domingo, 19 de fevereiro de 2017

Guiné 61/74 - P17061: Pré-publicação: O livro de Mário Vicente [Mário Fitas], "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra" (2.ª versão, 2010, 99 pp.) - XVI Parte: Cap VIII: Brincadeiras no mato... ou a praxe em tempo de guerra


Mário Fitas, de alcunha "Vagabundo", alentejano de Vila Fernando, Elvas,  o fur mil inf op esp, CCAÇ 763, "Os Lassas" (Cufar, 1965/67), que gostava de praxar os periquitos...


Foto: © Mário Fitas (2016). Todo os direitos reservados. [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]





Capa do livro (inédito) "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra", da autoria de Mário Vicente [Fitas Ralhete], mais conhecido por Mário Fitas, ex-fur mil inf op esp, CCAÇ 763, "Os Lassas", Cufar, 1965/67.

Mário Fitas foi cofundador e é "homem grande" da Magnífica Tabanca da Linha, escritor, artesão, artista, além de nosso grã-tabanqueiro da primeira hora, alentejano de Vila Fernando, concelho de Elvas, reformado da TAP, pai de duas filhas e avô. [Foto abaixo à esquerda, março de 2016, Tabanca da Linha, Oitavos, Guincho, Cascais.]




Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra > XVI Parte > Cap VIII - Guerra 2 (pp. 51-52)

por Mário Vicente 


Sinopse:

(i) Depois de Tavira (CISMI) e de Elvas (BC 8),

(ii) o "Vagabundo" faz o curso de "ranger" em Lamego;

(iii) é mobilizado para a Guiné;

(iv) unidade mobilizadora: RI 1, Amadora, Oeiras. Companhia: CCÇ 763 ("Nobres na Paz e na Guerra");

(v) parte para Bissau no T/T Timor, em 11 de fevereiro de 1965, no Cais da Rocha Conde de Óbidos, em Lisboa.;

(vi) chegada a Bissau a 17:

(vii) partida para Cufar, no sul, na região de Tombali, em 2 de março de 1965;

(viii) experiência, inédita, com cães de guerra;

(ix) início da atividade, o primeiro prisioneiro;

(x) primeira grande operação: 15 de maio de 1965: conquista de Cufar Nalu (Op Razia):

(xi) a malta da CCAÇ 763 passa a ser conhecida por "Lassas", alcunha pejorativa dada pelo IN;

(xii) aos quatro meses a CCAÇ 763 é louvada pelo brigadeiro, comandandante  militar, pelo "ronco" da Op Saturno;

(xiii) chega a Cufar o periquito fur mil Reis, que é devidamente praxado.



Pré-publicação: O livro de Mário Vicente [Mário Fitas], "Do Alentejo à Guiné: putos, gandulos e guerra" (2.ª versão, 2010, 99 pp.) - XVI Parte: Cap VIII: Brincadeiras no mato (pp. 51-52)


Dia de correio, hoje a Dornier deve poder aterrar. O céu está aberto e as chuvas, embora já começassem, ainda são leves e a pista está boa. Segundo notícias do comando, deve chegar mais um reforço, o furriel periquito Reis, que vem substituir o evacuado Zé Luís.

Paolo, embora um pouco fleumático, gosta por vezes de entrar na brincadeira com a malta, e, desta vez é ele que tem a ideia e trama a safadeza. Entra na messe de sargentos onde a malta de folga conversa ou vai jogando uma partida de loto. Desafia:
– Eh,  malta, não se faz a recepção ao periquito?
– Boa!
Clamam todos em uníssono!...
– Como vamos fazer?
– É pá, eu posso fazer de capelão. Não fui padre mas acho que tenho jeito para isso – diz Vagabundo.
– Óptimo! Espera!... Boa ideia!...
– Tu fazes de padre, eu de colega furriel e o Chico Zé faz de capitão, comandante da com­panhia. Vamo-nos preparar que a avioneta está a partir de Catió, a outra malta que não se desmanche.

E aí temos Vagabundo de calças e camisa de caqui, com o dólmen da mesma fazenda todo engelhado porque retirado à pressa da mala, a boina preta enterrada na cabeça para dar um efeito pouco militar e a correr à procura do médico, tenente obstetra para lhe emprestar os galões. Paolo enfiou as divisas de Carlos Manuel, correu para o comando e pediu a Carlos os galões para o Chico Zé, dando-lhe a conhecer a brincadeira. Tambinha, Humberto e António Pedro informariam e controlariam a maralha para o bicho não desconfiar. Tudo a postos. Paolo, Chico Zé e Vaga­bundo no comando esperam pela chegada do periquito.

O Serra, furriel das transmissões, recebe a informação de que a Dornier levantou de Catió, e a secção do Carlos Costa, de piquete, avança no Unimog atrás da auto metralhadora Daimler para o fundo da pista, para a segurança. O Gasolinas conduz ele próprio o jeep, para trazer o correio e o seu colega arrivante.

Tudo normalíssimo. O periquito é um rapaz alto, simpático, dentinhos de coelho, bem-falante, mas não calcula a recepção que o aguarda. O Gasolinas pára o jeep e informa o Reis que é ali a messe, pelo que pode descer, ele voltará já. O Reis desce e é recebido com pompa pelo Jata, Madeira, Antó­nio Pedro, Tambinha e restantes. Estavam nestas apresentações e primeiras conversas de malta que está no mato, querendo saber notícias do outro continente, quando Paolo aparece, apre­sentando-se como o colega furriel Chico Zé, e dispara:
– Eh, pá! Então tu chegas com um mês de atraso, vens logo para aqui e nem te apresentas ao comandante da companhia? Anda lá apresentar-te e com cuidado que o gajo hoje está com mau humor e ainda é capaz de te dar uma porrada.

Reis, abando­nando bagagem e tudo, acompanha Paolo e dirigem-se para o comando onde Chico Zé ocupa a secretária de Carlos, ostentan­do nos ombros os galões do mesmo. Reis, um pouco tímido, pede licença ao improvisado capitão e vai entrando. Chico Zé levanta a cabeça e, com cara de mauzão, olha para o furriel metralhando:
–  Mas que merda é esta? Isto são maneiras de um militar se apresentar?

Paolo segreda a Reis:
– Eh, pá, tens de pedir licença como deve ser, fazer a continência e as praxes habituais.

Reis volta a trás e faz como Paolo diz. Da porta faz continência e pede licença. Chico Zé secamente manda entrar, Reis bate o pé e dá três passos em frente. De imediato, o improvisado capitão, sem levantar a cabeça grita:
- Porra para isto! Já viu padre!? Só me mandam mer­da desta para aqui! Faz favor de voltar a trás, arranje-me essas meias como deve ser e apresente-se como um verdadeiro mili­tar. Reis já um pouco nervoso volta a trás, dá um toque nas meias e na boina repetindo o pedido de licença. Chico Zé manda entrar novamente. Vagabundo, o improvisado capelão presente na sala, e Paolo estão prestes a rebentar e a desmancha­rem-se a rir, mas aguentam a teatralização. O falso capitão levanta a cabeça e pede autoritário:
–  A guia de marcha e a documentação?
Aí o Reis mais nervoso ficou e já tremia todo. Tinha a papelada na bagagem, gaguejando informou o comandante disso. Este, com ar de enjoo, virou-se para Vagabundo e disse:
– Padre, faça-me um favor, leve-me este gajo daqui quando não eu perco a paciência e dou-lhe uma porrada.

Vagabundo entrou em cena. Meteu suavemente o braço sobre o ombro do Reis e disse:
–  Pronto meu filho, acalme-se, vamos lá, vamos lá buscar a papelada. Oh,  meu capitão, desculpe o rapaz, está um pouco nervoso! Nós já vimos, sim?!...

Dirigiram-se para a rua mas o Reis já não ouvia, já não via nada, estava no fundo do poço. Tremendo, foi de braço dado com Vagabundo,  capelão, para a messe buscar a papelada que tinha na bagagem. O simulado capelão, com palavras meladas, ia-lhe dan­do mais cabo da cabeça. Fazia-lhe perguntas que o irritavam. Perguntava-lhe se era muito pecador, se o seu estado era ainda virgem ou se caso contrário, tinha pecado muito em Bissau, se visitara muitas vezes o Pilão. Reis queria era uma G3 para dar cabo daquela merda toda e dele próprio.

Entretanto, no comando, Carlos o verdadeiro capitão, ocupava a sua secretária.

Quando Reis regressou acompanhado de Vagabundo, chegando à sala do comando e vendo outra pessoa sentada à secretária, perguntou:
–  Onde está o nosso capitão?
Carlos olhou para ele calmamente e respondeu-lhe:
–  Oh, nosso furriel, que eu saiba aqui em Cufar sou eu o único.
Completamente desorientado, o furriel estava prestes a rebentar e a chorar mas, gaguejante ainda soletrou:
–  Mas... o outro tinha barbas?! ...
–  Barbas, eu? Oh, homem você deve ter apanhado sol. Vá à messe de sargentos, beba qualquer coisa fresca e depois falare­mos.

Entretanto Vagabundo já se havia escapulido e, passando pelo abrigo da sua secção, pediu ao cabo Cigarra para fazer entrega dos galões ao tenente médico, dando o dólmen ao impe­dido Amadu. Pela porta de trás entrou na messe onde Chico Zé e Paolo, já nas suas verdadeiras personagens de furriel e alferes, aguardavam com a restante malta o desenrolar dos aconteci­mentos.

Reis voltou desorientado à messe de sargentos. Ao reentrar olhou para a malta e reconheceu o trio que estava senta­do na mesa do canto. Respirou fundo e pensou: foram aqueles cabrões que armadilharam isto tudo, gozaram comigo. E saiu­-lhe da garganta com uma voz já aliviada:
–  Olha os sacanas do padre e do capitão!

Toda a gente riu. Assim, na sã camaradagem, lema daqueles jovens transformados em homens guerra, se deu a integração da vítima Reis na vivência dos Lassas.

Era assim?... Não!... Tinha que o ser! Era a forma de passar o tempo esquecendo o vagaroso relógio, no seu tic... tac... arrastante dos segundos e minutos, das horas e dos dias, eterni­dade do amanhã que nunca se sabia como iria ser.

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2 comentários:

Tabanca Grande disse...

Grande "Vagabundo", com alguma irregularidade, lá vamos publicando a tua autobiografia, com as tuas aventuras e desventuras, na companhia dos "Lassas"... Já lá vão 16 postes, ainda a missa vai no adro... Abraço grande. LG


PS - Sobre as "praxes" na tropa e na guerra, recordo que temos já duas dezenas de textos.. E fizemos inclusive um inquérito "online", em fevereiro de 2013:

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/search/label/praxes

Anónimo disse...

Sem dúvida um momento hilariante que não fez mal a ninguém. Claro que a G3 ainda não tinha sido distribuida ao piriquito.
Grande abraço.
José Câmara