terça-feira, 2 de agosto de 2016

Guiné 63/74 - P16355: Tabanca Grande (492): Fernando Cepa, ex-Fur Mil Art da CART 1689/BART 1913 (Catió, Cabedú, Gandembel e Canquelifá, 1967/69)

1. Mensagens do nosso camarada e novo tertuliamo Fernando Cepa, ex-Fur Mil Art da CART 1689/BART 1913, Catió, Cabedú, Gandembel e Canquelifá (1967/69), com data de 29 de Julho de 2016:

Caro Carlos Vinhal.
Conforme combinado, segue o material relacionado com o texto enviado em separado. Diz-me se recebeste em boas condições. Logo à noite, com mais vagar, faço a minha apresentação e outros esclarecimentos pertinentes.
Estive no inferno de GANDEMBEL, a comandar, sozinho (era o único graduado) um pelotão na terrifica, brutal e desumana operação BOLA DE FOGO. Falta-me tempo para contar a brutalidade das acções e do quotidiano dos arrepiantes e tenebrosos 38 dias vividos dentro dum bafiento, insalubre e consporcado buraco que nos serviu de "hotel" durante a tenebrosa operação BOLA DE FOGO.
O resto fica para depois.
Peço desculpa desta informalidade, mas acontece que não sou um "finório" na forma de lidar com estas modernices das novas tecnologias.

Até já.
Um grande abraço.
Fernando Cepa
Ex-Furriel Miliciano
Cart 1689

************

Caro Carlos Vinhal
Cá estou novamente para terminar esta “operação” que teve origem no tema lançado na Tabanca Grande, sobre as facas de mato, objecto multifacetado que servia para tudo, inclusive para limpar as unhas. Já te disse que não sou nenhum prendado a lidar com as novas tecnologias (sou da velha guarda, e, como burro velho não toma andadura …) por isso, não sei o que vai sair desta primeira tentativa de chegar ao convívio da fantástica família da Tabanca Grande. Vamos ver a pessegada que a minha ignorância nos reserva.

Esta minha abordagem resulta do facto de as FACAS DE MATO serem objecto de análise no nosso blogue. Então, lembrei-me, caramba, a minha faca de mato tem direito a figurar no livro de honra da guerra colonial da ex-província da Guiné. E assim, seguiu para a tua superior apreciação, o extrato que retirei da história da CART 1689, registo que já comecei, mas que ainda não acabei.

Perguntarás! Mas porquê, escrever um livro sobre a história da CART 1689? Muito simples, Já fiz um filho, já plantei uma árvore, e, agora, sem grande jeito, para completar a trilogia, vou tentar escrever um livro.

Não gosto muito de falar da minha pessoa, mas para cumprir os “regulamentos” da Tabanca, aqui vai a apresentação da praxe.


2. Combati, forte e feio, na Guiné, de 1967 a 1969, como Furriel Miliciano, integrado na CArt 1689, BArt 1913.
Participei em toda a intensa actividade operacional da CArt 1689, com especial destaque na mítica operação BOLA DE FOGO (Abril e Maio de 1968) que decorreu no Corredor de Guileje para construir (não sei para quê?) o famigerado aquartelamento de GANDEMBEL, muito a propósito batizado de INFERNO DE GANDEMBEL. Para mal dos meus pecados, na ausência (férias e baixas por doença) de todos os graduados do meu pelotão, foi-me entregue o comando do mesmo, por só restar eu, disponível, dentre o alferes e os quatro furriéis. Não foi fácil.

Num ambiente infernal de stress permanente, com o inimigo a atacar todos os dias, consegui levar o barco a bom porto, aliás, na linha do excelente comportamento em combate, evidenciado por toda a CArt 1689, que já anteriormente tinha sido galardoada com a FLÂMULA DE HONRA. Só quem esteve em GANDEMBEL é que pode contar como foi. Foi demasiado mau, violento, vexante, imprudente, desumano, sem respeito pela dignidade dos soldados portugueses, reduzidos sem dó nem piedade, à condição de bichos do mato, encafuados durante 38 dias em buracos bafientos, escavados no chão, de pá e pica na mão.
Bem já me perdi, Gandembel fica para outras calendas.
Na Guiné, com a CArt 1689, estive estacionado em Fá Mandinga, Catió, Cabedú, Buba, Gandembel, Canquelifá, Dunane e Bissau.

Voltemos à minha apresentação.
Vivo em S. Bartolomeu do Mar (terra da secular e badalada romaria do banho santo, candidata a património imaterial da humanidade), concelho de Esposende e Distrito de Braga.
Depois de devolvido à vida civil, fiz carreira na área financeira (banca) passando à reforma com o posto de gerente bancário. Andei muitos anos na politica, exercendo funções como presidente de junta, vereador na câmara municipal e adjunto do presidente da câmara.
O que faço agora? Muita coisa!
Actualmente, continuo a dar o meu contributo à sociedade. Sou presidente duma IPSS – instituição particular de solidariedade social – que para além das causas sociais, também tem um fantástico e bem sucedido projecto desportivo, na área do andebol feminino. Para além de cento e muitas atletas, em todos os escalões, acabamos de ser campeões nacionais da 2.ª Divisão, em Seniores, e, para a próxima época, estaremos junto da elite do andebol feminino, a disputar o campeonato nacional da 1.ª Divisão.
Falo do Centro Social da Juventude de Mar – Esposende. Eh pá, esqueci-me do tempo. Já chega.


3. Vamos as fotos que te mandei.

A actual, é fresquinha, tem 30 dias. Já agora, nasci a 23 de Agosto de 1944.

Faca de mato que foi baleada na operação Inquietar - Caneta Parker, Rádio Sharp 7Transistor e ventoínha
 
Testando a poderosa bazooka em Gandembel.

A meus pés, a entrada do buraco que me serviu de alojamento durante 38 dias em Gandembel

Em Buba, fisicamente debilitado, passados três dias sobre o fim da operação Bola de Fogo em Gandembel.

Nota: Mantenho frequentes contactos com os tabanqueiros Alberto Branquinho e José Ferreira da Silva.

Tens carta branca para fazeres o que bem entenderes sobre o material que te enviei.

Um rijo abraço do
Fernando Cepa
Ex-Furriel Milicaino
CArt 1689/BArt 1913
************

4. Operação Inquietar


************
5. Comentário do editor

Mas que bela apresentação. Caríssimo camarada Fernando Cepa, sê bem-vindo à nossa caserna virtual, ou Tabanca Grande, tertúlia, essencialmente de ex-combatentes da Guiné, onde temos como missão deixar material escrito e fotografado que sirva, um dia, para ajudar a contar a história da guerra naquela pequena parcela de África onde tanto sangue se derramou.

Escusado será dizer-te para escolheres um bom lugar à sombra do nosso poilão, pois já nos conheces através dos teus especiais amigos e camaradas Alberto Branquinho e José Ferreira da Silva, ambos bons contadores de histórias, aos quais devemos as melhores páginas deste blogue.
Se o Branquinho já publicou, o Zé e tu estarão para fazê-lo também muito em breve. O Ferreira já sabe, e tu ficas agora a saber, que estamos ao vosso inteiro dispor para fazermos a divulgação dos vossos livros.

A Op. Inquietar poderia ter sido para ti a primeira e a última. Olha se não tinhas saído da "casca"?

A situação que nos contas, de estares tu a desembarcar e o teu irmão a embarcar, foi infelizmente mais vulgar do que à partida possa parecer. Houve inclusive caso de irmãos ao mesmo tempo na mesma província.
Estou a lembra-me, assim de repente, de um caso semelhante ao teu, o do meu amigo Veiga Pereira da CCAÇ 2405 (1968/70), que sendo de Matosinhos é teu vizinho aí em Esposende, que chegado da Guiné em Junho, viu o seu irmão André embarcar em Julho, na 27.ª CComandos, também para aquele TO.
Lembro ainda os 6 Irmãos Magro que serviram nos três Teatros de Operações, talvez o caso mais emblemático da nossa guerra.
Pobres mães, o quanto sofriam naquele tempo. Elas sim foram as verdadeiras heroínas da Guerra do Ultramar.

Uma vez que és do norte, tens pelo menos duas Tabancas que poderás visitar, a de Matosinhos, todas as quartas-feiras, e a dos Melros, em Fânzeres-Gondomar. Esta última, como saberás, é frequentada pelo Zé da CART. E por mim, de vez em quando. Não esqueças também a nossa reunião anual onde teremos muito prazer na tua companhia.

Muito obrigado por te juntares a nós.
Termino, deixando aqui, para ti, um abraço de boas-vindas em nome da tertúlia e dos editores.
CV
____________

Nota do editor

Último poste da série de 26 de julho de 2016 > Guiné 63/74 - P16335: Tabanca Grande (491): Adão Pinho da Cruz, Médico Cardiologista, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547/BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

6 comentários:

José Botelho Colaço disse...

Grande descrição da narrativa de Fernando Cepa só quem não esteve lá pode por em causa as deficientes condições de preparação e conhecimentos como graduados e subordinados eram enviados para aquele teatro de guerra.
Um abraço Colaço soldado de Trams. comp.caç 557 1963/65.

Antº Rosinha disse...

"Valeu-nos entretanto a pronta intervenção dos poucos milicias nativos que nos acompanhavam...com as Mauser da II Guerra Mundial!"

Fernando Cepa reconhece.

Outros aqui já reconheceram.

Mas já muitos denegriram o papel dos africanos ao lado de quem lutámos 13 anos.

Fernando Cepa, foram milhões que fizeram que durante 13 anos aguentássemos aquilo tudo, que sem eles, nem oito dias durava o império.

Tem que se fazer justiça àquela gente, pois eles não podem ser esquecidos e até muitas vezes insultados, aqui.

Os jovens africanos que acreditavam que nós "podíamos" eram aconselhados pelos velhos Régulos seus pais.

Enganaram-se, mas a História demonstra que os Ventos, eram muito maus, e eles e os mais velhos pressentiam.

Mas a Europa imperialista, vai pagar, está a pagar.

Parabens pelo post, Fernando Cepa.

Costa Abreu disse...

Caro Fernando Cepa, Gustei da tua historia(verdadeira), fes-me recordar os meus velhos tempos de Guine, Obrigado
Julio Abreu
Guine- 1965-1971
Chefe da 2 equip do grupo de Comandos Centurioes
Ex-Guine Portuguesa

Anónimo disse...


Caro Fernando:
Foi uma surpresa muito agradável encontrar-te por estes lados. Já em tempos tínhamos tecido algumas considerações sobre o blogue, mas, na altura, os teus afazeres de ordem político-social tomavam-te o tempinho todo. Ainda bem que, finalmente, resolveste dar-nos a conhecer a tua experiência naquelas "terras do fim do mundo",que tanto nos marcaram. Sabia que o teu irmão Manuel também passou pela Guiné, mas o pormenor de seres tu a chegar e ele a partir, com troca de "amuletos" e tudo, esse não conhecia eu - achei interessante, como também ao do tiro na faca de mato (não terá sido antes ferradela de mosquito?!...).
Gostei muito do que li e fico à espera de mais.
Um grande abraço do
Mário Migueis.

Anónimo disse...

Caro camarada Fernando,
Apreciei imenso esta História contada com humor que me apraz registar. Porque sou filho das ilhas do meio do Atlântico, cada qual com a sua forma típica de falar, apraz-me saber que o tal alferes não envergonhou as ilhas.
Não acredito na impreparação dos nossos militares. Infelizmente, havia algum facilitismo até compreendermos que a guerra estava ali ao nosso lado. A descrição da História é bem clara nisso.
Rosinha,
Como sabes eu fiz parte do PelCaçNat 56. Compreendo perfeitamente o que escrevestes. Infelizmente, nenhum de nós, por muito que o queiramos fazer, erá palavras suficientes para descrever a importância dos militares e milícias na guerra do Ultramar.
Cumprimentos.
José Câmara

José Ferreira disse...

Bem vindo ao "nosso" blogue! Finalmente encontraste a motivação que várias vezes te apontámos.
Também fico contente em saber que estás a escrever um livro sobre a nossa Cart 1689. Por certo, será mais um elo que nos ligará "ad aeternum" a essa guerra maldita.
Escreve sobre o que entenderes,segundo a tua visão ou interpretação. Poderás até inventar estórias.
Porém, ao escreveres a "História da Cart 1689" terás que ser rigoroso, sob risco de poderes desrespeitar o esforço dos nossos heróis. Por exemplo, logo nesta primeira história da Op Inquietar I, noto que:
- Desvalorizaste o esforço de alguns militares que susteram o assaltodo IN. Dás essa importância, na totalidade, a "meia-dúzia" de tiros de canhangulo. Olha que até há registo, em livro, dessa reacção heróica dos nossos militares. Penso que foram eles que nos safaram, e muito em especial, a esse teu grupo que, em desespero, só procurava as raízes da árvore e a resposta divina.
- Não referes (não viste) que, quando deflagrou a bomba de fumos no bolso do "Banharia", "todos" se afastaram dele enquanto gritava e que apenas o Felgueiras se aproximou e o socorreu.(Esse Cabo Felgueiras era mesmo um herói!)
- Esqueces (certamente) que andámos perdidos e desorientados. Que, sem água, mortos de sede, tivemos militares a beber a própria urina. Que não atingimos o objectivo e que no regresso, os militares se lançaram ao charco de Banjara, bebendo tudo que era líquido.
Sim, isto aconteceu durante a Op Inquientar I.
Ora, a História da Cart 1689 que não refira estas verdades, não deve ter esse título. Penso eu. Poderá, todavia, ser substituído por "Histórias da Cart 1689" ou "A minha história na Cart 1689" etc etc.
Espero que compreendas esta reclamação de um camarada da mesma Cart 1689 que, tendo participado em todas as Ops, exceptuando a de Gandembel (devido a férias), quer continuar a salvaguardar a honra e a dignidade de todos esses heróis.
Grande abraço