quarta-feira, 2 de julho de 2014

Guiné 63/74 - P13355: Mafra, EPI, COM: Instruções para os instruendos (Mário Vasconcelos): IV (e última) Parte: A Máfrica como "total institution", no sentido sociológico forte do termo...


Capa da brochura, s/d, usada no COM - Curso de Oficiais Milicianos, ministrado na EPI - Escola Prática de Infantaria, Mafra (ou a Máfrica, como lhe chama o Vasco Pires, nosso camarada da diáspora lusitana no Brasil), 


Planta do EPI, Mafra





EPI - Salas de aula
































Reprodução da quarta (e última) parte do guia do instruendo do COM (Curso de Oficiais Milicianos), usado na EPI - Escola Prática de Infantaria, em Mafra (*):  Informações úteis para o instruendo (Correio, telefone, sslas recreativas, cantinas, barbearias, farmácias, parques de estacionamento, retificação de documentos, datas de casamentos, talhes de barba e cabelo...).

Imagens: © Mário Vasconcelos (2014). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem: LG]


1. O documento original, sem data, chegou-nos, devidamente digitalizado, por mão do nosso camarada Mário Vasconcelos [ex-alf mil trms, CCS/BCAÇ 3872, Galomaro, COT 9 e CCS/BCAÇ 4612/72. Mansoa, e Cumeré, 1973/74; foto atual à esquerda].

Recorde-se que já publicámos o guia do instruendo do CSM - Curso de Sargentos Milicianos, documento que nos chegou por mão da parelha Fernando Hipólito / César Dias, e que é claramente mais "ideológico" do que o guia que estamos agora a publicar. Comparando os dois guias, há claramente um tratamento mais "classista", de maior deferência, em relação ao instruendo do COM, futuro "oficial e cavalheiro".

Não encontro este documento na Biblioteca do Exército.

Estas "indicações" ( e não "instruções") dadas aos instruendos dos COM remetem, por sua vez, para o Regulamento Geral de Instrução do Exército (RGIE).

2. De qualquer, a grande escola de cadetes e fábrica de oficiais  que depois seguiam para os teatros de operações do ultramar, a grande 'MÁFRICA' (, a expressão é do nosso grã-tabanqueiro Vasco Pires), que terá formado dezenas e dezenas de milhares de oficiais subalternos e comandantes operacionais, era, como em qualquer parte do mundo, uma verdadeira "instituição totalitária" ("total institution") no sentido forte, sociológico, do termo.

Se não,  vejamos alguns traços comuns às instituições e organizações a que poderíamos aplicar a tipologia desenvolvida, e,m 1961, pelo sociólogo americano Erving Goffman (Asyluns: essays on the social situation of mental patients and otther inmates. New York: Anchor, 1961).

(i) Este tipo de institituições  são organizações "muralhadas",  fechada, com "barreiras" delimitando claramente as trocas ou transações com o exterior, tanto ao nível das entradas no sistema  (inputs) como das saídas (outputs);

 (ii)  como em qualquer estabelecimento militar (mas também prisional, conventual, hospitakar psiquiátrico...), essas barreiras tanto são físicas (sob a forma de muros altos, arame farpado, áreas minadas, portões, janelas gradeadas, portarias, guichés ou balcões de atendimento, pessoal e sistemas mais ou menos sofisticados de vigilância e protecção, áreas de acesso interditas ao público, etc.; como a própria arquitectura dos edifícios, marcada por uma grande volumetria ou monumentalidade, mais evidente ainda em Mafra, já que o  EPI está instalado num antigo convento);   como são  barreiras imateriais, culturais ou simbólicas (logótipos, regulamentos, valores, práticas, ritos, vestuário, normas de acesso, códigos linguísticos, sistemas de sinalização, etc.).;

(iii) tais barreiras servem fundamentalmente para demarcar as fronteiras do sistema de acção interno e definir a identidade organizacional (por ex., o soldado fardado e armado junto a uma barreira de arame farpado, as formaturas, as divisas e galões, os toques de clarim);

(iv) os instruendos (neste caso...)  estão colocados sob uma única e mesma autoridade (o comandante da EPI);

 (v) comem, dormem e trabalham sob o mesmo teto;

(vi) cada fase da atividade quotidiana desenrola-se, para cada instruendo, , numa relação de grande promiscuidade com um elevado número de outros instruendos, submetidos às mesmas regras, procedimentos, deveres e obrigações;

(vii)  todos os períodos de atividade são regulados segundo um programa estrito, isto é, todas as tarefas estão "encadeadas", obedecem a um plano imposto "de cima" por um sistema explícito de normas e regulamentos cuja aplicação é assegurada pelo pessoal militar (de instrução e de apoio), fortemente hierarquizado (oficiais, sargentos e praças); e, por último,

(viii)  as diferentes atividades assim impostas são por fim reagrupadas segundo um plano único e racional,concebido expressamente para responder ao fim ou missão oficial da instituição (, formação militar, humana, técnica e operacional de oficias subalternos em tempo de guerra).

O traço essencial destas instituições, como a MÁFRICA, é a aplicação ao indivíduo dum tratamento coletivo (e, nalguns casos, coercivo) de acordo com um sistema burocrático que cuida de todas as suas necessidades. Daí decorrem alguns consequências importantes, segundo a sociologia da "total institution":

(ix) A tarefa principal dos profissionais (pessoal dirigente e de enquadramento) não é tanto a de dirigir, controlar, ou supervisionar o trabalho, como numa empresa, como sobretudo a de vigiar e punir toda a infracção às regras, todo o comportamento desviante (, isto é mais evidente nas instituições ligadas á justiça, à reinserção social, e  até `á saúde mental - caso dos manicómios, no séc. XX e primeira metade do séc. XX);

(x) Há um fosso intransponível entre o número restrito de dirigentes e de pessoal de enquadramento (instrtutores, neste caso) e a massa de indivíduos dirigidos lou em formação (instruendos);

(xi) Os instruendos são forçados a viver no interior do estabelecimento, por períodos variáveis  (entre 3 a 6 meses),  mantendo com o mundo exterior contactos limitados, enquanto os profissionais continuam , entretanto, oficialmente integrados nesse mundo exterior (têm as suas famílias e as suas casas,  as suas relações sociais, os seus hobbies, etc., no exterior, na comunidade, "lá fora");

(xii) Cada grupo tende a ter  uma imagem estereotipada (e muitas vezes negativa e até hostil) um do outro: para o instrutor, o instruendo  é, incialmente,  visto como um simples mancebo, um ser virado sobre si mesmo, egocêntrico, infantil, reivindicativo, efeminado, mole, cobarde, muitas vezes agressivo, mentiroso, desleal e ingrato; para o instruendo, o instrutor  começa por ser visto  um ser poderoso e muitas vezes prepopente e até tirânico; em todo o caso, quase sempre distante, frio, mesquinho e desumano;

(xiii) Os contactos entre os dois grupos são restritos: a própria instituição impõe a distância espacial e temporal entre eles; mesmo quando certas relações são inevitáveis (a interação na instrução); há barreiras selectivas (as regras da hierarquia militar,  baseadas da unidade comando controlo); há segregaçºão socioespacial (messe de oficiais, messe de sargentos, refeitório de praças);

(xiv) Os instruendos são mantidos sistematicamente na ignorância das decisões que lhe dizem respeito, quer os motivos alegados sejam de ordem militar, legal, administrativa, disciplinar, penal; por outro lado,. nem têm qualquer poder reivindicativo, dada a sua situação de total subordinação e a sua sujeição ao regulamento de disciplina militar;

(xv) A instituição no sentido lato do termo (edifícios, instalações, equipamentos, recursos técnicos, humanos e financeiros, razão social, história, políticas, nome, logotipo, etc.), é vista, tanto por uns como por outros, como ‘propriedade’ dos dirigentes (comandante, instrutores, pessoal de apoio), sendo o pobre do instruendo visto, condescendentemente, quando muito um ‘hóspede’; não há visitas e as saídas (tal como as entradas) são estritamente regulamentadas e controladas em função da lógica do processo de instrução militar, não das necessidades, expectativas ou preferências do instruendo (ou da sua família); como "hóspede" que é, a ele aplica-se o provérbioi popular: "O peixe e o hóspede ao fim de três dias fedem", isto é, cheira mal:

(xvi) A relação de trabalho (nas "total institutions") tende a estar  mais próxima da relação senhor/servo do que da relação de trabalho livre (embora subordinado), que é uma das estruturas-base das sociedades modernas: o conteúdo, a organização e as demais condições de trabalho, os horários, os planos de actividades, as regras de funcionamento, o regimento, etc., são impostos e sancionados pela instituição,


Mafra > Escola Prática de Infantaria (EPI) > 1964 > Curso de Sargentos Milicianos (CSM) > "Mafra, 26 de Janeiro de 1964 > O 1.º pelotão, da 1.ª Companhia,  ao 2.º dia de tropa"... Foto (e legenda) do nosso camarada Veríssimo Ferreira (ex-Fur Mil, CCAÇ 1422 / BCAÇ 1858, Farim, Mansabá, K3, 1965/67).


Foto: © Veríssimo Ferreira (2013). Todos os direitos reservados. [Edição: LG]



(xvii) A "nstituição totalitária", enquanto comunidade residencial e organização fortemente centralizada, regulamentada e fechada, é, de resto, incompatível com uma outra estrutura básica no processo de socialização: a família; a sua eficácia depende, aliás, em grande parte do grau de rutura que ela provoca com o universo familiar dos seus membros e com os papéis sociais que desempenhavam antes (pai, esposo, educador, etc.). 

Em suma, e segundo o sociólogo norte-americano Erving Goffman, as ‘instituições totalitárias’ (prisões, hospícios, asilos, lazaretos, hospitais psiquiátricos ou manicómios dos séculos passados, mas também estabelecimentos militares e militarizados,  unidades da marinha de guerra e mercante, frota da pesca do bacalhau, colégios internos, reformatórios, centros de reclusão/reinserção social, mosteiros, conventos, seminários, etc.); seriam, nas sociedades humanas, lugares de coerção destinados a modificar a personalidade, as atitudes ou o comportamento do indivíduo, e a que o indivíduo responde através de dois tipos de "adaptações":

(a) primária ou manifesta (por ex., aceitação das regras, interiorização das normas e valores, submissão à disciplina, compliance ou adesão ao tratamento prescrito, ressocialização);  e

(b) secundária ou latente (como meio de escapar ao papel e ao personagem ou ao label que a instituição lhe impõe — instruendo, educando, interno, noviço, aprendiz, louco, doente, recluso, recruta,  etc.. — e que o leva a assumir uma vida clandestina no seio da instituição. (LG)

PS - Claro que este "modelo sociológico" também se aplicava, com as nbecessárias adaptações e cautelas, tanto à 'MÀFRICA' como  ao CISMI, Tavira, por onde muitos de nós passámos (e fomos "passados")... antes de ir parar, alegremente,  às bolanhas da Guiné.
__________________

Nota do editor:

(*) Postes anteriores:

18 de abril de 2014 > Guiné 63/74 - P13003: Mafra, EPI, COM: Instruções para os instruendos (Mário Vasconcelos): Parte I: Finalidade, Funcionamento, Provas de aptidão, classificação e Faltas

25 de abril de 2014 > Guiné 63774 - P13041: Mafra, EPI, COM: Instruções para os instruendos (Mário Vasconcelos): Parte II: Averbamentos; Serviço interno; (...); Salas de estudo; Comportamento; Saídas do quartel; Passaporte de dispensas ou licenças; Cartas de recomendação, pedidos feitos por interpostas pessoas, etc.. etc., [vulgo, "cunhas"].

28 de abril de 2014 > Guiné 63/74 - P13055: Mafra, EPI, COM: Instruções para os instruendos (Mário Vasconcelos): Parte III :vi - Serviço interno; vii -Dispensas, pretensões; viii- Fardamento; ix - Uniformes, equipamento e armamento; x- Revista de saúde e curativos

19 comentários:

Cesar Dias disse...

Para instruendos que cortassem o cabelo no barbeiro das praças, era de borla, deviam ficar com o corte à Mundial do Brasil.
Será que ainda está em vigor? Não me admirava nada.
César Dias

antonio graça de abreu disse...

Máfrica?

Passei seis meses em Mafra, recruta e especialidade, como atirador de Infantaria. Não gostei nada.

Máfrica?

Passei vinte anos em Mafra,de 1988 a 2007, na Escola Secundária José Saramago, como professor. Foi parte da minha vida, entre mil chinoiserie. Tenho dez mil boas recordações, as gentes, os alunos, o silêncio. Algumas outras menos boas.
Na minha casinha solitária nos arredores de Mafra traduzi para português três dos maiores poetas da China, Li Bai, Wang Wei e Bai Juyi (vão os três agora ser reeditados no Brasil).

Máfrica?

Quanto à vida na Escola Prática de Infantaria, acho que em muitos dos pontos deste poste reina uma certa confusão. Deve ser influência do tal sociólogo norte-americano.
Lazaretos, hospitais psiquiátricos,quartéis, tudo metido no mesmo saco.
Mafra era uma fábrica de oficiais,no anterior regime.
Em qualquer parte do mundo, na
preparação militar, sob qualquer regime, o sistema não é democrático.
Recomendo que vejam ou revejam o filme já velhinho "Oficial e Cavalheiro", com o Richard Gere.
Está lá tudo.

Abraço,

António Graça de Abreu

Luís Graça disse...

A expressão "instituição totalitária pode causar algumas reservas por parte dos nossos leitores, ou de alguns leitores, camaradas que passaram por Mafarma por RTavira, pro Vendas Novas, por Lamego...

É uma tradução, nas línguas latinas (sendo usada pelso sóciólogos franceses, espanhóis, portugueses, italianos...) para o conceito, anglossaxónico, "total institution", de autoria do americano Goffman (que estudou os "asilos", as "prisões" e organizações equivalentes que herdámos do passado...

O que quer dizer "totalitário" ? Aponta para a singularidade de em certos momentos da nossa vida (educação, tropa, prisão, hospitalização prolongada...) sermos ou termos sido "obrigados" a "viver, dormir e trabalhar" debaixo de um mesmo tecto...

Uma característica comum aos diversos tipos de organizações que conhecemos - e que são, antes de mais, sítios onde se realiza uma actividade particular (por ex., produção de bens, administração do ensino, da justiça ou da saúde) é o seu maior ou menor grau de abertura em relação ao exterior... Dormimos na nossa causa, temos uma família, trabalhamos num escritório ou agência bancária, ao fim de semana vamos divertirmo-nos a uma discoteca, etc... Portanto, há um dissociação dos locais onde dormimos, vivemos, trabalhamos, consumimos, etc.

Certas organizações são mais fechadas, em termos físicos, simbólicos e culturais, do que outras... É o caso, por exemplo, dos estabelecimentos militares (por onde todos nós passámps) ou dos colégios internos (colégio militar, seminário, etc.) onde alguns estudámos, ou até locais onde alguns (poucos) de nós trabalharam (pesca do bacalahu, marinha mercante...)

Apesar do "aggiornamento" de muitas das "instituições" que no passado tinham traços totalitáios (hospitais psiquiátricos, conventos, senminários, Casas Pias, colégios internos, prisões...) ainda guardam certos traços "tolitários" e contrastam com as institutuições que nos são mais "familiares" e "mais próximas" da comunidade onde vivemos e estamos inseridos: o centro de saúde concelhio, a escola, o hospital distrital, a instituição privada de solidariedade social, o clube desportivo e recreativo, o sindicato, a associação cultural, a empresa...

Quando fomos para Mafra ou para Tavira, houve uma mudança radical dos nossos papeis sociais e do seu contexto... Passámos, de resto, a ser apenas um número mecanográfico...

Luís Graça disse...

"Máfrica", a expressão não é minha, é do Vasco Pires, que passou por lá... Eu não passei por lá... O seu a seu dono...

Concordo contigo, António, que não podemos nem devemos pôr tudo no mesmo "saco"... Há traços "comuns" entre certas organizações ou instituições...Isto é apenas um "modelo sociológico" e como todos os modelos tipológicos é redutor... A realidade é sempre mais rica, complexa, espessa... Que o digam os poetas e os rocmancistas...Mas nós precisamos de modelos tipológicos para dar conta da variedade e complexa da vida humana e da nossa vida em sociedade...

Eu não estive em Mafra como tu, estive nas Caldas da Rainha e em Tavira. Mas, como tu, também não gostei nada...

Também trabalhei em Mafra, naquele convento, em 1973... na respetiva repartição de finanças... E gosto daquela terra e da sua gente... Mas "Máfrica" seria, por certo, outra coisa...

Um alfabravo fraterno. Luis

Anónimo disse...

" A tarefa principal dos profissionais (pessoal dirigente e de enquadramento) não é tanto a de dirigir, controlar, ou supervisionar o trabalho, como numa empresa, como sobretudo a de vigiar e punir toda a infracção às regras, todo o comportamento desviante;"
Caramba, um gulag! Será que a tarefa principal dos profissionais não era a instrução, sem ponteiros no relógio? Sabe o que é dar instrução a COM/CSM de atacado?Quem o ensinou? Ou nada aprendeu?
Isto é a EPI do tempo da guerra?!
Nossa...Trate-se!
Mendes

Anónimo disse...


...sim, a metáfora é minha, aliás, a citação.

Vamos lá, então, explicar para os mais apressados.

Muitos de nós - inclusive eu - vinhamos da Academia Coimbrã, em um momento de "clivagem", na segunda metade da década de 60 do século passado.

Só para relembrar:Barricadas de Paris,De Gaulle voa para Baden-Baden para se encontrar com Massu, Guerra do Vietnam, Universidade de Kent 70...

Então, "Máfrica",exprimia a reação de jovens inocentes e provincianos, que se julgavam na vanguarda da modernidade e pensavam que iam mudar o mundo, à disciplina militar,reforçada, por ser num curso acelerado.

No meu caso, o impacto foi "amortecido", pois dormia e comia fora do quartel.

Quanto a juízos de valor, nada tenho contra quem os faz, todavia, eu , procuro não fazê-los.


forte abraço a todos
Vasco Pires


Luís Graça disse...

... Camaradas, não tirem conclusões apressadas e muito menos façam "juízos de intenção"... Eu não quis ofender ninguém, muito menos instrutores e instruendos que passaram pelo EPI no tempo da guerra colonial, nem antes nem depois...

E logo para mais no primeiro dia em que, todo feliz da vida, pego no meu carro, e faço a a 2ª circular. depois de 3 meses de recuperação de uma artroplastia total da anca... Nada tem de heróico, mas para mim é um pequeno marco, até deixar definitivamente a última canadiana que ainda me acompanha...

Eu escrevi esta texto à margem da divulgação do "guia do instruendo" do COM, documento que o Mário Vasconcelos teve a generosidade de pôr à nossa disposição, guia esse que é, apesar de tudo, na minha leitura, mais "simpático", mais "classista", mais "contemporizador", menos "doutrinário" ou "ideológico" do que o "guia do instruendo" do CSM (usado, por exemplo, no CISMI, Tavira)...

Tenho formação sociológica e não gosto de falar do que não estudei... Nunca conheci o EPI, embora tenha trabalhado e vivido em Mafra cerca de um ano, pelo que não tenho autoridade para sequer desrever e analisar o EPI...

Limitei-me a apresentar uma "grelha de leitura" (sociológica) que tanto pode ser aplicada a estabelecimentos militares como a prisões ou hospitais psiquiátricos ou colégios internos... dos séculos passados!!!...

Bolas, pode haver alguns traços "comuns" entre organizações e instituições que cabem dentro do conceito (sociológico) da "total institution"... Claro que o adjetivo "totalitário" tem conotações melindrosas e perigosas, e daí o risco de associação ao "gulag"... Mas a associação do leitor Mendes, não é minha...

Valha-nos Deus!... Nem tanto ao mar nem tanto á terra... Caro leitor Mendes, entendo a sua indignação, mas o glorioso EPI não é nem nunca foi um "gulag"...

Além disso, eu estou a usar, talvez abusivamente,uma metáfora, "Máfrica", que é um achado genial do nosso "soldado artilheiro" (sic) Vasco Pires que, esse, sim, passou por essa grande fábrica de oficiais que foi o EPI... E honra seja feita ao EPI e à sua história que cabe, inteirinha, na história da nossa Pátria comum!...

Agora, por favor, não se sintam atingidos na vossa "honra" quando falamos das nossas instituições (militares ou outras) do passado... Seguramente que os instrutores, muitos deles milicianos, que passaram pelo EPI deram o seu melhor, como eu dei o meu melhor (3 anos da minha vida) ao Exército Português. Até tenho um louvor na minha caderneta militar!... E tenho 10 anos de blogue, procurando "partilhar memórias e afetos" dos combantentes que passaram pelo TO da Guiné, independentemente do ano, da arma, da es+pecialidade, da região e de qualquer outras considerações de carater pessoal...

Não fui refractário, não desertei, ajudei a dar instrução a soldados do rcrutamento do CTIG, ajudei a formar uma companhia com eles, a CCAÇ 12, mais cinquenta mecos metropolitanos (graduados e especialistas da CCAÇ 2590)... E andámos na porrada juntos, desde julho de 1969 a março de 1971...

Um alfabravo para a malta que passou pelo EPI, e que ajudou a fazer a história do EPI. Luis Graça

Luís Graça disse...

Tive o cuidado de frisar que este "modelo sociológico", de um senhor chamado Erving Goffman (1922-1982), e que teve um papel importante na "humanização" de algumas das nossas instituições (como os hospitais psiquiátricos) também se poderia aplicas, com as necessárias "ADAPTAÇÔES" e "CAUTELAS" (!!!), tanto à 'MÀFRICA' (ao EPI dos anos da guerra do ultramar) como ao CISMI, Tavira, por onde muitos de nós passámos (e fomos "passados")... antes de ir parar, alegremente, às bolanhas da Guiné.

Anónimo disse...

Caríssimo Luis,

PARABÉNS pela recuperação da mobilidade urbana!!!

forte abraço
Vasco Pires

Luís Graça disse...

(...) "Na minha casinha solitária nos arredores de Mafra traduzi para português três dos maiores poetas da China, Li Bai, Wang Wei e Bai Juyi (vão os três agora ser reeditados no Brasil)". (...)


António,dou-te os parabéns, pelo reconhecimento (públicoI do teu trabalho. Tens boas razões paar teres boas recordações de Mafra e da escola onde trabalhaste... Sei que também passaste pela Lourinhã... Julgo que antes... Ou depois ?...Voltas da China em 1988, é isso ?

Ab. LG

José Botelho Colaço disse...

Máfrica: Também por lá passei soldado instruendo curso CTM Disciplina Q.B. EPI Traduzia-mos à letra entrada para o inferno. Carecadas era o pão nosso de cada dia.

Luís Graça disse...

António, fjui recuperar um velho comentário teu, em que me mandaste um dos teus poemas... Era sobre o Paimogo (que é a "praia da minha infância")... Verico que andaste pela Lourinhã em 1984/85,pelo deves ter regressado da China mais cedo, em 1983/84 e não em 1988...

Aqui reproduzo de novo a tua mensagem, de 4/8/2012:

Não sabes, meu caro Luís, que também estou ligado à Lourinhã. Aí dei aulas, 7ºs e 8ºs anos, na secundária da Lourinhã, ano 1984/85. Os meus alunos vinham de todo o concelho, Marteleira, Vimeiro, Ribamar,etc., e tive a minha "casa
na praia", um quartinho alugado na praia da Areia Branca.
Tenho um um poema, no Forte do Paimogo, no meu livro China de Jade,
Sacavém, Fundamentos Ed.,pag 46.
Aí vai:

"As pedras carcomidas penduradas na falésia,
as ilhas encantadas dispersas pela bruma,
céu e mar azul unidos como um só.
Outrora, piratas de sabre, trespassando as água,
e soldados de vigia, golpeando o vento.
Hoje, no terraço em ruínas, a carícia do sol,
a festa, o prazer, o assombro suave,
o castelo mágico flutuando no ar. "

Os três últimos versos têm a ver com o que um homem e uma mulher fazem num terraço em ruínas ou numa cama perfumada e fresca. Amor. Não parece, mas há por aí, no Paimogo, muito assombro suave e erotismo contrabandeado.

Forte abraço,

António Graça de Abreu

4 DE AGOSTO DE 2012

Guiné 63/74 - P10227: Blogpoesia (196): Na Grande Rota Caminho do Atlântico (GR11 - E9), a Praia do Paimogo da minha infância... (Luís Graça)


http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2012/08/guine-6374-p10227-blogpoesia-196-na.html

Anónimo disse...

Tirei a recruta em Mafra. Muito mais
branda, que a especialidade em Vendas Novas.
Luís, é pelo menos discutível,que se possa considerar,um Quartel, como instituição total.Uma prisão sim ou um manicómio...Também estudei e até ensinei estas matérias..

Abraço. J.Cabral

Luís Graça disse...

Haja uma alma caridosa que nos sirva de cicerone e nos fales destes átrios e corredores sombrios do EPI, com referências à nosso corpo expedicionário, na I Guerra Mundial, e à negra geografia e coreografia da guerra na Flandres: Neuve Chapelle, Chapigny, La Couture, cor Fauquissart, cor Fer du Bois, etc.

Torcato Mendonca disse...

Luís Graça
Acompanhei-te, momentos atrás na 2ª Circular...porreiro pá, porreiro. O meu abraço e que a tua saúde continue a fortalecer-se. A meu abração.

Ah, quartéis...etc...O Antº Graça Abreu está a comentar bem. Há dias fez um comentário giro,um pouco maoísta e é natural, hoje outro com o qual concordo: - a Instituição Militar não pode ser democrática...que grande bronca seria.Sabes Luís, a minha CART em Mansambo todos os militares comiam do "rancho" e dormiam -todos- nos abrigos. Beneces ká tem...

Isso já passou e eu parece que gostei "" mais do que tu. Tinha que ser assim, para mim, ou enloquecia.

Um abração, T.

Anónimo disse...

Para os que nunca entenderam (ou nunca quiseram entender) o que é instruir homens para actuar em condições limite, cito:

“As regras rigorosas da disciplina militar são necessárias para proteger o Exército contra as derrotas, contra a carnagem e, acima de tudo, contra a desonra”.
Napoleão


Mendes

Anónimo disse...

Mas que grande confusão...

"Não faço continência à porra do seu cão...e..e.. nem a si,apenas faço aos galões que tem nos ombros"...resposta minha a um tenente do quadro com laivos de "bicha"...participou de mim..deu em nada.

Oh..meu capitão..não me apetece fazer isso.

Vamos lá reunir e votar ...as ordens do alferes...

Meus caros desde quando é que a instituição militar...é democrática.

Confunde-se abuso de autoridade..com autoridade inerente à condição militar.

Da minha experiência era tudo igual..com algumas alterações (poucas)...apenas existia menos abuso de poder...

O verdadeiro "leader"..não necessitava e nem necessita de abusar do poder que lhe é conferido.

Que me desculpem os sociólogos,psicólogos e afins..julgo que tudo não passa de masturbação mental.

alfa bravo

C.Martins

Ant' Rosinha disse...

No tempo do Salazar e antes dele, um simples aspirante de botas altas enlouquecia mais bajudas na aldeia que Cristiano Ronaldo no Rio de Janeiro na Copa.

Com a guerra colonial ja sobravam algumas bajudas para os magalas.

A guerra democratizou um pouco!

Anónimo disse...

Amigo Luis e seus camaradas, boa noite, estive em Mafra em 1962 (2 de Agosto)nesse tempo já lhe chamavamos "O Calhau em Máfrica", o "Com vento de Mafra", foi duro o meu COM e de meus camaradas cadetes, mas direi que foi diferente da vida, mas como estava habituado a desporto "auguentei" fui depois para o RI 15 e .... voluntariaram-me para o 1º CIOE no CMEFED em Máfrica, mais quse tres meses de tortura mafricaniana, conheci aldeias que nem nas minhas paródias tinha conhecido, correndo, saltando, marchando, emlameando a fardita, a trombita e por aí abaixo, mas com isto gostava de obter uma informação :- Quando foi o começo destes Cursos? em que ano ? De quelque façon, vai daqui um abraço colectivo com desjo de Bom Natal e um Feliz Ano Novo.
Rui G dos Santos