domingo, 18 de dezembro de 2011

Guiné 63/74 - P9223: Estórias cabralianas (69): Onde mora o Natal, alfero ? (Jorge Cabral)

1. Com votos, telegráficos, mas quentes, do nosso alfero, enviados a 16:

" Amigos! Bom Natal! Abraços. Jorge Cabral"...

2. Comentário de L.G.:

Tomei a liberdade de transformar esta mensagem natalícia em mais uma estória cabraliana que, como sempre, nos emociona, nos faz sorrir  e/ou nos põe a pensar... Que raio de sítio, Missirá, a última tabanca do Cuor, para se pensar o Natal de 1970, meu irmão!... De qualquer modo, que as rabanadas, as filhós, o arroz doce e a aletria de Missirá de 1970 não te faltem à mesa da consoada da Lisboa de 2011!... Quentes e boas!... Um xicoração. Luís.


3. Estórias cabralianas > Onde mora o Natal? (*)
por Jorge Cabral



Também houve Natal em Missirá naquele ano de 1970. Na consoada,  os onze brancos e o puto Sitafá, que vivia connosco. Todos iam lembrando outros Natais.
Dizia um:
 – Na minha terra…

E acrescentava outro:
 – A minha Mãe fazia…  

E a mesa por encanto encheu-se. Rabanadas, filhós, arroz doce, aletria... Juro que vi e até saboreei.


Eis quando o Sitafá interrogou:
 –  Onde mora o Natal?

Ninguém lhe respondeu... mas eu ainda vou a tempo:
 –  Está cá dentro, se calhar é um neurónio. E sabes,  Sitafá, neurónios, já perdi muitos, mas não quero perder este. Porque Natal, Natal, só existe quando mora no mais fundo de nós.


Jorge Cabral
______________

Nota do editor:

Último poste da série > 4 de Novembro de 2011 > Guiné 63/74 - P8992: Estórias cabralianas (68): Zina, a bordadeira do Pilão (Jorge Cabral)


(...) Chegado na véspera e instalado no Biafra, entrei pela primeira e última vez na Messe de Oficiais em Santa Luzia. Era noite do Bingo. Procurei algum conhecido e encontrei o Gato Félix, estudante de Letras, ora Alferes, o qual também me pareceu entediado. (...)

11 comentários:

José Marcelino Martins disse...

Obrigado Jorge, por nos teres revelado este neurónio.

É pena que muita "gente" tenha perdido esse neurónio, pequenino decerto, mas de muita importância.

O Sitifá da Guiné, não mostrou ignorância, porque não sabia, nunca lhe tinham explicado...

Mas há muitos "Sitifás" que já o viveram, mas preferem esquecê-lo.

Um Bom e Santo Natal para todos!

Juvenal Amado disse...

Jorge só há um
o Cabral e mais nenhum.

Estou a brincar pois há muitos Jorge,s, mas com o sentido de humor e a profundidade com escreve esta meia dúzia de palavras, é difícil que exista outro.

Um abraço

Torcato Mendonca disse...

UM ABRAÇO E UM BOM NATAL

Caro Jorge Cabral

Anónimo disse...

Que dizer-te, Jorge, perante a força das palavras que apenas parecem não estar aqui?
Abraço natalício
José Brás

Manuel Carvalho disse...

Caro camarada

Há duas situações que me transportam à Guiné, é quando como manga e quando leio alguns escritos aqui no blogue e este é um deles. Como consegues tanto com tão poucas palavras.

Um grande abraço, muita saude e um bom natal para ti e para todos.

Manuel Carvalho
Ex. Furriel Mil. C Caç 2366 Jolmete

Anónimo disse...

Dizer tanto com tão poucas palavras é simplesmente de Mestre.
Obrigado Mestre Cabral.
Recordo com alguma saudade os meus dois natais da Guiné .Em Dezembros que não havia frio.
Tenho pena de não ter tido por perto um Sifitá...
Um grande abraço de Alcobaça e votos de Natal Feliz.
JERO

Anónimo disse...

Lindo ! Neuronios em accao, por a quadra esta so comecando !

Nelson Herbert

Anónimo disse...

Lindo ! Neuronios em accao, porque a quadra esta so comecando !

Nelson Herbert

Anónimo disse...

Caro Jorge Cabral,se bem me lembro no Natal de 1970,tivemos que inventar o nosso Natal.Ou seja o prato principal,não foi bacalhau com batatas e couves,mas sim umas garrafas de uisque com casqueiro e margarina rançosa,com muitos cigarros para sobremesaTalvez na sede do Batalhão o tivessem passado com o mínimo das mordomias,da época natalícia.Mas enfim,ainda temos acordado com o céu da boca quente.Um feliz Natal é o que te desejo,com rabanadas,filhós,batatas,couves e bacalhau.O resto vem por acréscimo.
Um grande abraço e psocura o Natal para o Sitafá.
António Branquinho

manuelmaia disse...

Caro Alfero,

De como com meia dúzia de palavras se toca fundo no coração de todos...
Um grande abraço e votos de que esse neurónio te acompanhe até ao fim.
manuelmaia

Hélder Valério disse...

Caro 'Alfero'

Muito gostaria de ter essa tua capacidade de 'dizeres' um texto com uma ou duas frases. Não consigo. Preciso de muito mais palavras para explanar uma ideia.

Por isso só posso aplaudir esta tua história como um daqueles momentos em que se conseguirmos reflectir sobre o que diz, mas principalmente sobre o que 'parece dizer mas não chega a dizer', fica-se a pensar nos valores que temos como adquiridos e que afinal deviam ser melhor valorizados.

Abraço
Hélder S.