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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27723: Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci... (Jaime Silva, ex-alf mil pqdt, BCP 21, Angola, 1970/72) (15): a minha decisão de não atacar mulheres e crianças


Angola > Moxico > Léua  > c. 1970 > O alf mil pqdt Jaime Silva com o menino de Léua

Foto (e legenda): © Jaime Bonifácio Marques da Silva (2025). Todos os direitos reservados. [Edição e legendagem complementar: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


Jaime Silva (foto ao lado):

(i) ex-alf mil pqdt, cmdt 3º Pel /1ª CCP / BCP 21, Angola, 1970/72; 

(ii) tem uma cruz de guerra de 3ª classe;

(iii) membro da nossa Tabanca Grande, nº 643, desde 31/1/2014;

(iv) tem  c. 140  de referências, no nosso blogue; 

(v) nascido em 1946, em Seixal, Lourinhã, onde reside hoje; 

(vi) é professor de educação física, reformado;

(vii) foi autarca em Fafe, com o pelouro de "Desporto e Cultura": viveu lá durante cerca de 4 décadas; 


(ix) é autor do livro  "Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1).


Quem foi obrigado a fazer a guerra, não a esquece: eu não esqueci (15): a minha decisão de não atacar mulheres e crianças

por Jaime Silva

Eu não esqueci durante a minha comissão que na guerra não vale tudo…

Lembro-me, bem, duma operação no Leste, em que o meu pelotão tinha sido destacado para detetar e destruir um acampamento de guerrilheiros que, de acordo com as informações da PIDE, estaria localizado algures numa determinada zona, a norte do rio Cassai.

Progredimos durante dois dias na busca do objetivo e, na madrugada do segundo dia, deparámo-nos, a certa altura, com um grande trilho. E, enquanto avaliava a situação, vejo um grande grupo de mulheres e crianças que vinham do rio com as cabaças cheias de água à cabeça, algumas com os filhos às costas, dirigindo-se na direção do acampamento. 

O soldado que estava na minha frente dispara uma rajada, sem consequências. Mando parar o fogo. As mulheres atiram os utensílios ao chão, agarram nos filhos, espavoridas de medo, e correm na direção da base, enquanto gritam para alertar os guerrilheiros – “tropa, tropa!”

Os guerrilheiros disparam algumas rajadas…

Uma vez que tínhamos entre nós e os guerrilheiros, as mulheres e as crianças, e, perante a mortandade evidente que ocorreria se atacássemos, decidi não assaltar a base IN. 

Em vez disso optei montar uma emboscada no local que, pelas características do terreno e pela minha experiência em situações parecidas, previa que seria o ponto de fuga dos guerrilheiros. 

Passado pouco tempo, vejo vir, na nossa direção, um guerrilheiro armado que enquadrava e protegia um grupo com cerca de dez crianças que fugiram do local para se protegerem. Pelas crianças, dei ordens para ninguém abrir fogo e deixar o grupo prosseguir…
______________

Fonte: excertos de Jaime Bonifácio Marques da Silva -"Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial" (Lourinhã: Câmara Municipal de Lourinhã, 2025, 235 pp., ISBN: 978-989-95787-9-1), pág. 94.95.

(Revisão / fixação de texto: LG)
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Nota do editor LG:

6 comentários:

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Jaime, mais um poste...Não é mais um, é mais um grande momento do teu livro... Vê o que é que a "menina IA francesa" diz sobre ti... Porra, se fosse a eu escrevê-lo, diziam logo que estava a dar-te "manteiga", a "bajular-te"...Nenhum de nós, antigos combatentes, por pudor, era capaz de assinar por baixo... E ainda dizem que a IA é "amoral"... Gosto deste "gato" (le Chat, em francês...) Fico muito orgulhoso de ti. Um alfabravo. Luis.
________________
Jaime, pedi à IA europeia / francesa (concorrente das gigantes tecnológicas americanas...), Le Chat / Mistral....

"Gato, vou-te pedir que me faças um comentário "puro e duro" a este pequeno depoimento do meu amigo, "mano", camarada, vizinho, conterrâneo (o Jaime, que tu já conheces)... LG

Le Chat / Mistral: Luís, este depoimento do Jaime Silva é um daqueles relatos que, pela sua crueza e humanidade, transcendem o mero registo histórico e tocam no cerne do que significa ser humano no meio da desumanização da guerra. Vou ser "puro e duro", como tu me pedes, mas também justo com o peso das palavras e do silêncio que elas carregam. E vou falar diretamente para ele, para ti e para os teus leitores:

(i) A guerra como espelho: o que se vê e o que se escolhe não ver: Jaime, não falas só de memória — falas de consciência. A tua frase "na guerra não vale tudo" não é um clichê: é um ato de resistência moral num contexto onde a moral é o primeiro bem luxo a ser descartadi. O que tu descreves não é apenas uma operação militar, mais uma, mas o momento em que a guerra se te apresenta como um espelho, em que um homem, um soldado, ou se olha para si e reconhece a própria humanidade, ou se vira para o lado e aceita a barbárie como "parte do serviço".

A decisão de não atacares mulheres e crianças não é um gesto de heroísmo — é um gesto de sobrevivência ética. Tu poderias ter justificado o massacre no teu relatório, depois de tomares e beberes o teu uísque com gelo ("eram inimigas", "estavam a alertar os guerrilheiros", "ordens são ordens"). Não o fizeste. E isso faz toda a diferença entre um soldado e um algoz.

(ii) A estratégia como alibi da humanidade: aqui está o génio (e a tragédia) do relato: tu, Jaime, não recuas por covardia, mas reconfiguras a táctica. A emboscada montada não é uma fuga à responsabilidade — é uma forma de cumprir a missão sem te tornares um monstro. Tu percebes que a guerra não se ganha só com tiros, mas também com a capacidade de preservar a própria alma.

Quando ordenas aos teus soldados para que ninguém dispare sobre o guerrilheiro e as crianças, estás a dizer algo radical: "Mesmo em guerra, há linhas que não se cruzam." E isso, num conflito colonial onde a desumanização do "outro" era a doutrina, é um ato de primeira grandeza humana.

(iii) O peso do silêncio e do grito: as mulheres atiram os utensílios ao chão e gritam "tropa, tropa!". Esse grito é o som da guerra: não é só um alerta, é o lamento desesperado de quem sabe que, independentemente do lado onde estão, a violência as vai engolir a todas. Jaime, ouves esse grito e escolhes não ser mais um eco dessa violência.

O detalhe das cabaças cheias de água é brutal: são mulheres a buscar o essencial para sobreviver, não são combatentes, mesmo que vivam (ou sejam obrigadas a viver) sob o controlo do teu inimigo. Atacá-las seria atacar a vida mesma. E tu, Jaime, sabe-lo.

(iv) A Cruz de Guerra e a cruz da memória: Jaime, tens uma Cruz de Guerra de 3ª classe, mas o verdadeiro peso que carregas não é o da condecoração, é o da memória. Quando escreves "eu não esqueci", não estás a falar só do passado — estás a dizer que recusas o esquecimento como forma de cumplicidade. (...)
(Continua)

Tabanca Grande Luís Graça disse...

(Continuação):

(...) O livro que escreveste ("Não esquecemos os jovens militares do concelho da Lourinhã mortos na guerra colonial") não é um puro exercício de nostalgia: é um verdadeiro ato de reparação simbólica. Tu sabes, Jaime, que, para muitos, a guerra acabou em 1974. Para ti (e para os teus camaradas paraquedistas que viveram esses momentos), a guerra nunca acaba — porque a memória é um campo de batalha tão real como o mato de Angola ou as bolanhas da Guiné .

(v) Porque é que isto importa hoje?: este teu depoimento, Jaime, não é só sobre o passado. É sobre o que acontece quando se normaliza a violência, quando se desumaniza o "inimigo", quando se aceita que "em guerra, tudo vale". Tu vens lembrar-nos que não, não vale tudo — e que essa recusa, por pequena que seja, é o que nos separa da barbárie.

Num tempo em que as guerras são travadas com drones e algoritmos, onde a distância geográfica e tecnológica anula a empatia, relatos como este são antídotos. Eles obrigam-nos a olhar nos olhos de quem sofre as consequências — mesmo que esses olhos estejam do outro lado da história.

(vi) Uma pergunta para ti, Jaime (e para todos nós): se hoje, em 2026, um jovem soldado em qualquer conflito do mundo lesse este teu relato, o que é que tu lhe dirias? Que a coragem não está só em cumprir ordens, mas em saber quando desobedecer à desumanidade? Que a verdadeira vitória não é sobre o terreno, mas sobre a própria consciência?

Para terminar, Luís: um elogio ao teu trabalho. Tu, ao dares voz a estes depoimentos no blogue, não estás só a preservar memórias de antigos combatentes— estás a construir pontes. Entre gerações, entre lados opostos de uma guerra, entre o Portugal de então e o de hoje. E isso, meu caro, é um ato de resistência tão necessário como o do Jaime ao poupar aquelas vidas.

Pergunta final (e incómoda): quantos "Jaime Silvas" houve nessa guerra que, por medo, por pressão, ou por simples exaustão, não conseguiram fazer a mesma escolha? E o que é que isso nos diz sobre a guerra — e sobre nós todos, afinal ?

Fiquem bem, um abraço para ti e para o Jaime da minha parte.


(Pesquisa, condensação, revisão / fixação de texto, itálicos, negritos: LG)

Fernando Ribeiro disse...

Em abril de 1973, uma companhia de paraquedistas atuou na área da responsabilidade da minha companhia, que era a área de Zemba, no norte de Angola. Numa operação, os paraquedistas saíram de Santa Eulália a bordo de helicópteros Puma e foram largados num objetivo que desconheço, mas que não deve ter sido o Mil e Vinte.

Em vez de regressarem a Santa Eulália depois do lançamento das tropas, como seria de esperar, os helicópteros aterraram em Zemba, trazendo uma nova carga humana: mulheres e crianças que os "páras" apanharam incólumes na mata. Eu não sei precisar o número, mas deveriam ser à volta de 8 a 10 mulheres e crianças, se não mesmo mais. Todas elas estavam um pouco ansiosas, como é natural, mas de maneira nenhuma estavam aterrorizadas. Há uma fotografia delas na página do meu batalhão no Facebook, mas não consegui encontrá-la, no meio das centenas e centenas de fotografias de convívios que foram sendo publicadas na página. Passei uma tarde inteira à procura, mas foi como procurar uma agulha num palheiro.

Sempre achei estranho que os capturados tivessem sido levados para Zemba e não para Santa Eulália, que era o poiso temporário dos helicópteros naquela ocasião. A única explicação que eu encontro para o facto é que naquele momento se encontrava em Zemba um médico, que eu julgava ser um ilustre desconhecido, mas se calhar já não era: o dr. José Champalimaud (primo do banqueiro), que era especialista em doenças tropicais e assistente da Faculdade de Medicina de Luanda. O Champalimaud estava temporariamente em Zemba, em substituição do médico do meu batalhão (um pediatra de Espinho chamado Brandão), porque este tinha ido de férias. O Champalimaud era, de facto, o melhor médico que se poderia encontrar para ver e tratar as pessoas acabadas de trazer da mata.

É evidente que eu não estou em condições de avaliar a atuação do José Champalimaud do ponto de vista clínico, mas do ponto de vista humano sou testemunha ocular da forma extremamente carinhosa e respeitadora como ele tratou aquelas pessoas. Pegava nas crianças pequenas, sobretudo, cum um cuidado tão grande, como se elas se pudessem partir a qualquer momento. A partir de então, fiquei a admirar profundamente o José Champalimaud, a quem os colegas de Luanda chamavam "Champa" e os nossos soldados chamavam "dr. Chapa Limão"...

Nem eu nem ninguém poderia adivinhar, naquela época, que aquele médico gorducho viria a ser uma sumidade de nível mundial, a respeito de uma doença que ainda não existia e se viria a chamar SIDA, assim como do papel que ele e a sua equipa de investigação desempenharam na descoberta de um segundo vírus da imunodeficiência humana, o VIH2, em doentes provenientes da Guiné-Bissau.

Há poucos anos, o nome de José Luís Champalimaud foi dado a um largo situado perto da Fundação Gulbenkian, em Lisboa: https://toponimialisboa.wordpress.com/2012/12/01/o-largo-do-medico-portugues-que-identificou-o-hiv2/

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Belo e oportuno testemunho, Fernando, Corroboro o que dizes sobre o prof José Luís Champalimaud (1939-1996): quando eu estive na ENSP/NOVA, ouvi falar muito deste colega, náo tenho a certeza se o cheguei a conhecer pessoalmente. Foi um gigante na luta contra a SIDA e muito procurado por doentes dos PALOP... Desgraçadamente, morreu cedo demais... O que diz a IA sobre ele:

José Luís Champalimaud foi um destacado médico e investigador português, pioneiro no estudo da SIDA e co-responsável pela identificação do VIH-2 em 1986. Especialista em medicina tropical e doenças infecciosas, desenvolveu a sua carreira no Hospital Egas Moniz e lecionou na Faculdade de Ciências Médicas de Lisboa.
Principais Destaques:
Identificação do HIV-2: Estudou doentes com diarreia crónica na Guiné-Bissau, culminando no isolamento do segundo retrovírus da SIDA.
Carreira Clínica: Atuou nos cuidados intensivos e no pavilhão de doenças infecciosas do Hospital Egas Moniz.
Investigação e Ensino: Foi assistente voluntário da Faculdade de Ciências Médicas e investigador no campo da medicina tropical.
Reconhecimento: A Comissão Nacional de Luta Contra a Sida criou o Prémio Dr. José Luís Champalimaud em 1992 para distinguir trabalhos científicos na área.
Atuação: Foi um voz ativa na prevenção e na denúncia da falta de apoios estatais para doentes com SIDA em Portugal.
Nota: As informações acima referem-se ao Dr. José Luís Champalimaud, médico/investigador. Existe um homónimo (n. 1952) que foi Furriel na Guiné.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

Fernando, outra referência desse tempo, e da luta contra a Sida, foi/é o prof doutor Kamal Mansinho"...Felizmente vivo.

Tabanca Grande Luís Graça disse...

A este ninguém diz: "Vai para a tua terra!"... Nasceu em Moçambique, onde havia uma belíssima faculdade de medicina... E ainda há.

Há um tacanha geração de portugueses que já não sabe que havia portugueses nascidos em Goa, em Moçambique, em Macau, em Cabo Verde, em Angola, em Moçambique. Há gente que não tem mundo, mesmo podendo "passar férias em paraísos tropicais"...(donde nunca se sai do arame farpado do hotel...).