerra» e «a sua lei (muçulmana) não quer guerra»; um homem que viveu, pessoalmente, o drama da guerra entre Portugal e Guiné; um homem que sentiu na alma o sofrimento, a morte e a destruição de que foram alvo os seus irmãos guineenses por quererem a independência; um homem marcado por uma tristeza impressionante quando fala destes assuntos.
- Para saber o que é a guerra – diz ele – é preciso ver os turras mortos. Num ataque de helicóptoro ao Poidon, cinco mortos: três homens armados, duas mulheres e uma bajuda. Todos picados.
Via-se-lhe no rosto estampado o horror. Ele próprio já perdera um filho na confusão dum ataque ao Xime e um irmão numa mina.
- Então, nós estamos a fazer mal por bombardearmos os turras e fazer operações para lhe destruir os acampamentos e os meios de vida? - perguntei.

Mancaman não hesitou nada em responder:
- Sim. É muito mal. Se as tropas atacam com armas, eles fogem, ficam com medo e atacam com armas.
- Então como é que se devia fazer?
- Mandar lá pessoas da mesma raça dizer que eles venham, que não tenham medo, que a tropa trata bem todos. Fazer que eles tenham confiança na tropa. E quando acabar as chuvas eles vêm.
- E se os turras atacarem o quartel, não se responde com armas?
- Não, se os turras atacarem o quartel temos que nos defender. E se morrer algum turra foi porque eles nos vieram atacar.

Para Mancaman, certamente com uma dose de idealismo, mas não sem uma visão, na essência, válida e humana, o processo para a consecução da paz na Guiné passava pelas conversações directas com os turras - importante para ele, que se realizassem através de elementos da população da mesma etnia - e a aplicação de tácticas defensivas, evitando todas as acções violentas e arrasadoras da parte do exército e das forças portuguesas.

Foi este profundo sentido humano, o seu pensamento e princípios contra a guerra em si, a sua visão clara e dos dois lados da guerra da Guiné, a sua simpatia pela presença portuguesa e a sua inalienável identidade e alma guineenses que eu conheci e admirei em Mancaman, em longas conversas que tivemos, marcadas pelo respeito mútuo e confiança, ainda que sempre com alguma natural reserva da minha parte e que também ficasse com a sensação de que ele sabia mais do que me dizia.

Onde quer que hoje Mancaman se encontre, desejo que ele goze a Paz, que tanto queria,  para a sua terra da Guiné.

Arsénio Puim

2. Comentário de L.G.:

Dos mandingas do Xime, mílícias e guias das NT, lembro-me bem do infortunado Seco Camará,   morto em 26 de Novembro de 1970...  Não me lembro do Mancaman que, a ser vivo, terá hoje perto de 72 anos. Fui muitas vezes ao Xime, ponto de partida de operações, quse sempre guiadas pelo Seco Camará. Não nunca lá fiquei uma temporada como o Arsénio Puim. Talvez o nosso amigo José Carlos Mussá Biai, e um dos mais antigos membros da nosso blogue, nos possa dar notícias do Mancaman.

Lembro que o José Carlos é natural do Xime, e era menino no tempo em que por lá passaram a CART 1746 (1968/69), a CART 2520 (1969/71), CART 2715 (1970/72), a CART 3494 (1972/73) e a CCAÇ 12 (1973/74)... No Xime viu (e viveu) muita coisa, demasiadas coisas...

Teve, como professores, no Posto Escolar Militar nº 14 (Xime),  o furriel miliciano enfermeiro Carvalhido da Ponte, da CART 3494, e o furriel Osório, da CCAÇ 12 (que dava aulas juntamente com a esposa).

O José Carlos aprendeu a ler e a escrever português debaixo de fogo. Nascido em 1963, o José Carlos devia ter já 10 anos, aquando do ataque ao aquartelamento e tabanca do Xime, em 1 de Dezembro de 1973 (segundo relata o António Duarte), do qual resultaram sete vítimas mortais entre a população civil, incluindo dois amigos de infância e vizinhos do Mussá Biai...

Um dos seus irmãos, o Braima, era guia e picador das NT. Por sua vez, o seu pai, um homem grande, mandinga, do Xime, era o chefe religioso da comunidade islâmica local (um almanu).

A vida não foi fácil para eles. A família teve problemas depois da independência devida à colaboração com as NT. Teve irmãos que fizeram o serviço militar em Farim e que depois foram presos.

Após a independência, o José Carlos foi para Bissau onde fez  o liceu. Foi cinco anos professor, até vir para Lisboa e obter uma bolsa de estudo da Fundação Gulbenkian. Hoje é formado em engenharia florestal. É casado. A sua mulher é natural do Xitole, filha de um comerciante conhecido dos tugas, o Braima.

Trabalha e vive em Portugal, no Instituto de Geográfico Português (IGP),  no Departamento de Conservação Cadastral (DCC), Tel. 213819600 (Ext. 310).

 Mas nunca mais voltou a encontrar os seus professores do Xime... Tal como Mancaman, o  José Carlos é um exemplo de tenacidade, coragem, determinação e nobreza que honra qualquer ser humano. Que nos honra a nós e ao povo da Guiné-Bissau a que ele continua a pertencer, apesar de ter optado pela nacionalidade portuguesa e de viver em Portugal. (*****)
______________

Notas de L.G.:

(*) Vd. último poste da série > 28 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5553: Memórias de um alferes capelão (Arsénio Puim, BART 2917, Dez 69/ Mai 71) (6): O Geba e as viagens do Bubaque

(**)  Companhias de quadrícula do BART 2917 (Maio de 1970/Março de 1972) (comandado por Ten Cor Art Domingos Magalhães Filipe e depois por Ten Cor Inf João Polidoro Monteiro):

(i) CART 2714, sita em Mansambo (Cap Art José Manuel da Silva Agordela)

(ii) CART 2715, sita no Xime (Cap Art Vitor Manuel Amaro dos Santos, Alf Mil Art José Fernando de Andrade Rodrigues, Cap Art Gualberto Magno Passos Marques, Cap Inf Artur Bernardino Fontes Monteiro, Cap Inf José Domingos Ferros de Azevedo)

(iii) CART 2716, sita no Xitole (Cap Mil Art Francisco Manuel Espinha de Almeida)

(***) A relação da CART 2715 com os seus vizinhos do Poindon / Ponta do Inglês, não podia ser fácil... Em 26 de Novembro de 1970, uma secção inteira da companhia foi massacrada a caminho da Ponta do Inglês... Era comandada pelo meu amigo Cunha....


25 de Abril de 2005 > Guiné 69/71 - VII: Memórias do inferno do Xime (Novembro de 1970) (Luís Graça)

(...) Em consequência da emboscada IN, uma das mais violentas de que há memória na região do Xime, pelo seu impacto sobre as NT, a CART 2715 [Xime] sofreu 5 mortos (1 Furriel Mil) e 7 feridos, e a CCAÇ 12 teve 2 feridos (dos quais 1 grave, o Sold Sajuma Jaló), e 1 morto (o picador e guia permanente das NT Seco Camará, na altura ao serviço da CCS do BART 2917, e que do antecedente já tinha dado provas excepcionais de coragem e competência, tendo participado com a CCAC 12 em quase todas as operações a nível de Batalhão no Sector L1) (...).

Na lista dos mortos do Ultramar, da Liga dos Combatentes, só aparecem quatro dos seis elementos das NT, mortos nesta operação, e cujos restos mortais ajudei a recolher no local:

Fur Mil Joaquim de Araújo Cunha
Sold Manuel da Silva Monteiro
Sold Rufino Correia de Oliveira
Sold Fernando Soares (...)

26 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1318: Xime: uma descida aos infernos (2): Op Abencerragem Candente (Luís Graça, CCAÇ 12)

26 de Novembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1317: Xime: uma descida aos infernos (1): erros de comando pagam-se caros (Luís Graça)

(****) Os militares portugueses sempre escreveram Poidon... Mas a grafia correcta parece ser POINDOM, de acordo com a carta do Xime (1961). Será erro tipográfico ?

(*****) Vd. postes, da I Série do Blogue:

 20 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDLXII: Estou emocionado (J.C. Mussá Biai)

9 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XV: No Xime também havia crianças felizes (1) (Luís Graça)

10 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XVI: No Xime também havia crianças felizes (2) Luís Graça)

4 comentários:

José Marcelino Martins disse...

Curioso, Caro Arsénio.
Como seria hoja a nossa querida Guiné, se se tivessa dado ouvidos "aos Mancaman"?
Decerto UMA GUINÉ MUITO MELHOR.

Um BOM ANO!

José Martins

Arsénio Puim disse...

Obrigado. Desejo igualmente um Bom Ano para si e família.

Anónimo disse...

Arsénio, se Mancaman tinha dúvidas sobre Amilcar e o PAIGC, distinguia Senghor de Sekou Touré, tinha algumas ideias sobre como fazer a guerra,não estás falando de alguem sem ideias e ignorante sobre o que se passava à sua volta, antes pelo contrário, tinha ideias formadas.

Arsénio, muitos testemunhos destes podem ajudar muitos de nós a ter uma visão e uma imagem sobre todos os africanos que durante 13 anos nunca aderiram aos movimentos e ficaram do lado português, imagem muito diferente daquela que insistentemente se quer transmitir, que seria apenas um povo ignorante coagido e enganado pelo "regime colonial".

Antº Rosinha

Luís disse...

Infelizmente, não havia na Guiné verdadeiras alternativas ao PAIGC, não havia cultura democrática, não havia verdadeiras elites (modernas), não havia o exercício (crítico) da liberdade de pensamento e de expressão... Tal como não as havia na chamada Metrópole...

A história nunca se escreve a preto e branco. Infelizmente, a guerra conduz sempre à supressão do leque cromático do arco-iris... A maior parte de nós, operacionais, não tinha condições para perceber as subtilezas das diferenças políticas, étnicas e culturais existentes entre o(s) povo(s) guineense(s)... A nossa sensibilidade sócio-cultural foi de algum modo desenvolvida em contacto com as populações locais: mas se convivemos muito com os fulas, já o mesmo não se passava com os balantas ou até com os mandingas...

Pertencíamos a uma geração que não tinha a cultura democrático do respeito pelas diferenças... O projecto spinolista da "Guiné Melhor" também não era um projecto democrático...

O Arsénio Puim era, de entre os capelães, uma excepção que confirmava a regra... Estou-lhe grato por querer partilhar connosco as suas memórias desse tempo... O Arsénio vem enriquecer a nossa paleta de cores do "arco-íris"... Seria lamentável que o nosso blogue fosse a "preto e branco"...