terça-feira, 23 de agosto de 2016

Guiné 63/74 - P16413: Álbum fotográfico de Adelaide Barata Carrêlo, a filha do ten SGE Barata (CCS/BCAÇ 2893, Nova Lamego, 1969/71): um regresso emocionado - Parte V: Em Bafatá, reencontrando o sr. Dinis, da Escola de Condução Automóvel



Foto nº 1


Foto nº 2


Foto nº 3


Foto nº 4


Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Bafatá > Outubro de 2015 >

Fotos (e texto): © Adelaide Carrêlo (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Adelaide Carrelo | 10/08/2016

Assunto - A viagem pela minha Guiné

 Bom dia,  Luís,

Adorei ver o meu BU (*), hoje logo de manhã!!!

Seguem 2 fotos minhas (agora que já me conheces), uma com 8 anos e a
outra actual.

Um beijinho

PS - Vou fazer mais uma selecção das fotos da minha viagem, para te enviar. As próximas são de Bafatá.

2. Continuação da publicação do álbum fotográfico e das notas de viagem de Adelaide Barata Carrelo, à Guiné-Bissau, em outubro-novembro  de 2015 (*):


A viagem continua de Buba até Bafatá por estradas de terra molhada pelas chuvas que caem sem pejo, escondendo o alcatrão de outrora [fotos nºs 3 e 4].

Tudo começou quando o meu filho nos disse que tinha sido selecionado para trabalhar na TESE em Bafatá. Foi como um relembrar daquilo que nunca vi mas sabia que não poderia ser muito diferente de Nova Lamego há quarenta e quatro anos atrás. Muito estranho este sentimento, não tive medo de o deixar partir. Claro que em condições diferentes de quem partiu para lá durante a Guerra.

Senti Bafatá como uma “mãe” que me iria substituir por um tempo que parecia infindável.

A esperança de voltar a pisar esta terra renasce. Durante este tempo as lembranças começam a tornar-se cada vez mais frequentes e o filme “Bafatá Filme Clube” foi a melhor estrada para entrar nesta cidade (**).

Ao seguir na estrada vermelha, vieram-me ao pensamento os militares que cruzarem esta floresta, sem saber para onde iam mas com a certeza do regresso. Pensamentos perdidos no verde da paisagem, atentos a cada passo que podia ser fatal.

Em Bafatá revi o sr. Dinis [, foto nº 2], que conheci em Nova Lamego, na altura tinha uma escola de condução que permanece ainda hoje em Bafatá [, foto nº 1]. Ele lembrava-se muito bem dos meus pais, e de nós os três ainda meninos.

Foi com as lágrimas nos olhos que abracei este senhor que tem pela Guiné um amor incondicional, fez tropa na Guiné,  veio à Metrópole casar e voltou com a esposa, D. Célia, até hoje. Habituaram-se e ter e a perder, como todos os Guineenses.

Neste sítio também não há pressas. Os dias sucedem-se às noites e o tempo passa devagar. Realmente a adaptação do ser humano é impressionante. Quando a noite cai e a escuridão nos envolve, os nossos olhos passam a ver como os felinos. Só a partir das 20h00 quando a luz mortiça nos ilumina, bebemos um café no “Ponto de Encontro”, na companhia da D. Célia (sempre a sorrir) e do sr. Dinis, mas inexplicavelmente durante o dia não sentes a falta desta cafeína que pensas não poder passar sem ela.

Cá tudo nos falta, até aquilo que não existe. Quando observo as atitudes de muita gente que reclama por tudo e por nada, só penso “uma semaninha na Guiné, fazia-te bem ao corpo e à alma”.

Continuamos a viagem...

________________



17 de janeiro de 2014 > Guiné 63/74 - P12595: Roteiro de Bafatá, a doce, tranquila e bela princesa do Geba (Fernando Gouveia) (15): O cinema local e a figura lendária do seu guardião, o Canjajá Mané... E, a propósito, relembre-se o documentário, já em DVD, "Bafatá Filme Clube", do realizador Silas Tiny, com fotografia de Marta Pessoa (Lisboa, Real Ficção, 2012, 78')

5 comentários:

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas
Lembram-se certamente daquela história de "A Minha Guerra a Petróleo" em que contei as aventuras de "um casal estranho".
Pois o Sr. Dinis era o dono da escola de condução onde o meu pessoal fazia exame de condução.
Era também dono de uma serração e de uma pensão onde tentei instalar a esposa do furr. P., com resultados negativos, como era de calcular.
Tinha um mini 1275 com que se deslocava ao Xime, acompanhado da esposa, nas alturas do carregamento das madeiras.
Creio que não me engano, pois tudo se passou no ido ano de 1972.
Folgo que esteja vivo e que se recomende.
Um Abraço para ele.
Um Ab.
António J. P. Costa

Cherno Baldé disse...

Amiga Adelaide, Bom dia!

O texto eh lindo, os sentimentos sao profundos e identificam-se com os que tem a Guine no curacao, gostei.

Eu nasci e cresci aqui, tendo passado por Bafata logo depois da independencia (1975-1979), como dizes e bem, habituado a ter e a perder, todos os dias ... todos os anos ... onde nao ha pressas e o tempo passa devagar, devagarinho. Depois viajei um pouco pelo mundo, mas optei por voltar a viver aqui na Guine. A abundancia sempre me assustou, a pobreza tambem, mas preferindo estar mais perto desta para melhor sustento e sossego do corpo e d'alma.

Com um abraco amigo,

Cherno AB

Adelaide Barata disse...

Amigo Cherno Baldé,

Obrigada pelas suas palavras e pela partilha de sentimentos.
De facto o povo Guineense é muito especial. O que observei em criança confirmei-o agora quando fiz esta “viagem da minha vida”.
A Guiné acompanhou-me sempre, permaneceu sempre no meu coração como um lugar onde um dia haveria de voltar.
Encontrei essa paz no dia a dia das pessoas que lá vivem, o pouco que tem partilham-no com quem nada tem, sem pedirem nada em troca. Fazem-no porque lhes está no sangue.
Esta “minha”Guiné será sempre repartida por cada um que lá viveu e nunca se acaba.
Agora deste lado de cá, há uma mística entre os que lá estiveram, que não se explica.
É um mundo só deles.
Obrigada

António Tavares disse...

Camarigos,

A Escola de Condução Africana, Lda existia em BAFATÁ (C.P. 60 – Tel. 49) e NOVA LAMEGO (Tel. 34).
Em 14.Dezembro.1971 chamava-se Nova Escola de Condução Africana, Lda conforme carimbo colocado na FACTURA Nº. 2266, que conservo.
Penso que nesta data só existia em BAFATÁ – GUINÉ PORTUGUESA.

Abraço.

Hélder Valério disse...

Belas e sensibilizantes fotos.

Gostei delas e do texto. Realmente as emoções transbordam.
Gostei essencialmente daquela parte em que diz "Cá tudo nos falta, até aquilo que não existe", mas não como um lamento de desistência mas sim como um forte apelo à superação.
Aliás, é esse sentimento, o da superação, que mais me recordo daqueles tempos e das dificuldades. Já vi escrito por aí, algures, que "África, ou ama-se ou odeia-se" e penso que isso tem muito da capacidade que se tem (ou não tem) para vencer as carências.
E por isso, a frase seguinte "Quando observo as atitudes de muita gente que reclama por tudo e por nada, só penso “uma semaninha na Guiné, fazia-te bem ao corpo e à alma”, é exactamente o que penso e já tenho dito isso, exactamente assim, a muito 'boa gente', embora reconheça que uma 'semaninha' pode não chegar para se obterem bons resultados...

Hélder Sousa