sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Guiné 63/74 - P16543: Inquérito 'on line' (69): Perguntar não ofende, mas às vezes pode incomodar... Os filhos dos ricos e dos poderosos de então andaram comigo na escola (25%), mas não na tropa (52%) e menos ainda na guerra (56%)... Resultados preliminares (n=44)... Prazo de resposta até 5 de outubro, 4ª feira, às 19h44

Bissau: Monumento ao Esforço da Raça
(c. 1950)
1. INQUÉRITO DE OPINIÃO: "OS FILHOS DOS RICOS E PODEROSOS DE ENTÃO ANDARAM COMIGO"...


1. Não, não andaram comigo na escola  > 17 (38%)


2. Não, não andaram comigo na tropa  > 23 (52%)

3. Não, não andaram comigo na guerra  > 25 (56%)

4. Sim, andaram comigo na escola  > 18 (40%)


5. Sim, andaram comigo na tropa  > 11 (25%)


6. Sim, andaram comigo na guerra  > 7 (15%)

7. Não sei / não me lembro > 4 (9%) 


2. Mais um inquérito (ou "sondagem"...) para responder no nosso blogue, até ao dia 5 de outubro, até às 7:44 PM (19h44)... Não se trata de nenhum trabalho de pesquisa científica, é apenas um passatempo, inocente... Não sabemos quem responde nem quem não responde... Se chegarmos aos 100, ótimo, é uma boa amostra de conveniência.

Até hoje de manhã, tínhamos 44 respostas, cujos resultados preliminares apresentamos acima.

Por favor, camarada,  coloca a(s) cruzinha(s) aqui. diretamente, ao canto superior esquerdo do blogue... A pergunta tem resposta múltipla... E, já sabes, perguntar não ofende... E também não queremos naturalmente incomodar ninguém... Só queremos conhecer a tua experiência ou a tua perceção... 

Na época,  em 1961/74, havia o serviço militar obrigatório e o país estava a braços com uma guerra em 3 frentes, bem longe de casa... Dizem que mobilizou perto de 1 milhão de homens...200 mil terão sido os refratários; desertores foram poucos... Alguns de nós acham que, na época, éramos todos portugueses e todos iguais... Mas outros acrescentam que havia alguns de nós que eram mais iguais do que outros... Em que é que ficamos ?


3. Alguns comentários na página do Facebook da Tabanca Grande, com de ontem e hoje:

(i) Domingos Robalo:

Já fiz a minha votação e gostaria de comunicar o seguinte: Fiz 24 meses de Guiné de maio 69 a 71.

O sobrinho do ministro Sá Viana Rebelo e o filho do deputado à Assembleia Nacional falecido no acidente de helicóptero em Mansoa foram meus camaradas na Artilharia (BAC1 / GAC7). O primeiro comandava um pelotão de artilharia, creio que em Canquelifá e o segundo estava em Catió.

Outros "ricaços" e filhos de industriais por lá andavam em pelotões no TO. Obviamente que a maioria eram de origem mais modesta mas nem por isso menos considerados ou desrespeitados. Era assim na Artilharia.

Não esquecer que a maioria dos nossos soldados eram de origem Guineense, [tendo sido] vitimas dos assassinatos a seguir à independência daquele País de gentes amigas e ainda saudosas de Portugal.

PS - Correcção: o primeiro [, o sobrinho do ministro Sá Viana Rebelo] estava em Saré Bacar, e estivemos juntos na "Operação Mabecos", em Piche, na semana de carnaval de 1971, operação de triste memória.

(ii) Augusto Carolino Carvalho:

Alguns andaram na Escola Primária, depois ninguém mais os viu, só de vez em quando é que vinham à Terra.

 (iii) Mario Vasconcelos:

Durante o serviço militar nunca me preocupou saber a origem daqueles que correspondiam ao esforço praticado. Os laços que nos irmanavam eram de tal modo fortes, que esse aspecto, para mim, era irrelevante. Suponho ser mais admissível dizer que, durante o ensino superior, alguns fossem dessa proveniência. E, portanto, muitos deles devem ter representado a nação em esforço de guerra. Verdadeiramente, não sei quantificar.

 (iv) Raul Castanha:

Não faço a minima ideia de quem eram, no inicio, os meus camaradas de guerra ou melhor de tropa. Fomos todos iguais e cada um ocupou o seu lugar com as suas responsabilidades. A questão que se deveria ter colocado é se cumpriram ou não o seu papel.~

(v) Manuel Amaro:

 Havia de tudo... uns inventavam doenças como o filho do Director do Hospital Militar... outros, como o filho de um General, meu vizinho, faleceu em Angola.

(vi) Manuel Belinha:

Na escola aonde eu andei, andavam todos, ricos e pobres, brincávamos juntos . Nos anos 50 não havia colégios privados. Isso são coisas das mentes deturpadas modernas e de quem perde tempo a fazer estes inquéritos. Esta página [Facebook da Tabanca Grande] é de grande utilidade para todos nós que estivemos na Guiné . Ficarei muito triste se ela for usada para fins políticos.  Na Guiné éramos todos camaradas unidos, porque ninguém sabia e não se discutia política.

A vida é assim mesmo. Uns imigraram, para o estrangeiro ou grandes cidades. A vida de criança, mal era se não mudasse na idade adulta. Conheço gente que era rica,  hoje está pobre, também conheço gente que era pobre,  hoje está rica.  É a sorte e o destino de cada um.

(vii) José Augusto de Araújo:

Eu também estive na Guiné de 69 a 71, e já há muito que sou adepto da Tabanca Grande!...  Ricos ou pobres, todos os que lá fomos sofremos na pele o inferno da guerra!...
___________

9 comentários:

Carlos Vinhal disse...

Este inquérito tem algumas premissas que lhe podem dar um certo cunho ideológico. Não estamos a confundir famílias poderosas com famílias influentes? Haveria assim tantas famílias poderosas em Portugal naquele tempo? Não haverá mais hoje? O fim do serviço militar obrigatório, depois do 25 de Abril, não é disso sinónimo?
Conheço o caso de um camarada de Leça, cujo pai, pessoa muito influente junto do poder, se recusou a livrar o seu filho mais velho da mobilização para Angola, onde acabou por morrer em combate, em 1962.
Na minha Companhia, apareceu em determinada altura um alferes miliciano para substituir o Alferes Couto, vítima mortal de uma mina. Mal chegado, afirmou para quem o quis ouvir, que o seu tempo em Mansabá seria muito curto pois estava à espera que alguém, muito próximo, chegasse a Bissau para manobrar os cordelinhos e o tirar dali.
Assim se cumpriu, e assim chegou a Mansabá o Francisco Baptista em sua substituição.
Nunca me preocupei muito com a posição social dos meus camaradas porque eu é que era o centro das minhas próprias atenções. De todos, o mais importante, sem dúvida nenhuma, era eu.
Carlos Vinhal
Fur Mil Art MA
CART 2732

Carlos Vinhal disse...

Já agora, não percebendo muito bem a que propósito a escola é aqui chamada, posso dizer que não me lembro de algum menino "rico" nas diversas classes do ensino primário, é que naquele tempo os paizinhos ricos punham os filhos nas escolas particulares mas não reivindicavam subsídios ao governo. Chegado à escola industrial, aí sim, conheci vários meninos "de bem" que até chegaram a engenheiros e a economistas. Demoraram foi mais tempo.
Carlos Vinhal

Anónimo disse...



Pois meu amigo Carlos Vinhal o Francisco Baptista foi das maiores vítimas do compadrio na Guiné. Quando fui substituir esse tal mariola, de boas famílias, sei que tinha um apelido Meneres eu já tinha 17 meses de mato, em Buba. Não protestei pelo destino que me reservaram porque achei que o meu estado psíquico não me iria permitir uma boa adaptação à guerra dos papeis e dos soldadinhos de chumbo dos nossos coroneis e dos seus protegidos.
Um abraço. Francisco Baptista

José Marcelino Martins disse...

Sim, andaram por perto, mas em determinada altura afastaram-se.
No Jardim Escola, andaram bastantes, que depois foram-se dividindo pelas duas escolas da cidade e das localidades vizinhas.
Na altura do secundário houve nova cisão: os ditos ricos, abastados e agricultoras para o liceu; os remediados para a escola técnica.
Na tropa estiveram dois comigo, quer na recruta quer na especialidade de teleimpresor. Eu segui para o CSM. Deles em foi para o QG do Porto, enquanto o outro ficou no regimento, impedido às pocilgas.
Quanto pagou ao sargento da pecuária? Não sei, mas deve ter sido bastante.

Hélder Valério disse...

Olá!

Também já votei.
Na hipótese 7 "não sei / não me lembro".
E é verdade, não foi para criar dificuldades ao inquérito, é que tenho ideia de se falar nisso lá na terra, em que alguns integrantes dos terratenentes se chegaram à frente para defender a integridade da Pátria mas alguns outros houve que foram escapando à mobilização e muito sinceramente já não sei 'fulanizar' esses casos.
Além disso, lá na zona, muitos jovens integravam as oficinas gerais de material aeronáutico, as OGMA, a que nós também chamávamos a santa milagreira ou Nossa Senhora do Parque (aeronáutico) de Alverca, que 'livrava o pessoal de ir bater na guerra de África' pois quem lá estava fazia a recruta e depois o resto do tempo militar correspondente era cumprido lá.
Em termos de serviço militar estive com alguns 'filhos de boas famílias' (não seremos todos?), quer no CSM em Santarém, quer no âmbito das Transmissões, quer também no TO do CTIG.

Hélder Sousa

Anónimo disse...

Filho de ministro na recruta..não era nada pretensioso..bom camarada e com grande espírito de humor...

Num sábado foi o único da sua companhia que não foi de fim de semana, julgo que devido a castigo.

Ao apresentar a companhia que era só constituída por ele...meu capitão (oficial dia) companhia pronta...o capitão olha-o de soslaio e diz...mande dispersar essa merda..este obedece prontamente...faz meia volta volver.. e dirigindo-se para a parada vazia...berra a plenos pulmões...AAATEEENÇÃO MEERRRDA DISPERSAR...o capitão fez um sorriso amarelo por baixo do seu bigode.

Meu capitão tenho uma lagarta na sopa..resposta do capitão...coma que isso é tudo proteína---pode ser mas.. é "uma merda de proteína"..e afastou delicadamente o prato de zinco.

C.Martins

Tabanca Grande disse...

Pode-se ser rico e poderoso (Alfredo da Silva); pode-se ser poderoso sem ser rico (Salazar)... E depois havia os pequenos poderes a nível local e regional...Acredito que o dinheiro não compra(va) tudo, e nem sempre os novos ricos eram bem vistos pela elite dirigente tradicional, as famílias tradicionais... O mundo nunca é preto e branco, ontem como hoje...

Um grande admirador de Salazar e influente deputado, Cazal Ribeiro, considerado um ultranacionalista, teve um filho, que foi piloto de heli AL III, e que morreu em Angola... Não sei se em combate, se por acidente,,, O caso na época foi muito falado... e provocou comoção nas fileiras do regime, O nosso Dom Duarte Nuno também a fez a tropa e fez uma comissão em Angola... São dois casos, públicos, que me ocorrem à memória...

Houve gente coerente, não é isso que está em causa... O que se pretende saber, com este inquérito, é o que aconteceu aos nossos colegas de escola, nos casos em que eram "filhos de algo" (, ou seja, de ricos e/ou poderosos)... Onde estavam aos 20 anos ? Na tropa, na guerra, na universidade, no estrangeiro ?...

Nós fomos para a tropa e depois para a guerra... Onde estavam os colegas de escola "filhos de algo" ? Podiam andar na universidade, cá ou no estrangeiro... Quem andava na universidade (...e era ainda uma minoria relativamente privilegiada) beneficiava de adiamento, se fosse bom aluno, bem comportado... E depois também havia a Reserva Nacional por onde passou uma boa parte da elite deste país, alguns políticos e empresários da nossa geração... Uns foram ao ultramar, outros não...

Nunca é fácil responder a questões complexas como estas a partir de casos particulares...Nos meios pequenos (vilas e cidades e províncias) conhecíamo-nos uns aos outros e todos sabemos como os filhos dos mais ricos ou com maior estatuto social começavam logo na escola a ter, não direi tratamento "VIP", mas mais "diferenciado"... A escola (primária) no nosso tempo estava longe de ser inclusiva...

Mais do que percentagens destes ou daqueles, interessam-nos as histórias e os casos aqui relatados, com maior ou menor desenvolvimento...

Um abraço inclusivo a todos os camaradas da Guiné, sem qualquer viés ideológico... LG

Valdemar Silva disse...

E, então, os que pagavam para não ir pra guerra. Sim, houve situações que eu conheci, de Cabos Milicianos com boa classificação na especialidade, ou em pequena rotação, o ex. das variantes de Artilharia, não mobilizados, que se ofereciam em substituição por troca de dinheiro a outros com classificações mais baixas e mobilizáveis? Os chamados 'mata serviços'. Havia-os cá a 'matar serviços' nos fins de semana, que depois se estendeu à guerra na Guiné, que dava bom dinheiro. Lembro-me do caso no RAP3, Figueira da Foz, de dois de especialidade Munições de Artilharia meus conhecidos, um que foi um jogador conhecido de futebol , outro meu ex-colega na Veiga Beirão. O meu ex-colega na Veiga, grande crânio, com excelente classificação, trocou por dinheiro com o futebolista, dum clube conhecido, com baixa nota, para ir pra Guiné. Encontrei-o em Bissau, parece que de lá nunca saiu-o.
Todos sabemos que houve milhares de casos destes, em que as trocas eram feitas, em
clubes de futebol e também nas famílias de ricos. Aliás começava logo na Especialidade. A Especialidade de Monitor/Instrutor de Condução Auto era sempre de rapaziada ricaça ou filhos de boas famílias ou 'meninos bem' já com carta de condução no anos 60, Especialidade esta com pouca probabilidade de mobilização pra guerra.
Os filho dos ricos arranjavam sempre maneira de fugir à guerra, coitados dos pobres que apenas lhes resta uns Memoriais lá na terra: Mortos em combate pela Pátria.
Valdemar Queiroz

Anónimo disse...

Pois, Valdemar, não já não me lembrava dessa, o0 caso dos jogadores de futebol... Os "craques" da bola não podiam morrer na guerra... Era o maior recurso da Nação!... Os filhos dos grandes navegadores do passado hoje jogam à bola...

Também pertenciam/pertencem à classe dos privilegiados... Entendo: são dos poucos portugueses que ainda nos dão algumas alegrias (efémeres), as de sermos campeões de qualquer coisa..., de futebol, de matraquilhos, etc.

Por outro lado, ter carta de condução também era um luxo... Quem a tinha nos anos 60 ?... Ab. LG