domingo, 14 de agosto de 2016

Guiné 63/74 - P16389: Manuscrito(s) (Luís Graça) (90): Praia de Paimogo da minha infância


Lourinhã. Praia da Areia Branca, a caminho de Paimogo > 30 de julho de 2016 > Caprichosa "escultura" escavada na rocha, por efeito da erosão do mar, da chuva, da areia e do vento.



L;ourinhã > Paimogo > Forte de Paimogo (séc. XVII)


L;ourinhã > Paimogo > Forte de Paimogo (séc. XVII) >  Lado sul


L;ourinhã > Paimogo > Forte de Paimogo (séc. XVII) > Lado norte


Lourinhã > Paimogo > Forte de Paimogo (séc. XVII) > Vista para o lado sul


Lourinhã > Paimogo > Forte de Paimogo (séc. XVII) > Vista para o lado sul



Lourinhã > Paimogo > Forte de Paimogo (séc. XVII) > Interior


Lourinhã > Paimogo > Forte de Paimogo (séc. XVII) > Interior



Lourinhã > Paimogo > Forte de Paimogo (séc. XVII) > Escadaria para o terraço



Lourinhã > Paimogo > Forte de Paimogo (séc. XVII) > Vista do terraço


Lourinhã > Paimogo > Forte de Paimogo (séc. XVII) > Cisterna



Lourinhã > Paimogo > Forte de Paimogo (séc. XVII) > Cisterna




Lourinhã> O Mar do Cerro, a sul de Paimogo > Vista das imediações do Forte de Paimogo


Lourinhã> Praia de Paimogo > Emseada > Vista do Forte


Lourinhã> Praia de Paimogo > Vista do Forte

.

Lourinhã> Praia do Caniçal (entre a praia de Paimogo e a praia do Vale de Frades) > Vista do Forte de Paimogo


Fotos (e legendas): © Luís Graça(2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Praia de Paimogo da Minha Infância

por Luís Graça


Não preciso de ser geólogo
para te amar,
ó praia de Paimogo
da minha infância.
Nem de ser paleontólogo
para desenhar na areia
as pegadas da tua errância
de dinossauro do Jurássico Superior.
Nem muito menos biólogo ou sociólogo
para te conhecer aí onde
se alimenta o recolector-caçador,
e o polvo, o povo, se esconde
nas marés vivas de lua cheia .

Fugi de terramotos e tempestades,
procurei abrigo na tua enseada,
domei as ondas e o vento,
desfiz lendas e mitos,
adorei divindades,
vendi a alma ao diabo,
esculpi a esfinge alada
que guarda a porta do teu templo.
Andei na pesca ao candeio,
fui pescador de lagosta,
camponês, 
jornaleiro, 
camarada,
andarilho de costa a costa,
negociante de peixe,
almocreve,
apanhador de algas,
caçador submarino,
amigo do fado e da boémia,
poeta, pirata e frade,
mulher e fêmea,
viúva de vivo e de morto,
Zé-Ninguém, cidadão, clandestino
.


Vim da Bretanha em barcos a vapor,
remei do estuário do Tejo,
em bateiras,
costa acima,
e avieiro fui nos teus longos meses de verão,
na pesca da raia.
Fui fenício, cartaginês, romano,
visigodo, bérbere, moçárabe,
português do mundo em cada porto.
Fui moço de convés nas caravelas e naus dos Descobrimentos,
armei navios, enriqueci, trafiquei,
de escravos fui senhor,
e dono de engenhos nos Brasis,
feitorias e pontas na Guiné, 
roças e fazendas em Angola.
Embarcadiço e capitão do norte,
aventureiro e explorador colonial,
bandeirante, roceiro e garimpeiro,
prostituta e proxeneta,
e até de príncipes fui conselheiro.


Carreguei vinho em barris
no bojo da nossa Nau Catrineta,
para a corte russa, imperial.
Naufraguei em ilhas longínquas, polinésias,
adubei as nossas terras
com o limo do mar dos sargaços.
Fiz o meu ninho de ave de rapina
no alto das tuas falésias,
fui presa e predador,
dos contrabandistas segui, à noite, os passos.
Lavrei o mar,
semeei a morte,
sobrevivi a mil e uma guerras,
e os meus mortos enterrei
nas tuas areias.


Vigiei o mar, o céu e a terra
do alto setecentista do teu forte.
Tive visões, vi monstros, seduzi sereias,
fugi das garras dos terópodes,
escapei dos mandíbulas dos crocodilos,
lutei contra muitas outras feras,
fiz a paz,
fiz a guerra,
e ao teu seio retornei,
minha Mátria, Frátia, Pátria amada.
Da vida conheci todo os estilos,
fui condenado às galeras
e quase devorado por gigantes gastrópodes,
peguei de caras o auroque e o minotauro,
estive cativo do mouro
nas longínquas Mauritânias,
choquei os teus ovos de dinossauro,
construí castros, citânias,
andei à deriva dos continentes,
fui maçarico, checa e periquito
nas guerras coloniais,
sobrevivi à fome, à cólera e à peste
(e ao bispo da nossa terra!)
aos vulcões e aos tsunamis,
andei a monte, fugi a salto,
lutei pela liberdade,
pus os pontos nos ii
das letras do nosso alfabeto,
pela lei e pela grei gritei bem alto,
de norte a sul, de leste a oeste,
e o teu chão te defendi,
contra todos os invasores e usurpadores,
piratas e corsários.

A verdade, a verdade,
é que cobiçada por muitas gentes,
desejada por muitos senhores,
nunca nenhuma armada invencível te venceu,
ó Praia de Paimogo da minha infância.
Se te perdeste,
se alguma vez te perdeste,
foi só por amores.
Quando eu era criança,
quando eu tive a sorte de ser criança
como diria o Fernando Pessoa,
as sardinhas voltavam sempre,
em frágeis cardumes de prata e luar,
à praia onde haviam desovado.
Quando eu era menino e moço,
no tempo em que ainda partiam soldados
para as nossas índias, para as nossas goas,
havia uma princesa, moura, encantada,
numa das tuas grutas submarinas,
o corpo coberto de ágar-ágar.
Era fonte de água pura, quente e doce,
alimentando mares interiores e lagoas,
donde bebiam os ofegantes cavalos alados,
com as suas enormes narinas.
E o vento, a nortada,
nas velas dos barcos e dos moinhos,
falavam-me da tragédia antiga,
mas ainda viva,
da filha do teu capitão
que se havia matado do alto da arriba,
dizem que por amor e solidão
.

No antigo reino mouro,
e. depois franco e fero, da Lourinhã,
também os búzios me diziam
que à noite as luzinhas,
a sul das ilhas das Berlengas,
eram as alminhas
dos que morriam
no mar, sem sepultura cristã.
Pobres náufragos,
marinheiros, pescadores,
poetas loucos, errantes, noctívagos,
imigrantes clandestinos,
soldados perdidos das batalhas da Roliça e do Vimeiro,
corsários, contrabandistas, 
pecadores, mariscadores.
à deriva,
sem um ui nem um ai,
agarrados às tábuas do barco Deus é Pai.

Hoje não acredito mais
nessas lendas das alminhas
que eu ouvia aos ceguinhos das feiras,
vendedores de letras de fado
e do Borda-d’Água:
afinal essas luzinhas,
lá longe e ali tão perto,
nada têm de fétiche,
são apenas as traineiras,
ao largo do Mar do Cerro,
que andam atrás dos cardumes de sardinhas,
e depois regressam a Peniche.

Lourinhã, 12/8/2004

V10 14 ago 2016



Lourinhã > Vimeiro > 8 de agosto de 2011 > Monumento comemorativo e centro de interpretação da Batalha do Vimeiro > Azulejo alusivo ao desembarque das tropas luso-britânicas, na Praia de Paimogo, em 19 de Agosto de 1808... A batalha do Vimeiro desenrolou-se em 21 de Agosto de 1808. Azulejo desenhado e pintado à mão por Salvador (2000). (*)

Foto (e legenda): © Luís Graça (2011). Todos os direitos reservados.

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Notas de LG:

Deus é Pai - O concelho da Lourinhã também tem a sua quota-parte na história trágico-marítima deste país. Entre 1968 a 2000, foram contabilizados seis naufrágios de barcos de pesca onde morreram três dezenas de filhos da terra, com especial destaque para as gentes de Ribamar (fora outros acidentes de trabalho mortais, cujo número se desconhece). 

Um desses naufrágios foi o do barco Deus é Pai, em 26 de março de 1971, ao largo do Cabo Carvoeiro. Os restantes foram os do Certa (15 de maio de 1968), Altar de Deus (6 de novembro de 1982), Arca de Deus (17 de fevereiro de 1993), Amor de Filhos (25 de julho de 1994) e Orca II (antigo Porto Dinheiro) (19 de julho de 2000). Entre estes homens há parentes meus, da grande família Maçarico, de Ribamar, donde era oriunda a minha bisavó paterna (nascida em 1864).

Fonte: Cipriano, Rui Marques (2001) – Vamos falar da Lourinhã. Lourinhã: Câmara Municipal da Lourinhã.

[Dizia-se na época que o barco Deus é Pai fora cortado ao meio à noite por um cargueiro russo, e que os náufragos teriam sido levados, vivos,  para aquele país da "cortina de ferro", na altura a URSS... Em vão esperaram por notícas deles, as "viúvas dos vivos",  vestidas de preto... Os únicos destroços que deram à praia terão ao sido restos de redes  e a tabuleta com os dizeres "Deus é Pai".]

Dinossauros - A região do Oeste (e em particular o concelho da Lourinhã) é rica em vestígios paleontológicos dos dinossauros do Jurássico Superior (c. 150 milhões de anos). Em 1993, foi descoberto na zona de Paimogo aquilo que viria a ser considerado o maior ou um dos maiores  ninhos de ovos de dinossauro do mundo. Segundo o jovem paleontólogo e meu amigo, o Doutor Octávio Mateus, a jazida de Paimogo tem cerca de 120 ovos. “Existem ovos ou cascas de ovos mais antigos, mas o ninho de Paimogo é a mais antiga estrutura de nidificação. É o único com embriões na Europa e possui os mais antigos ossos com embriões do mundo (150 milhões de anos)”. Além disso, misturados com os ovos de dinossauro, “descobriram-se três ovos de crocodilo, os mais antigos do mundo". Essa ocorrência, conclui o jovem cientista lourinhanense, "permite-nos pensar numa relação de comensalismo entre dinossauros e crocodilos durante o Jurássico”. [Vd. Museu da Lourinhã > Paleontologia]

Mariscadores - Em agosto de 2005 foi lançado um livro interessante sobre A Apanha Artesanal de Recursos Marinhos Costeiros no Concelho da Lourinhã, da autoria da bióloga marinha Ana Silva, natural do concelho da Lourinhã. Esta actividade, embora complementar (da agricultura, da pesca, etc.), ainda hoje é um dos traços da identidade cultural das gentes ribeirinhas deste concelho. A edição do livro é da Câmara Municipal da Lourinhã (2005).

Paimogo -  A presença humana em Paimogo está documentada por vestígios arqueológicos, remontando pelo menos ao Calcolítico. A região da Lourinhã também foi habitada por povos como os iberos, os fenícios, os gregos, os túrdulos e os cartagineses. A passagem mais marcante foi, todavia, a dos romanos e, depois, a dos mouros. Na reconquista destas terras, D. Afonso Henriques foi ajudado por cavaleiros francos (isto é, oriundos da antiga Gália), entre eles D. Jordão [Jourdain, em francês], que irá ser o primeiro donatário da Lourinhã.

O Forte de Paimogo, construído em 1674, durante a regência do príncipe D. Pedro, futuro rei D. Pedro II, “fazia parte de uma linha defensiva da costa portuguesa, que começava na Praça Forte da vila de Peniche e estendia até ao Forte de São Francisco de Xabregas, na cidade de Lisboa” (Cipriano, 2001.143). Embora classificado como imóvel de interesse público pelo Decreto nº 41191, de 18 de Julho de 1955, encontrava-se até há uns largos anos  em estado de ruína. Foi, entretanto, objeto de recuperação pela Câmara Municipal da Lourinhã, mas está novamente em estado de abandono... (**)
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12 comentários:

Anónimo disse...



Um lindo poema que me embebedou de palavras, frases, conceitos. A sua leitura levou-me a navegar por toda a nossa história feita por guerreiros, marinheiros, missionários, aventureiros, esclavagistas, diplomatas, corsários, contrabandistas, combatentes mal pagos e outros com direito de saque. Só os poeta a sabem cantar, sabem reviver, sabem encenar com realismo e arrebatamento também. Muito obrigado Luís.
Um abraço. Francisco Baptista

Vasco Pires disse...

Parabéns Luís,
Grande viagem!!!
Forte abraço.
VP

Adelaide Barata disse...

Luís
De grandes viagens se faz homem.
De pequenos sonhos se viaja.
Obrigada por esta partilha de sentimentos e vivências.

Tabanca Grande disse...

Olho para aquelas pedras... que têm 200 milhões de anos... O forte pouco mais de 350 anos... O que é isso na escala geocronológica do universo ? Nada ou quase nada... Fico esmagado e maravilhado ao mesmo tempo...

Há 13,5 mil milhões de anos deu-se o "Big bang"... O nosso planeta Terra é muito mais "periquito" (4,5 mil milhões de anos). A emergência da vida (microorganismos) data "apenas de 3,8 milhões de anos... Há 6 milhões de anos "apareceu" a "nossa avó" (, primata comum aos chimpanzés e aos humanos)...Há 2,5 milhões de anos começaram a evoluir, na África Orientral, os primeiros primatas do género "Homo"...E com ele aparecem os primeiros utensílios feitos de osso... Há 2 milhões de anos os humanos espalham-se pela Eurásia, a partir de África ("berço da humanidade")... O Neanderthais evoluem na Europa e do Médio Oriente, hé 500 mil anos. O fogo (conhecido desde há 800 mil anos) passa a ser uma "tecnologia" usada, diariamente, pelos humanos há 300 mil anos... O "Homo Sapiens" evolui na África Oriental há 200 mil anos...

70 mil anos - Início da "revolução cognitiva"; emergência da linguagem huamana, início da História; o "Homo Sapiens" espalha-se paar fora de África,,,

45 mil anos - O "Sapiens" (sábio...) estabelece-se na Austrália... Extinção da megafauna australiana...

30 mil anos - Extinção dos Neanderthais

16 mil anos - O Sapiens estabelece-se na América (Novo Mundo)...

(Continua)


Fonte: do livro apaixonante que estou a ler: Yuval Noah Harari - Sapiens: a brief history of humankind [Sapiens: uma breve história da humanidade]. London: Vintage, 2011, 498 pp.


Tabanca Grande disse...

Breve história da humanidade (continuação)

13 mil anos - Extinção do "Homo floresienis"... O "Homo Sapiens" é a única espécie humana que sobrevive...

12 mil anos - Revolução da agricultura. Domesticação de plantas e animentais. Sedentarização dos seres humanos.

5 mil anos - Os primeiros reinos (ou estados políticos). Surgimento da escrita e do dinheiro. Religiões politeístas.

4250 anos - O primeiro império ...

2500 anos - Cunhagem de moeda que se torna um valor universal, possibilitando o comércio. Império Persa. Budismo na Índia.74

2000 anos - Dinastia Han na China. Império Romano no Mediterrâneo. Cristianismo.

1400 anos - Islão.

500 anos - Revolução Científica. Os europeus (com os portugueses à frente) conquistam o "Novo Mundo" (América) e os oceanos...Globalização. Início do capitalismo.

200 anos - Revolução Industrial. Extinção massive de plantas e animais.

Hoje - Os humanos transpõem os limites do planeta Terra. Exploração do espaço. As armas nucleares ameaçam a sobrevivência da humanidade. "Sociedade da informação e do conhecimento"... Os organismos são crescentemente modelados pela inteligência artificial mais do que pela seleção natural.... O "Homo Sapiens" será substituído por "superhumanos" (?)...

Yuval Noah Harari - Sapiens: a brief history of humankind [Sapiens: uma breve história da humanidade]. London: Vintage, 2011, 498 pp.

Tabanca Grande disse...

(...) Praia de Paimogo.
Estas pedras estão aqui
Há milhões de anos.
E eu não sei dizer-te
Por que é que estas pedras estão aqui
Há milhões de anos.

Luís Graça

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2013/08/guine-6374-p11950-manuscritoss-luis.html

Tabanca Grande disse...

(...) Praia de Vale de Frades.
Mas que sei eu de cronogeologia
Para te dizer que estas pedras estão aqui
Há tantos milhões de anos ?!
Sei apenas que, de acordo com a teoria
Das probabilidades,
Estas pedras vão ficar aqui,
Muito depois da minha morte,
Muito depois da extinção da minha espécie.

Luís Graça

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2013/08/guine-6374-p11950-manuscritoss-luis.html

Tabanca Grande disse...

(...) Não há farol na Peralta,
Para eu poder avisar a malta.
Enquanto o teu país arde
Ou o que resta dele.
Aqui passam navios ao largo.
Como manadas de elefantes,
Tapando o sol, vermelho.

Na malhada grande,
Eu poderia ter sido feliz
Entre apanhadores de lapas e de ouriços.
Mesmo sabendo
Que estas pedras estão aqui muito antes,
De ti e de mim, há milhões de anos.


Luís Graça

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2013/08/guine-6374-p11950-manuscritoss-luis.html

Tabanca Grande disse...

(...) Praia do Caniçal.
Aqui gostaria de deixar a minha caixa preta,
Antes de trepar
Pela tua árvore genealógica, como o salmão,
Até ao paleolítico superior.
Pelo leito dos rios que sobem, secos,
Até às grandes fossas marinhas.

Luís Graça

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2013/08/guine-6374-p11950-manuscritoss-luis.html

Tabanca Grande disse...

Carlos Silvério:

Tu que leste o poema e que gostaste, tu que és filho de Ribamar, terra dos meus parentes Maçaricos, diz-me se ainda te lembras do naufágrio do barco de pesca "Deus é Pai"... Tens alguma informação adicional sobre esta tragédia ? Ab, LG

Tabanca Grande disse...

Infelizmente a lista de naufrágios da gente do mar da minha terra peca por defeito...

Ainda em 2010 foi o "Fábio João":

Público, 20/02/2010:

(...() "Nenhum dos homens que há anos se dedica à pesca na zona de Ribamar, concelho da Lourinhã, consegue explicar o que na quinta-feira levou o Fábio João, barco de pesca costeira de 10 metros, a naufragar a cerca de três quilómetros da Praia da Areia Branca, com quatro pescadores a bordo. "A noite estava boa. Além do vento forte, o mar estava bom para a pesca", contou Hugo Fonseca, mestre da Dário Luís, a última embarcação que teve contacto com o barco de Amândio Pinto, que está desaparecido com José Martinho, Manuel Pedro e Basílio.


Este naufrágio é o quarto desde Dezembro na costa portuguesa, vitimando dez pescadores. Dois homens perderam a vida ao largo de Viana do Castelo, a 17 de Dezembro, zona que registou outro caso na quinta-feira. A 8 de Fevereiro, duas pessoas morreram e outra ficou gravemente ferida ao largo da Costa da Caparica.

Pelas 19h30 de quinta-feira, durante um contacto de rotina antes do regresso à terra, um grito ensurdecedor seguido de silêncio provocou o alarme entre as embarcações que davam por terminado um dia de trabalho ao largo de Peniche. Hugo Fonseca soube "logo que algo estava mal", quando deixou de ouvir Amândio Pinto, que estaria a cerca de 20 minutos de chegar ao porto de Peniche. Um outro pescador disse ao mestre do Dário Luís que ainda ouviu alguém gritar do Fábio João: "O barco está a afundar".

O que levou ao naufrágio ainda não se sabe. Entre pescadores e curiosos, frente à Estalagem Areia Branca, virada ao mar, seguindo as buscas, não há quem arrisque certezas. Embora se aponte a possibilidade de o barco ter virado por excesso de peso nas redes, provocado pelo pescado.

"Amândio Pinto era um homem experiente", desabafa José Loureiro, também pescador. A José Martinho, um dos desaparecidos, Alberto Mergulhão, pescador reformado, "não conhecia dificuldades no mar": "Estava habituado a trabalhar em barcos de pesca de arrasto de camarão no Algarve. Regressou recentemente a Peniche". Dois dos quatro pescadores, entre os 41 e 56 anos, já tinham pescado noutras zonas do país e no estrangeiro. "Vieram morrer à porta de casa", lamentou Mergulhão. (...)






https://www.publico.pt/local-lisboa/jornal/mar-traga-mais-quatro-pescadores-experientes-a-porta-de-casase-dez-mortos-nao-mudam-nadapescador-de-viana-ainda-desaparecido-18841838

Tabanca Grande disse...

Barco ao fundo com pescadores da região que se salvaram


Jornal das Caldas | 28-03-2012

http://jornaldascaldas.com/barco-ao-fundo-com-pescadores-da-regiao-que-se-salvaram


(...) Seis dos oito tripulantes do barco de pesca que naufragou na madrugada da passada quinta-feira na Madeira são da região Oeste – dos concelhos de Peniche, Lourinhã e Torres Vedras. O mestre da embarcação “Dário”, com 22 metros de comprimento, registada no porto do Funchal e que andava à pesca de espadarte, é natural de Ribamar, Lourinhã, e vive num armazém no porto de pesca de Peniche. “Ele passa 99% do tempo no mar, por isso não precisa de casa. Mas adaptou um armazém onde tem o material de pesca para ali ficar quando precisa de dormir. Tem uma casa em Ribamar, que herdou há cerca de um mês, quando o nosso pai morreu”, relatou ao JORNAL DAS CALDAS Silvério Fontes, um dos três irmãos do mestre Jorge Miguel, que é o mais novo de todos eles. Tem 43 anos e já anda no mar “desde os 14, acompanhando o pai”. “Aos 21 já governava [tornava-se mestre], recordou o irmão. Silvério Fontes recebeu a notícia do naufrágio na manhã de quinta-feira. “A minha irmã telefonou-me a dizer que o presidente da CAPA - Cooperativa dos Armadores de Pesca Artesanal – a tinha informado que o barco tinha ido ao fundo”. “Ela sossegou-me logo quando disse que o nosso irmão e os restantes tripulantes tinham-se salvo e estavam bem. Mais barco, menos barco, o que é importante são as vidas humanas”, declarou. De acordo com Silvério Fontes, o irmão “tem bastante experiência e, apesar de vários sustos no mar, este é o primeiro naufrágio”. (...)