quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Guiné 63/74 - P6953: Estórias avulsas (41): A captura do incaracterístico guerrilheiro Malan Mané, no decurso da Op Nada Consta (Salvador Nogueira)


A Guiné "by air"... Um privilégio que não era para todos... O custo/hora de um helicóptero era equivalente ao vencimento (mensal) de dois alferes milicianos, cerca de 12 contos, no princípio de 1969... Foto do ex-Fur Mil Ap Inf Arlindo Teixeira Roda (CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71) que deve ter apanhado uma boleia até Bissau...

Foto: © Arlindo Teixeira Roda (2010) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados.


A. O nosso leitor SNog [, Salvador Nogueiera,], no seu "auto-exílio" na província, é avesso a publicidade, e raramente me autoriza a publicar as mensagens que trocamos há já uns bons tempos (*). Em 30 de Julho de 2009, veio à baila a Op Nada Consta, em que ele participou como oficial pára-quedista do BCP 12, quando passou pelo TO da Guiné, em 1969. Mandou-me então a narrativa da captura do "incaracterístico" roqueteiro Malan Mané, que haveria mais tarde de ser ferido ao meu lado, na Op Pato Rufia, em 7 de Setembro de 1969... Nessa altura o SNog não me autorizou a sua divulgação, por razões que só ele conhece, e que entende não explicitar (nem eu sequer lhas perguntei).

Mais recentemente (7 de Julho de 2010)  o SNog terá mudado de ideias, ao escrever-me o seguinte, depois de me dar o nega a um pedido de publicação de uma outra mensagem dele (com referência ao seu CV militar):

"Para publicar havia de ser a minha narrativa da captura do Malan Mané - mais circunstanciada!,  lembras-te do croquis que te enviei? - mas só se alguém aparecesse de novo a divagar sobre o assunto de longe e a sonhar alto.  Houve até um poeta que descrevia o piloto a soprar a mata com o rotor do héli e a gritar para avisar a tropa - azar, era eu... e li. E agora?- de que havia uns gajos emboscados...   Há gente que nunca mais faz dezassete anos" (...).

Meu caro SNog (só nos conhecemos por mail...) está na altura de desencantar a tua narrativa, agora que alguém quis ressuscitar o pobre do Malan Mané (o Torcato Mendonça jura que o viu vivo, em Bissau, uns meses depois de ter quase morrido lá para os lados do Poindon, na região do Xime)... Entende isto como um pequeno contributo  teu para alimentar a nosso projecto (partilhado) de reconstituição das memórias da guerra de África. Como dizem os economistas da nossa praça, não há almoços... nem blogues grátis. De resto, estavas-me a dever essa história (*)... Ela aqui vai, com um Alfa Bravo do Luís.

B. Estórias avulsas (***) > A captura do incaracterístico Malan Mané,
narrativa de SNog

1 - A história da captura do incaracterístico, até falarem tanto dele, Malan Mané... tratou-se de um guerrilheiro esfarrapado que escolheu, em vez de fazer o disparo, levantar-se com as mãos no ar da posição em que se encontrava, atrás de um RPG2 com o cão armado e que à voz ‘anda cá, pá!’ se aproximou apavorado. Era também um de três ou quatro (?), dos quais o terceiro terá fugido. 

O do RPG2, este de quem se fala, ocupava a posição mais internada na mata, no extremo da linha de emboscados; do seguinte só encontrámos a cama de capim e o da extremidade mais próxima da orla, atrás de uma Degtyarev RPD, foi abatido. 

Do terceiro elemento, nesta ordem, estranhamente não me lembro – não foi capturado nem abatido; terá também fugido ou ‘sonhei-o’ pois fui inspeccionar a instalação deles e creio ter visto 4 camas... adiante! Será todavia o único detalhe com algum significado que tenho consciência de olvidar. O capturado foi ainda interrogado imediatamente, no local, retardando o avanço. 

No desencadear da acção, a minha equipa foi a primeira a ser colocada e avançou, a dar espaço no trilho, após a segunda colocação, a da equipa do Sarg Sofio; terá sido aproximadamente à aterragem do terceiro helicóptero que se deu o episódio que descrevo.

Se considerarmos os cerca de cinco metros entre cada homem instalado e sabendo que o Sofio se aproximou de mim para coordenação, estariamos então a uns 25 ou 30 metros da orla, segundo o esquema seguinte que,



por si só, corrige várias divagações que por aí se têm lido acerca do incidente (**).

2- (A propósito de Mamadu Indjai).  O chefe de bi-grupo Sanpunhe –assim identificado pelo Malan Mané - apareceu juntamente com outro guerrilheiro perante mim no decorrer da operação, numa ocasião em que mandei parar e fui investigar um palpite dentro do mato, à nossa direita; uns vinte ou trinta metros fora do trilho apareceram dois elementos que vinham ao mesmo e que deram connosco – o Sanpunhe foi abatido cara-a-cara por disparos que fiz e/ou pelo disparo do RPG7 do homem que me acompanhava; o segundo guerrilheiro pisgou-se... (***)

Resultados: herdei uma pulseira que ainda tenho e uma Kalashnikov com que fiz toda a operação da Guiné. Compreenda-se... era difícil resistir ao ronco, apesar de então já ter estado em Angola e em Moçambique.

Texto e infogravura:  Salvador Nogueira (2009). Todos os direitos reservados

[ Fixação / revisão de texto / título: L.G.]
______________


Notas de L.G.:

(*) Vd. poste de 14 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5464: O Nosso Livro de Visitas (74): O blogue não deve ser a Praça da Figueira (Salvador Nogueira, BCP 12, BA 12, Bissalanca, 1969)

(**)  Vd. poste de 7 de Setembro de 2010  > Guiné 63/74 - P6948: A minha CCAÇ 12 (6): Agosto de 1969: As desventuras de Malan Mané e de Mamadu Indjai... (Luís Graça)

(***) Recorde-se que a Op Nada Consta foi uma operação conjunta do COP 7 (Bafatá), da CART 2339 (Mansambo, Subsector do Sector L1), da  CCAÇ 12 e do Pel Caç Nat 53 (subunidades de intervenção ao serviço do Comando do BCAÇ 2852, 1968/70, sediado em Bambadinca).

No sítio do BCP 12 (comandado do pelo Ten Cor PQ Fausto Pereira Marques, de 4 de Junho de 1968 a 5 de Dezembro de 1969), pode ler-se o seguinte sobre a sua actividade operacional no TO da Guiné:

(...) A actividade operacional do BCP 12 ao longo da sua permanência na Guiné foi intensa, conduzindo a resultados reveladores da sua aptidão para combate.

Nos primeiros anos os Pára-quedistas foram empregues fundamentalmente em operações independentes no âmbito da Força Aérea, a qual tinha meios próprios de reconhecimento, ataque ao solo e transporte das suas forças Pára-quedistas.


Os grupos de combate eram normalmente empregues em operações que exigiam grande mobilidade e rapidez de actuação. Quando um grupo de guerrilheiros era detectado ou actuava contra aquartelamentos das unidades do Exército, as forças Pára-quedistas eram colocadas no terreno, através de helicópteros, ou noutros casos, dada a geografia própria da Guiné, através de lanchas da Armada. As forças Pára-quedistas eram usadas por períodos de tempo limitado mas de grande empenhamento.


Para além de operações independentes no âmbito da FAP, os Páras participaram também em operações conjuntas com forças do Exército ou da Armada. Destas destaca-se a operação PARAFUZO, efectuada na ilha de Caiar em Março de 1967, com forças dos Destacamentos de Fuzileiros Especiais nº 4 e 7. Da acção resultou a captura de 20 elementos inimigos.

A partir de meados de 1968 e com o General António Spínola como novo Comandante-Chefe na Guiné, o modo de emprego dos Pára-quedistas foi alterado.


As Companhias [, 121, 122 e 123, ] do BCP passaram a integrar os então criados Comandos Operacionais (COP) com outras forças militares, sob o comando de um oficial superior. Muitas vezes oficiais Pára-quedistas desempenharam essas funções. As forças eram então empenhadas, durante largos períodos, conjuntamente com as Unidades de quadrícula do Exército. As companhias do BCP 12 foram assim muitas vezes atribuídas de reforço às unidades instaladas junto às fronteiras com o Senegal e a Guiné-Conakry.


Foram inúmeras as operações desencadeadas neste período: a operação JUPITER, com 4 períodos no corredor de Guileje, no âmbito do COP 2, a operação TITÃO com o COP 6, a operação AQUILES I, com o CAOP 1, a operação TALIÃO, com o COP 7, entre tantas outras, com bons resultados. 


Merece particular destaque a operação JOVE, realizada em Novembro de 1969 com forças das CCP 121 e 122. No dia 18 de Novembro a CCP 122 capturou o Capitão Pedro Rodriguez Peralta, do Exército Cubano, comprovando a ingerência de forças militares estrangeiras na guerra na Guiné.
Apesar das CCP continuarem a ser atribuídas aos COP que se iam activando consoante as necessidades, o Comando do BCP esforçou-se por continuar a levar a cabo algumas operações independentes, actuando como força de intervenção em exploração de informações obtidas e seria neste tipo de operações que se obtiveram alguns dos melhores resultados do Batalhão.

Apesar dos esforços a situação na Guiné continua a degradar-se. A pressão que os guerrilheiros vinham exercendo sobre os aquartelamentos no Sul do território começou a dar resultados. Em Maio de 1973 os guerrilheiros desencadeiam fortes ataques a Guileje obrigando mesmo ao abandono do aquartelamento dos militares do Exército. Nas proximidades, Gadamael Porto fica em posição delicada com flagelações frequentes de armas pesadas. A 2 de Junho as CCP 122 e CCP 123 são enviadas para Gadamael, seguindo-se no dia 13 a CCP 121. O próprio comandante do BCP 12, Tenente-Coronel Araújo e Sá tinha assumido o comando das forças que com a guarnição do Exército constituiram o COP 5. A posição de Gadamael Porto é organizada defensivamente com abrigos, trincheiras e espaldões, simultaneamente são desencadeadas acções ofensivas sobre os guerrilheiros. A resistência e a determinação das Tropas Pára-quedistas acabaram por surtir efeito e o ímpeto inimigo foi quebrado - Gadamael Porto não caiu. A 7 de Julho as CCP 121 e 122 regressam a Bissau e a 17 é a vez da CCP 123, a operação DINOSSAURO PRETO tinha terminado. (...).


(Destaque a vermelho, do editor, L.G.)

Um dos álbuns fotográficos de pessoal do BCP 12 pode ver visualizado aqui.

(****) Último poste desta série > 4 de Setembro de 2010 > Guiné 63/74 – P6933: Estórias avulsas (93): Uma história da minha guerra (António Barbosa)

9 comentários:

Anónimo disse...

Luís Graça

O meu nome completo não interessa. Sou aqui, e não só, conhecido por: Torcato Mendonça.As outras palavras não interessam e, só tu, creio eu me trata por José. Tudo bem. Agora Monteiro Não.

- estive, em reforço á 2405, em Galomaro e ao COP 7;
- o meu Grupo ia á frente e descobriu o acampamento IN em "Biesse?"
Esses militares eram comandados pelo Cap.QP da CART 2339(hoje Coronel)
- fiz parte da emboscada quano tropas paraquedistas assaltaram o acampamento - O Mamadu Indjai foi ferido com gravidade pelo 3º Grupo da 2339. Estava lá o CmSantos junto de quem abateu e feriu quem tinha que...
-em Bissau, já a comandar a 2339, o Capitão ficaria lá por ser mais "novo", fui ao hospital militar em serviço e acompanhado por??. Aí encontrei o Malan Mané, a recuperar de ferimentos.

Tudo está desxcrito e não retiro uma virgula.
Tenho reunião e estou apressado.

Um abraço amigo do Torcato extensível a todos

Luís Graça disse...

Meu querido amigo: Que disparate! Claro que o teu apelido, paterno, é Mendonça e não Monteiro... Lapsus linguae, distress, cansaço pós-férias, neurónios f..., princípio de Alzheimer... espero que me desculpes!

Anónimo disse...

Uma descrição sucinta e clara; espero bem...

Devo acrescentar que a ordem 'anda cá, pá!' foi dada pelo Sarg Sofio que, virado na sua direcção enquanto falava comigo, viu o guerrilheiro instalado - foi essa voz que permitiu a captura e a colheita de informção no local.

SNogueira

Torcato disse...

E o comentário voou...hoje é dos dias que devia estar aborrecido. O blogue aquieta-me ...

Oh meu caro amigo Luís Graça por quem sois. Não me codilhes, contudo, estes velhos e a resvalar perigosamente...os meus sim para uma alzheimer...e que fina ironia o não esquecimento do stresse pós férias. Desculpa(s)?...essa não...essa não...don't remember...essa não...

O nome é da mãe, materno, sem de...foi por mim abolido. è da minha costela lisboeta. Depois falamos nisso.

Abração do Torcato

Luís Graça disse...

Saúdo a contribuição do nosso camarada Salvador Nogueira para a nossa "base de dados" memorialística, mesmo que ele insista em manter-se com o simples (mas legítimo) estatuto de "leitor"... (A Tabanca Grande não é uma clube e muito menos um clube fechado).

Fizeram-se milhares de operações, por todo o TO da Guiné, durante a guerra, como a Op Nada Consta, nalguns casos envolvendo forças de diversos ramos (e nomeadamente exército, FAP e BCP 12)... A actividade operacional dos nossos camaradas pára-quedistas já aqui tem sido narrada, na primeira pessoa do singular: estou-me a lembrar, por exemplo, dos notáveis textos do nosso amigo e camarada Victor Tavares, ex-1º Cabo Ap MG 42, da CCP 121... e de outros como o Sílvio Abrantes (Hoss), o Manuel Rebocho, António Dâmaso ... (cito de cor, omitindo outros que mais ocasionalmente nos escrevem)... O BCP 12 já tem mais de 60 referências no nosso blogue, o que já é notável:

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/search/label/BCP%2012

Naturalmente que gostaríamos de ter mais mais narrativas, em primeira mão, inéditas, como esta que foi agora publicada. Muitos camaradas do exército, de resto, não conhecem, ainda hoje, essa acção e o mérito das forças pará-quedistas no TO da Guiné, os seus sucessos e as suas contrariedades.

Este espaço continua aberto aos antigos combatentes de terra, ar e mar, que lutaram na Guiné. Sem qualquer discriminação.

Anónimo disse...

"Para publicar havia de ser a minha narrativa da captura do Malan Mané - mais circunstanciada!, lembras-te do croquis que te enviei? - mas só se alguém aparecesse de novo a divagar sobre o assunto de longe e a sonhar alto. Houve até um poeta que descrevia o piloto a soprar a mata com o rotor do héli e a gritar para avisar a tropa - azar, era eu... e li. E agora?- de que havia uns gajos emboscados... Há gente que nunca mais faz dezassete anos" (...)
Li e não percebi!!!(Ou melhor, parece q sei o q querem...!)
Sou o Félix, o ex-piloto que tb viu o Malan Mané com o RPG2 que não quis disparar. O mxm que "poéticamente" aterrou o héli junto do Malan. O mxm que viu o Malan ser apanhado à mão.
O Félix que transportou o Malan para Galomaro.
O mxm , Félix , que levou o Malan à casa do Sr Ragala a jantar, como prenda de não ter disparado.
O mxm que escutou Malan explicar no mxm "restaurante",que não disparou pois teve medo de ser visto ,porque o ""rotor"soprava a mata".
Na altura teria 22 anos, e ainda sonhava.
Hoje passados estes anos todos ter que ler o que li, ou não entendi nada, o que será possivel ,resultado dos 63 que já carrego, ou ... ...
meus caros Amigos ía apagar tudo pois estava a passar para o terreno em que ía ser indelicado. Vou ficar por aqui.
Vai ficar o q está escrito, talvez o autor do bLog, que não sei quem é, possa ler . Quero lhe dizer que felizmente estou tratado de todas as feridas da guerra(penso que sim). De outra maneira, ao ler o q escreveu, "tudo é mentira sobre a captura de Malam excepto o que eu sei", poderia pôr em causa as minhas capacidades mentais.
Isto de escrever umas merdas, e terminar com uma tirada inteligente ,tem muito que se lhe diga.
Caro companheiro de luta, já todos fizemos os 17 à muitos anos. Acredito que muitos queriam continuar naquele tempo ,pois naquele tempo continuam a viver, com a sua verdade una e imortal.
Sem mais, abraço a todos.
Jorge Félix
ex-alf piloto aviador
guiné 68/69/70

Anónimo disse...

Caro Félix,
pode acontecer que tenhas visto tudo isso em outra circunstância ou pode acontecer que haja outro Malan Mané.
Asseguro-te que a captura, vista do chão e a curta distância, foi feita como descrevi - o guerrilheiro levantou-se com as mãos no ar e nunca mais tocou na arma; não me lembro da sua evacuação mas fica seguro de que lhe confiscámos o RPG2.
Também não imagino o que ele possa ter dito a quem o interpelou depois de evacuado mas fica seguro de que a informação que deu no local foi escassa e em pouco alterou o nosso planeamento - era um homem muito simples e nós, a minha tropa, não éramos propensos a grandes divagações...

SNogueira

Anónimo disse...

(PS - podes consultar o relatório da op e podes falar com o Sarg Sofio que toda a gente conhece em Constância - servia-te de passeio e matavas saudades da área uma vez que não já há nem BA3, nem RCP, nem gente que te conheça, nem nada...

Lamento este desencontro de memórias e de opiniões)

Anónimo disse...

Snog estava a 2 metros do Malan... LOL a 2 metros !! LOL ganda aldrabilhas, caralhos.