quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Guiné 63/74 - P15758: Efemérides (215): Canquelifá, 9 de fevereiro de 1970: o burro, as carraceiras e o tiro ao alvo com uma Mannlicker... Ou quando um burro valia mais do que um Unimog... (Valdemar Queiroz, ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70)


Foto n.º 1
Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Canquelifá > CART 2479 / CART 11 (1969/70) Canquelifá > 1970 > Uns dias antes, da chegada do 3.º pelotão da CART 11, Canquelifá tinha sofrido um violento ataque... Um outro grupo de combate da CART 11, que foi rendido pelo 3.º,  "aguentou os cavalos"... quando as tropas do Amílcar Cabral fizeram uma tentativa de assalto, junto ao arame farpado (*)... Na foto, o Valdemar Queiroz parece estar junto à carcaça de uma aeronave (?)...


Foto n.º 2 
Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Canquelifá > CART 2479 / CART 11 (1969/70) > Canquelifá > 1970 > O Valdemar Queiroz, inspecionando os estragos nas instalações civis e militares...


Foto n.º 3
Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Canquelifá > CART 2479 / CART 11 (1969/70) Canquelifá > 1970 >  "Com armas, bagagens, mulheres e crianças, o 3.º Pelotão da CART 11, "Os Lacraus", chega a Canquelifá!,,,


Foto n.º 4 
Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Canquelifá > CART 2479 / CART 11 (1969/70) > Canquelifá > 1970 > Furriéis (à esquerda, o Valdemar Queiroz)..."Conversas... entre Lisboa e Porto"... O mesmo é dizer: o ócio é a mãe de todos os vícios ou tentações...


Foto nº 5
Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Canquelifá > CART 2479 / CART 11 (1969/70) > Canquelifá > 1970 >  Festas do fim do Ramadão (c.  O Cap Pinto é o terceiro, na primeira fila, a contar da direita para a esquerda... E o Valdemar Queiroz é o quinto depois da "mulher grande com criança ao colo"...


Foto nº 6 
Guiné > Zona leste > Região de Gabu > Canquelifá > CART 2479 / CART 11 (1969/70) Canquelifá > 1970 > Festas do fim do Ramadão > Lutas (fulas), corpo a corpo... Repare-se no risco, dividindo os dois campos...

Fotos: © Valdemar Queiroz (2016). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: L.G.]


1. Texto enviado na segunda feira de Carnaval, pelo  Valdemar Queiroz [ex-fur mil, CART 2479 / CART 11, Contuboel, Nova Lamego, Canquelifá, Paunca, Guiro Iero Bocari, 1969/70]

Data: 9 de fevereiro de 2016 às 03:10

Assunto: Quando um burro vale mais que um Unimog

9 de Fevereiro de 1970 [, segunda feira de Carnaval]

Faz agora 46 anos.

Com armas, bagagens, mulheres e crianças, o 3.º Pelotão da CART 11, "Os Lacraus", chegou a Canquelifá (*). Lá no alto. O nosso Capitão Pinto também foi connosco.

'BEM-VINDOS ÀS TERMAS DE CANQUELIFÁ', dizia o cartaz à entrada da tabanca.

Tinha sido violentamente atacada dias antes, com a destruição de instalações militares e civis e com tentativa de assalto pelo arame farpado, com um nosso Pelotão da CART 11, "Os Lacraus", que já lá estava, a aguentar o assalto no cavalo de frisa da entrada, sendo o nosso 1.º Cabo Paiva ferido no peito com o sopro dum rebentamento.

As coisas acalmaram com a nossa presença, ou se calhar não, mas nunca mais houve ataques naqueles tempos em que estivemos em Canquelifá.

Coincidiu com o mês de Ramadão. Houve festa em Canquelifá, rezas e batucadas. E foi, por essa altura, que apareceu um burro, com umas aves carraceiras de bico vermelho na sua barriga.

Estávamos uns quantos furriéis milicianos,  num "descanso do guerreiro", se calhar a falar do Porto e de Lisboa, quando um de nós se lembrou de...
– Quem é capaz de acertar naquele 'carraceiro' na barriga do burro?

E foram buscar uma Mannlicher [, calibre 5,6, ]. (**) O primeiro tiro abateu o 'carraceiro' da barriga do burro e o segundo também, depois, quando apareceu outro pássaro de bico vermelho, voltamos a atirar ao bicho, voltou outro e outro tiro se atirou e parece que alguém começou a falhar tiros e acabamos por aí.

Passados dois dias, apareceu um homem-grande no Comando a queixar-se da morte dum burro que a tropa esburacou na barriga e que servia para transportar tudo e mais alguma coisa.

Fomos todos chamados à pedra e para resolvermos o assunto com o homem-grande. 
– Então quanto é que o homem quer pelo burro?  – perguntamos nós com a intenção de pagar o dano causado.
– Sei lá – respondeu Capitão – , mas parece que o burro vale mais que um Unimog.

Já não me lembro quanto valeu um tiro ao 'carraceiro', mas a brincadeira ficou cara.(***)

Valdemar Queiroz



"Caminho de Bafatá", pintura (fresco?)  de Augusto Trigo (n. 1938) (pormenor)... Havia "burros" na Guiné, no nosso tempo, nomeadamente na zona leste.... Referimo-nos ao "Equus africanus asinus" e não ao "burro humano" ("Homo sapiens sapiens")...

Em exposição no hall de um banco, em Bissau, o BCAO. Com a devida vénia ao pintor, casapiano, (que vive atualmente em Portugal), ao Rui Fernandes (autor da foto) e à AD - Acção para o Desenvolvimento (que detém os direitos da imagem no seu sítio Guiné-Bissau). Ver também aqui na página do Didinho.org uma nota biográfica.
 _______________

(**) 23 de janeiro de  2010 > Guiné 63/74 – P5690: Armamento (2): Pistolas, Pistolas-Metralhadoras, Espingardas, Espingardas Automáticas e Metralhadoras Ligeiras (Luís Dias)

(...) No final do século XIX, princípio do século XX, Portugal adquire a espingarda Mannlicher, de origem austríaca, no calibre 6,5 mm, por ser mais rápida no carregamento (recurso a lâmina de recarregamento), que a anterior [, a Kropatschek, espingarda de repetição, ]  que virá a transformar em 1946, na Fábrica de Braço de Prata, para o calibre 5,6 mm e serão usadas para instrução de tiro. (...)

(***) Último poste da série > 13 de fevereiro de  2016 > Guiné 63/74 - P15741: Efemérides (214): Dia 8 de Novembro de 1967, data do falecimento do primeiro militar da CART 1742, numa acção de reconhecimento na Tabanca de Ganguiró (Abel Santos, ex-Soldado At Art)

4 comentários:

Abilio Duarte disse...

A carcaça do avião, que aparece na foto, é o resto de um T6.
Aquele avião despenhou-se em Canquelifá, quando pretendia sair daquele destacamento para uma operação, no sector.
Lembro-me muito bem deste acontecimento, porque no dia anterior, o piloto aviador que faleceu, tinha estado connosco na nossa nesse em Nova Lamego, penso que era amigo do n/Furriel Pais,( mecânico) lá de Espinho, e jantou com a malta.
Muita tristeza. Foi a nossa sina.

Abilio Duarte disse...

Valdemar,
o Cabo Paiva não foi ferido por nenhum sopro, foi mesmo por um estilhaço.
Segundo ele me contou, naquela noite, ele não estava nem no abrigo, nem nas valas, mas a conversar sentado no Jipe que tinha o canhão sem recuo. Ás tantas na conversa acendeu um cigarro na confiança, e o primeiro tiro do in foi para a zona onde ele estava e assim o feriu.
Tem piada, porque ao principio nunca tive bom relacionamento com este soldado, quando começamos a formar a Companhia em Penafiel, ele e eu tivemos algumas pegas, eu era de Lisboa e ele do Porto, todo fadista.
Um dia na Quinta da Aveleda (Vinhos Verdes) onde fazíamos vários exercícios militares, houve uma discussão entre nós, e ele disse-me cara a cara, que me limpava o sebo quando chegássemos ao Ultramar. Depois de isto tudo, somos amigos.

JD disse...

Estive por duas vezes em Canquelifá por períodos de uma semana cada, talvez a partir de Abril de 1970. Sobre o acidente do T-6 ouvi que o piloto teria sido festejado pelo seu aniversário, e que se bebeu alegremente. O avião levantou, mas em vez de tomar o rumo para Bissau, o piloto terá querido fazer uma manobra de agradecimento, um looping que acabou na grande árvore que havia no centro da localidade.
Obviamente não posso jurar que foi assim.
Abraços fraternos
JD

Valdemar Silva disse...

Viva Duarte.
Por incrível que pareça, não me lembro de nada, quer do Piloto quer do incidente,
com o T6 em Canquelifá. Tenho visto várias vezes fotografia com os destroços avião
e, mesmo assim, não me lembro do que aconteceu. No verso da foto apenas tenho escrito 'Canquelifá, 2/70'.
Quanto ao Paiva, sempre ouvi dizer que tinha sido uma onda de sopro que lhe fez
o ferimento no peito, é a primeira vez que se fala de um estilhaço.
Deveria estar, na altura, com o efeito dum grande e prolongado bioxene.
Abraços e viva o Glorioso.
Valdenar Queiroz