quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Guiné 63/74 - P16420: Notas de leitura (874): (D)o outro lado do combate: memórias de médicos cubanos (1966-1969) - Parte VIII: o caso do clínico geral Amado Alfonso Delgado (IV): "Os guineenses são muito resistentes...Numa ocasião, uma bomba caiu perto de uma mulher e feriu-a no abdómen... Eu devia abrir-lhe o abdómen pois tinha peritonite. Coloquei-lhe anestesia local e, quando lhe ia dar a geral, um avião largou outra bomba que caiu perto. A mulher levantou-se, com a ferida meio aberta, e fugiu. Não a vi mais. Depois disseram-me que a tinham localizado, já morta, a cerca de quatro quilómetros dali."




Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca – Eis, projectada no mapa, a principal actividade operacional das NT e a do PAIGC durante um pouco mais de três meses (entre 8 março e 18 junho de 1969), aonde Alfonso Delgado acabaria por intervir, certamente com muito trabalho e enormes dificuldades, prestando apoio médico aos guerrilheiros feridos em combate, algumas cirurgias e amputações, quase sempre durante a noite à luz de archotes de palha ardendo.

Na mata do Fiofioli, as principais operações das NT realizaram-se em março e abril de 1969, reagindo os guerrilheiros do PAIGC com ataques a aquartelamentos, destacamentos e emboscadas em abril, maio e junho, nomeadamente a Sul da linha de circulação entre Xime-Bambadinca-Mansambo-Xitole, a saber: Xime, Ponta Coli, Amedalai, Ponte do Rio Udunduma, Bambadinca, Taibatá, Demba Taco, Moricanhe, Mansambo, Ponte dos Fulas e Xitole (estrelas cor magenta)


Infogravura: Jorge Araújo (2016)


Oitava parte, enviada em 25 do corrente, das "notas de leitura" coligidas pelo nosso camarada e grã-tabanqueiro, Jorge Alves Araújo. Trata-se de um extenso documento, que está a ser publicado em diversas partes (*), tendo em conta o formato, a especificidade e as limitações do blogue.


Foto acima: O nosso grã-tabanqueiro Jorge Araújo: (i) nasceu em 1950, em Lisboa; (ii) foi fur mil op esp / ranger, CART 3494 / BART 3873 (Xime e Mansambo, 1972/1974); (iii) fez o doutoramento pela Universidade de León (Espanha), em 2009, em Ciências da Actividade Física e do Desporto, com a tese: «A prática Desportiva em Idade Escolar em Portugal – análise das influências nos itinerários entre a Escola e a Comunidade em Jovens até aos 11 anos»; (iv) é professor universitário, no ISMAT (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes), Portimão, Grupo Lusófona; (v) para além de lecionar diversas Unidades Curriculares, coordena o ramo de Educação Física e Desporto, da Licenciatura em Educação Física e Desporto].



1. INTRODUÇÃO

Caros Camaradas Tertulianos; aproveito para reforçar os meus agradecimentos pelos vossos comentários aos textos anteriores, considerando-os relevantes neste contexto de partilha de memórias, a partir dos quais desejo organizar uma outra narrativa, concluído este trabalho que continuo a dar a melhor atenção.

Dito isto, seguimos hoje com a oitava parte deste meu projecto relacionado com a divulgação de algumas das principais experiências transmitidas por três médicos cubanos que estiveram na Guiné Portuguesa [hoje Guiné-Bissau] em missão de “ajuda humanitária” ao PAIGC, na sua luta pela independência, nos anos de 1966 a 1969, como foi o caso do clínico Amado Alfonso Delgado.

Relembro que esta espontânea iniciativa surge na sequência de ter tido acesso ao livro escrito em castelhano pelo jornalista e investigador Hedelberto López Blanch, uma coletânea de memórias e experiências divulgadas pelos seus dezasseis entrevistados, a que deu o título de «Histórias Secretas de Médicos Cubanos» [La Habana: Centro Cultural Pablo de la Torriente Brau, 2005, 248 pp.] ou “on line” em formato pdf, em versão de pré-publicação.

Relembro, ainda, que por tratar-se de uma tradução e adaptação do castelhano, onde procurei respeitar as ideias expressas nas respostas dadas a cada questão, entendi não fazer juízos de valor sobre o seu conteúdo, colocando entre parênteses rectos, quando possível, algumas notas avulsas de reforço sócio-histórico ao que foi transmitido, ajudando-nos, por um lado, a melhor compreender o outro lado do conflito e, por outro, na busca de fechar o puzzle dos diferentes episódios em que ambos estivemos envolvidos.

De acordo com esta metodologia e objectivos serão bem-vindas todas as achegas factuais ao agora divulgado, pois consideramos que a história, enquanto ciência do Homem, necessita do seu aprofundamento, daí o título com que baptizei este trabalho: “d(o) outro lado do combate - memórias de médicos cubanos”.

2. O CASO DO MÉDICO AMADO ALFONSO DELGADO [III]

Esta oitava parte do projecto “memórias de médicos cubanos” corresponde ao quarto de cinco fragmentos em que foi dividida a entrevista ao doutor Amado Alfonso Delgado, médico de clínica-geral, com experiência em cirurgia.(*)

Nos três fragmentos anteriores [P16357; P16380 e P16396], referentes às primeiras quinze questões formuladas, encontramos os antecedentes que influenciaram a sua decisão de cumprir uma missão internacionalista, tendo-lhe surgido a hipótese de o fazer na Guiné Portuguesa (hoje Guiné-Bissau), que aceitou.

Esta inicia-se na véspera de Natal de 1967, tinha então vinte e sete anos de idade, na companhia de outro médico, voando de Havana até Conacri. É na Guiné-Conacri que tem a sua primeira experiência profissional africana, prestando serviço médico no Hospital de Boké, uma unidade de saúde de rectaguarda do PAIGC, juntando-se a mais quatro clínicos cubanos aí colocados anteriormente.

Em abril de 1968 tem início a sua integração na guerrilha ao ser destacado para a frente Leste para substituir o seu companheiro Daniel Salgado, médico-cirurgião militar que entretanto adoecera com o paludismo.

A sua entrada em território da Guiné-Bissau verificou-se pela fronteira Sul com a sua primeira caminhada a terminar na base de Kanchafra, aonde se encontravam vinte combatentes cubanos. Seguiram-se outras etapas ao longo de oito dias, com caminhadas cada vez mais duras, pois não estava preparado para esse desempenho. Nesse espaço de tempo passou por diversas aldeias onde se alimentava com farinha e carne, afirmando ter passado fome, habituando-se, desde então, a comer pouco.

Ao quarto dia disseram-lhe que tinha chegado à Mata do Unal, na região do Cumbijã. Continuada a “viagem” a pé, chegou à foz do Rio Corubal / Rio Geba (Xime) onde lhe foi transmitido que naquele lugar havia um problema mais perigoso que a tropa portuguesa, chamado “macaréu”. Quando chegou à outra margem [, presume-se que fosse a margem direita], encontrou um homem branco em calções, com gorro na cabeça e uma camisa. Este olhou-o com alguma indiferença, tendo-lhe perguntado: “tu pensas aguentar esta ratoeira? “Esquece, pois não duras nem três meses”. Perguntei-lhe porquê? Ao que me respondeu: “tu verás como isto é”.

Entre maio de 1968 e setembro de 1969 [dezassete meses], movimentou-se nas matas do Unal e do Fiofioli [Sector L1 - Bambadinca], com destaque para esta última frente, aonde esteve os primeiros nove meses de 1969, durante os quais teve muito trabalho, com enormes sobressaltos, muitas corridas em ziguezague, rastejanços e dores de barriga (com diarreias), que implicaram sucessivas trocas de acampamento, incluindo a destruição das suas enfermarias [, na mata do Fiofioli], por quatro vezes [, uma das quais no decurso da grande Op Lança Afiada, 8 a 19 de março de 1969].

Esteve cercado por várias vezes. Viu aviões bombardeiros, helicanhões, barcos da marinha e militares [, tropas paraquedistas do BCP 12, ] descerem de helicóptero. Para além dos constantes ataques a que esteve sujeito, foi também atacado por mosquitos que lhe perfuraram a roupa que tinha no corpo e por centenas de abelhas que lhe “ofereceram” os seus ferrões.

Por tudo isto passou vários meses sem ter contacto com o mundo. Devido a todas estas ocorrências e das tensões a elas associadas, por efeito da intervenção dos militares portugueses em diferentes acções naquela região, acreditou não ser possível sobreviver, pensando muito nos filhos, que iriam ficar sem pai… coitados.

Eis mais algumas memórias reveladas pelo médico Amado Alfonso Delgado. (**)


Entrevista com 25 questões [Parte IV, da 16.ª à 21.ª]
“Cirurgias com a ténue luz de fachos de palha ardendo” 
(Cap XI, pp. 136 e ss)


(xvi) Neste contexto complexo 
realizou operações cirúrgicas?

A maioria das vezes que operei foi em sítios calmos, aonde se situavam os 'hospitalitos' [enfermarias de colmo, a que dificilmente se poderia chamar hospitais de campanha], e onde também nos chegavam pessoas que pisavam minas ou tinham sido feridas em emboscadas.

Quase sempre os feridos chegavam de noite e tinha que os operar com archotes de palha. Fiz cerca de cinquenta operações. Amputações fiz muitas devido às minas [anti]pessoais. Também operei tórax e braços.


(xvii) Como faziam 
os archotes?

Apanhávamos maços de erva seca [capim], cortávamos, dobrávamos e amarrávamos com a mesma palha e pegávamos-lhes fogo. Às vezes não via o que estava a operar apesar de colocar à minha volta oito a dez archotes.

Os guineenses tinham muita resistência e com qualquer coisa ficava resolvido. Para minorar uma fractura óssea, fixava-lhes um tronquito da floresta e quinze dias depois estava bom. Se era uma pneumonia, com três injecções de penicilina curavam-se. Muito poucas vezes as feridas se infectaram após as operações que realizei. Eles sangravam pouco.

No primeiro hospital onde estive [Boké] fazíamos-lhes análises de hemoglobina e era muito raro que algum tivesse mais de 5 g/dl. Em Cuba temos 13, 14 g/dl. Mas apesar desta situação, caminham mais e são mais fortes que nós.


(xviii) Conte algumas das suas experiências 
com a população

A maioria da população não sabia a sua idade, era o mesmo dizer cinquenta como trinta anos, devido ao contexto onde viviam. Eram muito afectuosos e protegiam-nos muito, às vezes às custas das suas próprias vidas.

Eu senti-me muito bem na Guiné e creio que foi uma das melhores épocas de trabalho da minha vida. Às vezes chegava a uma tabanca, e era para eles como um filme ao verem um branco. De repente ficava cercado por quarente/cinquenta crianças e logo me começavam a tocar nos pelos, na cara, nos braços. Era algo raro que nunca antes tinha visto.

Numa outra ocasião, uma bomba caiu perto de uma mulher e feriu-a no abdómen. Eu levava um manual de como aplicar a anestesia, porque naquele momento não me encontrava com o assistente. Devia abrir o seu abdómen pois tinha peritonite. Coloquei-lhe anestesia local, e quando lhe ia dar a geral, um avião largou outra bomba que caiu perto. A mulher levantou-se, com a ferida meio aberta, e fugiu. Não a vi mais. Despois disseram-me que a tinham localizado, já morta, a cerca de quatro quilómetros dali. Eram coisas que se passavam.

Outras vezes tive que ser dentista. Tinha equipamento para extrair dentes e por sorte eles têm poucas cáries. Aprendi e extrai, naquele tempo, perto de cinquenta.

Como já referi, os guineenses são pessoas muito resistentes. Um dia chegou-me um homem que tinha sido atingido por uma bala, há três meses atrás. Ela entrou-lhe pelo abdómen e saiu-lhe pelas costas, e estava como se nada tivesse acontecido. Se fosse em Cuba, morria-se três vezes. Tive que o enviar para Conacri [Boké], pois era uma operação complicada.

Noutra ocasião levaram-me uma criança que não obrava pelo ânus, mas por orifício perto do recto na ponta da nalga. Não sabia o que era, apalpei-o e encontrei uma coisa dura dentro. Enviei-o para Boké aonde lhe fizeram uma radiografia e viram que era um pau que a tinha atravessado desde a nalga até ao diafragma. Atravessou seis alças intestinais. O pau tinha apodrecido e as fezes saíam por esse sítio. O médico Almenares operou-o e teve de lhe cortar seis pedaços de intestino.

Estando na Mata do Fiofioli, trouxeram-me um comandante [?] com uma ferida no abdómen. Deitava pouco sangue, pus-lhe um penso e enviei-o para o hospital de Boké para o operarem. Para o transportar até esse lugar, designaram entre catorze a dezasseis homens. Dois o colocaram numa padiola em cima dos seus ombros e seguiram. Foram-se revezando pelo caminho ao longo de duzentos quilómetros [?]. Ao fim de um mês, este comandante apareceu para me cumprimentar e agradecer-me pois já estava bom.

Também atendi em duas ocasiões feridos com mordeduras, na cara, provocadas por leopardos [, ou mais provavelmente onças] feridos por caçadores, pois normalmente estes animais não atacam os seres humanos. Atendi, ainda, vários elementos da população com mordidelas de serpentes, pois existem milhares delas na Guiné.

(xix) Encontrou doenças 
que não existem em Cuba?


Sim, várias doenças raras. Por exemplo, aldeias inteiras com tracoma, que é uma infecção nos olhos e nas pálpebras que deixa cegas as pessoas. Visitei aldeias aonde muitos estavam cegos. Pessoas com lepra avançada, a que, lhes faltavam dedos, e por isso nos davam as mãos pois gostavam muito de nos cumprimentar.

Havia uma doença, a míasis, produzida pela picada de uma mosca, que provoca um abcesso e daí saiam vermes (bichos). Outra que produzia umas bolhas no corpo, denominada oncocercose, que é um tipo de filária. Uma vez lembrei-me de lancetar uma dessas bolhas a um doente e não fechava. Essa doença tem tratamento especial. Existe um verme que se mete por debaixo da pele e os guineenses apanham um palito, o amarram com um fio de palma, o introduzem no furúnculo e o vão rolando todos os dias até que tiram o enorme bicho a que chamam «verme (bicho) da Guiné».

Existem muitos parasitas e insectos perigosos como a nígua, que se introduz na pele das pessoas em época seca e forma como um furúnculo. Tem-se que o extrair o qual tem a forma de carraça.


(xx) Anormalidades da sua vida 
nas matas de Guiné-Bissau?

Eis algumas! Tomávamos banho no rio. Não tínhamos nem toalhas nem sabão, nem tampouco papel para escrever alguma mensagem. Durante oito meses tive um par de ténis que era o melhor para fazer caminhadas e, por último, já os amarrava com folhas largas pois não havia corda [atacadores].

Quando nos lembramos disso, damo-nos conta de que nessas ocasiões havia coisas que não eram muito normais. Por exemplo, numa ocasião quando me encontrava numa zona perto de um rio, despi-me e lancei duas granadas à água. Imediatamente me atirei ao chão e depois das explosões mergulhei e apanhei perto de vinte peixes mortos. Nesse dia comi com abundância. Penso que todos estávamos um pouco loucos, pois a guerra é a mãe [da loucura e e a rainha de todas as coisas; alguns transforma em deuses, outros em homens; de alguns faz escravos, de outros homens livres, (cit. Heraclito; 535 a.C.-475 a.C.: filósofo pré-socrático considerado o “pai da dialética”].

Colocaram-me à disposição um sangrador de palmeiras (para fazer escorrer o vinho, tipo corta-gotas utilizados nas garrafas). Como não tinhamos desinfectante para colocar na água contaminada, pedíamos a um homem que subisse ao cimo das palmeiras e aí extraía o líquido acumulado que era como se fosse vinho. Cada três/quatro dias me traziam cerca de quatro litros desse líquido. Havia dias em que bebia perto de dois litros de vinho.
Durante o tempo que estive na Guiné comi carne de búfalo, crocodilo, antílope, tartaruga, hipopótamo, javali, macaco, pássaros de várias espécies, apesar da comida principal ser arroz e óleo de dendém.

Em três ocasiões tive paludismo. Uma delas deu-me muito forte e quase que não me podia levantar. Eu próprio me tratava.


(xxi) Andava junto 

com os guerrilheiros?


Andei e fiquei em vários sítios, primeiro em Kandiafara, perto da fronteira Sul, depois na mata do Fiofioli [frente Leste], aonde estive em cinco lugares diferentes, pois é um território com uns trinta quilómetros quadrados [ao longo das margens do Rio Corubal] e mudávamo-nos cada vez que sentíamos algum movimento estranho.

Informavam-me qual o dia que atacariam algum ponto [aquartelamento; destacamento; coluna de abastecimento; tabanca, …] onde estavam os portugueses. Deixavam-me geralmente a um quilómetro desse lugar. Era sempre um ataque com canhões e morteiros. Na mata não é fácil e às vezes ficava um guerrilheiro em cima de uma árvore dando indicações aonde estavam a cair os projécteis para se poder corrigir o tiro. Os portugueses, enquanto elas [granadas] iam caindo, abrigavam-se, e depois contra-atacavam.

[À intensa actividade operacional das NT na
 região da mata do Fiofioli em 1969, como foram os exemplos referidos no P16396: (“Op. Lança Afiada”, entre 8 e 19 de março, movimentando cerca de 1300 efectivos; “Op. Baioneta Dourada” em 2 e 3 de abril, envolvendo um total de sete Gr Comb e “Op. Espada Grande”, em 4 e 5 de abril, com nove Gr Comb, reagiu o PAIGC, treze dias depois, com a primeira acção, realizando uma emboscada na Ponta Coli, no troço da estrada Xime-Bambadinca, em 18 de abril, esta liderada por Mário Mendes Cmdt do bigrupo que atacou os dois grupos de milícias aí instalados em missão de segurança à estrada anteriormente referida, ou seja, o Pel Mil 104 (sediado em Taibatá) e o Pel Mil 105 (destacado em Demba Taco), ambos com uma secção em Amedalai - P12154. Três anos depois, em 25 de maio de 1972, Mário Mendes viria a morrer em combate, na Ponta Varela, na acção “Gaspar 5”, envolvendo seis Gr Comb: três da CART 3494 e três da CCAÇ 12, tendo-lhe sido capturada a sua Kalashnikov, bem como documentação relacionada com  as acções a desenvolver naquela zona - P13440].

[Quarenta dias depois desta emboscada, na noite de 28 de maio de 1969, os guerrilheiros do PAIGC atacaram pela primeira vez (e que viria a ser a única) o aquartelamento e posto administrativo de Bambadinca (Sector L1), aonde estava instalado, à data, o comando do BCAÇ 2852 (1968/70). Participaram no ataque, que durou cerca de quarenta minutos, dois bigrupos (mais de cem elementos), tendo utilizado três canhões s/r (cujos invólucros se apresentam na imagem à direita), morteiros, RPG, metralhadoras ligeiras e pesadas e armas automáticas de assalto, sem grandes consequências - P11575.

[Em simultâneo com este ataque, outros guerrilheiros procediam à sabotagem da ponte sobre o Rio Udunduma, ao tempo sem qualquer segurança, situada a quatro quilómetros, na estrada Bambadinca-Xime. Para o local seguiu o 3.º Pelotão da CART 2339 (Fá Mandinga e Mansambo, 1968/69), comandado por Carlos Marques Santos (ex-Fur Mil), reforçado pelo Pel Caç Nat 63, visando a ocupação e defesa do pontão, criando um posto avançado de protecção a Bambadinca.



Bambadinca > CCS/BCAÇ 2852 (1968/70) – Uma das primeiras imagens da Ponte do Rio Udunduma, objecto de sabotagem por parte do PAIGC, na noite de 28 de maio de 1969, aquando do ataque ao quartel de Bambadinca (P11162, com a devida vénia). Aqui passei o 2.º semestre de 1973 e mais algumas semanas de 1974.


[Em 2 de junho de 1969, com início às 20h30, ocorreram, com pequenos intervalos entre si, novos ataques a Amedalai, Demba Taco e Moricanhe, respectivamente. Esta última tabanca seria evacuada dois dias depois para reforço de Amedalai - P1019.

[Em 8 de junho, pelas 18h15, seria a vez do Xitole ser flagelado com mort 82, registando-se novos ataques três dias depois (11 de junho: às 05h05 e 22h50) com mort 82 e canhão s/r, todos eles sem consequências. Nesse mesmo dia (11), às 00h01, novo ataque, agora a Mansambo, com canhão s/r, mort 82, LGFog e armas automáticas, durante trinta minutos, sem consequências. Um novo ataque seria repetido dois dias depois (13), com início às 18h30, com a utilização do mesmo material bélico, sem consequências. No dia seguinte (14) seria flagelado o destacamento de Taibatá, defendido pelo Pel Mil 104. Finalmente em 18 de junho, pelas 17h30, foi flagelado, durante 25 minutos, o destacamento da Ponte dos Fulas, no subsector do Xitole, com mort 82, igualmente sem consequências (in: história do BCAÇ 2852 - Bambadinca, 1968/70, pp. 87/88).

[É de crer que este vasto programa de acções esteja relacionado com o documento assinado por Amílcar Cabral (1924-1973), em 4 de junho de 1969, dando instruções para a realização de ataques, no dia 10 de junho, a diversos quartéis e destacamentos da frente Leste (Bambadinca, Gabú, Cabuca, Xime, Mansambo, Canjadude e várias tabancas com milícias e tropas portuguesas), devendo nalguns casos ser repetido durante três dias - P12156].

Continua…

_________________


Notas do editor:

(*) Vd. poste de 17 de agosto de 2016 > Guiné 63/74 - P16396: Notas de leitura (871): (D)o outro lado do combate: memórias de médicos cubanos (1966-1969) - Parte VII: o caso do clínico geral Amado Alfonso Delgado (III): Na mata do Fiofioli, pensei que ia morrer, pensei nos meus filhos, que iriam ficar sem pai… coitados, tão pequenos


(**) Último poste da série "Notas de leitura" > 22 de agosto de 2016 > Guiné 63/74 - P16412: Notas de leitura (873): "O que a Censura cortou": notícias da Guiné, por José Pedro Castanheira (Mário Beja Santos)

13 comentários:

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas

Mesmo que estas narrativas não sejam totalmente verdadeiras, acho que os vencedores da "Guerra de Libertação" deveriam pensar nos sacrifícios feitos pelos/as combatentes e pelas populações sob controlo do PAIGC e perfilar-se respeitosamente perante eles.
Depois empenharem-se, a sério, nas tarefas do dia-a-dia de forma a melhorar a vida dos que hoje vivem naquela terra.
Senão. nada valeu a pena.

Um Ab.
António J. P. Costa

Antº Rosinha disse...

Como médicos de Castro, estes médicos mereciam todas as honras que houvesse em Cuba.

Nunca Agostinho Neto, Amílcar Cabral ou Samora podem um dia ser considerados africanos tão grandes como um Jomo Kenyata, ou um Mandela, ou como os dirigentes da SWAP (Namíbia), ou mesmo o racista Mugabe, que nunca aceitaram "vender" o seu povo a ideologias que não diziam nada a África e a povos em estado tão simples, com tradições e valores que não tinham nada a ver com o castrismo e guevarismo e o estalinismo da guerra fria.

Ainda hoje a América Latina sonhada por Castro e Guevara vive mais triste que a África negra.

Assim como outros africanos alinharam com os capitalismos americanos dos evangelistas e católicos apoiados por Kennedy (Mobutu e seu cunhado Holden Roberto) também foi vender a alma ao diabo, embora Holden Roberto para os angolanos só rende 1% em eleições.

Kennyata esteve ligado à seita Mau Mau, esteve preso mas não vendeu a "alma ao diabo" e Mandela e Mugabe estiveram presos, lutaram e em 1990 no fim da guerra fria alcançaram os seus intentos com o mínimo de sofrimento para o povo simples e até alheio a todas as ideias de qualquer independência nacional.

Que a maioria dos africanos ainda hoje, 2016, estão algo incrédulos quanto à realidade dessa independência quanto mais há mais de 60 anos atrás.

Para não falarmos nas guerras tribais mortiferas no pós independência da Argélia e Nigéria, que nem vinham na TV daquele tempo no noticiário do almoço.

Mas a Europa ao abdicar da sua responsabilidade colonial, por causa dos custos, vai sofrer as maiores consequências do fracasso da descolonização.

Cuba, América e Rússia e China, estão distantes do continente africano, não vão sentir o efeito negativo daquelas "independências".

Estes testemunhos cubanos são historicamente riquíssimos para nós portugueses, mas principalmente para milhões de angolanos, moçambicanos e caboverdeanos e guineenses, da nossa geração, que embora a maioria não soubessem ler, mas estiveram sempre contra essa guerra esrrada imposta por alguns compatriotas, e os vindouros saberão ler esse facto comprovado pela história.

A verdade vem sempre ao de cima, mais tarde ou mais cedo.

Cumprimentos

Tabanca Grande disse...

Até à data, os testemunhos de dois médicos cubanos que o Jorge Araújo aqui recolheu e de que divulgou excertos, são unânimes em sublinhar e ilustrar, através de exemplos, a grande resiliência da população guineense (crianças, mulheres e idososos...) à dor, ao sofrimento...

Àparte a sua condição de "voluntários" e "combatentes internacionalistas", usados pelo governo cubano no contexto da guerra fria, estes dois médicos produziram notáveis depoimentos sobre a condição humana e as situações-limites em que os médicos podem viver e trabalhar, neste caso, em zonas de guerrilha, em África, na década de 1960... Além do mais, uim médico é sempre um médico, independentemente das duas convições políticas, da sua bandeira ou da sua nacionalidade.

Também ficamos a saber algo mais a dureza das condições de vida nas "zonas libertadas", tão propagandeadas pelo PAIGC:

(...) "Durante o tempo que estive na Guiné comi carne de búfalo, crocodilo, antílope, tartaruga, hipopótamo, javali, macaco, pássaros de várias espécies, apesar da comida principal ser arroz e óleo de dendém". (...)

António José Pereira da Costa disse...

Pois é Camarada

A vida de guerrilheiro é isto mesmo e o romantismo das narrativas só vem no fim e, mesmo assim é necessário ganhar a guerra.
Idealistas sempre houve, dos que arriscam e se sacrificam em prol de um ideal. É uma constante de todas as guerras.
Creio no idealismo dos médicos cubanos, como creio no dos combatentes cubanos que orientavam a acção dos guerrilheiros. Tudo se passou há quase 50 anos, quando a escala de valores era outra e a crença de que o que se fazia estava certo era uma força que fazia mover os homens bons.
Hoje não será assim... ou será?

Um Ab.
António J. P. Costa

Tabanca Grande disse...

Jorge, por qualquer razão. escapou-te o 3º parágrafo da resposta questão xx... No
original,aparece o vocábulo "forador"... Em crioulo, é "furador",
sangrador de vinho de palma... Lembro-me do termo. em Nhabijões... O
maior medo destes homens, hábeis trepadores de palmeira, era encontrar. na copa das palmeiras, a "cobra verde" (terrivel víbora venenosa). Quase sempre se atirava do alto da ´
árvore para o chão... Podemos reeditar o texto... Ab. Luis
_______________

.(...) Me pusieron para que trabajara conmigo a un «forador» (sacan
vino de las palmas). Como no teníamos cloro para echarle al agua
podrida, nos ponían a un hombre que se subía a las palmas y extraía el
agua acumulada que era como un vino. Cada tres o cuatro días nos
entregaban un galón de este líquido. Había días que tomaba cerca de
dos litros de vino. (....)
________________

furador (2)
furɐˈdor
nome masculino
Guiné-Bissau AGRICULTURA sangrador de palmeiras, para extração de vinho de palma

http://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa/furador
_______________

¿Anécdotas de su vida en las selvas guineanas?

Algunas veces nos bañábamos en el río. No teníamos toallas ni jabón,
ni tampoco papel para escribir algún mensaje. Durante ocho meses tuve
un par de tenis que era lo mejor para las caminatas y ya por último me
los amarraba con bejucos, pues no había soga.

Cuando uno rememora se da cuenta que en ocasiones se hacían cosas que
no eran muy normales. Por ejemplo, en una ocasión cuando me encontraba
en una zona apartada donde había un río, me quité la ropa y lancé dos
granadas al agua. Inmediatamente me tiré al suelo y después de las
explosiones me sumergí y recogí cerca de veinte peces muertos. Ese día
comí en abundancia. Creo que todos estábamos un poquito locos, pues la
guerra es de madre.

Me pusieron para que trabajara conmigo a un «forador» (sacan vino de
las palmas). Como no teníamos cloro para echarle al agua podrida, nos
ponían a un hombre que se subía a las palmas y extraía el agua
acumulada que era como un vino. Cada tres o cuatro días nos entregaban
un galón de este líquido. Había días que tomaba cerca de dos litros de
vino.

Durante el tiempo que estuve en Guinea comí carne de búfalo,
cocodrilo, antílope, tortuga, hipopótamo, jabalí, mono, pájaros de
todo tipo, aunque la comida principal era arroz y aceite.
En tres ocasiones tuve malaria. Una de estas veces me dio bastante
fuerte y no podía casi levantarme. Yo mismo me ponía el tratamiento.

Tabanca Grande disse...

Tó Zé, em todos as épocas, e nomeadamente desde há 5 mil anos, quando apareceram as primeiras formas de estado (poder político organizado), nós, represententantes da única ´espécie humana que chegou até aos nossos dias, o "Homo Sapiens Sapiens", aprendemos a lutar e a morrer por "ideais", realidades imaginadas que davam/dão "sentido" â vida e à morte: os deuses, Deus, a pátria, o proletariado, a anarquia, a república, a revolução, o capitalismo, a defesa do planeta, etc.

Seguramente que os cubanos eram mais "idealistas" do que nós...Mesmo assim tenho dúvidas sobre o que os motivava... Creio que o "guevarismo" era, na altura, uma doença mortal... infectocontagiosa, tal como o anarquismo nos finais do séc. XIX ou os cruzados no séc. X... Ou o fascismo, ou o nazismo, ou o comunismo na primeira mertade do séc. XX... Ou quanto mais fechados são os sistemas de pensamento mais totalitários e mais mortíferos: veja-se a história das 3 religiões monotoeístas, judaismo, cristianismo e islamismo... Temo-nos matado uns aos outros "in nomine Dei", em nome de Deus, do mesmo Deus... Estranha coincidência!...

José Nascimento disse...

Entre o dia 2 e o dia 23 de Junho de 1969, estive com o meu pelotão em Mansambo e não me lembro de qualquer ataque a este quartel.

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camarada

Nada a opor.

Contudo parece-me que o nosso "patriotismo" que nos levava a embarcar sem qualquer espécie de contestação era claramente batido pelo guevarismo de alguns cubanos que acreditavam na revolução mundial.
Já escrevi quenão tenho dúvidas de que as primeiras unidades embarcadas iam imbuídas de um espírito muito positivo e cônscias de que o sacrifício se justificava em nome da Pátria, da luta contra o comunismo (de preferência internacional, mas que ninguém sabia bem o que fosse) ou da protecção das populações das PU ou até na defesa do era nosso (de quem?).
Pouco tempo depois já havia quem dissesse que, se "aquilo" era nosso, então "venderia a respectiva parte por meia-garrafa de branco".
Depois... já sabemos.

Um Ab.
António J. P. Costa

Tabanca Grande disse...

E apesar de tudo, a Guiné tocou-nos a todos e a prova disso é o nosso blogue e a sua longevidade...

Alguns de nós não terâo pejo em subscrever as palavras deste combatente cubano, médico, que esteve do outro da guerra, onde conheceu duras provações, a ponto de temer pela vida:

(...) "Eu senti-me muito bem na Guiné e creio que foi uma das melhores épocas de trabalho da minha vida. Às vezes chegava a uma tabanca, e era para eles como um filme ao verem um branco. De repente ficava cercado por quarente/cinquenta crianças e logo me começavam a tocar nos pelos, na cara, nos braços. Era algo raro que nunca antes tinha visto." (...)

Antº Rosinha disse...

Diz o médico cubano: (...) "Eu senti-me muito bem na Guiné e creio que foi uma das melhores épocas de trabalho da minha vida. Às vezes chegava a uma tabanca, e era para eles como um filme ao verem um branco. De repente ficava cercado por quarente/cinquenta crianças e logo me começavam a tocar nos pelos, na cara, nos braços. Era algo raro que nunca antes tinha visto." (...)

Em 1960 era assim em toda a África sub-sariana, em 1500 foi assim com Diogo Cão, em 1700 foi assim com os Jesuitas e os comerciantes, em 1974 foi assim em Bissau com todos os russos, suecos, alemães, italianos, jugoslavos, equatorianos...que por lá apareceram.

Com os chineses dá-se algo semelhante no ano 2000 em grande parte de África.

Quase parece um fenómeno que daria para muitas explicações sobre o que certas reacções a este fenómeno, se estão a dar em alguns países africanos, neste momento.

Anónimo disse...

jorge araujo
26 agosto 2016 23:28


Caro Luis,

A minha dupla desculpa: pelo lapso e pelo atraso. O lapso ficou, certamente, a dever-se à metodologia utilizada: cópia e tradução em simultaneo. Acontece aos melhores.

Aqui vai o parágrafo em falta:

Colocaram-me à disposição um sangrador de palmeiras (para fazer escorrer o vinho, tipo corta-gotas utilizados nas garrafas). Como não tinhamos desinfectante para colocar na água contaminada, pedíamos a um homem que subisse ao cimo das palmeiras e aí extraía o líquido acumulado que era como se fosse vinho. Cada três/quatro dias me traziam cerca de quatro litros desse líquido. Havia dias em que bebia perto de dois litros de vinho.

(...)

Em três ocasiões tive paludismo. Uma delas deu-me muito forte e quase que não me podia levantar. Eu próprio me tratava.


Já agora... Entre a pergunta XVIII e a XX, falta colocar a XIX.

Bom fim-de-semana.

Um abraço.

Jorge Araújo.

Tabanca Grande disse...

Jorge, obrigadeo pela rápida resposta... O texto agora fica completo. Já fiz as correções. LG

Tabanca Grande disse...

Já agora, alguém sabe como se extraía o "vinho de palma" ?... Fotos e texto precisam-se... LG