segunda-feira, 22 de maio de 2023

Guiné 61/74 - P24334: Notas de leitura (1584): "Onésimo Silveira, Uma Vida, Um mar de Histórias", por José Vicente Lopes; Spleen Edições, 2016 (2) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Novembro de 2020:

Queridos amigos,
Privilegiou-se, deste belo livro em que entrevistador e entrevistado se enlaçam com naturalidade, entrevistador bem informado e um octogenário que procura jogar o jogo da verdade, os temas mais relevantes à luta armada, como ele via o PAIGC, como se sentiu atraído para combatente nacionalista e como se afastou do PAIGC por não aceitar o dogma da fé da unidade Guiné-Cabo Verde. 

Conheceu a fundo o PAIGC e o PAICV, dá-nos uma imagem da história de Cabo Verde após a independência que não pode deixar indiferente qualquer estudioso. Doutorou-se em socialismo africano e deixa-nos comentários valiosos sobre esses líderes com quem conviveu. Não se escusa a fazer confissões íntimas como a que tece sobre Adriano Moreira, não gostou dele como Ministro do Ultramar, considera a sua obra como uma das mais meritórias da Ciência Política, mesmo as medidas que tomou para estimular o ensino universitário e acabar com o regime do indigenato. Para o estudioso é muito importante a análise que ele faz do Partido Único de Cabo Verde e do seu trabalho autárquico. Creio que o leitor irá ficar fascinado com a imagem que este cabo-verdiano dá da sua vida e da sua ligação a uma cultura específica onde o português está sempre presente.

Um abraço do
Mário



Onésimo Silveira, o PAIGC e a unidade Guiné-Cabo Verde (2)

Mário Beja Santos

Onésimo Silveira, Uma vida, Um mar de histórias, por José Vicente Lopes, Spleen Edições, 2016, é de leitura obrigatória por vários motivos, que destaco: temos aqui uma grande angular com olhares sobre a sociedade cabo-verdiana, o papel do PAIGC neste Estado independente, e o contributo de alguém que foi combatente nacionalista, embaixador do seu país e diplomata das Nações Unidas, autarca, poeta, romancista e ensaísta. Quem o entrevista é um jornalista conceituado, José Vicente Lopes, a quem devemos obras de referência tais como Os bastidores da independência, As causas da independência e Aristides Pereira, minha vida, nossa história.

Já vimos como este combatente nacionalista andou por várias paragens antes de passar a representante do PAIGC no mundo escandinavo. Era frontal, não escondia a sua descrença contra o dogma da unidade Guiné-Cabo Verde. Estamos agora na atmosfera do assassinato, em retrospetiva, Onésimo, que assistiu aos funerais e que dialogou então com muita gente, avalia que Amílcar Cabral e os seus próximos subestimaram os avisos de que havia uma conjura em marcha, houve autêntica leviandade desses sinais premonitórios da conjura, os cubanos disseram claramente o que se estava a preparar. 

É neste momento que o entrevistador pergunta a Onésimo em que medida Cabral era tributário dos cabo-verdianos. Vem a resposta: 

“Precisava dos cabo-verdianos. Desde logo, para justificar a existência do PAIGC enquanto movimento de libertação dos dois territórios. Por outro lado, quando a luta exigiu uma intervenção qualitativa, só os cabo-verdianos e os cubanos é que puderam dar essa contribuição. São os cabo-verdianos que se vão formar sobretudo em artilharia, introduzindo com isso um elemento novo e de valor na guerra contra os portugueses”

A conversa deriva para o projeto de desembarque em Cabo Verde, houve aventureiros, como o Conde Von Rosen que propôs operações com aviões pequenos, chegou-se a discutir a preparação de pilotos, não era para matar pessoas, era para destruir os hangares dos aviões militares portugueses. Na altura da morte de Cabral os soviéticos estavam a preparar pilotos para a guerra na Guiné, mas era uma questão diferente. O plano do conde sueco não foi por diante e internacionalmente não havia qualquer apoio ao desembarque da guerrilha em Cabo Verde.

A conversa regressa aos cabo-verdianos de Conacri, observa pessoas, faz-lhes o retrato, caso de Pedro Pires: 

“Ele é um homem que não faz questão de apresentar ideias originais, mas é um administrador de grande classe, mesmo com ideias políticas que não sejam dele”

Onésimo, que já não é militante do PAIGC, após as exéquias de Cabral regressa a Estocolmo com o sentimento de que o PAIGC precisava de mudar de política, já estavam todos no comprimento de onda de que a Guiné seria independente, mas era óbvio que havia dois problemas, os guineenses não aceitavam o mando dos cabo-verdianos, e o papel dos militares, que enquanto Cabral foi vivo era de plena subordinação ao poder político, irrompeu na luta pelo poder. Cabral tinha uma fórmula para a subordinação dos militares, eles não eram militares, eram militantes armados, foi a consigna que ele criou no Congresso de Cassacá, para expurgar do PAIGC a mentalidade do cabo de guerra. O jornalista enfatiza, volta a Cabral e pretende saber se ele no fundo era guineense ou cabo-verdiano. Onésimo é pronto a responder: 

“Pelo comportamento, Cabral era cabo-verdiano. E foi por ser cabo-verdiano que foi morto pelos guineenses. Os guineenses não viam nele um guineense”.

Como o jornalista observa que também havia cabo-verdianos que se recusavam a ver Cabral como cabo-verdiano, Onésimo dá a sua interpretação: 

“É uma situação estranha, inédita, de um indivíduo que nasce num país, faz uma revolução como cidadão de outro país (aqui Onésimo comete um erro de palmatória, Cabral nasceu em Bafatá e depois foi com a mãe viver para Cabo Verde, onde estudou e de onde partiu para Lisboa para se diplomar como engenheiro agrónomo), Cabral esteve na Guiné, viveu com os guineenses, viu o impacto da intervenção colonial na Guiné, uma situação completamente diferente de Cabo Verde. Mesmo tendo vivido na Guiné, Cabral não viveu a Guiné por dentro e nem podia”

E adianta uma observação que abre um novo ângulo de análise, que mesmo a maior parte do tempo de Cabo Verde é uma experiência são-vicentina, e Onésimo procura dar uma interpretação: 

“Não é por acaso que Cabral se preocupa com a pequena burguesia naquilo que é o pensamento político dele. Na história de Cabo-Verde, a experiência urbana e pequeno-burguesa é mais visível em São Vicente do que em Santiago. A Guiné nem sequer é para aqui chamada. Cabral é dos poucos líderes africanos que se preocupa com o papel da pequena burguesia, porque sabia, no fundo, que ele próprio era um produto da pequena burguesia africana. Tinha tudo para viver tranquilamente e confortavelmente no quadro imperial português. Em vez disso, ele entendia que tinha uma dívida a saldar com os povos de África, a começar pelos seus irmãos da Guiné e Cabo Verde”.

Esboça-se o retrato de muita gente e influenciou a luta, caso de Abílio Duarte. Onésimo afasta-se do PAIGC, conta as reuniões em que esteve, conta como o caluniaram, seria um problema de contas, ao que ele respondeu perentoriamente: 

“Pelas minhas mãos não passava um tostão da ajuda sueca para o PAIGC. Não passava, nem nunca passou”

E explica o que era a ajuda sueca, a conversa retoma a cena internacional onde se movia o PAIGC, havia mesmo a opinião de que Cabral não devia ter ido ao encontro de Paulo VI, pessoas como Vasco Cabral, comunista, temia que os soviéticos ficassem francamente aborrecidos.

Dentro desta entrevista tão agradavelmente movimentada fala-se da tese de doutoramento e de Karl Popper, de Aron e de Sartre. E chegamos ao 25 de Abril e emerge uma nova dimensão, a independência de Cabo Verde, apresenta-nos intervenientes, fala-se do partido de Baltasar Lopes, Onésimo vive aquela tensão que tinha lutado pela independência do seu país e continuava a considerar que a unidade Guiné-Cabo Verde era uma grandessíssima asneira que ainda hoje Cabo Verde estava a pagar a fatura. 

Entretanto, vem investigar para Dacar, a convite de Senghor, assiste próximo e distante o aparecimento de movimentos de independência que serão sufocados pelo PAIGC. Onésimo ingressa nas Nações Unidas, vai para Nova Iorque, depois Angola, Somália, Moçambique, Genebra, cansado pede a desvinculação e volta para Cabo Verde, antes porém fala-nos da cultura norte-americana e depois da diplomacia africana, mais tarde vamos vê-lo como primeiro presidente eleito da Câmara Municipal de São Vicente (1991-2002), será depois embaixador de Cabo Verde em Portugal até 2005, falará longamente do Partido Único em Cabo Verde, foi mesmo convidado para Ministro dos Negócios Estrangeiros por José Maria Neves, é brejeiro a contar histórias como aquela que viveu enquanto embaixador em Lisboa: 

“Tive um funcionário que tinha mulher e amante na embaixada, mas que, por razões de ordem partidária, não resolvia o problema. Uma vez a amante veio ter comigo, para me dizer que estava na disposição de liquidar a rival, se o assunto dela não fosse resolvido. Aquilo era um caso de bigamia mal disfarçada e aconselhei-a a não fazer o que pensava, felizmente o marido acabou por regressar à base".

Onésimo revela-se um conhecedor profundo da realidade cabo-verdiana, a diversidade de cada ilha e a sua poderosa cultura. No termo da entrevista haverá um balanço e vamos vê-lo a falar com a maior das intimidades dos amores dispersos e dos filhos que tem em vários continentes. Considera-se um homem de coragem, relevou amizades, e conta histórias como o apoio que deu a José Leitão da Graça em Dacar, considerados inimigos do PAIGC. 

“Entre o revolucionário, autarca e diplomata, prefiro responder que sou um lutador”

Orgulha-se de ter tido uma vida plena e de continuar a lutar pela liberdade e pela democracia.

Pelo seu desempenho na luta pela independência da Guiné e Cabo Verde, esta longa entrevista é de leitura obrigatória para estudiosos e curiosos.

Onésimo Silveira e Amílcar Cabral em Helsínquia
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Nota do editor

Último poste da série de 19 DE MAIO DE 2023 > Guiné 61/74 - P24327: Notas de leitura (1583): "Onésimo Silveira, Uma Vida, Um mar de Histórias", por José Vicente Lopes; Spleen Edições, 2016 (1) (Mário Beja Santos)

7 comentários:

Antº Rosinha disse...

Afinal esta segunda parte do senhor Onésimo, Beja Santos não trouxe grandes novidades.

pelo menos quanto a Amílcar e à guerra.

Nem aparece nada sobre os julgamentos e interrogatórios dos assassinos e diz que assistiu ao funeral, portanto sabe muitas coisas que não aborda.

Aliás, fica a sensação que o senhor Onésimo ficou mais "em cima do muro" do que tomar abertamente partido.

É apenas "politicamente correto", tanto ao falar na intervenção da PIDE, e naquela da hipótese do barão sueco ir às ilhas de Caboverde com aviões bombardear hangares e talvez uma ou outra ideia mais.

Por fim, um retrato absolutamente perfeito para Amilcar Cabral em paz, que, digo eu, se podia aplicar a imenso número de caboverdeanos.

"Tinha tudo para viver tranquilamente e confortavelmente no quadro imperial português".

E aqui de facto era, como víamos como se sentiam bem a vaguear pelo espaço português do Minho a Timor, não só os estudantes do império de Cabo-verde como Amílcar, mas também angolanos, moçambicanos, goeses e mesmo timorenses com certas formações.

E eles tinham essa ideia tão assumida de paz e liberdade tropical, que não me admira que no espírito de Amílcar pesasse muito tal Unidade Guiné/Caboverde.

O senhor Onésimo sabia tão bem dessa qualidade especial de vida tropical que existia, que eu testemunhei!

Mas a propósito de estudar na Suécia certos "revolucionários" anticolonialistas, foi na suécia que se formou em engenheiro o projectista da auto estrada em Bissau chamada Unidade Guiné-Caboverde, só que não era africano era ribatejano.

Chegou à Suécia, eu sou contra a guerra do Salazar,bolsa para estudar, mais uma remessazinha dos velhotes, quem sabe sabe, talvez ainda conhecesse o senhor Onésimo.

Conheci e trabalhei com um engenheiro português de Benguela que tinha um trilema em jovem estudante, que era jogar no Benfica, ou estudar na Universidade em Lisboa, ou ir para a Europa como alguns do MPLA.

Optou por alojar-se no lar do Benfica e matriculou-se na Universidade.

Com muito trabalho, deu resultado.




Anónimo disse...

MITOS

Amicar Cabral era guineense de nascimento,cabo-verdiano de origem e português de cultura.

Certamente não desconhecia o desprezo dos guineenses para com os cabo-verdianos pelo simples facto de que o poder colonial sempre foi exercido maioritariamente por cabo-verdianos

Assisti às manifestações organizadas pelo paig ? em Bissau contra os cabo-verdianos logo em julho de 74.

Em 2018 na ilha da Boavista no hotel onde estive, desde o gestor até aos seguranças eram todos cabo-verdianos com formação especifica para a respectiva função (o governo de cabo-verde a isso obriga ), os jardineiros (por mero acaso certamente) eram guineenses.

A união de cabo-verde com a guiné sempre foi uma falácia e Amilcar Cabral sabia-o, apesar de o negar.

AB
C.Martins

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Amilicar era filho de padre, que estudou em Viseu com apoio de madrinha rica e beata... E depois tornou-se professor primário.

Por desgraça foi "desterrado" para a inóspita e selvagem Guiné. Como bom cabo-verdiano e patriarca bíblico deixou prole numerosa (já li que terá tido 18 filhos, uma "imoralidade" naquele tempo de miséria, )... Mas deve ter incutido no filho Amilcar a ideia, frequente entre os pais que são professores primários, que tinha que ser "o primeiro da turma"...

São gajos com um ego grande... que no fundo querem matar o pai... Nunca ninguém levou o Amílcar ao psicanalista...

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Essa história da audiência no Vaticano, alegadamente dada pelo papa Paulo VI ao Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Joaquim Chissano (se não erro) parece estar mal contada... Entre a propaganda de um lado e do outro, gostava de conhecer mais versões... para poder formar a minha opinião. (Não gosto de "emprenhar" pelos ouvidos como a nossa rapaziada que que se alimenta, mal, das redes sociais, e que é incapaz de ler um dos nossos postes, do princípio ao fim.)

Pergunto: o que é que o Silveira diz sobre isto ? Eu não vou ter tempo para ler o livro, a não ser na biblioteca do São Pedro, pelo que estou grato ao Beja Santos que já leu o livro por mim e por todos nós....LG

DRobalo disse...

À época, foi notícia a audiência dada pelo Papa a estes três lutadores pela independência dos seus "países. Todavia, os povos desses "países ", hoje independentes, ainda aguardam os efeitos de uma libertação adiada.

Fernando Ribeiro disse...

O representante de Moçambique na audiência com Paulo VI foi Marcelino dos Santos, que era vice-presidente da Frelimo. O presidente, Eduardo Mondlane, tinha sido assassinado no ano anterior, quando abria uma encomenda armadilhada, e a sua sucessão à frente da Frelimo ainda estava em disputa.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Obrigado, Fernando, pela correção...Marcelino dos Santos e não Joaquim Chissano... Ab, Luís