segunda-feira, 29 de maio de 2017

Guiné 61/74 - P17406: Notas de leitura (962): “Arcanjos e Bons Demónios, Crónicas da Guerra de África 1961-75”, por Daniel Gouveia, 4.ª edição, DG Edições, 2011 (3) (Mário Beja Santos)




1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 19 de Maio de 2017:

Queridos amigos,
Por vezes, perseguimos um livro, infatigavelmente, dispomos de informação de que há para ali filigrana. Outras vezes, acontece que nos oferecem um livro e ele fica para ali, à espera de uma oportunidade de ser desbastado. Foi o que me aconteceu com este extraordinário "Arcanjos e Bons Demónios", uma leitura obrigatória. Neste tempo que se fala a todo o instante em resiliência, assertividade, solidariedade, na ética do cuidado, esta estupenda obra de Daniel Gouveia é um encadeado de descobertas: do homem em si, perante aquela turbamulta vegetal, aquele enredado de usos e costumes, a construção da amizade, a proximidade da paz naquela tantã da guerra.
Memórias de um septuagenário sem rancores e azedumes, fascinando-se e fascinando-nos, como nos mostra no último episódio, com o milagre da vida a nascer.
Por favor, não percam este livro.

Um abraço do
Mário


Arcanjos e bons demónios: histórias de cuidado, de fraternidade e horror (3)

Beja Santos

“Arcanjos e Bons Demónios, Crónicas da Guerra de África 1961-75”, por Daniel Gouveia, 4.ª edição, DG Edições, 2011, é um livro notável, seja qual for o prisma com que encararmos estas crónicas em que um alferes descobre um continente, novas dimensões da solicitude, impensáveis usos e costumes, mas também o medo, a camaradagem e o amor ao próximo. Digamos que são memórias a partir da senectude de alguém que se temperou em múltiplos ofícios, desde velejador oceânico, passando por gestor comercial à tradução edição de livros. Percebe-se que houve uma laboriosa congeminação para ter chegado a este documento ímpar. É timbre da melhor literatura de guerra pôr o homem perante os seus desafios, por caminhos em que se vê que ele está a crescer e que pela vida fora nada superará o que ali aconteceu, de armas na mão ou a ajudar os outros. Daniel Gouveia concebe as suas crónicas naquele saboroso estilo da narrativa das mil e uma noites, do tipo na sequência do capítulo anterior até chegarmos a um derradeiro episódio que nos deixa com vontade de saber mais.

É um bom observador, vejamos como ele descreve os transportadores do mato: “Eram desabridos nos gestos e grossos de aspeto. Grandes barrigas, fraldas da camisa de fora, palito ao canto da boca. Camionistas. Quase todos em segunda vida, que a primeira fora interrompida por um qualquer tropeço, em fêmea ou em artigo da Lei, compelindo-os a manterem-se longe da sociedade. Descarregavam a rudeza no ajudante, invariavelmente negro, com quem compartilhavam a cabina num mutismo quilométrico (preto era para trabalhar, não para conversar), dias e dias na picada, das grandes cidades aos destinos sertanejos”.
Noutro parágrafo, dilucida-se o que parece um contrassenso, mas não é: "África tropical e abrasadora! Quem disse tamanha mentira não experimentou, de certeza, uma época de cacimbo no planalto. Por causa desse lugar comum, agora as famílias não acreditavam nas cartas que referiam rondas feitas de capote e luvas, quartos de sentinela a bater com os pés no chão e de mãos nos bolsos. Havia quem improvisasse um garruço com uma toalha ou a rede mosquiteira, por baixo do quico, a tapar as orelhas e a aconchegar o pescoço. A névoa gelada corria pela madrugada, em gotinhas que se agarravam aos pelos da cara, ao cano da espingarda, pingavam do nariz”.

A descrição do “Alfacinha” é antológica, é para mim inconcebível que uma futura antologia com as melhores páginas da literatura da guerra não o inclua: “Filho do Casal Ventoso, sarralhâro-mecânico de profissão, arrastava as sílabas, o andar e, ocasionalmente, as mãos por cima do que não era seu. Esse pecadilho valera-lhe algum cadastro anterior ao serviço militar e, depois de mobilizado, o desterro para a selva. Inicialmente colocado na guarnição da cidade grande, aí se bandeara com uma quadrilha de outros camaradas de armas e de ferramentas, especializada em assaltos a ourivesarias. O tribunal militar brindou-o com uma pena relativamente leve mas, à cautela, transferiu-o para longe de montras (…) Usava uns óculos escuros à piloto comercial, oferta de ‘uma gaja da TAP que o gramava’. Por baixo do uniforme, um Cristo crucificado, ao dependuro de grosso cordão de ouro, fazia rondas por entre os cabelos do peito (…) Maravilhou todos quando se encravou a fechadura da caixa lateral de uma Berliet, onde se guardava a ferramenta. Não havia chave que demovesse a lingueta do bloqueio em que se obstinava. O Alfacinha andava por ali, pediu licença para tentar, rodou o que a chave consentia, encostou o ouvido à caixa dando à chave. Levantando-se, pediu, solene: - Um momentinho só… Foi à caserna, voltou com qualquer coisa escondida na mão, desprezou a chave, mandou o pessoal arredar-se. De novo acocorado sobre a caixa, deu uns trejeitos de pulso, um soco na tampa e zás, a caixa abriu-se”. Tudo vai correr mal a este Alfacinha, envolveu-se em mais um assalto a uma ourivesaria, foi descoberto por causa de um botão de camisa, imagine-se.

É um livro esplêndido, caleidoscópico, onde não falta, em doses comedidas, o terror e o horror, caso dos Grupos Especiais, autóctones vestidos de camuflado com os dentes incisivos limados em V invertido: “Tribos do mais recôndito interior, onde o pretexto da guerra se sobrepunha ao pormenor de contra quem a fazer, nada sabiam de política, nem de independência – sempre tinham sido independentes e continuavam a ser –, nem de exploração da mão-de-obra indígena. O branco tinha ali chegado em pouquíssima quantidade e quase só para caçar ou recolher diamantes. Viviam com as famílias em aldeias fortificadas, cumprindo o serviço de uma forma muito agradável, em que o quartel e o lar se misturavam. A principal missão era patrulhar a fronteira, descobrir trilhos de infiltração, movimentos inimigos”.

Houvera uma fuga de dois ex-guerrilheiros, um grupo especial foi no seu encalço. Eis a descrição do depois: “Quando os carros chegaram, o comandante da aldeia mandou buscar os prisioneiros. Aquilo que saiu de uma das casas foram dois farrapos humanos, magríssimos, quase nus, de mãos atadas à frente, arrastando passos curtos e denunciadores do padecimento que o simples andar provocava. A tortura sofrida às mãos dos captores estava patente, numa extensão que não poupara nenhuma parte do corpo. A pele castanha tinha largas zonas rosa-vivo, de epiderme arrancada a pancadas sabia-se lá de quê. As orelhas tinham parcialmente desaparecido. De um e de outro lado da cara pendia o que delas restava, em formas irregulares, de mistura com pastas de sangue seco. As cabeças estavam assimétricas. Quando os capturados tentaram ver a que nova situação eram expostos, levantaram os olhos tumefactos e piscos para a tropa com quem tinham convivido em tão boa harmonia, voltando a pousá-los no chão”.

É impossível suster a leitura, salta-se de capítulo para capítulo e apetece regressar ao princípio. Não querendo ser abusivo, está ali a guerra toda, com um capelão caçador, as abelhas mortais, um médico espantoso no zelo e na deferência com os seus doentes e o nosso alferes a meter uma velhota com um dedo escavacado num avião.

É no derradeiro capítulo que temos uma descrição a que se pode chamar uma obra-prima absoluta, uma parturiente aos gritos com um filho atravessado. Enfermeiro e alferes travam-se de argumentos rotundos:  
“Olhando-se para a barriga da mulher, via-se que a criança estava atravessada, nunca em posição de ser expulsa. A esperança começou a diminuir. O enfermeiro alvitrou uma cesariana. 
- Você está maluco! Ninguém aqui tem competência para isso. 
- Então, meu alferes: é só abrir, tirar a criança, fechar com costuras em vários planos e pronto. 
- E se corre mal? Se é preciso uma transfusão? 
- Meu alferes, assim morre-nos a mulher nas mãos. 
- E você já alguma vez fez uma cesariana? Se fizer, o mais certo é a mulher morrer na mesma. 
- Sempre se safava a criança… 
- E o que é que o marido vai pensar disso, quando vir a mulher toda esquartejada? 
- A gente feche-a bem fechadinha. Dizemos que morreu e só depois é que a abrimos para sacar o filho. 
- Ouça lá: e se, por acaso, se vier a saber que um enfermeiro que era trolha na vida civil e um alferes com estudos de letras mandaram uma mulher para o galheiro com uma cesariana, o que é que acha que acontece?”.

Lá vai a desgraçada de jipe, à noite, a caminho do hospital, o alferes fica martirizado com a única solução que encontrou. Duas horas depois é acordado, quando chega à porta de armas ouve-se um choro de um recém-nascido. Pode não ter sido milagre, mas que houve um milagre da vida houve: “O condutor do jipe, de conluio com o enfermeiro, tinha resolvido acelerar para ver se a preta morria mais depressa. Quase por piedade. Para lhe acabar com o sofrimento. Secretamente, para não terem de fazer a viagem toda. Só que o jipe, lançado pela picada, voou a certa altura e aterrou uns metros adiante. Com a violência do embate, uma das molas da frente partiu-se. A negra deu um grito interminável. O enfermeiro voltou-se e apontou-lhe a lanterna ao rosto. Baixou o foco da lanterna para a barriga e reparou que tinha mudado de feitio. O vulto da criança, de atravessado, tinha passado a empinado para a frente, como devia ser”.

E aqueles militares rodeiam o enfermeiro que fazia sair com todo o cuidado a criança, aplaudiam e encorajavam. E desta forma memorável termina um dos livros mais belos que me foi dado conhecer do muito que tenho lido nesta literatura da guerra: “Imaginou a cena vista de muito alto, como no cinema (…) A música podia ser de Haendel ou de Bach, com muitos metais glorificando, em acordes maiores, a vitória da vida. A câmara ia subindo sempre, até aquele presépio bélico se resumir a um ponto luminoso no negrume geral da tela”.
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Notas do editor:

Postes anteriores de:

22 de maio de 2017 > Guiné 61/74 - P17387: Notas de leitura (960): “Arcanjos e Bons Demónios, Crónicas da Guerra de África 1961-75”, por Daniel Gouveia, 4.ª edição, DG Edições, 2011 (1) (Mário Beja Santos)

26 de maio de 2017 > Guiné 61/74 - P17396: Notas de leitura (961): “Arcanjos e Bons Demónios, Crónicas da Guerra de África 1961-75”, por Daniel Gouveia, 4.ª edição, DG Edições, 2011 (2) (Mário Beja Santos)

2 comentários:

Antº Rosinha disse...

"terror e o horror, caso dos Grupos Especiais, autóctones vestidos de camuflado com os dentes incisivos limados em V invertido: “Tribos do mais recôndito interior, onde o pretexto da guerra se sobrepunha ao pormenor de contra quem a fazer, nada sabiam de política, nem de independência – sempre tinham sido independentes e continuavam a ser"

Obrigado, incansável BS.

De facto este autor traz umas certas descrições de interessantes características daquela Angola.

Mas Angola colonial, e a vida de quem lá vivia, (brancos e pretos)pode-se dizer que é "indescritível".

Ao ponto de pouca gente compreender o que os retornados queriam dizer quando falavam de Angola, e eles próprios não terem verbo e literacia suficiente para descrever e "fazer o retrato".

Quem afiava em V os dentes, eram as tribos da região da Lunda (Diamang).

Como conseguiam fazer aquilo, nunca entendi, nem perguntei a nenhum Quioco, ou Catchioco, com se chamavam em geral naquela região, porque só de pensar como faziam parecia-me que seria arrepiante.

Ali o Chipenda e o Agostinho Neto e o Holden Roberto e o Savimbi não tinham grande sucesso.

De referir que após a independência aquela gente não foi mais independente, como diz o autor que eram independentes.

Ali a violência foi geral, internacional, tribal, transfronteiriça, sangrenta, durante mais de 30 anos, e hoje aquilo continua complicado.(jornais)

Cumprimentos

antonio graça de abreu disse...

Muito bem, Mário Beja Santos!

Abraço,

António Graça de Abreu