quarta-feira, 9 de maio de 2018

Guiné 61/74 - P18617: Historiografia da presença portuguesa em África (113): Uma rivalidade bancária que ajuda a compreender a História da Guiné (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Janeiro de 2018::

Queridos amigos,
Convém situar este texto. No trabalho que levo em curso sobre a história do BNU na Guiné, cedo fui confrontando com a inexistência de documentação entre 1903 e 1917, praticamente nada existe no arquivo histórico do BNU. A documentação das duas agências é uma realidade a partir de 1917, ano em que a agência de Bissau se vê obrigada a pedir a Lisboa que dirima o contencioso que logo se levantou, em toda a linha das operações bancárias. Este documento solto tem a utilidade de deixar transparecer o que estava a mudar no processo socioeconómico da colónia: Bolama já não podia resistir aos ventos da história, os comerciantes do continente sentiam que as campanhas de pacificação de Teixeira Pinto lhes permitiam agora uma grande liberdade de circulação, os negócios ganhavam fluência e Bolama passara a ser um empecilho. É esse o valor, o significado que atribuo a este documento, o dar-nos um novo olhar sobre a história.

Um abraço do
Mário


Uma rivalidade bancária que ajuda a compreender a História da Guiné

Beja Santos

Em 1917, o BNU que instalara uma filial na capital da Província, em Bolama, criou uma agência na cidade de Bissau. Estamos em plena guerra, a documentação comprova sucessivas más escolhas para a governação e administração. Inúmeras são as carências, e vai avultar neste período a dura realidade que o desenvolvimento económico a partir de Bolama não tinha o mesmo dinamismo que estava a ocorrer em Bissau e as suas ligações comerciais no continente. Houvera guerras intensas e sangrentas na região do Forreá, com verdadeiras migrações e mudanças de peso no mosaico étnico. O Sul incrementava a orizicultura mas os empreendimentos em torno da mancarra e de outras produções encontrara maus gestores. Recorde-se que poucos anos depois, o empresário Vítor Gomes Pereira verá todos os seus bens hipotecados e transferidos para o BNU. Na investigação que levo a curso sobre o BNU na história da Guiné (1917-1974) encontrei um documento datado de 21 de Agosto de 1917, do gerente da agência de Bissau para a gerência do BNU em Lisboa que é revelador do que se estava a passar e indicia a decadência da capital, a sua transferência para Bissau começa a ser assunto corrente no final dos anos 1920, embora só se vá concretizar em 1941.

O título do documento reservado que vai de Bissau para Lisboa tem como assunto relação entre as duas agências, mas vai suficientemente mais longe para permitir perceber que tudo mudara depois das campanhas de Teixeira Pinto, os negócios na Guiné continental eram prometedores e já havia queixas dos comerciantes quanto à necessidade de terem de viajar até Bolama podendo fazer as suas operações financeiras em Bissau. É também um documento esclarecedor que estava aberta uma rivalidade que irá crescendo ao longo dos anos 1930 até atingir o clímax de relações verdadeiramente intempestivas entre os dois gerentes. Enfim, um documento elucidativo do que estava em mudança, o que definhava e o que se expandia. Enquanto lia este documento ia folheando os volumes escritos por Carvalho Viegas, um governador que deixou marcas na Guiné, sobretudo nas obras públicas, isto no exato momento em que ele próprio procura acelerar a mudança da capital de Bolama para Bissau, acarretando discussões enormes entre os grupos económicos na cena, o que é bem visível nos relatórios de execução de Bolama e Bissau neste período, em que Bolama defende encarniçadamente a posição estratégica que aparentemente detém.

O documento reservado que sai de Bissau em 21 de Agosto de 1917 diz o seguinte:
“Tem havido entre esta agência e a de Bolama troca de correspondência a propósito dos clientes que devem fazer as suas operações nesta ou naquela agência, sem que tenhamos chegado a acordo e por isso vimos submeter o assunto à apreciação de V. Exas. para que, resolvendo-o como for de justiça, cada uma das agências saiba depois o que lhe cumpre fazer.

Primeiro, clientes de Bafatá. Pretende aquela agência que os fregueses de Bafatá façam ali os seus negócios contrariamente ao que a clientela deseja. Bissau fica em caminho para Bolama; quem de Bafatá vai para Bolama tem que forçosamente tocar em Bissau, de forma que o cliente chega aqui e nós temos de lhe dizer que vá a Bolama fazer as suas operações! Sucede que todo o negócio de Bafatá se faz exclusivamente com Bissau não indo a menor quantidade de produtos de Bafatá para Bolama, visto que os clientes, tendo aqui os seus correspondentes, preferem aqui fazer as suas operações. As letras que V. Exas. remetem para Bafatá vêm sempre pagáveis em Bissau por a clientela ter quase que diariamente aqui portadores; finalmente, o cliente podendo servir-se desta agência de Bissau e regressar sem demora a sua casa, indo a Bolama perde pelo menos mais 3 dias se tiver transporte imediato, de contrário tem que esperar em Bissau 8 e mais dias, fazendo despesas desnecessárias. Já expusemos isto para Bolama, mas sem resultado. Nas mesmas condições fica Farim e Cacheu, cujas transacções são somente feitas com Bissau que igualmente fica em caminho.

Segundo letras descontadas. Parece que tendo sido aberta esta agência para ela deveriam ter sido enviadas todas as letras que descontadas em Bolama os sacados residissem em Bissau. Pelo facto, porém, das letras terem sido descontadas – pagável em Bolama, por não existir esta agência – recusa-se a agência de Bolama com este fundamento a enviá-las para aqui, sucedendo por este motivo que os clientes têm de ir a Bolama tratar da regularização das suas letras e, se as reformam, de continuar a fazer em Bolama as suas operações. A clientela com isto sente-se prejudicada porque em nada foi beneficiada com a abertura desta agência e traz para nós o inconveniente de privar-nos de fazermos descontos por ignorarmos qual seja em dado momento a responsabilidade das firmas que figuram nas letras a desconto, pois na dúvida de podermos ser logrados preferimos a recusa a descontos, que talvez pudéssemos fazer sem risco algum.
Mas dado o caso do mesmo cliente ter letras em Bolama e em Bissau, não poderá dar lugar a que o cliente venha a ter a sua responsabilidade duplicada? Não poderá algum freguês aproveitar-se desta circunstância e no mesmo dia em que aqui faz um desconto ir a Bolama que dista daqui 3 horas em motor e fazer novo desconto, aumentado responsabilidades que não comporte? Parece-nos que para evitar este inconveniente a melhor maneira seria a agência de Bolama enviar para esta agência todas as letras ali descontadas cujos sacados residam em Bissau e cada uma das agências limitar os seus descontos aos clientes da localidade, dividindo em duas zonas as restantes povoações da Guiné. Assim, a agência de Bissau ficaria com Cacheu, Farim, Bafatá e Bambadinca que lhe fica em caminho e mais próximas de Bissau; e à agência de Bolama pertenceria Bolama, Buba, Cacine e Bijagós.
Para que se pudesse fazer uma rigorosa fiscalização, também entendemos que uma das agências fornecesse à outra, semanalmente, ou que permutasse uma relação de letras descontadas para conhecimento da responsabilidade da clientela, pois pode suceder que um cliente de Bissau se aproveite de um de Bolama para sacado ou sacador, ou vice-versa, e pela relação vínhamos a saber qual era a sua responsabilidade.

Terceiro, contas correntes. Foi com dificuldade que obtivemos a transferência para esta agência dos saldos das contas correntes referentes a clientes de Bissau. Tendo esta agência aberto em 14 de Junho, só em 24 de Julho nos foram enviados de Bolama os saldos das contas, apesar dos nossos reiterados pedidos e igualmente da clientela. Quando, em 8 de Junho, saímos de Bolama, ficava fechada a escrita de Maio, mas a agência de Bolama para poder contar juros nas contas até fim de Junho demorou a transferência das contas, dando lugar a que estivéssemos trabalhando durante todo este tempo apenas com as reminiscências que tínhamos das referidas contas. Ficou ainda na agência de Bolama a conta do Visconde de Thiene pelo facto deste cliente ter ali uma pequena casa comercial que a maior parte das vezes conserva fechada durante meses. Ora sendo a sede da casa em Bissau é aqui, em nosso entender, que deve estar a conta para boa fiscalização.

Quarto, contas hipotecárias. A agência de Bolama pretende ficar ali com a conta hipotecária de Joaquim de Pinheiro Figueiredo que tendo aqui a residência deseja a conta em Bissau. Alega a agência de Bolama que foi ela a procuradora na escritura, mas tendo sido o banco quem fez o contrato e havendo agora em Bissau uma sua dependência, cremos que deveria passar para Bissau a conta, visto o cliente aqui residir e ter aqui outras suas operações.
Tudo isto gira em redor dos lucros que cada uma das agências deseja apresentar no final do exercício, mas nós dentro desses lucros temos em mira principalmente a fiscalização que aqui podemos exercer na defesa dos interesses e dos capitais do nosso banco, fiscalização que, ficando as coisas no pé em que estão, nem nós nem aquela agência pode fazer.

Pelos factos apontados, V. Exas. resolverão como julgarem conveniente, dando-nos as suas instruções”.

Começara a competição, só findará com o encerramento da agência de Bolama, que durante um tempo ainda funcionará como uma correspondência. Quem em Lisboa procede a análise da carta do gerente de Bissau faz anotações a lápis, parece que foram feitas ontem, diz que o Gouveia confirma ou que está certo, seguramente que houve concordância e a clara perceção de que os negócios no continente iam de vento em pompa, terão dado depois crédito às petições de Bissau.

Uma amostra singela mas concludente de que questiúnculas interbancárias podem ajudar a entender as mudanças que a Guiné estava a viver, em plena I Guerra Mundial.

Vista sobre a praia da ilha de Bubaque, fotografia de Francisco Nogueira, reproduzida, com a devida vénia, no livro “Bijagós Património Arquitetónico”, Edições Tinta-da-China, 2016

Vista do porto de Bissau, década de 1910, imagem do nosso blogue inserida em 8 de Setembro de 2012
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Nota do editor

Último poste da série de 18 de abril de 2018 > Guiné 61/74 - P18534: Historiografia da presença portuguesa em África (112): Imagens e relatórios dos actos de vandalismo praticados pelo MLG, na Praia de Varela, em Julho de 1961, encontrados no acervo documental do Banco Nacional Ultramarino (Mário Beja Santos)

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