segunda-feira, 15 de junho de 2015

Guiné 63/74 - P14746: (Ex)citações (282): Sexo em tempo de guerra... Ha(via) um raio de um "santo inquisidor" dentro de cada um de nós... (Francisco Baptista, natural de Brunhoso, Mogadouro; ex-alf mil inf, CCAÇ 2616, Buba, 1970/71, e CART 2732 , Mansabá, 1971/72)

Francisco Baptista, hoje
1. Mensagem, de 6 do corrente, do Francisco Baptista [ ex-alf mil inf, CCAÇ 2616 / BCAÇ 2892 (Buba, 1970/71) e CART 2732 (Mansabá, 1971/72)] (*)


Em Buba, bem perto de Nhala, terra de fulas, onde estive 17 meses, só havia uma bajuda balanta. As outras mulheres, cerca de trinta ou menos, eram casadas com soldados da milícia.

Tinha uma lavadeira,chamada Suado, com uma tez bastante clara, com um rosto sem ser redondo, nem comprido, perfeito e simétrico, uns olhos negros, vivos, cintilantes, uns dentes alvos e perfeitos, que davam mais graça ao olhar quando sorria.´

Tinha um filho de alguns meses, os soldados do meu pelotão diziam por vezes na brincadeira, que ele era filho do falecido alferes Queiroz, que eu tinha ido substituir. Não era, pela simples contagem  dos tempos se percebia isso. 

A Suado era uma jovem alegre e divertida, tinha uma pele que ao contacto, parecia de seda, uma Xerazade islâmica, que com inteligência, sorrisos sedutores e pequenas conversas, que não chegavam a ser estórias, conservava o cliente e a amizade entre homem e mulher que é tão difícil cultivar.

Fui para Mansabá, os restantes 7 meses, já sonâmbulo e desinteressado dos movimentos da Terra, contente com o cheiro e o calor dessa África, que embala os homens como meninos, quando querem dormir.

Francisco Baptista, c. 1970/72
Em Mansabá lembro-me duma bajuda, que gostava de namoriscar com todos os tropas, sem ser muito bela, não deixava de ser simpática nesse convívio divertido com a malta. Não sei, nunca quis saber se haveria outro envolvimento, com alguns, para lá dessas chalaças, tanto do agrado dos homens e das mulheres.

O que escrevi atrás é em parte uma cópia do comentário que fiz ao poste nº. 14519 do nosso amigo Manuel Carvalho, sobre os bailaricos de Jolmete. Transcrevi-o por me parecer que se enquadra
neste diálogo que se pretende mais objectivo sobre as nossas relações com as mulheres da Guiné.

Temos que aceitar que para a maioria dos militares de todas as frentes de combate não havia religião ou moral que pudesse combater essa urgência, tão premente,provocada pela idade, pela angústia dos dias, do que o relaxe que podiam sentir numa relação intíma nos braços duma mulher, o mais amigável possível.

É elementar em toda a natureza a atracção entre o masculino e o feminino, se as raparigas das nossas aldeias ou do nossas ruas ou bairros citadinos estavam longe íamos sentir atracção sexual por outras mulheres que estivessem mais próximas. É díficil reprimir a natureza e estavamos nos nossos verdes anos com produção de muitas hormonas. Alguns dos nossos camaradas já eram casados, outros teriam casado se não fosse esse longo exílio de dois anos de guerra. 

Alguns para maior desgraça perderam a mulher com quem sonharam casar porque ela entretanto teve outras solicitações e não conseguiu esperar. Mas nas sociedades patriarcais de subsistência, onde a repressão se exercia mais sobre as mulheres, até a atracção sexual delas ficava condicionada às exigências sociais e religiosas. Uma sociedade reprimida deixa de poder ter comportamentos normais para ter comportamentos estereotipados.

Em relação às mulheres terei sido um como os outros mais ou menos tentado, se bem que tanto em Buba como em Mansabá as bajudas ou mulheres islâmicas ou islamizadas (as mandingas de Mansabá) tinham um pudor e conceito de honra que superava as católicas de Portugal.

Dos 80 ou 90 por cento dos militares que, segundo Jorge Cabral (**), não tiveram qualquer relação sexual em África, na sua maioria terão tentado conseguir esse objectivo, sem êxito. Descontando os tais 5 ou 10 por cento de homossexuais e os outros 10 por cento de demasiado tímidos. Portanto 60 a 70 por cento terá tentado a sua sorte, a grande maioria sem êxito.

Eu que teoricamente me inclinava pelo amor livre, já não sei se por convicção ou para benefício próprio, teria uma trabalheira enorme em convencer desse jeito as mulheres da tabanca , já que as da minha aldeia ou região não iam muito nessa treta. A minha consciência sempre demasiado vigilante e pronta a acusar-me, nunca me permitiu usar de artifícios e artimanhas para
fazer mais uma conquista. 



Guiné > Região Leste > Setor L1 (Bambadinca) > Fá Mandinga > Pel Caç Nat 63 > c. 1969/1970> O Jorge Cabral e as suas queridas bajudas mandingas... E a propósito, diz ele na estória cabraliana nº 25 (***): "Contaram-me que uma bajuda que tivera um filho do Furriel X, o seguiu até Bissau, e na hora da partida do navio entrou na água com o bebé, tendo morrido ambos. Então jovem e ingénuo literato, cheguei a alinhavar uma ópera, na qual imaginava o militar em pranto, a querer lançar-se ao mar e a ser impedido pela força das armas" (JC)…

Foto: © Jorge Cabral (2006). Todos os direitos reservados [Com um grande abraço, "alfero Cabral",  e votos de boas melhoras]

Na minha consciência mora um padre da inquisição que me tem infernizado os dias e me tem privado de muita da alegria que a vida me podia proporcionar. Uma longa ditadura que tanto nós como os nossos pais sofremos encheu-nos a alma de fantasmas inquisidores. Ficamos destroçados por eles e por uma guerra noutro continente que nos caiu em cima e não procurámos.

Não vou julgar ninguém, estávamos todos deslocados, a muitos milhares de quilómetros da nossa terra numa idade em que não tínhamos a presença e as palavras da mãe, das irmãs, ou das namoradas para acalmar a nossa ansiedade.

Desculpo todos esses camaradas mais carentes ou saudosista do abraço e carinho de uma mulher, que conseguiram ter esse conforto tão importante para ajudar a suportar esses dias de desolação e pesadelo. Sobre as consequências desses actos já me pronunciei . Sem querer fazer julgamentos sumários, já que não sou juiz, nem padre de qualquer religião, um dia poderei dar uma opinião mais extensa do que a que já dei . Hoje acho que já basta, para qualquer camarada que tenha a paciência de me ler.

Um abraço, Francisco Baptista
____________

Notas do editor:


(...) E o Amor, existiu? Não falo de mulheres grandes a partir catota, nem de bajudas a partir punho, e muito menos das rápidas e alcoolizadas visitas às casas de prazer, para... mudar o óleo. Amor mesmo, paixão, dele para ela, dela para ele. Difícil, raro, mas aconteceu. (...)

3 comentários:

Anónimo disse...

Caros Combatentes:

Nas palavras do Francisco Baptista há beleza, sinceridade e verdade.
Nunca encarei este assunto - sexo na Guiné - na perspectiva do julgamento da nossa conduta, da conduta de cada um. Outra coisa bem distinta é considerar que os filhos de combatentes portugueses têm o direito de saberem quem são os seus pais, se o pretenderem pois é um direito natural bem como o direito à nacionalidade portuguesa.

Um abração
Carvalho de Mampatá

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas
As respostas ao inquérito do Luís explicam o que sucedeu.
Há razões para isso, de vária ordem e de bastantes tipos. Seria curioso saber quais e quantos.
Claro que alguns (muito poucos, como sabemos) militares deixaram lá filhos, mas infelizmente, não há (especialmente hoje) nada que se possa fazer.
Este assunto já foi abordado sob todos os ângulos e não há inocentes... nem culpados/as.
Um Ab.
António J. P.Costa

Lucineide Brito disse...

Sinceridade e tudo...