sábado, 5 de setembro de 2015

Guiné 63/74 - P15075: Historiografia da presença portuguesa em África (63): Casamansa, setembro de 1858: apoio das autoridades portuguesas aos interesses franceses, objeto de hostilidade pelo "gentio local": portaria, de 30/9/1858, do visconde Sá da Bandeira, secretário de estado dos negócios da Marinha e do ultramar


Fonte: Portugal > Assembleia da República > Legislação régia >

"PORTARIA, 30 de Setembro de 1858

Portaria (pelo Ministerio da Marinha — Inedita) mandando ás auctoridades de Guiné que prestassem ás auctoridades e subditos dos estabelecimentos visinhos francezes todo o auxilio contra o gentio da Casamansa em compensação de igual serviço que já nos haviam feito. Supp

MINISTÉRIO DA MARINHA, Livro 1858"...


1. Comentário de LG:
Marquês Sá da Bandeira (1795-1876).... Foi uma dos
paladinos da abolição da escravatura .,
Cortesia de Wikipedia

1. 1. Como se vê, já em 1858, quase 30 anos antes da Conferência de Berlim (1884-85), a França e Portugal eram "aliados" (ocasionais) na África Ocidental...

Irão fazer "rectificações territoriais" em 1886:  Portugal cederá Casamansa, a França dá-lhe em troca a península de Cacine.

O pequeno e velho país, chamado Portugal, com pergaminhos "históricos" no que diz respeito às relações com esta parte de Áfrca, tinha um conflito com os ingleses, seus aliados no continente europeu, a propósito de Bolama. A posse da ilha era reivindicada por ingleses e portugueses, desde 1830... O território chegou a ser integrado na Serra Leoa, em 1860.


Uma comissão de arbitragem internacional.  presidida pelo então presidente dos Estados Unidos da América, , o general Ulysses S. Grant (1869-1877),  acabou por decidir, a 21 de abril de 1870,  atribuição da posse de Bolama a Portugal. A soberania portuguesa do território é restituída a 1 de outubro de 1870.

 As hostilidades para com os franceses, em Casamansa (*). reportadas acima, remontam a 1858. Era então governador de Cabo Verde  Sebastião Lopes de Calheiros e_Meneses. Por sua vez, era  capitão-mor de Bissau o Honório Pereira Barreto, que ia no seu 5º mandato (!) (18589-1859). O rei de Portugal, nessa época, era  o promissor jovem Dom Pedro V: reinou enter 1853 e 1861, ano em que morreu prematuramente,  aos 24 anos. Era o mais bem preparado,  do ponto de vista intelectual e cultural, dos reis da dinastia de Bragança.

Dom Pedro V era um convicto defensor da abolição do esclavagismo, tal como Sá da Bandeira, político e militar de grande vulto da época do liberalismo, e que assina a portaria acima reproduzida. Depois da "perda" do Brasil, os governos oitocentistas começar a preocupar-se com os territórios ultramarinos africanos...

O jovem rei presidiu à inauguração do primeiro telégrafo eléctrico no país (1855)  e do primeiro troço de caminho de ferro, entre Lisboa a Carregado (1856). É também no seu reinado que se iniciam as primeiras viagens regulares de navio, entre Portugal e Angola.  Tinha claras preocupações quanto à posição de fragilidade de Portugal, em África, face às grandes potências coloniais europeias, em especial a Inglaterra e a França e a que irá juntar, mais tarde, a Alemanha....

Como é sabido, foi no Congresso de Viena, em 1815, que o comércio de escravos foi condenado. Em  Portugal, o comérrcio de escravos é abolido em 1836, no ultramar (já tinha sido abolida a escravatura, na metrópole e na ìndia, no tempo do marquês de Pombal, em 1761), mas o tráfico continua,  clandestinamente, feito tanto por portugueses como franceses e outros.

Sá da Bandeira decretou a abolição da escravatura a 29 de Abril de 1858, impondo contudo um prazo máximo de 20 anos para o fim da escravidão em todo o território sob administração portuguesa.  O fim oficial da escravatura é, pois, 1878... (...) "Em 1875, poucos meses antes de morrer, Sá da Bandeira tivera o ensejo de assistir à aprovação, nas Cortes, de um projecto de lei que emancipava os libertos das colónias. Tratava-se do culminar de um percurso de décadas que o então marquês percorrera com persistência e obstinação, ainda que muitas vezes isolado ou quase isolado". (Vd. João Pedro Marques, Investigador Auxiliar do DCH/IICT > Sá da Bandeira e o problema da escravatura).

1. 2. Sobre Casamansa, atualmente,  escreveu em 2008 José Horta, leitor de Português na Universidade Cheikh Anta Diop, Dacar, Senegal  (UCAD):

(...) "Casamansa e a vizinha Guiné-Bissau constituem um território com uma identidade própria, cujas populações fazem parte de um mesmo conjunto étnico e linguístico, o grupo sub-guineense (...)  A separação foi o resultado do acordo luso-francês, de 1886, no qual Portugal renunciou à bacia do rio Casamansa, incluindo o porto de Ziguinchor, e a França, em contrapartida, abandonou a área de Cacine.

"Os vestígios da presença portuguesa no passado são visíveis, por exemplo, em algum do património arquitectónico de Ziguinchor, mas sobretudo pelo facto de uma parte da população autóctone (geralmente identificada com a comunidade cristã) ter como língua materna um crioulo de base lexical portuguesa, afim do guineense, que constitui um forte factor de identificação e coesão. Curiosamente, no Senegal, estes crioulos, e sobretudo o cabo-verdiano, são muitas vezes confundidos com o Português, acreditando-se que se trata de uma mesma língua.»

(In:  nº 128 · 30 de Julho de 2008 · Suplemento do JL n.º 987, ano XXVIII, reproduzido na página do Instituto Camões)
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 Notas do editor:

7 comentários:

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas
Se dúvidas ainda houvesse, mesmo no tempo de um rei esclarecido e intelectualmente evoluído, podemos tentar imaginar o que seria a situação política, económica e, principalmente, social na Guiné daquele tempo.
Claro que houve situações piores ao longo colonialismo internacional do Séc. XIX, mas isso não serve de consolo. Sabemos hoje que a situação nunca seria revertida, mesmo com homens esclarecidos na condução da coisa pública.
Enquanto governador, qual seria a latitude de acção e capacidade de Honório Barreto? Como é que exerceria o poder? Tentem imaginar a governação e o funcionamento da administração. Houve tempo para tentar reverter a situação, mas...
A História é isto mesmo e não adianta tapar o Sol com a peneira
Um Ab.
António J. P. Costa

Luís Graça disse...

Em meados do séc. XIX. não éramos mais do que 3.7 milhões... Dom Pedro V era rei de Portugal e dos Algarves (para onde não havia ligações, decentes, pr estrada!)... Tínhamos, depois da "perda" do Brasil, um ainda vasto território ultramarino, em África e na Ásia, de 2 milhões de quilómetros quadrados, com uma população estimada em 20 milhões de almas...

Como é que o Terreiro do Paço podia chegar a Casamansa ?

Franceses, portugueses e ingleses continuavam, por outro lado, a fazer o lucrativo tráfico de escravos... Neste tempo há um gravce conflito com os franceses por causa do aprisionamento de uma embarcação negreira francesa, ao largo da costa de Moçambique... O navio foi trazido para o Tejo, e o seu capitão foi preso e julgado...

Uma esquadra francesa entrou pelo estuário do Tejo, com os mirones a ver, e libertar os seus compatriotas esclavagistas.. Estamos no tempo de Napoleão III... Portugueses e ingleses (com 2 fragatas no Tejo) limitaram-ae a ver os navios franceses... Foi mais uma humilhação das grandes potências europeias,neste casoa França e a Inglaterra...

Só depois de meados do séc. XIX, é que os europeus descobriram o "continente negro" como um potencialmente fabuloso mercado para escoamento dos seus produtos manufaturados e para fornecimento de matérias-primas... O colonialismo tem 150 anos...

Luís Graça disse...

Mais uma achega... O navio negreiro francês chamava-se "Charles et Georges", era um veleiro... Texto reproduzido com a devida vénia... LG


Blog Alernavios > 13 de janeiro de 2011 > «CHARLES-ET-GEORGES»

http://alernavios.blogspot.pt/2011/01/charles-et-georges.html


Navio negreiro francês de meados do século XIX, do qual desconhecemos as principais características físicas e as origens. Sabe-se que, em Dezembro de 1857, foi apresado pelas autoridades coloniais portuguesas de Moçambique, quando se encontrava fundeado a «menos de um tiro de canhão» da ilha de Quintangonha com um carregamento de 110 escravos, destinados às plantações de cana-do-açúcar da ilha da Reunião.

Interrogado pelas nossas autoridades -que mais não faziam do que cumprir as leis internacionais sobre a escravatura- o capitão do navio negreiro (um certo Mathurin Rouxel) respondeu, com arrogante má fé, que os negros encontrados agrilhoados no seu navio eram, todos eles, colonos livres e trabalhadores voluntários. Perante as evidentes falsidades do francês, foi-lhe levantado um auto e o caso levado ao julgamento do governador-geral.

Perante isto, o governo francês de Napoleão III, encorajado pela atitude passiva da Inglaterra (que, mais uma vez, abandonou Portugal à sua sorte) exigiu a libertação dos negociantes de carne humana, a devolução do «Charles-et-Georges» e o pagamento de indemnizações. Ameaçando que, não satisfazendo Portugal essas pretensões, a França enviaria uma esquadra ao estuário do Tejo para bombardear Lisboa. Perante tão brutal e ignominiosa chantagem e sem forças suficientes para contrariar a ameaça que pairava sobre a sua capital, o governo de D. Pedro V (um monarca generoso e antiesclavagista convicto) acabou por ceder às exigências de um país que, apesar de ter imposto a sua vontade, não saiu engrandecido, nem dignificado deste singular indidente. Incidente que, ao tempo, muito emocionou a opinião pública portuguesa e todos aqueles que, no mundo, pugnavam pelo fim, efectivo, do tráfico de escravos.

Torcato Mendonca disse...

Olá Luís Graça boa noite,
Vou ser rápido. Como se diz no facebook - Gosto! do tema e, mais ainda deste comentário (bi-partido).
A nossa história é -nos apresentada de um modo que podemos, pois é fácil, dizer que a nossa colonização em África, Brasil ou Oriente devia aparecer de outro modo. A Aliança com a Inglaterra é uma falsidade. Fomos humilhados, ofendidos e espoliadoas demasiadas vezes. A França, Holanda etc, devido a sermos um país pequeno e com a Espanha na conveniência"" aproveitaram e encheram os cofres. Admira é tão pouca gente tanto ter feito. Ponto.
Antes de mudar de tema falar sintéticamente: e hoje? como está o país? como são tratados os portugueses? Foi só um pequeno á parte pois aqui não se pode assim falar.

Ainda Casamansa: a palavra como diz o Cherno tem origem no Mali.Mansidão não e dou de barato a etimologia da palavra, é discutivel. Toda aquela zona de África tem o centro no Mali. Podemos ver a "História de África" as migrações dos povos africanos etc. Cuidado com a hitória contada pelo Paigc e creio que impressa na Suécia...há cada história...mas a história dos povos para ser feita de verdades...não dá...comecemos na nossa...


Abraço e vou, quando passar esta onda, tentar juntar este Tema.
Ab,T.

António José Pereira da Costa disse...

Pois é Camaradas
Mas essa coisa da verdade é... um porra!
Uma chatice uma inconveniência, enfim, uma coisa para esquecer.
Se estava tão bem com a nossa historiografia e aquela coisa "da dilatação do Império" e de "dar novos mundos ao Mundo" para que é que vêm agora estes chatos com esta coisa da verdade?
Isto de saber história é bom. Agora divulgá-la... não tem piada nenhuma.
Um Ab.
António J. P. Costa

Antº Rosinha disse...

Uma coisa é certa, os mabecos (mabeco=cães selvagens em matilhas, que perseguem no rasto do leão, para lhe roubarem a presa) perseguiram-nos desde Recife a Ceilão, de Bolama e Luanda até às Caraíbas, vindos de Amesterdão, Londres e Cádis e Marselha, Berlim, Moscovo e NY, (Kennedy e Krushov), e até o Vaticano e Meca nos fizeram a vida negra.

PQP.

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camarada Rosinha

Não te exalteres.
Mesmo com imagens tipo National Geographic, a verdade é aquilo que é e a História foi aquilo que foi. Aceitemos os factos mesmo que nos desagradem, sendo certo que, quando perdemos, somos nós os culpados e não o adversário ou o inimigo, porque levou a melhor.
Por mim o que mais me chateia é a manipulação de que fomos alvo durante anos a fio durante a nossa formação literária e cultural.
Já recordei, noutra altura, aqui no blog que os países não têm amigos nem regras de moral. Têm interesses e não vale a pena chover no molhado e pôr a culpas nos outros que teriam sido grandes "malanders". Fizeram o papel deles e mais nada.
Esta coisa de sermos o Kalimero da História num mar de energúmenos não leva a lado nenhum a não ser a uma desculpabilização muito falsa.
E nós? Olha quem não tem competência nãos se estabelece e aguenta-se "à bronca" quando ela surge. Foi o que não fizemos e continuamos a não querer fazer.

Um Ab.
António J. P. Costa