quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Guiné 63/74 - P15066: Em bom português nos entendemos (12): Casamança ou Casamansa ? Como se deve grafar este topónimo do Senegal ? A resposta do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa


Localização de Casamansa no Senegal: Fonte: Cortesia de
Wikipedia
1. Pergunta: Casamança ou Casamansa, Patrício Ribeiro ? (*)

Trata-se de um topónimo do Senegal. Casamance (em francês) foi um território que já pertenceu no passado à ex-colónia portuguesa da Guiné:  recorde-se que  em 13 de maio de 1886, o governo português cedeu aos franceses a região de Ziguinchor e de Casamansa; a França, por sua vez,  cedeu a Portugal a região de Cacine, no sudeste da atual Guiné-Bissau.

Estas trocas (e baldrocas, dirão os africanos)  territoriais  entre potências coloniais europeias,  surgem no âmbito da Conferência de Berlim (1884-1885), que repartiu o continente africano entre ingleses, franceses, belgas, alemães, espanhois e portugueses.

Em 1886, a França reconhecia, além disso,  a Portugal o direito de exercer a sua influência nos territórios entre as possessões portuguesas de Angola e de Moçambique (Mapa Cor-de-Rosa), o que entrava em conflito  com os interesses e pretensões imperiais dos ingleses... Comos e sabe, Portugal, que defendia o chamado "direito histórico",  foi o "grande perdedor" da conferência de Berlim, depois obviamente dos povos africanos...

Quatro anos depois, o nosso "velho aliado" fez-nos um ultimato...

2. A dúvida posta agora ao Patrício Ribeiro, "pai dos tugas" da Guiné-Bissau,  foi já posta ao Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, em 2006... Eis aqui a resposta dos especialistas... Nós, no blogue, também optamos pela grafia "Casamansa" (**)

(...) "José Pedro Machado, no Dicionário Onomástico-Etimológico da Língua Portuguesa, regista Casamansa como designação de um rio que serve de fronteira entre o Senegal e a Guiné-Bissau (África Ocidental). Além disso, é o nome da zona senegalesa atualmente dividida nas regiões de Ziguinchor e Kolda, compreendidas entre o sul da Gâmbia e o referido rio.

O Vocabulário da Língua Portuguesa de Rebelo Gonçalves também inclui a forma Casamansa. E mais recentemente, o Dicionário Temático da Lusofonia (direção e coordenação de Fernando Cristóvão, Lisboa, Texto Editores, 2005) dedica um artigo a Casamansa, grafando este nome com s na última sílaba. A forma “Casamança” não é, portanto, correta, devendo ter surgido por influência do francês “Casamance”. (...)


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6 comentários:

Torcato Mendonca disse...



CASAMANSA (CASAMANÇA NÃO EXISTE).

Casa + pacífica
ou casa + nmansa.

A língua portuguesa é muito rica e, por isso mesmo, há-de sobreviver bem ao estúpido AO.


Ab,T.

Hélder Valério disse...

Casamansa!
De acordo.

De vez em quando surge uma 'corrente' que aplica o 'estrangeirismo' e às vezes isso acaba por 'pegar'.
Quantas e quantas vezes já ouviram o nome próprio "Samora" pronunciado como se fosse uma palavra 'esdrúxula', ou seja acentuada na antepenúltima sílaba, mas que também acentuam a penúltima, que é designada 'grave' e que soa assim "Sámóra"?
Claro que se percebe que isto vem do francês quando referiam "Le President Samora Machel" com a sua pronúncia própria e que depois alguns 'eruditos' copiam, para serem 'modernos'.
Neste fim-de-semana, num programa das festas de Samora Correia a locutora/repórter de serviço foi exactamente corrigida quanto à forma de referir a terra. Gostei de ouvir.

Hélder S.

Luís Graça disse...

Uma chamada de atenção para a página "República Cultural Lusófona" (RCL)... onde se (re)descobrem inesperadas comunidades onde a lusofonia está viva ou não morreu... Há links para:


Alamedilha, Salamanca
Cedilho, Caceres
Firreira de Alcântara, Caceres
La Codosera, Badajoz
Bal de Xalima, na fronteira luso-espanhola 3 povoções manteem um dialecto português
Ziguinchor, a cidade crioula do Senegal
Ano Bom, uma ilha esquecida no meio do Atlântico
Malaca, o Bairro português: "Chang di Padre" Novo: Gramática, e Glossário
Cochim, a presença moribunda de quem teima em existir
Corlai, o refúgio dos fidalgos de Chaul
Ambom, o antigo bastião português nas Molucas
Dio, morremos? nunca...
Galiza, a memória viva de um nome
Ceilão, a fama da música e da canela Novo: Gramática e Dicionário trilingue
Goa, a capital do Império Português do Oriente
Flores, a ilha formosa do leal reino de Larantuca
Tugu, uma alma nunca morre
Macau, cidade do santo nome de Deus, não há outra mais Leal
Os Samaraccan, os mocambos do Surinam
Damão, a euforia da cidade cristã
São João Baptista de Ajudá, o forte português do Benim

http://rcl.com.sapo.pt/page2.html

Luís Graça disse...

Ainda da página República Cultural Lusófona (RCL)...

Sobre Ziguinchor, capital da região de Casamansa, pode ler-se o artigo "Ziguinchor, a vila crioula do Senegal"... Aqaui vão uns excertos:

http://rcl.com.sapo.pt/ziguinchor.html

"Ziguinchor foi fundada pelos portugueses no sec. XVII, em 1645, na margen sul do Rio Casamansa. O seu nome deriva da expressão portuguesa "cheguei e choram", porque os nativos pensaram que os vinham escrevizar. Esta feitoria fora ai sediada para comerciar com o reino de Casamansa o qual era um aliado dos portugueses.

"Segundo as crónicas este era o reino mais amigo dos portugueses, ao longo da costa da Guiné. O rei vivia à moda europeia, com mesa, cadeiras e roupas ocidentais, na sua corte habitavam muitos portugueses onde comerciavam e faziam cortesia ao rei. No entanto o progressivo desleixo por Portugal de África a favor da Índia e depois do Brasil deixou esta zona praticamente abandonada. Cedo a feitoria se transformou num mero presídio, praticamente vazio...

"Hoje Ziguinchor é a capital da provincia senegalesa de Casamansa que luta pela sua independência do norte.

(...) "A população era constituida pelos fijus di terra que ainda hoje se auto-intitula a verdadeira população de Ziguinchor. Esta população era constituída por descendentes de portugueses e mulheres Diola, e ainda hoje mantêm os apelidos portugueses como Alfonso, Barbosa, Carvalho, da Silva, Fonseca, só para citar alguns. Para além dos fijus di terra são ainda distinguidos os fijus di fidalgu, a aristrocracia de Zinguinchor que se distinguem pelo prestigio nobiliárquico que exibem.

"Os fijus di terra eram os proprietários da terra, destinguiam-se dos outros grupos étnicos pela língua crioula, pela religião católica pelas maneiras, habitos e roupas europeus. Talvez a característica mais sonante desta população fosse o bem conhecido Domingo de Ziguinchor em que a população vai à missa e se passeia elegantemente de paletó e chapéu pelas ruas e jardins de Ziguinchor. Daí que, para os franceses, os crioulos tivessem sido os interlocutores por excelência com o resto da população. E tiveram eles mesmo de aprender o crioulo, língua que era bem mais fácil que as outras línguas nativas para um europeu. Mesmo os funcionários do norte que os franceses mandavam vir devido ao facto de serem mais escolaralizados que os sul, aprendiam rapidamente a falar o crioulo, este era o mais falado pela população, e até as outras etnias aprendiam a lingua crioula por ser a língua do comercio. devido não só à proximidade com a Guiné-Bissau e ao contrabando que se fazia entre os dois países, mas ainda ao comercio do mercado local que atraia os camponeses do interior.

"Os laços com a Guiné-Bissau são muito fortes, desde familiares, sociais, religiosos e étnicos, de tal forma que em 1985 num questionário, 70% repondeu ja ter visitado a Guiné-Bissau. E mesmo apesar do crioulo de Ziguinchor ser do tipo de Cacheu a influência do de Bissau faz ainda sentir-se aqui. Para além dos fijus di terra vieram da Guiné-Bissau principalmente durante a guerra colonial muitos refugiados, os manjscos, os balantas mané e os papeis, para reforçar a população crioula. Nas familias mais abastadas custuma-se ainda casar com membros famílias das de Bissau ou Cacheu.

"Numa piramide que ilustrasse a estrutura social de Ziguinchor poderiamos colocar quatro bases: na mais alta os fijios di fidalgu a seguir os fijus di terra de seguida os manjacos, vindos da Guiné-Bissau, e por fim as outras etnias locais. " (...)

Luís Graça disse...

Maias uns excertos do artigo sobre Ziguinchor, a vila crioula do Senegal:

http://rcl.com.sapo.pt/ziguinchor.html


(...) "Nos censos de 1963, dos 42.000 habitantes de Ziguinchor, 35.000 falavam o crioulo(83%), e 30.000 tinham o crioulo como lingua materna (71,4%).

"Depois de 75 anos de domínio francês e de 37 anos de independência os Crioulos de Ziguinchor ainda são conhecidos como "Les portuguais" - portuguis na população local.
No entanto o crescimento da cidade e o aparecimento dos suburbios tirou a terra aos fijus di terra, deixando-os na pobreza. Depois da independência a situação alterrou-se por completo, os crioulos eram vistos como cumplices dos franceses. Os cargos públicos ocupados pelos crioulos foram substituidos pelos funcionários vindos do norte que falavam wolof, e assim começou o declinio da poplulação crioula de Ziguinchor que fora sempre a maioritária. De tal modo que em 1985 apenas 37% da crianças que iam para a escola falavam em crioulo. (...)

"As diferenças étnicas e culturais entre os povos de Casamansa, da qual Ziguinchor é a capital, e dos do norte maioritariamente wolof são bastante grandes, que há já alguns anos que Casamansa luta pela sua independência (desde 1982). Muitos historiadores vêem neste fenómeno uma herança dos conflitos luso-franceses sobre o território e que nomeadamente a Guiné-Bissau e o Senegal herdaram. São sabidas as interferências das tropas senegalezas em território guineense mas há ainda a ter em conta a grande ligação afectiva que liga as populações de Casamansa e da Guiné-Bissau, esta última tentou servir de mediadora no conflito armado dos rebeldes do MFAC (Movimento das Forças Armadas de Casamansa) mas a neutralidade da Guiné-Bissau nunca foi muito segura e a verdade é que o exército guineense tem fornecido armas ao movimento liderado por um padre de origem crioula Sengor (Senhor!).

"Os fijus di terra acabaram por apoiar os rebeldes e tem ainda por isso sido exterminados culturalmente, e por outro lado enfrentam uma senegalização imposta. Ser-se crioulo era um estatuto privilegiado que tem começado a desaparecer, pois passou a ser secundário em relação aos wolof que anteriormente nem sequer existiam na região. Esta região é essencialmente habitada por povos Mandingas, Diolas e Papéis, estes não se confinam ao território de Casamansa mantendo uma ligação territorial com a Guiné-Bissau. " (...)

Cherno Balde disse...

Caro amigo Luis,

Bem que gostava de fazer uma apreciacao critica o conteudo socio-cultural e ideologico dos artigos apresentados sobre Ziguinchor e suas gentes por apresentarem grandes similitudes com as realidades socio-culturais das chamadas 'pracas' vs 'presidios' na actual Guine-Bissau, infelizmente o tempo escasseia.

A Casamansa eh a grafia antiga, portuguesa que, pouco a pouco, por influencia do frances passou para Casamanca a francesa (Casamance) e acabou por ser a grafia oficialmente adoptada nas diferentes linguas e nas cartas geograficas modernas.

A terminologia ou conceito oportunista de "fijus de terra" que eh pratica corrente em toda a regiao foi desde sempre fonte de discordia, de intrigas e de instabilidade social e politica cujos efeitos nocivos podemos encontrar quase em todas as organizacoes, agrupamentos (os famosos Gan) ou partidos politicos como o PAIGC, FLING e outros.

Penso que o prefixo "Mansa" estaria ligado ao poder tradicional (autoridade) na altura derivado ou por extensao do poder longinquo do Mansa de Mali e nao eh sinonimo de mansidao como o pretende Torcato.

O declinio da aristocracia crioula em Ziguinchor, de certo modo, tambem, esta relacionada com o declinio e pauperizacao dos centros de cultura crioula da Guine-Bissau fruto do retrocesso desta desde a independencia.

Quanto a interferencia "guerreira" no Casamansa a pequena Guine-Bissau nao fica a dever em nada ao vizinho Senegal, pois o trafico de armas e de aliancas duvidosas estao na origem da maior parte dos conflitos que ocorreram nos ultimos anos.

Pessoalmente, sou de opiniao que a Guine-Bissau nao devia alimentar orgulhos caducos e tem a obrigacao de respeitar as fronteiras coloniais existentes se quiser continuar a existir como pais.

Com um abraco amigo,

Cherno Balde