quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Guiné 63/74 - P16510: Recortes de imprensa (82): A notícia da morte de Amílcar Cabral e as cinco razões apresentadas para uma eventual explicação do crime, dadas pelo "Diário de Lisboa", de 22/1/1973, jornal vespertino conotado com a oposição democrática ao Estado Novo. que se pubicou entre 1921 e 1990




1. Edição do "Diário de Lisboa (diretor: António Ruella Ramos),  22 de janeiro de 1973, com a notícia do assassinato de Amílcar Cabral, que saiu na capa, com desenvolvimento,  não na última página, mas na página 24... Muito possivelmente devido à censura /(ou "exame prévio" a que estava sujeita a impresnsa escrita da época), não é feita qualquer alusão ao alegado envolvimento da PIDE/DGS...

A peça baseia-em em duas agências noticiosas estrangeiras: Reuters (R) e France Press (FP)... Na notícia avançam-se com cinco hípóteses de explicação para o assassinato da Amílcar Cabral (sublinhados nossos, a vermelho), entre elas,  o conhecido "ateismo" de Amílcar Cabral (5) e o alegado "ódio aos fulas" (4), para além da conflitualidade latente enter caboverdianos e guineenses (1), os "ciúmes" do Sekou Touré (3) e a "desconfiança" dos russos (2)...

 Recorde-se que entre os implicados terá estado o nosso conhecido e mal amado Mamadu Indjai (ou N'Djai), mandinga (ou, mais provavelmente, biafada, segundo o nosso conselheiro para as questões étnico-linguísticas e culturais, o dr. Cherno Baldé) e, ao que parece, bom muçulmano (*).

A "colagem dos excertos" é da  responsabilidade dos editores do blogue, e foi feita a partir de um exemplar, digitalizado, disponível no portal Casa Comum / Fundação Mário Soares. (**)

Cortesia de Casa Comum / Fundação Mário Soares: 

Citação:(1973), "Diário de Lisboa", nº 17989, Ano 52, Segunda, 22 de Janeiro de 1973, CasaComum.org, Disponível HTTP: http://hdl.handle.net/11002/fms_dc_5387 (2016-9-20)

_________________

Notas do editor:

(*) Vd. poste de 20 de setembro de  2016 > Guiné 63/74 - P16506: (De)Caras (45): Médicos cubanos 'versus' comandante Mamadu Indjai (Jorge Araújo, ex-fur mil op esp / ranger, CART 3494, Xime-Mansambo, 1972/74)

10 comentários:

Tabanca Grande disse...

Òdio aos fulas ? O Amílcar Cabral ? Se calhar, estamos a jogar com clichés, com esteréotipos... O contrário também pode ser verdadeiro: os fulas pagaram um preco elevado por n~´ao se terem lançado nos braços do Amílcar Cabral e do seu PAIGC...

Não são sou um conhecedor (profundo) do pensamento de Cabral, li por alto um ou outro escrito dele, incluindo um texto de 1964, onde Amílcar Cabral fez uma sumária análise da “estrutura social” da Guiné colonial. Era uma análise tipicamente marxista, ou melhor, que usava conceitos sociológicos de inspiração marxista.

Socorri-me, em tempos, desse um texto que condensava diversas intervenções orais feitas por Cabral, em francês, num seminário organizado pelo Centro Frantz Fanon de Milão, em Treviglio, de 1 a 3 de Maio de 1964. E sobre os fulas, escrevo o seguinte, procurando condensar o pensamento de AC:

(...) ele começa por fazer a clássica distinção entre o campo e a cidade. No campo, sinaliza dois grupos principais: (i) um, que ele chama semifeudal, representado pelos fulas; (ii) e outro, o dos balantas, que seria um grupo sem Estado, leia-se, sem poder político. Entre estes dois grupos étnicos extremos haveria depois situações intermédias: por exemplo, (iii) mandingas e biafadas, de um lado; papéis e felupes, de outro (Os exemplos são meus).

Grosso modo, haveria uma coincidência entre o semifeudalismo e o islamismo, por um lado, e a ausência de organização estatal entre os animistas, por outro. O caso dos Manjacos, animistas, merece uma atenção à parte, uma vez que “à chegada dos portugueses mantinham já relações que se poderiam qualificar de feudais” (Cabral, 1976.24).

Quanto aos fulas, o fundador, dirigente e teórico do PAIGC fala deles em termos de uma forte “estratificação social”. Em primeiro lugar, temos (i) os chefes, os nobres e os dignatários religiosos (por ex., o Cherno Rachid de Aldeia Formosa); vêm depois, (ii) os artesãos e os jilas ou comerciantes ambulantes (que circulam pela Guiné, Senegal e Guiné-Conacri); finalmente, e na base da pirâmide social , (iii) os camponeses.

(Continua)

Tabanca Grande disse...

(Continuação)

Sobre o grupo dirigente, Amílcar Cabral diz o seguinte:

“Os chefes e a sua comitiva têm ainda, a despeito da conservação de certas tradições relativas à colectividade das terras, privilégios muitos importantes no quadro da propriedade da terra e da exploração do trabalho de outrem. Os camponeses que dependem dos chefes são obrigados a trabalhar para eles um certo período do ano”.

Daí chamar aos fulas, aliados históricos dos portugueses, um grupo semi-feudal.

Os artesãos desempenham um papel importante na sociedade fula, constituindo um núcleo embrionário de uma indústria de transformação da matéria-prima: do ferreiro, na base da escala, até ao artesão do couro. Os comerciantes ambulantes (jilas) são os que têm, na prática, a possibilidade de acumular dinheiro. Por fim, os camponeses: em geral desprovidos de direitos, seriam os “verdadeiros explorados da sociedade fula”.

A estratificação da sociedade fula também pode ser vista a partir da família, extensa, que é a sua célula: a família de um homem grande é constituída pela morança; um conjunto de moranças formam uma tabanca; um conjunto de tabancas um regulado; e por fim, os regulados fulas estão associados ao chão fula (Leste da Guiné, compreendendo hoje as regiões de Bafatá e de Gabu), uma entidade territorial e simbólica, ligada à conquista.

Aqui a mulher não goza de quaisquer direitos sociais: participa na produção sem quaisquer contrapartidas; por outro lado, a prática da poligamia significa que ela é, em grande parte, propriedade do marido.

Estranha-se, não haver aqui uma referência ao fanado feminino e sobretudo ao profundo significado sócio-antropológico que tinha (e tem) a Mutilação Genital Feminina entre os Fulas (mas também entre os Mandingas e os Biafadas). Será que Cabral tinha consciência das terríveis implicações, para a mulher, desta prática ancestral, e também aceitava tacitamente em nome do relativismo cultural, tal como os antropólogos colonialistas ? Não conheço nenhum texto em que o ideólogo do PAIGC tenha tomada posição sobre este delicado problema.(...)


30 DE JUNHO DE 2008

Guiné 63/74 - P3000: Amílcar Cabral: nada mais prático do que uma boa teoria (Luís Graça)

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2008/06/guin-6374-p3000-amlcar-cabral-nada-mais.html

Cherno AB disse...

Caro amigo Luis,

Esta analise social de Amilcar que acabas de expor continua ainda valida, seja porque muito bem construida seja porque nao surgiu nenhuma outra que a pudesse destronar ou contradizer.

De uma forma geral, eu concordo com a teoria, embora existam alguns pontos, conceitos ou formulacoes com os quais nao concorda. No fundo e por forca dos estudos seguidos e o local onde foram feitos, tambem segui a trajectoria e concepcao marxista relativamente a analise social e economica.

Ja na altura, como bom pensador, seria logico perceber que de uma sociedade sem classes, sem chefias e sem estado dificilmente poderia resultar ou construir uma sociedade estavel, democratica e economicamente bem sucedida.

Quanto a ser bom muculmano, nao creio, pois quem provou do calice do Marx e Engels na juventude dificilmente poderia ser "bom muculmano", infelizmente.

Com um abraco amigo,

Cherno AB

Anónimo disse...

PS: Para terminar, tenho a dizer que de todas as hipoteses formuladas a respeito do assassinato de A. Cabral, a menos plausivel, a meu ver, eh a relacionada com os Fulas. Acho que o que Amilcar sentia em relacao aos Fulas era raiva e nao odio, raiva devido a fraca adesao a causa da luta do PAIGC.

Cherno

Antº Rosinha disse...

Já há muitos anos que na Guiné há menos tabús em bom crioulo do que por cá em bom português

A grande "vitória" de Amílcar Cabral, foi a principal causa do seu assassinato.

Essa vitória foi a eliminação de diversos movimentos e indivíduos adversários, aglutinando-os dentro do PAIGC.

Criou um saco de gatos, em que se eliminam uns aos outros, até hoje.

Aconteceu o mesmo no irmão do PAIGC o MPLA que também era um saco de gatos que morreu para ali gente que nem entre a luta MPLA/UNITA morreram tantos cabecilhas.

Ali havia a Revolta Activa que eram os Pinto de Andrade amigos de Cabral, havia a facção Chipenda, e outros que de menos nomeada, até que desembocou na matança de um tal 27 de Maio de 1977, que pôs tudo em pratos limpos.

A guerra que continua dentro desses partidos "vitoriosos", quem tem menos escrúpulos é quem tem mais hipóteses de ganhar.

Não é preciso arranjar provas do que afirmo, porque o que se continua a passar no PAIGC, desde Luís Cabral, Nino, Ansumane Mané, Cadogo...é um mundo de intrigas, corrupção, invejas e ciúmes tribais e feitiços, e gente a morrer, conhecidos de toda a Bissau.

Quantos, antes de Amílcar Cabral morrer, teriam sido despachados sem certidão de óbito em Conacry?

Amílcar bem queria 4 PALOP, ficaram 5, já não foi mau.

Tabanca Grande disse...

"Acho que o que Amílcar sentia em relação aos Fulas era raiva e não ódio, raiva devido à fraca adesão à causa da luta do PAIGC"... (Conselheiro Cherno Baldé dixit)...

Cherno, olha a sorte que eu tive!... Em vez de uma companhia de fulas a combater contra os balantas, biafadas e mandingas, imagina que estava numa companhia de balantas (ou biafadas ou mandingas) a lutar contra os fulas do Amílcar Cabral...

Sim, será mais apropriado o termo "raiva" do que "ódio"... Independentemente de tudo o mais que ele foi (ou deixou de ser, ao ter morrido prematuramente), Amílcar Cabral foi um grande ser humano, português e africano, um cidadão do mundo.

Ab. grande, Luis. e obrigado, pelos teus comentários sempre oportunos, generosos, frontais e intelectualmente estimulantes!...

Tabanca Grande disse...

Lendo com mais atenção este recorte de imprensa, os cinco motivos plausíveis para o crime... são avançados, não pela Reuters e/ou a France Press, mas pela agência oficiosa do regime de então, a ANI - Agência Nacional de Informação (criada em Em 1947). Estava longe de ser idónea e credível por falta manifesta de independência e pluralismo....

Omitir o papel da PIDE/DGS (bem como do próprio Spínola...) e avançar com os fulas para a fogueira, era perverso... Tanto quanto sei não havia militantes fulas, com cargos de destaque no PAIGC, e na "entourage" de Cabral na altura da conspiração que levou ao seu assassinato... Nem entre os autores materiais nem os autores morais...

Tabanca Grande disse...

Lendo com mais atenção este recorte de imprensa, os cinco motivos plausíveis para o crime... são avançados, não pela Reuters e/ou pela France Press, mas pela agência oficiosa do regime de então, a ANI - Agência Nacional de Informação (criada em 1947, estava longe de ser idónea e credível por falta manifesta de independência e pluralismo?....

Omitir o papel da PIDE/DGS (bem como do próprio Spínola...) e atirar com os fulas para a fogueira, era perverso... Tanto quanto sei não havia militantes fulas, com cargos de destaque no PAIGC, e na "entourage" de Cabral, na altura da conspiração que levou ao seu assassinato em Conacri, em 20 de janeiro de 1973... Nem entre os autores materiais nem os autores morais..

Antº Rosinha disse...

Luís Graça, há uma entrevista do historiador guineense Mário Sissoko, que seria interessante para ti ou Beja Santos trazer para o blog, sobre a criação do PAIGC que tem coisas que se falam muito em Bissau mas que aqui para nós são novidades.

O semanário "O DEMOCRATA" traz uma longa entrevista sobre o facto de o PAIGC que agora comemora 60 anos (1956), mas que na realidade seria criado apenas em 1962.

Não sei, mas penso que seria interessante trazer para aqui essa "acha para a fogueira" do semanário "O DEMOCRATA"

Já li um pouco, mas para mim alguns assuntos já tinha ouvido em Bissau ao povo.

Cumprimentos

Anónimo disse...

Amigo Luis,

Um dia ouvi da boca de um guadro guineense que os fulas eram os Judeus de Africa e, nao eh por menos, pois durante a epoca colonial eles serviram para tudo e ainda hoje sempre que as coisas nao andam ao gosto de certos grupos "elitistas", os culpados sao sempre os mesmos de ontem.

Um abraco amigo,

Cherno AB