segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Guiné 63/74 - P7479: Operação Tangomau (Álbum fotográfico de Mário Beja Santos) (5): Dia 23 de Novembro de 2010

1. Mensagem de Mário Beja Santos* (ex-Alf Mil, Comandante do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 17 de Dezembro de 2010:

Malta,
Foi um dia importante para o meu coração.
Lamento, no que toca a Lorde Torcato e àquele senhor que quer uma moradia em Finete, um tal Jorge Cabral, não trazer propriamente notícias animadoras.
Foi o que aconteceu.
Amanhã será diferente. Amanhã contem comigo no Cuor. Amanhã chego a casa, a Missirá.
Antes, serei recebido por um antigo comandante do PAIGC, em Canturé, agora Gan-Turé.
Mudam os nomes mas os lugares conservamo-los toda a vida.

Um abraço do
Mário


OPERAÇÃO TANGOMAU - ÁLBUM FOTOGRÁFICO (5)

DIA 23 DE NOVEMBRO DE 2010

Tudo leva a crer que este dia 23 de Novembro vai ser emocionante para o Tangomau. Ao sair de casa deparou-se o seu querido amigo Mamadu Djau, veio de bicicleta de Amedalai, acompanhado de um antigo soldado do Pel Caç Nat 54. Em casa do Fodé, nova surpresa: o Zé Pereira, primeiro cabo do Pel Caç Nat 52, entre 1968 e 1969. Uma grande, grande surpresa. Depois de alguma negociação com o Fodé, a comitiva vai até ao antigo porto de Bambadinca, o Tangomau pretende registar o que resta desse espaço que justificava idas diárias a Mato de Cão. Todo o abastecimento do Leste, até aparecer, em finais de 1969, o porto do Xime, desembocava aqui. Sobretudo durante as manhãs, era uma roda-viva de Berliets e Unimogs que depois irradiavam para inúmeros regulados. A seguir ao porto do Bambadinca, o Tangomau tem que deixar uma carta em casa do Zeca Braima Sama, veio do seu amigo Humberto Reis, antigo furriel da CCaç 12. E há também que visitar o cemitério de Bambadinca, o coronel Jales Moreira pretende saber o estado dos túmulos dos três militares portugueses que ali jazem. O que resta do porto de Bambadinca são estacas, as que se vêem. O Tangomau teve uma repentina, perguntou a um daqueles pescadores se o levavam a Mato de Cão. Que sim, na manhã seguinte, ainda pela fresca. Depois começou a negociação do preço, começou em 40 mil francos CFA, fechou-se o negócio em 10 mil. Infelizmente, o mandão do Fodé impôs-se, está a chegar a hora de começar as visitas ao Cuor. O passeio de canoa a Mato de Cão fica para a próxima viagem. E todos aqueles que frequentaram o porto de Bambadinca vão ficar de garganta seca quando virem estas miseras estacas como vestígio de uma importância perdida.

A auto-estima do Tangomau trepou quando ele visionava o rescaldo desse dia 23. No primeiro visionamento, ele deu pouca importância à imagem. Depois, do alto da sua arrogância de fotógrafo super-amador, reconsiderou que estes vestígios do porto de Bambadinca não eram para deitar fora. Suportavam o tabuleiro do cais, por aqui passaram toneladas de comida, munições e aparato bélico, material de construção civil, etc. Para que conste para a História, aqui houve cais, exactamente neste ponto acostava o aprovisionamento dessa imensa guerra. É certo que se trata de uma ruína, o Tangomau trata-a como um vestígio arqueológico, deu sofrimentos inenarráveis proteger e direccionar este aprovisionamento.

Calilo avisara o Tangomau que havia lá uns espigões em ferro dentro do capim e muito perto do trafi (para quem está esquecido, o trafi recorda os chorões curvados sobre os rios, são árvores pequeninas, bem proporcionadas, dentro e fora do tarrafe). Entrou-se no capim e encontrou-se este suporte para o cordame das embarcações. Deram-se voltas à procura do outro suporte, era natural que houvesse dois. Mas não havia. Para que conste, é o último material ferroso do que resta do porto de Bambadinca. Cabisbaixos, todos aqueles antigos combatentes que tinham vigiado aqueles barcos civis que aqui aportaram, uns quilómetros mais abaixo, em Mato de Cão, subiram silenciosos até casa do Zeca Braima Sama. Deixou-se a carta a um familiar, o Zeca estava a dar aulas em Bafatá. À noite, foi apresentado ao Tangomau na Bantajã Mandinga. Apareceu no almoço de veteranos. E comoveu-se. A comitiva subiu para o cemitério de Bambadinca.

O Zé Pereira veste uma sabadora cor de vinho, está rodeado de Madjo Baldé e Sadjo Seidi, Sadjo Tchamo e Djiné Baldé (Missirá e Finete). Quando o Tangomau chegou a Missirá havia três primeiros cabos africanos: Domingos Silva (o albino Amadu Baldé disse-me que o viu em Bissau há uns cinco anos atrás, ninguém sabe onde pára), Paulo Ribeiro Semedo (cristão de Geba, sinistrado em Chicri com a explosão de um dilagrama, já falecido) e o Zé Pereira. O Zé era indiscutivelmente o melhor preparado deles, fora e voltou a ser professor, dava provas de maturidade e tinha o sentido da liderança. Durante anos correspondeu-se com o Tangomau. Vive em Bissorã, os seus filhos, ele diz isto com orgulho, fizeram os estudos médios. O filho mais velho joga no Atlético Clube Oriental, ele está prestes a vir visitá-lo. O Tangomau combinou ir à bola, actividade que nunca exerceu. Mas ao Zé Pereira não se pode negar essa alegria, estar a seu lado e ovacionar o filho que triunfou na bola.

O inesquecível, o valoroso e sempre fiel Mamadu Djau. Continua a trabalhar na bolanha, de onde arranca o sustento. Aqui há uns tempos, Lorde Torcato pedia informações sobre o que fazem os nossos antigos combatentes: no essencial, vão à bolanha, cultivam a horta, quando podem fazem algum comércio, vivem miseravelmente, não sabem o que é o médico, o medicamento, a pensão de reforma. Quando estive com o Mamadu Djau, em 1991, ele ainda fazia comércio. E agora, Mamadu? “Dinheiro cá tem, Mário, estou velho e perdido”. O que me dói até ao tutano é que este homem de estatura média, de porte régio, é um herói, um destemido, com a bazuca foi um combatente de alta perícia. Começou como milícia na Ponta do Inglês, engoliu ali as faúlhas do inferno. Depois de eu ter visitado a Ponta do Inglês com Lânsana Sori, ele explicou-me a vida daquele destacamento atribulado. Mais adiante, veremos o que resta da Ponta do Inglês. O Mamadu confiava que eu o tinha vindo buscar, em 1991, dissera-me: “Depois do que eu sofri ao pé de ti, depois desta viagem que fizeste, acreditei que me vinhas buscar, quero ganhar a vida e ser respeitado”. É uma das recordações mais impressivas desta viagem de 2010: caminhamos para o ocaso, o abraço que demos, as mãos dadas que estendemos um ao outro, o muito obrigado embargado que lhe disse quando ele partiu para Amedalai e eu para os Nhabijões, na tardinha de domingo, 28 de Novembro, foi a fraternidade pura, sabemos o lugar que temos no coração do outro. Para todo o sempre.

Já muito se escreveu sobre este cemitério de Bambadinca, andam por aí muitos protestos sobre o tratamento indigno que lhe reservaram, o Bambadincazinho tem-se vindo a expandir sem olhar a meios. O cemitério apanhou por tabela, a comitiva deu voltas e mais voltas até se aperceber que este é o último palmo que resta do cemitério. Como em muitas outras situações, o último grito da presença humana é aquela lápide de cimento. O Tangomau conversava com os seus botões: eram três, parece que só resta um. Isto lembra o soldado desconhecido. Não seria a melhor solução remover estas ossadas para o talhão dos combatentes, no cemitério de Bissau? Vamos passar a vida a trasladar combatentes? Os britânicos que combateram na Flandres não ficaram lá a descansar eternamente?

Que este tocador de Korá, em pleno Bambadincazinho, não se presta confusões. Perdeu-se a imagem do Tangomau e comitiva em Samba Juli, uma tabanca que representava o fim do sossego para quem ia para Mansambo ou Xitoli ou confins do Cossé. Curiosamente, os visitantes puseram-se de acordo: pouco mudara em Samba Juli. Depois dos agradecimentos da visita pelo chefe de tabanca, o Tangomau começou a fazer perguntas, ia de encontro ao que lhe pedira Lorde Torcato de Mansambo. Começou por Lali, está vivo ou morto? Houve conciliábulos em fula e crioulo e dpois veio a resposta, o Lali está vivo, podem encontrá-lo em Candamã. E Suckel? Novos conciliábulos, veio a resposta: Suckel, o sobrinho de António Iaio Buaro morreu. E Madiá? Conciliábulos e correcção: não é Madiá, é Madiu, ou Mussa Candé, pertencia ao pelotão de Mamadu Bari, de Moricanhe, morreu. Já a pensar como é que se transmitem estas notícias a Lorde Trocato, perguntou-se pelo régulo António Bonco Baldé, o régulo do Corubal. Aqui nem foram precisos conciliábulos: António Bonco morreu há muito, o seu herdeiro é Sori Baldé, vive em Sinchã Moli. Lorde Torcato também me pedira para se perguntar pelo 91. Ninguém sabia quem era o 91. Aliás, o Tangomau proibira que se tratassem as pessoas por números. Quem apareceu e pediu para ser fotografado foi um irmãozinho de Queta Baldé, para quem não sabe o Queta é um dos heróis dos livros do Tangomau, memória como a dele não existe em mais ninguém. O irmão chama-se António Iaia Buaro Embaló e manda “manga de cumprimento” ao irmãozinho. Pode dar-se o caso do leitor se ter esquecido destes diminutivos. Um só exemplo, quando se diz mãezinha está-se a falar na irmã da mãe, não vale a pena perguntar se é o mesmo que uma tia. Nesta altura da viagem, o Tangomau já conhecera centenas de paizinhos, tiozinhos, irmãozinhos do Fodé Dahaba. Se acaso ainda existem famílias extensas a do Fodé é extensíssima.

No regresso de Samba Juli, o Tangomau, à beira da desidratação, pediu para ir ao mercado buscar duas garrafas de água, de litro e meio. É nisto que um jovem bem crescido avançou para ele e lhe disse: “Estiveste no Xime e falaste muito bem do meu pai. Eu sou o filho de Mankaman Biai, de quem disseste ser o maior guia e picador do Xime. Tira fotografia”. Antes de tirar a fotografia, como é uso e costume, o Tangomau enobrece os primores de carácter deste Mankaman, que recebeu louvor na operação “Rinoceronte Temível”. E a seguir, a comitiva, à hora do calor, partiu a caminho de Fá Mandinga, tentava-se assim dar cumprimento aos pedidos de um tal Jorge Cabral que andou a fazer distúrbios na região. A estrada para Fá não é exactamente o que era. Passa-se por Santa Helena, Bantajã Assà e depois envereda-se por um estradão em muito mau estado ao lado de Ponta Barbosa, o capim cresceu, aqui e acolá despontaram pequenas tabancas, Calilo abranda a velocidade face às grandes brechas no caminho, há ainda lagos de água esverdeada, ouve-se a insistente zanguizarra dos grilos, vou ouvi-los ainda mais insistentes quando for a Madina e a Belel. Já por aqui andei quando fui visitar Serifo Candé, em Biana. Fá é um desapontamento, o que no passado evocava granjas, restos de quartel, escola agrícola, agora são vestígios de edifícios carcomidos. A viatura pára, à frente existe o quartel do Exército guineense. Fotografias nem pensar. E também é já tarde, voltar a câmara para as ruínas ali ao lado pode parecer uma provocação a este jovem que tem a pesporrência de um guarda pretoriano. Pois o Jorge Cabral fica com sobejos motivos para se meter ao caminho e vir dar aqui uma espiada: tem guarda-costas e alguns soldados vivos para lhe dar companhia. Nada mais se pode adiantar.

Finete acompanhou a evolução do traçado da estrada Bissau-Bafatá. Antigamente estava concentrada sobre a bolanha, agora espraiou-se. Aqui fica a última imagem do dia. Aqui começava a bolanha ou a povoação de Finete, ou vice-versa. A fotografia só tem importância porque se vai repetir a mesma coisa noutros locais. Por exemplo, no Enxalé, alguém que o acompanha diz-lhe: “Ali era a estrada que levava a…”. No caso do Enxalé, havia dua estradas, a que atravessava a bolanha, a estrada velha, em frente ao Xime, e a estrada nova, mesmo em frente a Samba Silate. É um mundo que desapareceu. E, por vezes, como num rompante lírico, o Tangomau dá consigo a captar estes caminhos que perderam servidão, que foram retomados pela natureza.

A bolanha de Finete tem destas surpresas, não é por acaso que beija o rio Geba, e com ele se confunde. Para o amador de curiosidades, esclarece-se que Calilo Dahaba parou a viatura de combate e questiona o que o Tangomau pretende captar na travessia do rio Geba. Pois é exactamente isto: o rio e a bolanha, a vegetação luxuriante, e a luz, esta luz teatral que faz da água barrenta um curso de água de azul quase celeste. É também por estas e por outras que o Tangomau regressa ao seu “chão” e se sente imensamente feliz. Tudo começou com um porto que se transformou numa memória, reencontraram-se amizades profundas, foi-se a Samba Juli e a viagem a Fá Mandinga resultou numa decepção. Valha-nos a bolanha de Finete. E o Geba, o rio que atravessa a vida do Tangomau.

Ainda há luz do dia, a excursão prossegue até à bolanha de Finete, o Tangomau sabe que é boa hora para captar a luz especial, aquela que guardou estas décadas todas. Como esta imagem comprova: os lírios dentro em breve vão fechar, quando o dia arrefecer, a bolanha parece um imenso jardim exótico que avança em direcção à mata densa de Finete, o que é hoje Finete, a próxima surpresa que espera os viajantes. Já bem cansados, por sinal.

Fotos: © Mário Beja Santos (2010). Direitos reservados.
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Notas de CV.

(*) Vd. poste de 19 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7470: Notas de leitura (179): A Luta Pelo Poder na Guiné-Bissau, de Álvaro Nóbrega (Mário Beja Santos)

Vd. último poste da série de 16 de Dezembro de 2010 > Guiné 63/74 - P7445: Operação Tangomau (Álbum fotográfico de Mário Beja Santos) (4): Dia 22 de Novembro de 2010

2 comentários:

Torcato disse...

Obrigado Mário
Logo escrevo. Tenho guardado estes teus escritos. O Mamadu DJau deve recordar-se do 91. O Lali foi na Candamã? Estranho. Guardo o anel que o Suckel "partiu" comigo.
A morte é triste. Vamos morrendo um de quando em vez. O Amadeu, do meu Grupo, há muito que partiu...o Madiá ou Madiu era esse...o Régulo Antº Bonco teria mais de oitenta se fosse vivo. Ele trabalhou na Casa Gouveia.

Logo escrevo. Logo falamos. Agora estou esquisito. Vai escrevendo.
Abraços do Torcato
Porque nos marcou tanto aquela gente?

Anónimo disse...

Que imagens lindas da minha Guine... Vai escrevendo- faco tambem minhas este pedido !

Nelson Herbert