sexta-feira, 1 de abril de 2011

Guiné 63/74 - P8028: Contraponto (Alberto Branquinho) (26): Teatro do Regresso - 1.º Acto - E Agora?

1. Mensagem do nosso camarada Alberto Branquinho (ex-Alf Mil de Op Esp da CART 1689, , Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69), com data de 28 de Março de 2011:

Caríssimo Carlos Vinhal
Aí vai o "1º. Acto" do grande "TEATRO DO REGRESSO", que esteve em cena durante mais de uma década

e um grande ABRAÇO do
Alberto Branquinho


CONTRAPONTO (26)

TEATRO DO REGRESSO
(Peça em vários actos)

1º. Acto - E Agora?


Cenário:

Finais dos anos 60 do séc. XX.
Deck de navio, navegando em mar alto, transportando tropas de Bissau para Lisboa.

Personagens:

Dois alferes milicianos, fardados, apoiados nos ferros da amurada. Um segura a cabeça entre as mãos; o outro fuma um cigarro e fixa o horizonte, olhando em frente.

Acção:

A segunda personagem, apaga o cigarro, senta-se, encosta-se bem na cadeira, cruza os braços, encara o outro e pergunta:

- O que vais fazer, agora, quando chegares?
(Silêncio, durante uns segundos).

- Não sei se tenho cabeça e disposição para voltar a estudar. E tu?

- Vou abrir um consultório.

- Consultório?! De quê?

- Ponho um anúncio à porta. Assim:

PERGUNTEM TUDO SOBRE GUERRA.
EU RESPONDO.

Ambos sorriem. Sorrisos irónicos.

(CAI O PANO)
____________

Nota de CV:

Vd. último poste da série de 24 de Março de 2011 > Guiné 63/74 - P7994: Contraponto (Alberto Branquinho) (25): Memórias

13 comentários:

alma disse...

Claro que o consultório faliu.Ninguém queria saber da Guerra..

Jorge Cabral

Torcat Mendonca disse...

O Jorge adiantou-se. Mas, Meu Caro Alerto, não tardes a levantar o Pano...gostei

Abração a ti, á tua peça de Teatro e ao consultório...estico o abração ao J. Cabral
T

Torcat Mendonca disse...

As minhas desculpas.
- Não é Alerto, é Alberto. Alberto Branquinho.
T.

J.Belo disse...

O consultório reabriu!Agora,só para a terceira idade. Um grande abraco.

admor disse...

Caríssimos camarigos,

Estou perfeitamente de acordo com todos os comentários que foram feitos, mas se calhar o do J. Belo é que está mais de acordo com os tempos e digo eu "AGORA É QUE O CONSULTÓRIO IA COMEÇAR A DAR"

Mas recordo-me perfeitamente das n/conversas e o maior medo que nós tínhamos era o ordenado que íamos ganhar ser muito inferior ao que auferíamos como furrieis.

No entanto lá íamos dizendo que o que poupamos aqui na metrópole ia dar para o casamento e montar casa e a nossa nova vida.

Era outro princípio de vida, apesar de ser o retomar da nossa antiga vida, pelo menos para aqueles que conseguiram ultrapassar desta maneira os vinte e tal meses que demos para aquele "obrigatório" e não "peditorio" como agora se costuma dizer.

Um grande abraço para todos.

Adriano Moreira

Joaquim Mexia Alves disse...

Camrigo Alberto Branquinho

O tal Alferes que pensava não voltar a estudar devo ter sido eu, penso eu de que!!!

Claro uns anos mais tarde!!!

Mas agora pergunto eu: e ganah-se bem nesse consultório?

É que se assom for monto já banca também!!!

Boa peça! Gostei!

Grande abraço

J.Belo disse...

Caro Amigo Alberto Branquinho e Camaradas. Estas "pequenas-grandes histórias de regresso (como a täo bem escrita por A.Branquinho),existiram em quantidades enormes,e por certo surpreendentes nas suas múltiplas variantes de humor.O fantástico destas conversas hilariantes teria muito a ver com o facto de...pela primeira vez,todos acreditarem que iriam regressar a casa...vivos!Seria,quanto a mim,interessante que, quem assistiu,(ou participou) nestas "conversas de regresso" as compartilhasse no blog. Um abraco.

Manuel Joaquim disse...

Caros camaradas:

Ora aí está uma boa ideia do J. Belo. Para mim, então, vinha mesmo a calhar. É que ...

Há muitos "buracos" nas minhas memórias de guerra mas há um que me surpreende pela sua extensão. Refiro-me à memória da viagem de regresso: um vago "flash" do ajuntamento no cais de Bissau (Uige encostado) e, de novo, uns "flashs" do aglomerado de soldados e familiares no cais de Lisboa. Da viagem propriamente dita, hoje não me recordo praticamente de nada! Ao invés do que sucedeu com a viagem de ida, da qual tenho boas memórias! Porquê?

Tenho uma opinião, no que me diz respeito.
Lembro-me de dizer, e repetir, que quando chegasse a Lisboa desceria às cambalhotas as escadas do navio, tal seria a minha alegria. Pois, nem me lembro de as descer mas , de certeza, que não foi às cambalhotas nem, sequer, a correr!
Que foi feito da esperada emoção?

Tenho cá p'ra mim que o subconsciente absorveu as emoções mais fortes e a violência da despedida. Desde Bissau sentida cada vez mais próxima, a desagregação daqueles grupos de camaradas (mais do que família)já me trazia a nostalgia do futuro, a nostalgia dos tempos vividos na Guiné. Tempos esses em que a amizade, a coragem, a dor, o sofrimento em "fogo lento", o sacrifício,a morte, a solidariedade,a alegria de viver, a camaradagem e tantos outros sentimentos nos tinham unido fortemente e, mesmo, para sempre.

Após a separação ficámos "órfãos" sem o sentir, desligámo-nos com alguma emoção mas sem problemas, acobertados e protegidos pelo desejo de construir com premência uma vida nova, "a nossa verdadeira vida", e esquecer a de combatente. Mas esta ficou em hibernação, durante bastante tempo, para a maior parte de nós.

Passados estes anos vemos, pelos blogues e sites que proliferam na blogosfera, que a vida de combatente voltou a emergir em força e com a força dos elementos que a enformaram.

Estamos velhos (ou quase) e sentimo-nos emocionados e aconchegados (bem?) naquele espaço de emoções vivido (e sofrido) na nossa juventude. É este espaço que agora nos revisita para nos animar e nos dizer que a Vida é assim, é bela, feia, alegre, triste, curta ou longa,cheia ou vazia, "chata" ou divertida. Mas quando é vivida com emoção é que "merece" ser chamada VIDA.

Por isso tenho (temos?) saudades dela, a vida vivida no chão da Guiné. Ou tenho saudades é da minha juventude?!!!

Um grande abraço

Anónimo disse...

Cabeça segura entre as mãos; olhar fixo no horizonte...sinais de desepero, de ter medo do passo seguinte, do desconhecido.

O sentido de vida, o querer, que eles dominavam antes da partida para a guerra, agora que ela terminara, esvaíra-se-lhes por entre os tiros disparados.
A guerra pegara-se-lhes, em definitivo, à pele e ao "achar-se".

Um abraço Alberto Branquinho do,

Vasco a. R. da Gama

Torcat Mendonca disse...

Escrevi agora algo sobre assunto diverso.

Vim ao Blogue, li os comentários e entendi porque estou aqui:
Por algumas razoes e , principalmente,
por sentir felicidade ao ler comentários e um texto assim.

Agora vou apanhar fresco, comprar o Expresso e beber um café curto...

Obrigado
AB T.

Jorge Portojo disse...

Três coisas me recordo da viagem de regresso: 1.Parti de Bissau com 50 pesos e cheguei com 100 escudos. 2.De uma discussão tremenda no salão dos sargentos, só porque um furriel disse "está a chegar a Banda". O baterista da dita ouviu e achou um insulto, pois aquilo não era um Banda mas sim um Conjunto. 3. Levei uma grande ensaboadela do meu Pai, porque demorei muito tempo para ir cumprimentar a Família que me esperava. Foi difícil ele compreender que era preciso primeiro embarcar nos camiões o pessoal para a desmobilização e despedir-me deles. O resto poderia esperar, porque "tinha" agora todo o tempo do mundo.

Anónimo disse...

Meus Srs.

Peço que desculpem a minha emoção.

Depois do teatro do regresso do Alberto Branquinho, que despelota estas emoções, expressas nos comentários seguintes, quero dizer-vos que me emocionei com todos os vossos comentários, sobretudo com o sentido comentário do Manuel Joaquim,que revela o sentimento que vos assiste a todos, Homens, a quem a participação numa guerra que não queriam, marcou indelevelmente, e que agora, à distância de meio século, regressa dessa distância, através das novas tecnologias. Aqui reunidos, nesta Tabanca de fraternidade, que o Professor Luís Graça reconstituiu, discutem e falam da vossa vivência, recordando um tempo que para além de ter sido um tempo de guerra, vos irmanou e vos "fez homens", e a vossa saudade, é também e muito, a saudade da juventude , sem dúvida nenhuma, pois qual de nós não queria voltar novamente aos vinte anos, mesmo que os vinte anos tivessem sido vividos em guerra e que no regresso houvesse as dificuldades de integração e as marcas desse tempo jamais esquecido?

Quem sou eu para vos falar assim?

Alguém que também viveu convosco esse tempo, e para quem o tempo, também passou...

Para todos vós...o meu abraço fraterno.

Felismina Costa

Anónimo disse...

Para além as vidas que me acompanhavam...iguais à minha.
Que alegria!

Olhar fixo, sonhador para além do horizonte.

Pirei-me antes do pano subir.
Para terras d' El Dorado. Para descobrir que afinal não valia a pena fugir.

Aqui a peça era gémea. Tive que assistir.

Um abraço amigo,
José Câmara