terça-feira, 11 de agosto de 2015

Guiné 63/74 - P14993: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (15): De 19 a 22 de Junho de 1973

1. Em mensagem do dia 6 de Agosto de 2015, o nosso camarada António Murta, ex-Alf Mil Inf.ª Minas e Armadilhas da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (Aldeia Formosa, Nhala e Buba, 1973/74), enviou-nos mais uma página do seu Caderno de Memórias.


CADERNO DE MEMÓRIAS
A. MURTA – GUINÉ, 1973-74 

15 -  De 19 a 22 de Junho de 1973


19 a 22-06 1973

Da História da Unidade BCAÇ 4513:

JUN73/19 – Forças da CCAÇ 18 detectaram e levantaram em NHACOBÁ 1 mina antipessoal IN.

Passados 15 minutos foram flagelados durante 5 minutos com cerca de 20 granadas de morteiro 60 e RPG-7 da direcção S-SW, sem consequências.  
[Este doc. Não refere a minha 2ª CCAÇ, mas estivemos todos em Nhacobá ao lado da CCAÇ 18. Há outros dados que não coincidem, mas podem ser falhas minhas].

Do meu diário:

19 de Junho de 1973 – (terça-feira) – Aldeia Formosa; Nhacobá e o nosso segundo ataque.

Missão: protecção às máquinas que trabalham em Nhacobá. Na estrada já pouco falta fazer. Para Nhacobá foi toda a minha Companhia juntamente com a CCAÇ 18 (Companhia africana). Até lá, tudo foi rotina: saída de Aldeia Formosa em coluna, chegada a Cumbijã e caminhada a pé até Nhacobá. Seguiu a “18” à frente, logo seguida do meu grupo e depois os restantes. Todo o caminho esperei uma emboscada ou coisa parecida, mas nada aconteceu. A chegada a Nhacobá foi demorada, devido à lentidão da picagem da estrada. Apesar de termos chegado a Cumbijã cerca das 7h30, só por volta das 10 e picos entrámos em Nhacobá.

Mal tínhamos acabado de montar o dispositivo de defesa e eis que se desencadeia infernal flagelação, partindo das palmeiras na orla da mata em frente, do outro lado da bolanha. O costume. Nós estávamos na orla da mata de Nhacobá, com a bolanha, portanto, a separar-nos no frente-a-frente. A resposta foi rápida e partiu principalmente da “18”, muito mais experiente do que nós. Dada a posição do meu grupo na orla, de vegetação muito densa, era quase impossível fazer fogo a não ser de morteiro. Mesmo este, após o lançamento da primeira granada, ficou inoperacional por se ter enterrado no chão demasiado mole, castigado pelos últimos temporais. Para usar a bazuca, só saindo a campo aberto, muito perigoso, mas como fez um soldado da “18” perto de mim, com um camarada incansável a municiá-lo, correndo para enfiar a granada e logo voltando para pegar outra, correndo de novo à frente... Gostei de ver, mas quando o apontador “decapitou” a palmeira na nossa frente, afastei-me para local mais recatado. Estavam a atacar-nos com morteiro 82 e com RPG que desfolhavam as árvores por cima das nossas cabeças. Não demorou mais de 10 minutos a troca de galhardetes, mas nós continuámos a fazer fogo, cerca de 15 minutos mais. É uma tensão enorme a que se sente e dez minutos parecem uma eternidade. Felizmente sem vítimas, tirando as palmeiras com bocados arrancados.

Para o meu grupo é o segundo ataque, sendo este, sem dúvida, o mais forte. Para os restantes grupos da minha Companhia é o baptismo de fogo. Acabado o ataque de flagelação, todos os trabalhos recomeçaram, tanto para as máquinas como para os homens que desmatavam à catanada e à machadada, o local do futuro (?) destacamento. Cerca das 14h30 acabaram os trabalhos de hoje e todos regressaram nas viaturas que já nos esperavam. Todos excepto a CCAÇ 18, pois que esta Companhia mártir terá que dormir ali esta noite.

Ao fim da tarde, já em Aldeia Formosa, assisti a um fenómeno meteorológico surreal, nunca visto, o mais maravilhoso espectáculo natural da minha vida: vento ciclónico manteve em suspensão um volume incalculável de finíssimo pó que, cobrindo tudo, não deixava ver nada para além de 10 metros. Nem os edifícios. Em contraluz, com o sol perto do ocaso, toda aquela espessa cortina de pó irradiava amarelo dourado, criando uma atmosfera opaca e imaterial. De repente, o vento aumentou mais a sua velocidade, desabando então uma chuva torrencial que, aos poucos, fez desaparecer aquela visão amarela e a seguir tudo lavou. Veio acompanhada de grande trovoada, que se prolongou com a chuva mesmo depois de o vento ter cessado. E prolongar-se-iam por muito tempo, a chuva e a trovoada, apanhando sem defesa quem estivesse no mato como, por exemplo, a “18” em Nhacobá.


Da História da Unidade do BCAÇ 4513:

JUN73/20

- A 1.ª CCAÇ detectou e levantou em NHACOBÁ 1 mina antipessoal IN PMN.

- Máquina da Engenharia accionou perto do mesmo local 1 mina antipessoal, sem consequências.


Do meu diário:

20 de Junho de 1973 – (quarta-feira) – Aldeia Formosa; Descanso.

Dia de descanso. Em Nhacobá hoje não houve flagelação para a Companhia que foi substituir a “18”. Hoje já saíram de Aldeia Formosa alguns camaradas para férias. Em breve estarão na Metrópole e certamente que lá, estranharão que ninguém se atire ao chão quando uma porta bate.

Soube ao fim da tarde que amanhã irei com a Companhia para Nhacobá, mas desta vez para lá passar a noite. É a nossa vez. Não gelei, mas só por causa da minha actual indiferença por tudo, estúpida e sem sentido. Toda a gente tem medo, porque não o hei-de ter também? Não sei, mas fiquei indiferente à notícia. Só tenho pena dos meus soldados, esses heróis anónimos a quem tudo falta e de quem nunca tive uma recusa, tão pouco uma queixa. Reagiram sem medo ao último ataque que tivemos em Nhacobá. Mas..., e se tivessem? Que preparação técnica, física e psicológica lhes foi ministrada? A única preparação séria tem sido a dos últimos tempos aqui na zona. E têm cumprido.

Notícias colhidas já ao fim do dia: em Nhacobá foi accionada uma mina anticarro, que apenas partiu uma ponta da pá do Caterpillar que a accionou; da Metrópole um camarada recebeu, juntamente com um jornal desportivo, uma página do “Diário de Notícias” dando destaque à grande actividade militar aqui na Guiné. Não sei se é inédito, mas referenciava uma série de localidades ultimamente flageladas. Fiquei a saber que, para além de Nhacobá, Guidage, Guilege e Aldeia Formosa, que o jornal também cita mas que é do conhecimento de todos, foram também atacados mais de uma dezena de destacamentos. À data, parece que a Metrópole tem os olhos postos nisto aqui e, creio, não deve ser sem uma certa apreensão. Também a nós, cá, estas notícias com uma visão mais global da situação, deixa preocupados e consternados.

Soube também, e isso foi o que mais me horrorizou, que o meu “paraíso” de Nhala está em vias de ser atacado em grande escala, com mísseis e foguetões. Isto, segundo informações recebidas de lá e tendo por base documentos militares da hierarquia (Perintrps?). Ficaram, para mim, confirmados os boatos que corriam por aqui, a título confidencial [?] sobre a situação de Nhala. E é muito possível que ataquem, pois devem ter informação de que, em Nhala, estão apenas dois grupos de combate e um deles tem que fazer as saídas normais para o mato. Coisa curiosa é que há mais de dois anos que não há ali o mínimo problema com a guerrilha.


Da História da Unidade do BCAÇ 4513:

JUN73/21

- Pelas 10h05 grupo IN não estimado flagelou durante 10 minutos da direcção S-SW, com cerca de 15 granadas de canhão-sem recuo, 30 granadas de morteiro 82 e RPG-7, forças da 2.ª CCAÇ que faziam protecção aos trabalhos de Engenharia causando 2 feridos graves.

- Forças da CART 6250 [Mampatá] detectaram e levantaram em Nhacobá 1 mina antipessoal IN.

- Máquina da Engenharia accionou outra sem consequências.


Do meu diário:

21 de Junho de 1973 – (quinta-feira) – Nhacobá todo o dia e toda anoite; 2.ª flagelação (3.º ataque no currículo).

Estes apontamentos, referentes aos acontecimentos da parte da manhã, estão a ser escritos dentro da mata de Nhacobá, mesmo em frente à bolanha que nos separa dos locais de onde normalmente partem os ataques para aqui.

Hoje a nossa missão é defendermos isto até amanhã de manhã. Até à chegada nada se verificou de anormal. Está aqui a minha Companhia e alguns grupos de Mampatá. Depois de fazermos a picagem de toda a zona, incluindo a área de trabalho das máquinas, instalámo-nos ao longo da orla da mata, frente à bolanha. Ontem foi a vez de a 1.ª Companhia passar cá a noite.

Há bocado, cerca das 9h15, rebentou uma mina antipessoal accionada por uma das máquinas que trabalham aqui na “pedreira” perto, mas sem consequências. Uma vez que o meu grupo tinha estado ali a fazer a picagem para detecção, saí para saber como aconteceu, onde estava a mina, dialogar com o operador da máquina e tentar perceber se o monte de terra onde a mina fora colocada estaria seguro para continuar o trabalho. De regresso ao meu grupo, fui surpreendido por um rebentamento forte e depois outro, e outro..., dentro da mata, em toda a volta. Era um ataque e eu abriguei-me como pude junto ao tronco de uma das árvores. Estava ainda longe dos meus homens e não podia fazer nada a não ser esperar. Esperei sozinho, sempre a contar com o pior, mas muito calmo. Entretanto as explosões prosseguiam, tanto no ar (RPG 7) contra as copas das árvores, como no chão à nossa volta (RPG e morteiro ou canhão). Isto é aflitivo, pois não sabemos qual a posição para defendermos melhor o corpo: deitados protegemo-nos melhor das granadas de morteiro mas, por outro lado, ficamos à mercê dos finíssimos estilhaços dos RPG 7 que rebentam por cima de nós em todas as direcções. Aflitivo é também o barulho aterrador das detonações em cadeia, que fazem os ouvidos zunir. E a pressão psicológica, não menos aflitiva, de sabermos que tudo aquilo é endereçado a nós e que a ideia deles é mesmo matar-nos.
[Recordo que, apesar de estar sereno - não tremia -, senti crescer um nó na garganta que quase me sufocava. E sabia que se entrasse em acção, isso passava logo].
Enfim, são minutos de incerteza e de esperança, e foi nesse estado de espírito que me apercebi da cadência de disparo do meu morteiro, lá para os lados do meu grupo. Ou pelo menos foi isso que me pareceu distinguir naquela balbúrdia de rebentamentos. Alarmado, levantei-me ainda debaixo de fogo e corri para o local do morteiro, onde cheguei berrando para que parassem, até porque se percebia já um afrouxamento da flagelação. O meu maior medo era que tivéssemos outro ataque durante o dia - ou à noite -, e nos faltasse material para nos defendermos, ao passo que ali, com tanta tropa, isso não me preocupava nada.

Já tinham lançado 16 granadas mas:
- “Meu alferes, não posso parar, agora que estou ali a ver as “saídas” deles! Além disso, ainda tenho aqui três granadas descavilhadas!
- Porra, manda lá essa merda e pára com isso senão estamos lixados, - disse eu sem outro remédio mas ao mesmo tempo agradado com o entusiasmo e o desplante do homem. E lá foram mais três granadas para o outro lado da bolanha, para aquela linha de mata fodida, talvez a uns 300 metros daqui, não sei bem. Começou tudo às 9 e 50 exactamente.

Nhacobá, 1973 – Fotografia colhida na orla da mata, vendo-se a bolanha e a mata em frente de onde partiam os ataques sucessivos.

Foi o terceiro ataque sofrido pelo meu grupo no espaço de 9 dias. Ora, como as nossas saídas são dia-sim, dia-não, verifico que em 4 dias e meio, fomos atacados 3 vezes. Esta flagelação teve a duração de 10 minutos (como a de anteontem), mas foi mais violenta e à base de morteirada. Da nossa parte a resposta foi imediata e com grande potencial porque estão aqui seis grupos de combate, creio. Mesmo depois de se terem “calado”, ainda batemos aquela zona durante bastante tempo. Só que desta vez não fomos tão bafejados pela sorte, como nas vezes anteriores, pois tivemos vários feridos: dois milícias (ou soldados da CCAÇ 18?), com ferimentos ligeiros na cabeça e nas costas, e dois soldados do grupo do meu camarada Alf. J. A. C. P. com ferimentos graves. Estes foram logo evacuados nas Chaimites, mas receia-se já pela vida de um deles, que tinha dois grandes buracos nas costas, (supõe-se que com estilhaços dentro) e grande perda de sangue. Quando saiu já mal falava e, infelizmente, foi sem que um dos nossos auxiliares de enfermagem tivesse chegado junto dele para o assistir.

[Hoje, (Agosto de 2015), devo referir um episódio relacionado com estes dois feridos graves e que não foi registado no meu diário. Antes, dizer que felizmente, ambos regressaram um dia de Bissau e que, por determinação louvável do Cap. B. da C., não mais sairiam para o mato. Ficaram com o encargo das messes e respectivos bares até ao fim da comissão.
É referido atrás, no meu diário, que estes feridos não tiveram assistência de enfermagem antes da evacuação, mas não recordo o motivo de não ter aparecido o auxiliar de enfermagem do 1º grupo de combate a que pertenciam. Recordo, sim, um episódio relacionado e que, na altura, me deixou irritadíssimo e que se passou assim: após aquele diálogo entre mim e o apontador do morteiro do meu grupo que queria lançar as granadas todas, ainda durante a flagelação mas quando já dava o diálogo por encerrado, começámos a ouvir gritos aflitos que, pareceu-me, reclamavam um morteiro. Reconhecemos a voz do alferes do 1º grupo, já citado, que se encontrava bastante afastado de nós e que parecia dizer com insistência: “— Trás morteiro! Trás morteiro!”. Meio perplexo, porque ele também tinha morteiro e porque a flagelação dava sinais de parar, ainda admiti que tivesse perdido o morteiro enterrado no chão e que quisesse continuar o contra-ataque. Não dava para perceber, nem havia muito tempo para isso. Eu, com o apontador e o municiador do nosso morteiro, pegámos nas granadas e no tubo e corremos como malucos pela mata fora, - julgo que já sem rebentamentos à volta -, para chegar ao local de onde partiam os apelos. Ainda não tínhamos chegado bem, quando o alferes, vendo-nos e percebendo o equívoco, berrou furioso: “— Não é o morteiro, é o enfermeiro!...” Eram os nervos à flor da pele. Fiquei ainda mais furioso do que ele, até por não saber porque não tinha enfermeiro. Mandei de volta o morteiro e as granadas e a ordem para vir rápido o nosso cabo enfermeiro, mas já não chegou a tempo, pois os feridos tiveram de ser evacuados para A. Formosa. Ainda recordo o Alf. J. A. C. P. de joelhos no chão amparando o seu soldado ferido nas costas. Eram realmente dois ferimentos impressionantes].
Segue o meu diário.

As árvores, junto do local do rebentamento da granada de morteiro que feriu os quatro soldados, estão crivadas de estilhaços por onde, agora, corre seiva. O alferes pode considerar-se feliz: estava atrás de uma árvore a uns seis metros do local onde caiu a granada e não sofreu absolutamente nada. Também à mesma distância e atrás de outra árvore se encontrava o ferido mais grave, só que não estava deitado mas sim de joelhos. Um erro que lhe saiu caro.

Pouco antes desta flagelação, a nossa aviação tinha largado bombas não muito longe daqui mas, por azar, tinha-se afastado, talvez para trazer mais. Já depois de tudo ter acabado, apareceram novamente e estiveram a bater a zona, tendo algumas das bombas caído quase junto a nós, um pouco para a direita. Seguiu-se o vaivém do costume e por longo tempo: iam a Bissau buscar os seus ovos mortais e vinham depois aqui desovar, regressando de imediato para trazer mais. Isto dá-me alguma tranquilidade, já que temos que aqui passar a noite.

Entretanto, também os obuses de Cumbijã faziam o batimento da zona, mesmo na nossa frente, seguindo as indicações que pela rádio lhes eram transmitidas por um dos grupos de Mampatá (creio que do camarada Farinha), que estão aqui connosco.

Chegou há momentos até mim a informação de que, ali atrás, junto aos trabalhos da Engenharia, foi encontrada uma “Viúva Negra”. Mais uma mina que escapou às picas. Fui inteirar-me do ocorrido: um soldado agachou-se encostado a uma árvore para se sentar e, ao pôr a mão no chão, sentiu a terra fofa e algo duro por baixo. Teve um estremecimento e um palpite certeiro: ia sentar-se em cima de uma mina antipessoal. Ergueu-se e tratou de que a pessoa certa fizesse o levantamento da mina. São neste momento 13 e 55. Às 14 e 30 acabarão os trabalhos de Engenharia e certamente sairemos daqui para uma posição mais recuada onde passaremos a noite.
[Penso que a ordem era dormirmos dentro de Nhacobá, mas como tínhamos de ser nós a usar o bom senso para nos defendermos, afastámo-nos para as imediações].

(Apontamentos continuados já em Aldeia Formosa, no dia seguinte). Afastámo-nos cerca de 500 metros de Nhacobá e instalámo-nos paralelamente à estrada para Cumbijã, 15 metros dentro da mata. Ainda de dia, vimos aproximarem-se três Fiat que, de repente, picaram em direcção a Nhacobá e todos largaram fiadas de bombas que rebentaram no solo com um fragor assustador.

São quase 18 horas e eu como alguma coisa da ração de combate. O pessoal, como sempre, acomodou-se sem cerimónias num longo cordão humano. Está aqui toda a 2.ª Companhia. Aproveitando o entardecer sereno, tento cortar capim com a faca de mato para acondicionar, sob o pano de tenda, o local da pernoita. Digo, tento, porque tenho uma rotura no pulso esquerdo e quase não posso fazer força. Para piorar, ao agarrar o capim com essa mão, sou picado por uma abelha mesmo entre os dedos. Faço nova tentativa, mas de novo aperto outra abelha juntamente com o capim: nova picadela. Receando ficar com mão inchada, desisti. Tudo corre mal hoje! Resolvi então descansar um bocado, pois já não me seguro de pé com o cansaço e o sono. Previno o rapaz das transmissões e o enfermeiro que estão junto a mim, e deito-me no chão todo abotoado, embrulhado no pano de tenda e com meias grossas enfiadas nas mãos. Transpiro sem parar, mas só assim consigo evitar um pouco os malditos mosquitos.

Nhacobá, 21 de Junho de 1973 – Eu, junto do capim das abelhas, na mata onde passaria a noite.

Sem legenda.

Acordo já de noite e está tudo calmo. Tento dormir mais umas horas, mas o zum-zum dos mosquitos é desesperante e já estou cheio de picadelas. Até nas costas me picaram através do pano de tenda e do camuflado.
[Havia um soldado que, modulando a voz para imitar o zumbido dos mosquitos, dizia: “Tennnnnnssssssss..., companhia!!!”. Conseguia animar todos à volta e animar-se a si próprio para que as picadelas não doessem tanto].

Como se aproxima o temporal do costume, a estas horas, prefiro sentar-me enrolado de novo e esperar. Não tardou nada para que viesse a chuva, mas desta vez não durou mais de uma hora. Enquanto choveu estive de costas contra uma árvore e sentado nos calcanhares, para evitar a enxurrada por baixo de mim. O dilúvio entrava-me pela cabeça e pelas costas e escorria-me continuamente pelo cu. Tive de alhear-me e manter-me quieto, enquanto por cima de nós, para ajudar, desabava uma potente trovoada. A cada relâmpago as árvores na nossa frente, subitamente iluminadas, pareciam agigantar-se e tombar sobre nós, ameaçadoras, para logo parecer que se afastavam com o regresso do negrume da noite. Isto não é mesmo para meninos. Cessou a chuva mas os relâmpagos ainda persistiram por muito tempo, até que gradualmente se afastaram, permanecendo ziguezagueando lá longe como fitas de luz azul.

À minha volta não vejo nada nem ninguém. Acabados os relâmpagos, parece que fiquei sozinho. Será que todos dormem? Faço-me novamente num rebuçado, todo encharcado, e durmo várias horas seguidas mas com pesadelos. Vi vários vultos no meio da bolanha de Nhacobá a prepararem um morteiro e ouço, quase a seguir, uma brutal explosão junto de mim. Dou um salto e tiro à pressa o lenço de seda que me protegia a cara e pergunto ao rapaz das transmissões onde foi a explosão. Ele, assustado com a minha atitude, demorou a responder, mas depois lá disse que não tinha acontecido nada. Realmente, reparo, e à volta está tudo tranquilo. Tento adormecer novamente, mas os mosquitos são aos milhares e dão-me cabo dos nervos. Quase enlouqueço com tal tortura.

Volto a acordar e tudo continua calmo. Desta vez até a noite parece menos feia. Lá no alto está a lua um pouco pálida, mas com a sua fraca luz, já impede que os arbustos e as palmeiras, ao mexerem na escuridão, me pareçam figuras fantasmagóricas. Esta maldita noite parece não ter mais fim. Adormeço novamente e, desta vez, têm que me acordar, pois já é dia e temos que sair imediatamente para Cumbijã.

(22-06-73). Preparamos tudo e lá seguimos estrada fora, cheios de precauções e carregados com caixotes de granadas que nos entregaram ontem num reabastecimento tardio.
[Afinal não era preciso poupar nas granadas!].
Finalmente, chegamos pelas 7 e picos a Cumbijã, já todos transpirados e esgotados. Aguardámos a coluna normal da manhã e regressámos a Aldeia Formosa nas viaturas que trouxeram a 3.ª Companhia que nos vem substituir. Chegamos a Aldeia Formosa, temos o resto do dia para descansar.

À tardinha vem-me avisar que o Oliveira (Tarouca) se está a sentir mal e já não fala. Corro a arranjar uma Berliet e peço ao Capitão de Operações J. C. que me previna o médico. Saio na viatura com os meus furriéis em direcção à escola de Monsanto, onde tinha o meu grupo instalado, e trouxemos o rapaz para a enfermaria onde já nos esperava o médico que, depois de o auscultar-analisar, lhe receitou uma série de medicamentos que depois os enfermeiros se encarregarão de lhe ministrar. Suspeitam de princípio de paludismo com uma infecção renal. Vai ficar algum tempo na enfermaria até recuperar.
[Admiração é não termos ficado lá todos na enfermaria!].

Soube ainda hoje que os dois soldados do grupo do Alf. J. A. C. P., ontem feridos em Nhacobá, devem estar fora de perigo, porque quando foram evacuados de avião daqui para Bissau, já falavam calmamente. Soube também que a 3.ª CCAÇ, até à noite, ainda não tinha tido problemas em Nhacobá.

(continua)

Texto e fotos: © António Murta
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Nota do editor

Último poste da série de 4 de agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P14971: Caderno de Memórias de A. Murta, ex-Alf Mil da 2.ª CCAÇ/BCAÇ 4513 (14): 15 a 18 de Junho de 1973

6 comentários:

Anónimo disse...

Caro Murta:

Só posso dizer, em sintonia com os meus comentários anteriores que estes relatos são documentos preciosos para a futura história da guerra colonial.

Um abração

Carvalho de Mampatá

António Murta disse...

Amigo Carvalho.

Obrigado pelas tuas palavras.
O problema destes relatos é que fazem doer pela 2ª vez: primeiro quando foram escritos e, agora, ao relê-los e transcrevê-los. Tal como disse o John Steinbeck no seu livro "Correspondente de Guerra", escrito durante a 2ª Guerra Mundial: «(...) Ao ler as velhas reportagens que, nessa altura, escrevi, transbordante de entusiasmo e de vibração, sinto despertarem dentro de mim imagens e emoções que julgara completamente perdidas».
É assim.

Um grande abraço do
A. Murta.

Hélder Valério disse...

Meu caro amigo Murta

Tenho acompanhado com grande interesse e dedicação as tuas memórias.
Ainda não tinha emitido qualquer comentário, não porque não seja merecedor, mas porque, por um lado, fico quase sempre com um "nó na garganta", envolvendo-me na medida do possível, no ambiente descrito e, por outro lado (talvez à laia de desculpa) de que iria 'comentar no fim'....

Ora bem, percebo (ou julgo perceber) os teus sentimentos quando dizes que o relembrar estes episódios te fazem 'doer outra vez'.
Mas, se conseguires ultrapassar isso, não desistas, continua e mostrar como foi pois tens neste relato uma frase 'mortal': "Isto não é mesmo para meninos." Pois não, mas era o que em geral nós éramos e que rapidamente crescemos.
As tuas narrativas sobre os ventos, as 'cargas de água', as picadelas das abelhas, a voracidade dos milhões de mosquitos, o aguentar de cócoras as bátegas de água, enfim, tudo isso e mais o cansaço, a angústia e as acções de guerra propriamente ditas, ficam melhor ilustradas com estas tuas narrativas.

Abraço
Hélder S.

Anónimo disse...

Eu não disse tudo, por isso recomento:
Por certo, as "dores do mato" de que nos falas, foram sentidas e são agora, de certo modo, ressentidas, por muitos, pela maioria dos que leem este blog, porque é bem verdade que a guerra do ultramar foi isso, nua e cruamente, mesmo quando alguns a mitigam com as evocações da juventude, e como é linda a juventude! Pela circunstância de ter sido fur. milic. enfermeiro, poucas vezes saí para o mato para passar a noite, mas quando experimentei não gostei mesmo nada: a água a passar debaixo das costelas, os mosquitos, os ruídos estranhos da mata, os trovões e a espera da manhã quando tudo ou nada aconteceria. Aquela fase da confirmação ou infirmação da ocupação de Nhacobá foi de grande angústia e envolveu a mobilização de muitos meios humanos e materiais. Na verdade vivia-se uma fase crucial da guerra, com mais uma tentativa de se interromper o carreiro de Guiledge, ocupando-se Nhacobá, como em 68 se tinha ocupado Gandembel. Mas agora havia os Strelas...
Um abração
Carvalho de Mampatá

António Murta disse...

Queridos amigos Hélder Valério e Carvalho de Mampatá.

Obrigado pelas vossas palavras de estímulo e pela vossa compreensão pelo meu "modo de sentir", ainda hoje, aquela guerra. A minha sinceridade é absoluta. Mas, coisa inimaginável há meia dúzia de anos, também eu me emociono quando relembro tudo. Ao transcrever as memórias chegam-me a acontecer incidentes comportamentais a raiar o ridículo. Ainda esta tarde, ao digitar o próximo envio, tive um sobressalto que me fez estremecer, só porque, no andar de baixo, a minha mulher pousou um testo inox na banca de granito! E nem vos conto outras do género. Isto dantes não me acontecia. Agora, nessas ocasiões, fecho o assunto, desligo o PC e vou para a rua fumar uma cigarrada porque não vale a pena insistir. Felizmente que nem sempre acontece ficar tão susceptível. Espero continuar.

Um grande abraço para ambos.
A. Murta.

José Carlos Gabriel disse...

Amigo António Murta.
Como disse anteriormente neste momento é muito difícil arranjar tempo para tecer algum comentário não porque o dia não tenha as mesmas 24h mas porque os meus netos não me deixam muito tempo disponível mas mesmo assim antes de me deitar venho sempre ler as novidades. Claro que vais continuar a escrever e a reviver o passado pois é sinónimo de que ainda tens o privilégio de estar vivinho da silva. Custa recordar e reviver tantas dificuldades porque se passou mas não é mais que uma fase das nossas vidas assim como tantas outras. Tens o mesmo vício que eu que é o de agarrar no cigarrinho nos momentos de maior pressão ou angustia. Aqui da terra do frio mas agora com 32º positivos envio aquele abraço amigo.

José Carlos Gabriel