quarta-feira, 17 de junho de 2015

Guiné 63/74 - P14759: (Ex)citações (283): Sexo em tempo de guerra... Um caso de violação, em que foi condenado um camarada do António Reis, ex-1º cabo aux enf, HM 241, Bissau, 1966/68, autor do livro "A jornada em África".


Capa do livro de António Reis, agora aumentado e reeditado: "A minha jornada em África", Vila Nova de Gaia, Palavras &  Rimas, 2015, 110 pp.  O autor foi 1º cabo aux enf, HM 241, Bissau, 1966-68 (*). E teve a gentileza de nos mandar 3 exemplares do seu livro. Vamos fazer a sua devida nota de leitura.


1. Excerto: "A justiça não tinha cor", por António Reis…

O colega P., mas que não se chamava Pedro, era um colega porreirinho e era um bom colega, mas um dia a cabeça não teve juízo, foi o corpo quem pagou. Foi acusado de violação. Nós, por ironia, dizíamos: “Não estava a mãe, foi a filha”.

A verdade é que esta mãe não teve receio perante a situação de levar a filha ao hospital e apresentar queixa. Esta mãe não teve receio de represálias.

O colega P. terminou a comissão e continuou em serviço a aguardar julgamento. Não me recordo qauntos foram os meses que teve de aguardar até que chegasse o julgamento. Julgado, a sentença foi: “Prisão com ele!”.

Também não me recordo o tempo que esteve preso, mas recordo-me de o ter ido visitar à cadeia do Quartel-General em Bissau.

No mato era olho por olho, dente por dente. Fora do cenário de guerra havia respeito e carinho pelas populações.” (…).

Excerto publicado com a devida vénia: In: REIS, António – A minha jornada em África: a todos os netos, a verdade que eu vi!. Vila Nova de Gaia: Palavras & Rimas Lda, 2015, p. 81

2. Comentário do editor: 

Não sabemos, infelizmente, quantos casos, semelhantes, por alegada violação de mulheres, foram parar à justiça militar. Este caso, passado com um camarada (presumivelmente maqueiro ou auxiliar de enfermeiro)  que fazia serviço no HM 241, em Bissau, ocorreu no tempo do governador e com-chefe gen Arnaldo Schulz,  antecessor de Spínola.  (O autor do livro, nascido em 1944. em  Avintes, Vila Nova de Gaia, esteve no TO da Guiné entre 13 de março de 1996 e 20 de março de 1968). E é uma das 27 histórias compõem o livro, nesta nova edição com a chancela de Palavras & Rimas Lda.

E vem a propósito citar uma carta que escrevi de Bissau, em 10/2/1970, onde refiro ter conhecido, nos Adidos, um capitão e um furriel, da mesma companhia, que estavam a contas com a justiça por alegados crimes de  "violação e assassínio a sangue frio de bajudas, além da tortura e liquidação de suspeitos" (**)... Na altura, em Bissau,  o caso era muito badalado, e o furriel, o único que foi condenado (, segundo depois vim a saber, ainda há pouco tempo) , é conhecido de alguns camaradas nossos da Tabanca da Linha.

A haver mais casos, na época,  de violação de mulheres guineenses, por parte de militares portugueses, seria interessante (e importante, para todos nós, ex-combatentes), que eles pudessem vir a ser relatados e publicados no nosso blogue, sem a identificação, obviamente, dos seus autores e das suas vítimas. (***)
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Notas do editor:

(*) 5 de janeiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5596: O mundo é pequeno e a nossa Tabanca... é grande (20): Antonio Reis, ex-1º Cabo Enf, Bissau, HM 241, 1966-1968, e escritor (Rui Alexandrino Ferreira / Luís Graça)

(**)  Vd. poste de 14 de novembro de 2007 >  Guiné 63/74 - P2264: Blogue-fora-nada: O melhor de... (3): Carta de Bissau, longe do Vietname: talvez apanhe o barco da Gouveia amanhã (Luís Graça)

(...) De facto, aqui desaguam todos os rios humanos da Guiné: a carne que já foi do canhão e agora é do bisturi (ou dos vermes, em caixões de chumbo, discretamente empilhados, à espera que o Niassa ou o Uíge ou o Alfredo da Silva os levem nos seus porões nauseabundos); os desenfiados, como eu, todos os que procuram safar-se do inferno verde, quanto mais não seja por uns dias ou até umas breves horas, que o tempo aqui conta-se, de cronómetro na mão, até à fracção de segundo; os prisioneiros de guerra, esfarrapados, andrajosos, a caminho da Ilha das Galinhas; as populações do interior desalojadas pela guerra; os jovens recrutados para a nova força africana; enfim, os criminosos de guerra como o capitão P. que está aqui detido no Depósito Geral de Adidos à espera de julgamento em tribunal militar – suponho eu -, juntamente com um furriel miliciano da sua companhia. Ambos estão implicados em vários casos, muito falados, de violação e assassínio a sangue frio de bajudas, além da tortura e liquidação de suspeitos. (...)

(***) Último poste da série > 15 de junho de 2015 > Guiné 63/74 - P14746: (Ex)citações (282): Sexo em tempo de guerra... Ha(via) um raio de um "santo inquisidor" dentro de cada um de nós... (Francisco Baptista, natural de Brunhoso, Mogadouro; ex-alf mil inf, CCAÇ 2616, Buba, 1970/71, e CART 2732 , Mansabá, 1971/72)

1 comentário:

Luís Graça disse...

Zé Martins: Será que os processos de justiça militar existem em arquivo, e nomeadamente no Arquico Histórico-Militar ? E será que podem ser consultados, mesmo com restrições ? Haverá estatísticas sobre a justiça militar no tempo da guerra colonial ?

Vê se me sabes responder... É um pedido para o teu "consultório militar"... Um alfabravo. Luis