quarta-feira, 7 de abril de 2010

Guiné 63/74 - P6123: Agenda cultural (69): Apresentação da biografia Spínola, de Luís Nuno Rodrigues, amanhã, 18h30, Fundação Mário Soares, Lisboa





1. Amável convite que nos foi enviado pela Margarida Damião, da editora Esfera dos Livros:

Caro Luís Graça,



Espero que posso divilgar este convite junto dos visitantes do seu blog e que possa estar presente amanhã no lançamento.
Gostava muito de lhe enviar um exemplar da obra para sua análise e posterir publicação no blog, será que me pode enviar a sua morada?


Muito obrigada,

Margarida Damião
Rua Barata Salgueiro, n.º 30- 1º Esq.
1269-056 Lisboa
Tel. 21 340 40 64
Telm.963441979
www.esferadoslivros.pt

2. Comentário de L.G.:

Espero que os nossos amigos e camaradas da Guiné, nomeadamente os da área da Grande Lisboa, possam  estar presentes neste evento.  Spínola foi o comandante-chefe de muitos nós. No nosso blogue, temos cerca de uma centena de referências a Spínola (incluindo o descritor Marechal António Spínola).

De Spínola conhecemos apenas o anedótico, a pequena história, o fait-divers... Falta-nos, de facto, a grande biografia do homem, do português, do militar, do político. O seu papel como militar e como político não pode ser ignorado, esquecido, escamoteado. Simpatize-se ou não com o personagem, nuinguém lhe pode tirar o protagonismo que teve na nossa história contemporânea, antes do 25 do Abril (e nomeadamente no TO da Guiné) bem como no imediato pós-25 de Abril.

É altura de olharmos, desapaixonadamente, para aquele que foi um dos mais importantes actores da cena político-militar do nosso tempo de juventude... Connheci-o, pessoalmente, ao fim de vinte meses, na ponte do Rio Udunduma, a 3 de Fevereiro de 1971, em estado menos recomendável em termos de aprumo militar: a barba de muitos dias por fazer, o cabelo comprido... Sempre tive dele uma "opinião pré-concebida", que já levava da Metrópole (*)... Hoje não gosto de fazer juízos sumários sobre ninguém...

Já folheei o livro, mas não tenho uma ideia formada sobre a resposta à pergunta: É esta a grande biografia de Spínola ? Primeiro é preciso ler o livro para avaliar e julgar... E, muito provavelmente, ainda nos falta a distância efectiva e efectiva para compreender e explicar o que fez correr o autor de Portugal e o Futuro.

Quem é o autor da obra ? Sobre ele, diz a editora:

Luís Nuno Rodrigues é doutor em História Americana pela Universidade do Wisconsin (EUA) e em História Moderna e Contemporânea pelo Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE). Actualmente é professor auxiliar com agregação no Departamento de História do ISCTE.

Tem publicado vários livros e dezenas de artigos sobre os temas da sua especialidade. A sua obra Kennedy-Salazar: a crise de uma aliança. As relações luso-americanas entre 1961 e 1963, publicada em 2002, foram galardoadas com os Prémios Fundação Mário Soares e Aristides Sousa Mendes.

Nota de L.G.: O autor é também investigador do IPRI - Instituto Português de Relações Internacionais, da Universidade Nova de Lisboa.

Ficha técnica do livro:

Título: Spínola
Colecção:  História Biográfica
Nr de páginas: 744 + 28 extratextos
PVP /c Iva: 28 €
ISBN: 978-989-626-208-2
Formato: 16 X 23,5
Encadernação: Cartonado
Data de edição: Março de 2010

Sinopse:

Em 1961 tomou uma decisão que mudaria para sempre a sua vida: ofereceu-se como voluntário para a guerra em Angola. Começava assim a construção do mito em torno de António de Spínola. Uma imagem que se fortaleceu na Guiné, onde desempenhou os cargos de governador-geral e de comandante-chefe.

O homem que uns meses antes agitou o país com a publicação de Portugal e o Futuro, onde defendia que o problema colonial português não teria uma solução militar. A sua passagem pela vida política revestiu-se de aspectos dramáticos e foi uma decepção, quer para os seus opositores, quer para alguns dos seus apoiantes e seguidores, que nele depositaram fortes esperanças num momento-chave da História portuguesa.

O certo é que, entre 25 de Abril de 1974 e 11 de Março de 1975, a «glória» cedeu lugar ao «drama» na vida de António de Spínola. Uma série de passos em falso levaram o «general do monóculo» da Presidência da República ao exílio no Brasil, de símbolo da esperança nascida em Abril de 1974, a líder de um movimento clandestino que, a partir do estrangeiro, visava alterar pela força o regime político vigente.

Regressou a Portugal em Agosto de 1976, recebendo ordem de prisão ainda no aeroporto. Reintegrado posteriormente nas Forças Armadas, António de Spínola foi nomeado marechal e, mais tarde, recebeu a Grã Cruz da Ordem Militar da Torre e Espada do Valor, Lealdade e Mérito.

Quando morreu em 1996, com 86 anos, Spínola era um homem que ainda não se tinha reconciliado com o seu pais, nem esquecido ou perdoado erros cometidos no passado.

_________________

Nota de L.G.:

(*) Vd. poste de 4 de Novembro de 2007 > Guiné 63/74 - P2239: Tugas - Quem é quem (2): António de Spínola, Governador e Comandante-Chefe (1968/73)

(...) Ponte do Rio Udunduma, 3 de Fevereiro de 1971:



De visita aos trabalhos da estrada Bambadinca-Xime, esteve aqui de passagem, com uma matilha de Cães Grandes atrás, Sexa General António de Spínola, Governador-Geral e Comandante-Chefe (vulgo, o Homem Grande). Eu gosto mais de chamar-lhe Herr Spínola, tout court. De monóculo, luvas pretas e pingalim, dá-me sempre a impressão de ser um fantasma da II Guerra Mundial, um sobrevivmente da Wermacht nazi.


Mas o que é que faz correr este velho soldado, como ele próprio gosta de se chamar ? É difícil adivinhar-lhe a sua paixão secreta, o seu móbil, sob a sua impassibilidade de samurai (ou de figura de cera?): a mitomania, o culto da personalidade ou, hélàs!, a presidência da república ...


Há qualquer coisa de sinistro na sua voz de ventríloquo, no seu olhar vidrado ou no seu sorriso sardónico: talvez seja a superioridade olímpica do guerreiro.

Cumprimentou-me mecanicamente. Eu devia ter um aspecto miserável. Eu e os meus nharros, vivendo como bichos em valas protegidas por bidões de areia e chapa de zinco. O coronel (?) que vinha atrás do General chamou-me depois à parte e ordenou-me que, no regresso a Bambadinca, cortasse o cabelo e a barba…


A visita-surpresa do Deus-Todo-Poderoso foi o meu único monumento de glória em toda esta guerra… Ao fim de vinte meses!... Só quero regressar, são e salvo, a casa, daqui a um mês e, se possível, levar comigo a barba que deixei crescer… na Guiné, longe do Vietname.


Fonte: 30 de Setembro de 2006 > Guiné 63/74 - P1132: Spínola e os seus 'Cães Grandes' na ponte do Rio Udunduma (Luís Graça) (...)

4 comentários:

Julio Vilar pereira Pinto disse...

O Manuel Alegre irá estar lá?
Só se não tiver vergonha.

Torcato disse...

Escreves bem meu Caro Luís Graça. É uma escrita nas linhas e muito nas entrelinhas. Escrita,digo eu,muito comum na nossa geração.
Estive na Guiné antes do Brigadeiro António de Spínola chegar. Talvez entre Janeiro e Maio de 68.
Conheci-o logo em Mansambo e posteriormente encontramo-nos em várias situações e lugares. Fazia-se acompanhar pelo então Capitão Almeida Bruno e hoje General.
O General Spìnola fixava a cara e os nomes dos seus subordinados e era um verdadeiro Comandante, um Militar que me merecia e merece o mais profundo respeito. Podia aqui descrever algumas recordações desse tempo, em que tive o privilégio de ser comandado por ele.De facto, a primeira vez que o vi pengalim,luvas e monóculo pensei estar a retroceder ao ano em que nasci. Depois habituei-me.
Tinha defeitos. Era homem e militar. Militar com a coragem de escrever Portugal e o Futuro, a pedrada no charco a um regime caduco e déspota.Li e não gostei. Vi-o politico, respeitei, mas, além de não gostar até fiquei aborrecido e entristecido.
Tentei esquecer, perdoar estava fora de questão. Congratulei-me de o ver ser promovido a Marechal e respeito profundamente a sua memória. Este blog é,queiramos ou não, um lugar de antigos militares e é isso que nos une, concordando ou discordando neste site plural. Um blog de afectos que tu criaste, meu caro e amigo Luís e assim, penso eu, prestaste um enorme serviço a todos os ex militares e não só. Se queremos conhecer a guerra colonial, a segunda metade da História do Sec XX do nosso País devemos ler muito do que aqui se escreveu.Um abraço e um bem-hajas por isso Camarada. Antes de terminar só dizer que Manuel Alegre combateu no Norte de Angola e convém conhecer o seu passado (basta ler a NS de sábado do DN) e, noutra controvérsia, tentar também saber o passado militar do Snr. General Almeida Bruno.
Escrevi longo.
A todos, pensem da forma que pensarem, um abraço e digo que,para mim, a diversidade de pensamento é salutar.Muito salutar.
Abraço do TM ex-militar

Anónimo disse...

Caros Camaradas
Amanhã conjuntamente com o jornal Correio da Manhã vai sair um livro sobre o Gen.Spínola, o preço é 4.95 E mais o jornal.
Quanto ao contacto com O Gen. Spínola, ele apareceu de surpresa em Piche, apanhou o Comandante do BCav.2922 (Ten.Cor.Cav. Chaves Guimarães) na cama, convocou uma reunião no Comando, perguntou ao Comandante para lhe explicar como estava planeada a defesa do quartel, o homem começou a gaguejar, não soube explicar nada, o General mandou-o fazer a mala e lá foi para Bissau. E assim ficámos sem o comandante do Batalhão. Nunca mais soubemos do homem, nem o que lhe aconteceu.
Abraço
Luís Borrega

Luís disse...

Júlio, desculpa perguntar-te (e sem querer de modo algum melindrar-te, criticar-te, censurar-te): a que propósito vem aqui o nome do Manuel Alegre ?

Este blogue chama-se Luís Graça & Camaradas da Guiné. Não vejo qualquer relação do cidadão Manuel Alegre, nascido em Águeda, conterrâneo de alguns camaradas nossos, com a figura do defunto António Spínola... Nem sei se alguma vez se cruzaram na rua... Nas bolanhas da Guiné, seguramente que não. Nos corredores do poder, no pós-25 de Abril, talvez, mas esse é outro filme, é outra cena de outro filme que não é o nosso...

Além disso, tratando-se de um acto público, o cidadão Manuel Alegre tem o mesmíssimo direito de lá estar ou lá ir (embora me pareça improvável que lá vá...), como eu ou tu ou os antigos ajudantes de campo do Spínola como o Almeida Bruno ou o Carlos Ayala Botto que, por acaso, até é membro do nosso blogue, tendo comandado - se não me engano - a CCAÇ 6, em Bedanda. Em suma, não é nenhum acto reservado a este ou aquele grupo de pessoas: por exemplo, admiradores de Spínola, detractores de Spínola, estudiosos do spinolismo, estudantes de história contemporânea, oficiais de cavalaria ou ex-combatentes da Guiné...

Repara, é um "simples" lançamento de um livro, por acaso sobre uma figura pública, logo necessariamente polémica, da nossa história recente, chamado Spínola. E por acaso (ou não) é na Fundação Mário Soares. Mas a editora é a Esfera dos Livros que nos pediu a divulgação do evento e até nos mandou um convite, extensivo a todos os "visitantes" do nosso blogue...

Eu, por exemplo, tenciono ir lá, e não vou "ter vergonha", por um dia, no meu diário, em 3/2/1971, com vinte meses de comissão, desterrado num buraco chamado Ponte do Rio Udunduma, ter-lhe chamado (no papel ...) "Herr Spínola", o que poderia ser entendido como um insulto por um spinolista, quarenta anos depois, desde o momento em que eu publiquei, no blogue, essa passagem do meu diário (até aqui um documento pessoal, privado).

Como deves saber, da leitura (e da prática) das nossas regras de convívio, neste blogue não se cultivam ódios de estimação, as picardias não são bem vindas e não confundimos a livre expressão das nossas divergências (políticas, ideológicas, religiosas, filosóficas) com a chicana político-partidária ou o assassínio de carácter...

Júlio, ajuda-nos também a construir e a reforçar a nossa cultura de tolerância (bloguística) que já tem seis anos. Estou encantado porque há meses que não eliminamos comentários, anónimos ou injuriosos... E todos os meses passam por aqui mais de mil comentários... Isto significa que respeitamos o nosso "livro de estilo"...

Tens todo o direito de mão gramar o Manuel Alegre ou o Mário Soares ou outro político qualquer como eu não gramo o óleo de fígado de bacalhau. Mas acontece que há camaradas nossos que poderão reivindicar o direito de resposta, vindo em defesa da "honra" desta ou daquela figura pública... E com isso este poste (e o blogue) transforma-se naquilo que não deveria ser, nem a maioria dos seus membros quer que seja...

Não recusamos uma boa polémica, o que não deve confundido com a fulanização, o insulto gratuito, o bota-abaixo, os juízos de intenção, a alarvice...


Um Alfa Bravo. Luís Graça