quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Guiné 63/74 - P5831: Patronos e Padroeiros (José Martins) (8): Portugal - Santo António - Tenente-Coronel Taveira Azevedo



1. Mensagem de José Marcelino Martins (ex-Fur Mil, Trms da CCAÇ 5, Gatos Pretos, Canjadude, 1968/70), com data de 15 de Fevereiro de 2010:

Boa tarde
Mais um texto sobre santos e militares.

Um abraço
José Martins



Patronos e Padroeiros - VIII

Tenente-Coronel Taveira Azevedo


Fernando Martim de Bulhões e Taveira Azevedo, nasceu em Lisboa – presume-se que na zona da Sé – filho de Martim de Bulhões e Maria Teresa Taveira Azevedo, no dia 15 de Agosto de 1195 (data oficialmente reconhecida).

Em Portugal reinava D. Sancho I (o Povoador - 2.º Monarca Português – 1185/1211), e o país preparava-se para entrar no século XIII. Estávamos na Baixa Idade Média. Lisboa expandia-se para fora dos muros, começava a surgir uma nova classe social formada pelos burgueses, e ainda se sentia o Espírito das Cruzadas.
Começou a estudar nas aulas ministradas na Igreja de Santa Maria Maior, hoje Sé Catedral de Lisboa.

Cerca do ano de 1210 ou 1211, pela mão do prior D. Estêvão, ingressa como noviço na Ordem dos Cónegos Regrantes de Santa Cruz de Coimbra, que tinham uma das suas casas instalada no Mosteiro de S. Vicente de Fora, em Lisboa, um dos centros mais importante de cultura medieval, à época, onde realizou os estudos de Direito Canónico, Filosofia e Teologia.

Mais tarde, em 1220, com a chegada a Portugal dos corpos de cinco mártires franciscanos, que tinham sido decapitados em Marrocos, decide transferir-se para a Ordem de São Francisco, recolhe-se no Eremitério dos Olivais, em Coimbra, e muda o seu nome para António.

A seguir segue para Marrocos onde, devido a doença grave, os Superiores da Ordem decidem repatriá-lo. Na viagem de regresso, por força de uma tempestade, o barco é arrastado para as costas da Sicília, onde acaba por ficar.

Continuando a sua vocação evangelizadora, percorre várias localidades, destacando-se Bolonha, Toulouse, Ferrara, Florença, Varene, Bréscia, Milão, Verona e Nântua. Entretanto, durante algum tempo, foi-lhe confiada a guarda do Convento de Puy-e-Velay, da Província de Limoges e da Província da Romanha, mas deixou, para se dedicar, em exclusivo, à pregação. Pregou, em 1228, na Basílica de São João de Latrão, em Roma, perante o Papa Gregório IX (de seu nome Ugolino di Anagni, nasceu cerca do ano 1160 em Agnini e faleceu em Roma e 22 de Agosto de 1241 – o seu Pontificado, o 179.º, decorreu entre 1227 e 1241), volta para Pádua onde, bastante doente, veio a falecer a 13 de Junho de 1231, tendo sido sepultado na Basílica de Pádua.

O Papa Gregório IX, antes de decorrido um ano após a sua morte, eleva-o à honra dos altares, canonizando-o na Catedral de Espoleto em Itália, no dia 30 de Maio de 1932, ficando conhecido por Santo António de Pádua, por ter sido esta cidade que acolheu as suas relíquias. Como nasceu em Lisboa, por tradição, também é conhecido por Santo António de Lisboa, sendo venerado não só na capital, mas em todo o país e em quase todas as regiões do globo.

Em 1946, o Papa Pio XII (de seu nome Eugénio Maria Giuseppe Giovani Paceli, nasceu em Roma em 2 de Março de 1876 em Agnini e faleceu em Roma e 9 de Outubro de 1958 – o seu Pontificado, o 261.º, decorreu entre 1939 e 1958), pela Carta Apostólica “Exulta Lusitanis Fidelis” proclama-o Doutor da Igreja, considerando-o “exímio teólogo e insigne mestre em matérias de ascética e mística".
A sua festa religiosa comemora-se no dia 13 de Junho, com liturgia própria.

Santo António de Lisboa
Imagem da colecção de Maria Manuela Martins
Foto © José Martins



Mas, na realidade, depois de muito brevemente ter lembrado o Frade e o Santo, vamos lembrar o militar.

Passou a fazer parte do Exército Português, em 1665, a partir do momento que é incorporado, por iniciativa de D. Afonso VI (o Vitorioso - 23.º Monarca Português – 1656/1683) que o mandou “assentar praça” no 2.º Regimento de Infantaria de Lagos, sendo integrado nas Forças que, comandadas pelo Marquês de Marialva, davam combate ao exército espanhol comandado pelo Marquês de Caracena. A iniciativa deu resultado, tendo as tropas portuguesas vencido os seus opositores.

O facto curioso é que, quase quatrocentos e trinta e cinco anos após a sua morte, é incorporado como soldado combatente e não como capelão ou “assistente espiritual”, dada a religiosidade do Santo e a veneração dos fieis.
No reinado de D. Pedro II (o Pacífico - 24.º Monarca Português – 1683/1706) é promovido a Capitão e no reinado de D. Maria I (a Piedosa - 27.º Monarca Português – 1777/1816), promovido a Tenente-Coronel e condecorado com a Medalha Cruz da Guerra Peninsular (*), a título de recompensa pela vitória alcançada pelas tropas luso-britânicas, na Batalha do Buçaco, travada em 27 de Setembro de 1810, contra as tropas francesas de Napoleão, sob o comando de André Massena. O soldo vencido como militar, servia para ajudar os soldados doentes.

Paralelamente no Brasil, ainda colónia portuguesa, José de Souto Maior, Governador da Capitania de Pernambuco, faz o Santo assentar praça nas milícias luso-brasileiras, durante as lutas contra o Quilombo dos Palmares (**).

Por carta régia de 21 de Março de 1711, D. João V (o Magnânimo - 25.º Monarca Português – 1706/1750), promove-o a Capitão pelos relevantes serviços prestados sob o comando de Francisco de Castro Morais, Governador da Capitania do Rio de Janeiro, contra a invasão dos piratas de Jean-François Duclerc.

O Príncipe-regente D. João, já na Bahia, confere-lhe a patente de Tenente-Coronel, com o soldo correspondente ao posto 80$000 (oitenta mil reis), até que em 1911, durante a presidência do Marechal Hermes Rodrigues da Fonseca (8.º Presidente do Brasil – 1910/1914), este deu indicação ao General Emídio Dantas Barreto (ministro da Guerra entre Novembro/1910 e Setembro/1911), para suspender o pagamento do soldo ao Santo.

O Tenente-Coronel Santo António entra, com toda a certeza, em outras guerras, batalhas e combates transportado, não só no coração mas na mente de muitos combatentes que, devotadamente, transportavam pequenas imagens no seu espólio pessoal, em pagelas com orações votivas ou em medalhas, presas no interior da sua farda, e benzidas pelo pároco da freguesia.

José Marcelino Martins
15 de Fevereiro de 2010

(*) Medalha Cruz da Guerra Peninsular

A Cruz da Guerra Peninsular foi uma condecoração criada em 28 de Junho de 1816, pelo rei D. João VI, para distinguir os participantes nas campanhas da Guerra Peninsular entre 1809 e 1814. As campanhas eram contadas por anos, bastando ter participado numa batalha ou combate, para contar como um ano,

Para oficiais:
Ouro – para os Oficiais que participaram em quatro ou mais campanhas,
Prata – para Oficiais que participaram até três campanhas.

Para Sargentos e Praças:
Prata, sendo limitada a sua atribuição por cada unidade:
200 por cada Regimento de Infantaria de Linha;
100 por cada Regimento de Milícia;
120 por cada Batalhão de Caçadores;
25 por cada Esquadrão de Cavalaria;
30 por cada Brigada de Artilharia;
25 por cada Companhia de Artífices Engenheiros.

Em 18 de Maio de 1825, foi criada a Cruz da Guerra Peninsular para os empregados civis. Em prata para até 2 campanhas, ou Ouro, para 3 ou mais.

(**) Quilombo - Esconderijo no mato onde se refugiavam os escravos..
__________

Nota de CV:

Vd. último poste de José Martins com data de 6 de Fevereiro de 2010 > Guiné 63/74 - P5775: Efemérides (44): O desastre de Cheche, 41 anos depois(José Martins)

Vd. último poste da série de 8 de Dezembro de 2009 > Guiné 63/74 - P5423: Patronos e Padroeiros (José Martins) (7): Transmissões - Arcanjo S. Gabriel

4 comentários:

Anónimo disse...

Amigo, José Martins,
Obrigado, pela tua descrição, pormenorizada com rigor Histórico esmiuçado, parabéns.
Um abraço
José Corceiro

Hélder Valério disse...

Caro Zé Martins

Obrigado por estas informações e esclarecimentos que, confesso, desconhecia totalmente.
Abraço
Hélder S.

Anónimo disse...

Sao Berardo e Companheiros Franciscanos Mártires de Marrocos, Padroeiros dos Franciscanos Portugueses

José Marcelino Martins disse...

Caro anónimo

Foi pena escrever como anónimo, porque as informações que traz são valiosas.

Eu, autor do texto sabia do facto que refere, no entanto a série que iniciei era para patronos militares, não sendo de excluir que a continue com SOLDADOS que foram SANTOS e/ou outros Patronos e Padroeiros, até pelo que constatei, existe pouco literatura sobre este tema.

De qualquer das formas agradelo a intervenção e continue e receba saudações fraternas.