sábado, 3 de julho de 2021

Guiné 61/74 - P22338: Os nossos seres, saberes e lazeres (458): Itinerâncias avulsas… Mas saudades sem conto (5): A doação de José-Augusto França à cidade de Tomar (1) (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 25 de Maio de 2021:

Queridos amigos,
Por diversas vezes, José-Augusto França descreveu a doação que fez a Tomar, mormente nas suas Memórias para o Ano 2000 e subsequentes. É um acervo da maior importância que abarca alguns desenhos, como os de Almada, Bernardo Marques, Mario Eloy, António Pedro, Dacosta e Vespeira, obras de grande significado do surrealismo, do abstracionismo e da não-figuração, tudo se espraia por uma moradia de rés-do-chão e dois andares e em qualquer um destes espaços se frui o que de relevante artistas como Costa Pinheiro, José Escada, Lourdes Castro, Manuel Baptista, Noronha da Costa, Cutileiro, Júlio Resende, Fernando Lanhas, Emília Nadal, Alice Jorge ou Luís Dourdil, entre tanto outros, inscreveram do que há de mais significativo nas Artes Plásticas Portuguesas. Não há nada como visitar este Núcleo (sempre no horário da tarde), a documentação produzida é muito esclarecedora, sugere-se uma primeira visita para tomar conhecimento, depois um passeio pelo Mouchão ou pela Corredoura até à Praça da República, visitando a Igreja de São João Baptista, e novo regresso ao acervo doado por José-Augusto França para degustar com mais pormenor as obras que mais toquem à sua sensibilidade - estão ali manifestações das mais expressivas de quase todo o século XX.

Um abraço do
Mário


A doação de José-Augusto França à cidade de Tomar (1)

Mário Beja Santos

O Núcleo de Arte Contemporânea José-Augusto França está instalado num prédio adaptado para o efeito com projeto do arquiteto Jorge Mascarenhas, integra uma centena de obras de arte da coleção do escritor e historiador que nasceu em Tomar em 1922. A inauguração efetuou-se em 2004 e proporciona a quem visita tão bela coleção momentos de fruição ímpares devido à qualidade das obras e até mesmo a coerência do gosto de quem a doou. José-Augusto França cedo se começou a relacionar com artistas plásticos e a fazer crítica, que se prolongou sobretudo entre os anos 1940 e 1970. Foi galerista e a sua bibliografia é impressionante.

Nesse mesmo ano de 2004 ele avançou algumas razões para esta doação:
“… de ordem moral uma, sentimental, a outra. Ao termo de sessenta anos de vida útil (dir-se-ia de carreira, mas detesto tal coisa), entendeu o doador arrumar o que neles foi acumulando, pinturas e outros objetos de arte, livros e manuscritos, o que seria, mas ainda não é, o seu espólio, distribuindo-os por sítios apropriados de cultura, os quadros para museus (e foram, principalmente, o do Chiado, e este de Tomar, consoante adequação histórica das espécies), os livros para várias bibliotecas, entre as quais a de Tomar, a da Fundação Gulbenkian (que guarda, desde 1992, o total da bibliografia ativa, em volumes singulares e coletivos, folhetos, catálogos e publicações periódicas do que se fez nessa altura, exposição e catálogo de 3400 números e ainda arquivos de doutoramentos no Departamento de História de Arte da Universidade Nova de Lisboa e da Cinemateca Nacional. A moral da história está em se acrescentar assim a utilidade que a vida do doador, isto é, a minha, possa ter tido, mostrando em permanência o que ele tinha guardado para uso próprio, gozo com certeza, mas também, e indispensavelmente, instrumentação do seu trabalho – uma coisa e outra no seu quotidiano de 60 anos”.

E José-Augusto França refere-se concretamente à razão de ordem moral e à vertente social, invoca a descentralização cultural, a razão sentimental de ter nascido na então Travessa da Saboaria, no segundo andar, no primeiro andar vivia a avó materna viúva. Despede-se das suas obras com enorme saudade e questiona o que se pode ver para fruição do visitante desta belíssima coleção que doou a Tomar:
“Não sei ainda exatamente quantos quadros, desenhos ou esculturas, mais de cem, podem ser mostrados ao mesmo tempo, obras de mais de 50 artistas portugueses. Não é aqui de mencionar obras de catálogo que algumas, sem propositada hierarquia, destaco em 20 reproduções. Porém, sim: e o doador deseja assinalar dois quadros que doou, e diz porquê. ‘Signos desmemoriados, momentos IX, de Fernando Lemos, pintado em 1972, durante 30 anos foi a primeira imagem que vi ao acordar, na minha casa de Lisboa, pendurado ao fundo do quarto, onde só outros ficaram, por serem estrangeiros. A grande pintura em duas tábuas, de Noronha da Costa, sem título, de cerca de 1970, é outra obra que, partindo, me deixa um grande vazio, de parede e de alma, porque durante os mesmos 30 anos, me sentei, todas as noites, com ela atrás de mim, sombra protetora – escrevi, muito tendo escrito sobre os dois pintores, meus amigos de duas gerações já”.
Noronha da Costa
A árvore azul, de José de Guimarães e um belo painel azulejar de Eduardo Nery recebem o visitante à entrada do Núcleo de Arte Contemporânea
Um desenho de Almada Negreiros, o inequívoco traço do grande mestre do Modernismo
No rés-do-chão do Núcleo proliferam obras muito importantes do surrealismo, do abstracionismo e da nova figuração. Ali se podem ver desenhos de Almada, Bernardo Marques, Mário Eloy, António Pedro, Vespeira e Fernando de Azevedo. A pintura surrealista da “Terceira Geração” do Modernismo nacional, está representada por Fernando Azevedo, Moniz Pereira e Fernando Lemos. Ao fundo da sala uma pintura de Vasco Costa. Uma escultura de papel recortado de José de Guimarães e duas esculturas de António Pedro preenchem o conteúdo deste piso.
António Pedro, provavelmente o seu melhor desenho
Escultura de António Pedro
Óleo de Marcelino Vespeira
Óleo de Marcelino Vespeira
Escada de acesso ao primeiro andar, como igualmente a de acesso ao segundo andar, o visitante encontrará séries de litografias de Costa Pinheiro, José de Guimarães, René Bertholo, além de uma série de azulejos originais realizados por J. Machado da Costa
Obras de José de Guimarães
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Nota do editor

Último poste da série de 26 DE JUNHO DE 2021 > Guiné 61/74 - P22318: Os nossos seres, saberes e lazeres (457): As Necessidades, a olhar o Palácio e a percorrer em júbilo a Tapada (Mário Beja Santos)

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