sábado, 27 de agosto de 2016

Guiné 63/74 - P16423: Recortes de imprensa (80): Os "últimos tugas" de Bafatá: João e Célia Dinis, entrevistados pelo "Público", em 13/4/2013... O nosso camarada João Dinis, hoje empresário, vive na Guiné desde 1963. Pertenceu à CART 496 (Cacine e Cameconde, 1963/65)


Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Bafatá > Outubro de 2015 >   A nossa amiga e grã-tabanqueira Adelaide Barata Carrelo com o João Dinis, empresário, antigo militar português, da CART 496 (Cacine e Cameconde, 1963/65), integrada no BCAÇ 513 (com sede em Buba). Vive na Guiné desde 1963.

Foto: © Adelaide Carrêlo (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Bafatá > 15 de dezembro de 2009 > 15h13 > O João Graça, médico e músico, fotografado com a Célia Dinis e o filho, Bruno, no seu estabelecimento (Restaurante Ponto de Encontro).  O Bruno virá a morrer mais tarde, devido a acidente de moto. O casal tem duas filhas, casadas, a viver em Portugal.


Em 5 de janeiro de 2015, o Patrício Ribeiro mandava-nos a seguinte mensagem, complementando a legenda da foto acima, bem como o texto do "Público", que reproduzimos abaixo:

"Luís e João, a cidade de Bafatá, está de acordo com as fotos do João, mas há algumas diferenças:
O filho do [João] Dinis e da Célia, o Bruno, infelizmente faleceu a aproximadamente 2 anos, por acidente de moto o que deixou os pais muito abalados, continua a morar em Bafatá, depois de alguns meses passados em Portugal.


Abastecimento de água á cidade: desde há mais de 3 anos, foram instaladas duas bombas solares, estão extrai 80 m3 de água diários, para a canalizações na parte alta da cidade, onde reside a maior parte da população. 

Neste momento estão a ser instaladas outras bombas solares, para mais 250 m3 diários, a partir destas novas bombas, a parte baixa da cidade [, a zona velha,.] também vai ter agua canalizada. Assim como [o bairro d]a Ponte Nova.


Estes trabalhos estão a ser financiados pela União Europeia, em parceria com a Cooperação Portuguesa. A coordenar os trabalhos está a ONG Portuguesa TESE, com o escritório em Bafatá.
A ONG Portuguesa FEC, há longos anos no ensino em Bafatá, reforçou a sua equipa, com apoio da Estado Português, com mais professores: neste momento moram em Bafatá, mais dezena de Portugueses nascidos em Portugal, a maioria são mulheres.

Tenho casa em Bafatá, que tem estado aberta a investigadores portugueses, que na zona fazem os seus estudos. Por vezes também lá passo algum tempo. Patrício Ribeiro."


Foto: © João Graça (2009) / Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné. Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: L.G]


1. Os "últimos tugas" de Bafatá > João e Célia Dinis: “Portugal era um atraso de vida em comparação com a Guiné”

(Excerto do "Público", de 13/4/2013)

Na casa de João e de Célia nunca faltava fruta enlatada, vinho Casal Garcia e pelo menos dez garrafas de whisky “do bom” para receber as visitas. Durante anos, puderam ter na Guiné-Bissau uma série de luxos que na chamada "metrópole" eram ainda uma miragem. Esses foram outros tempos. Hoje todos os gastos são controlados. Bebem vinho do mais barato e só comem bacalhau ou queijo quando algum amigo os visita. A vida obrigou-os a uma cambalhota do 80 para o oito, mas nem por isso deixam de falar com alegria, com um brilho nos olhos e esperança no futuro. A bola é para chutar para a frente e apesar de Célia ter 58 anos e João 71, não duvidam que ainda vão conseguir marcar golo.

João e Célia Dinis são dos portugueses que há mais tempo vivem na Guiné, chegaram numa altura em que “tudo era bonito, não havia falta de trabalho e tinham uma vida mais que boa”. João foi o primeiro. Chegou em 1963 como militar. Gostou tanto que ficou e já como funcionário da administração do porto de Bissau acenou aos colegas da Companhia 496, Batalhão 513, que viu partir num navio. “Não troque os números, são muito importantes para se algum amigo dessa altura me quiser telefonar”, pede ao PÚBLICO.

Só voltaria a Portugal em Setembro de 1971. “Estava há nove anos sozinho e ia com o objectivo de casar, mas não podia ficar muito tempo. Tinha de resolver o problema rapidamente e graças a Deus consegui”. Conheceu Célia num baile e meteu logo conversa. “Ó menina, não se importa que a gente vá bailar um bocadinho? Mas olhe que eu vivo em África há muitos anos, já não sei bem dançar as músicas de cá...”, perguntou-lhe. A resposta foi afirmativa. Casaram no dia 9 de Janeiro e dia 20 vieram juntos para a Guiné. Célia tinha 18 anos e Dinis 31.

Nessa altura, tudo lhes corria bem. Dinis era dono de duas escolas de condução e, alguns anos mais tarde, Célia decidiu abrir o restaurante Ponto de Encontro, que mantém até hoje em Bafatá (no centro-norte do país). “Era uma cidade espectacular, estava tudo pintadinho, arranjadinho. Se vissem esta avenida e aquela ali em baixo. Lindas, lindas. As pessoas juntavam-se para fazer piqueniques, remo, ir ao cinema. E as lojas? Tinhas de entrar só para ver, mesmo que não comprasses. Era uma coisa que atraía. Portugal era um atraso de vida em comparação com a Guiné”, descreve Célia.

O Ponto de Encontro servia mais de 70 almoços por dia e Célia chegou a ter de pedir aos tropas para tomarem conta da filha enquanto despachava o mais depressa possível os almoços. Não tinha mãos a medir. Agora há dias em que não faz cinco mil francos CFA (7,50 euros). De 17 empregados passou para dois e mesmo assim queixa-se que a receita não cobre as despesas. Podiam-se ter ido embora depois do 25 de Abril de 1974. Chegaram a vender tudo, mas os guineenses não os deixaram partir: "Não, não se vão embora porque ninguém vos vai fazer mal. Vocês também não fizeram mal a ninguém.”

“Se eu tenho ido depois da independência, era um senhor em Portugal. O meu cunhado ainda me disse para montarmos uma escola de condução, se eu o tenho ouvido... Teria muito mais dinheiro, mas não tinha esta terra”, projecta Dinis. É um apaixonado pela Guiné. Quando ia a Portugal de férias, não queria ficar mais de 15 dias, “chegava para ver a família”. “Só desejava voltar àquelas pessoas que me conheciam e, do mais pequeno ao maior, me chamavam pelo nome. Nem sequer consigo dizer o que menos gosto neste país porque gosto de tudo. Até das faltas, fomo-nos habituando a elas”.

Foi depois de 1974 que tudo piorou. Durante dez anos ainda viveram bem mas, pouco a pouco, as coisas começaram a escassear. Primeiro faltaram o queijo, as batatas e os chocolates. Até que acabou tudo. “Foi um processo: apetecia-me beber uma garrafa de vinho Casal Garcia e não havia, mas ainda se podia comprar Dão. Quando o Dão acabou, tínhamos o Pias...”, recorda Dinis.

Às vezes perguntam-lhe como consegue viver assim. Ri-se e responde: “Tu também cá estarias se tivesses vivido o que eu vivi. Tínhamos uma vida mesmo bonita. Luz 24 horas por dia, boas estradas, tudo limpo. Onde é que os portugueses comiam pêra enlatada? A nossa bebida era whisky com água das pedras, a cerveja era só para acompanhar as ostras e os camarões”.

A Guerra Civil, em 1998, foi o golpe fatal para a Guiné: “Foi desde aí que deixámos de viver como portugueses na Guiné e passámos a ter condições de vida semelhantes à de um guineense: a ter de carregar água, andar a pé...”, conta Célia.

Apesar do Ponto de Encontro estar quase sempre vazio e dos poucos alunos da escola de condução demorarem mais de dois anos a pagar (a carta custa menos de 150 euros), apesar de dizer que agora já estava na altura de voltar a Portugal, não é isso que Dinis sente. Quando fala das suas dezenas de projectos, quando diz que as coisas vão melhorar – e di-lo muitas vezes como se a sua vida pudesse durar o dobro da do comum dos mortais –, a Guiné é sempre o palco principal da sua felicidade.

As saudades das duas filhas são mesmo o que mais pesa a Célia e Dinis. Há oito anos que não as vêem e há netos que ainda nem conhecem. Mas já lá vai o tempo em que uma viagem a Portugal custava cinco mil francos CFA e a família se juntava toda para passar as férias grandes.

Custas-lhes terem trabalhado a vida toda e não terem nada. “Nem cá nem lá”. Entregaram-se à Guiné e é a ela que pertencem. Por isso, sempre que pensam regressar perguntam “para fazer o quê". “Tenho direito à reforma porque fui militar e funcionário público de Bissau, mas na altura que a porta estava aberta não pude ir a Lisboa e agora está fechada a cadeado. Lá as pessoas vivem lado a lado, mas não se conhecem. Aqui sou o professor, dou cartas de condução desde 1968, ensinei pessoas que já morreram”, gaba-se Dinis.

Célia também tem medo do regresso mas confessa já estar cansada de levar a casa e o restaurante às costas. “Dizem que Portugal está mau mas para nós é um mundo de rosas. Não há dinheiro, é verdade, mas aqui também não há. Lá não se compra mais, compra-se menos, mas não sentes saudades de comer. Abres a torneira e tomas banho de chuveiro. E aquelas auto-estradas todas direitinhas? É uma alegria”, diz num português que já mistura com sotaque crioulo.

Por agora, só têm uma solução: aguentar. “Ando há muitos anos com a palavra esperança na ponta da língua mas ainda não a encontrei. Penso vir a ter uma vida boa na Guiné. Hoje não temos, não saímos de Bafatá há anos. Mas se calhar ainda vamos conseguir ter um carrinho melhor para ir a Bissau dar o nosso passeio. Dançamos, ao toque da música. Se a música saltar, também saltamos. E bem alto”, deseja Dinis.


Fonte: Sofia da Palama Rodrigues > Guiné: entre o paraíso e as saudades de Portugal > Público, 13/04/2013 - 08:02 (Excerto reproduzido com a devida vénia)

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Nota do editor:

Último poste da série > 24 de abril de 2016 > Guiné 63/74 - P16010 Recortes de imprensa (80): João Paulo Diniz (,que vai estar mais logo no Jornal da Meia Noite, da SIC Notícias, para relembrar o seu papel no 25 de abril): "As minhas melhores amizades são do tempo da Guiné, quando fui locutor do PFA - Programa das Forças Armadas, em Bissau, em 1970/72" (Excerto de entrevista, DN -Diário de Notícias, 30/8/2015)

9 comentários:

Tabanca Grande disse...

Não me lembro do João Dinis, quando ía a Bafatá, nos idos anos de 1969/71... Mas vejo que ele é hoje, com a esposa Célia, e com a dona Rosa, libanesa, os únicos guardiões dos "fantasmas" da velha senhora que já foi a princesa do Geba...

É assim, as cidades nascem, crescem, definham, morrem, e renascem como a mítica Fénix... Oxala/inshallà/enxalé, a nossa querida Bafatá se transfigure e supere as marcas do tempo e da decadência, e que o nossos amigos ainda possam ter um longo e aparzível resto de vida... A Célia e o João são gente de fibra, "tugas" de torcer mas não de quebrar, e que merecem as nossas palmas! Que Deus, Alá e os bons irãs da Guiné os protejam!

Tabanca Grande disse...

Peço ao Patrício Ribeiro,se nos estiver a ler, para transmissão ao casal Dinis as nossas palavras de apreço e solidariedade. Muita malta da Tabanca Grande conheceu Bafatá nos bons velhos tempos, além disso a C+elia e o João são, com alguma regularidadem, citados pelo nosso blogue...

Bafatá tem 315 referências no nosso blogue:

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/search/label/Bafat%C3%A1

E as melhores fotos da "velha Bafatá" dos anos 60/70, disponíveis na Net, são nossas:

Vd. Google = Imagens = Bafatá

Cherno disse...

Caro Luis Graca,

Bafata, ao contrario de Bolama que eh uma ilha, nao morreu, esta sim a transformar-se, a adaptar-se a uma nova realidade, a pos-colonial.

A Bafata que conheceram era uma cidade colonial, cujas bases estavam assentes numa economia extrovertida ligada, principalmente, a producao do amendoim (mancarra) e algum comercio (de libaneses e luso-caboverdianos) sustentado pelas receitas da monocultura da mancarra e a presenca da tropa durante a Guerra.

Primeiro, porque a sua populacao continua a crescer e deve ter triplicado desde 1974. A monocultura da mancarra deu lugar a do Caju e a dinamica do comercio passou para o sector informal, onde pontificam os emigrantes da Guine-Conacry e da Mauritania. O centro comercial (Mercado) subiu la para cima, no Bairro da Rocha (saida para Gabu), mais acessivel aos Bairros populacionais da cidade.

De resto, a cidade vive o mesmo ritmo do pais, a mesma desordem e a mesma incuria administrativa.

Com um abraco amigo,

Cherno Balde


António José Pereira da Costa disse...

O Casal Garcia é o casal mais simpático que eu conheço.
Era assim que o Sr. Dinis saudava uma refeição.
Um Ab.
António J. P. Costa

Antº Rosinha disse...

O PAIGC de Luís Cabral é que dizia que a Guiné ia ser a Suiça africana.
Mas os Cabrais foram mas a Guiné salvou-se.

Já em Luanda os entusiastas do MPLA diziam que quando fossem independentes iam fazer de Luanda uma Nova York.

Pois é mais útil e pacífica esta Bafatá africana, para os seus habitantes actuais e futuros, do que algumas americanizadas e europeizadas descomunais capitais africanas.

A atmosfera artificial de um ar condicionado só é bom em África, para quem não conhece uma boa construção com técnica, de uma casa de adobe com um telhado impermeável à chuva ao calor e ao frio de um telhado de capim.

E uma boa camisa tão boa é comprada nos armazens do chiado ou no pintozinho da "velha" cidade velha de Bissau, como a um gila do Gabú.

É que ao "correr" com os brancos da sua terra, o melhor é os africanos fazerem a sua terra à sua maneira.

Já dizia Lúcio Lara do MPLA, "agora temos que fazer Angola a nossa maneira".

Só que Luanda ao que se lê está a ficar uma monstruosidade.

Antes a nova Bafatá do que as novas capitais africanas.

Exceptuemos sempre a terra de Mandela e dos Boeres quando falamos do colonial e do após, que aí foi diferente.

Mas a vida para um branco-tuga em África, o que mais custa são os primeiros 30 anos, perguntem ao senhor Patrício Ribeiro ou ao senhor Dinis.

Cumprimentos



Anónimo disse...

Comentário no Facebook da Tabanca Grande > Jorge Vale:

Foi este grande Senhor que me deu a carta de condução no ano de 1970. Um grande abraço para ele e votos de muita felicidade para toda a sua família. Parabéns pela grande coragem que sempre teve.

Tabanca Grande disse...

Afinal, o Joºão Dinis tinha escola de condução no nosso tempo... Em Bafatá e em Nova Lamego. LG

Anónimo disse...

Comentário no Facebook da Tabanca Grande > Joaquim F. Manços:

Eu andei nesta escola de condução [, do João Dinis,] mas acabei por fazer exame de condução em Bissau na Escola de Condução Angélica da Conceição Racha, por motivos de ter sido transferido para a Companhia de Transmissões no Quartel General.

Hélder Valério disse...

O que o Cherno diz vem ao encontro do que escrevi algures por aí, salvo erro noutro post sobre Bafatá.
É preciso dar tempo para que um local se afirme, definhe, ou rejuvenesça e acho que é uma situação dessas, de redefinição, que está a atingir Bafatá.
Os dados que a caracterizavam ao tempo da nossa presença alteraram-se e é necessário encontrar novos 'motores de desenvolvimento' e, pelos artigos e pelo que o Cherno diz, alguma coisa vai mudando.
Devagar? Talvez! Mas ao ritmo possível.

Hélder Sousa