sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Guiné 61/74 - P17055: Notas de leitura (930): “O PAIGC perante o dilema Cabo-Verdiano (1959-1974)”, por José Augusto Pereira, Campo da Comunicação, 2015 (3) (Mário Beja Santos)

Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 23 de Novembro de 2015:

Queridos amigos,
O mestre José Augusto Pereira legou-nos uma investigação que deve ser tida em conta, a todos recomendo a sua leitura. Se em determinadas matérias mostrou aplicação e tratou com rigor uma boa parte da bibliografia, compulsou nos arquivos da PIDE aqueles relatórios onde se registavam dissensões, quebras de confiança na política seguida pelo secretário-geral, e até a tentativa de criação de partidos em que não houvesse misturas entre guineenses e cabo-verdianos. Recorde-se que quando Amílcar Cabral chegou à região em 1960 foi logo confrontado pela contestação dos guineenses se juntarem a cabo-verdianos na luta e num qualquer ideal federativo. Os melhores investigadores de Cabral alegam que a ideia de unidade era muito corrente nessa época, o que é inteiramente verdade, mas Cabral ao longo dos anos foi assistindo ao desmantelamento dessas uniões, do Egito ao Mali. E ele não podia ignorar a questão estrutural de que os cabo-verdianos não eram bem-amados na Guiné, eram encarados como o braço longo do colonialismo. É assim que se percebe que ainda há muita investigação a fazer e muitos mitos a desmontar.

Um abraço do
Mário


O PAIGC perante o dilema Cabo-Verdiano (3)

Beja Santos

“O PAIGC perante o dilema Cabo-Verdiano (1959-1974)”, por José Augusto Pereira, Campo da Comunicação, 2015, é seguramente uma investigação rigorosa, com aturada consulta da bibliografia mais pertinente, não hesito em considerar esta investigação como apropriada para o conhecimento de uma realidade tantas vezes omitida – o PAIGC da luta da Guiné e o PAIGC clandestino e impaciente por passar à subversão, o que jamais sucedeu.

Acompanhou-se o desenrolar do trabalho de José Augusto Pereira: o confronto entre duas realidades socioeconómicas e culturais diferenciadas e com pontos de aproximação; a história do PAIGC na luta armada guineense e as sucessivas hesitações entre agitação política e a promessa de desembarque em Cabo Verde. É esta faceta da crise que é sucessivamente silenciada, acrescendo que muitos cabo-verdianos de modo algum se identificavam com o lema “unidade e luta”.

A impaciência dos militantes cabo-verdianos está bem documentada. Jorge Querido, o responsável máximo pela atividade do PAIGC em Cabo Verde escreve para Conacri pedindo orientações e armamento, a resposta demorava. Os clandestinos em Lisboa também vociferavam, Amílcar Cabral procurava apaziguar. Osvaldo Lopes da Silva que, entre 1970 e 1972, recebera formação em marinha de guerra no Mar Negro, URSS, quando chegou a Conacri pediu a Cabral a perspetiva da luta do povo cabo-verdiano para a independência, os cabo-verdianos queriam ser tratados como uma entidade, e não como um apêndice da luta da Guiné. Esta reivindicação não era original, Abílio Duarte em Abril de 1970, defendeu que o problema de Cabo Verde devia ser tratado por toda a direção do partido, Amílcar Cabral opôs-se, recusou atitudes chauvinistas, era inaceitável só pensar em Cabo Verde. Morto Cabral, no decurso do II Congresso do PAIGC, foi criada a Comissão Nacional de Cabo Verde, presidida por Pedro Pires. Doravante, este organismo procurará assegurar a condução dos contactos com os militantes clandestinos em Cabo Verde, a organização de militantes em Portugal e cativar os emigrantes cabo-verdianos residentes na Europa e nos Estados Unidos da América.

Além de impacientes com o impasse cabo-verdiano, estes militantes sentiram que havia sintomas de crise na Guiné, grassava o cansaço e a desmotivação, os próprios relatórios da PIDE/DGS referem atos de indisciplina entre combatentes da etnia Balanta na zona do Boé, em finais de 1967 e dificuldades em recrutar combatentes na zona Norte. Esses mesmos relatórios da PIDE referem críticas de guineenses acerca do alegado tratamento privilegiado que Amílcar Cabral dispensava aos cabo-verdianos, distribuindo-lhes cargos de direção. Refere o autor que o arquivo da PIDE é fundamental para estas informações que dão conta das variadas tensões entre dois povos. José Augusto Pereira considera, no entanto, que esta leitura se revela desajustada quando sinaliza o percurso dos fundadores e dirigentes do topo do partido, a partir de 1973 passam a predominar quadros oriundos da Guiné que ficarão em maioria e os militantes cabo-verdianos em minoria. Mas até ao assassinato de Cabral o topo da linha dirigente era constituído exclusivamente por cabo-verdianos. Os órgãos dirigentes reuniram pouco e mal nos anos de 1971 e 1972, Cabral ausentava-se imensas vezes, daí não ter acompanhado de perto da degradação da situação interna do PAIGC. Esta questão é profundamente incómoda, mas investigadores como Peter Karibe Mendy não iludiram o ressentimento prevalecente na sociedade guineense e que tinha como alvo os funcionários oriundos das ilhas, rotula-os como “instrumentos da brutal dominação portuguesa”.

A grande ironia desta contestação do princípio da unidade Guiné-Cabo Verde não invalidou que os quadros cabo-verdianos tivessem um papel determinante na condução da luta, mas a desconfiança foi sempre recíproca, houve dissensões no PAIGC manifestamente a partir de 1967. Recorde-se que Honório Sanches Vaz tentou criar o Partido Democrático Orgânico da Guiné, Cabral determinou a sua execução e a dos seus seguidores. José Augusto Pereira repertoria outras tentativas de dissidência, são constantes nos relatórios da PIDE. Por exemplo, Mamadu Injai, que ao tempo do assassinato de Cabral era o responsável pela segurança do secretário-geral, tinha estado ligado à Junta Militar dos Patriotas da Guiné-Bissau, foi destituído e Cabral procurou recuperá-lo. Trata-se de um capítulo importantíssimo desta obra que justifica uma leitura muito cuidadosa para acabar com a mitologia de que alguns rancorosos encabeçaram a conjura que liquidou Cabral. Em testemunhos subsequentes à rutura de 1980, quadros com grandes responsabilidades como Osvaldo Lopes da Silva, Herculano Vieira, Corsino Tolentino e Silvino da Luz referiram a difícil convivência entre militantes guineenses e cabo-verdianos.

Nas conclusões da obra, o autor volta a chamar à atenção para o significado das contradições da divisa “unidade e luta”, um programa da ação política com que guineenses e cabo-verdianos se conformaram durante a fase da luta, mas mantendo prudentes distâncias. Mas igualmente os militantes cabo-verdianos em Cabo Verde manifestavam o seu descontentamento perante as formas de condução da luta e registaram os atos de contestação dos guineenses e como eles igualmente hostilizavam os cabo-verdianos. Aristides Pereira, eleito secretário-geral em 1973, toma medidas cautelosas, atrai para a direção do partido Nino Vieira e Chico Té ou Francisco Mendes, isto a par da criação da Comissão Nacional de Cabo Verde.

Muita água correu debaixo das pontes entre 1974 e 1980, é a fórmula de revisão constitucional que constitui a última gota que apressará a desunião. Uma desunião que encerrava em si própria contradições e paradoxos já que os governos de Luís Cabral eram compostos essencialmente por guineenses que não contestavam a sua condução dos negócios políticos, Luís Cabral tornar-se-á no bode expiatório de todos os desmandos praticados nesse período em que tentou o planeamento económico e a criação de empresas que cedo caminharam para o desastre.

Quando terminamos a leitura deste livro tão interessante, confirmamos que esse lema da “unidade e luta” é uma das razões do grande sucesso da luta do PAIGC e o fator essencial para uma dissidência dos dois povos, não se prevendo no horizonte uma quebra de desconfiança a dois.
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Nota do editor

Último poste da série de 13 de fevereiro de 2017 > Guiné 61/74 - P17046: Notas de leitura (929): “O PAIGC perante o dilema Cabo-Verdiano (1959-1974)”, por José Augusto Pereira, Campo da Comunicação, 2015 (2) (Mário Beja Santos)

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