sábado, 1 de Julho de 2006

Guiné 63/74 - P930: O Relim não é um Poema (a propósito da Op Tigre Vadio)

1. Extractos de : História da Unidade: BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70). Bambadinca: Batalhão de Caçadores 2852. 1970. Cap. II. 145-146.

Op Tigre Vadio

Iniciada em 30 [de Março de 1970], às 7h00, com a duração de 2 dias, para fazer um patrulhamento conjugado com emboscadas e batida na região do Cuor/Madina.

Tomaram parte na operação os seguintes destacamentos:

Dest A: CCAÇ 2636 a 2 Gr Com, reforçada pelo Pel Caç Nat 52

Dest B: CCAÇ 12 a 3 Gr Comb

Dest C: Pel Caç Nat 54 + 1 Esq Mort 81 / Pel Mort 2106

Relim:

Op Tigre Vadio terminou 1 [de Abril], 13h00. Regresso quartéis terminado 1, 16h30. Aproximação dificultada partir 31, 8h00 queimada linear feita IN. 31, 14h00, detectado acampamento região Belel (Mambonco 7I4-97) oito moranças com colmo sete adobo.

IN reagiu PPSH e RGPG-2 cerca de 2 minutos, sofrendo 15 (quinze) mortos confirmados, vestígios sangue 10 (dez) feridos graves. Verificado após incêndio acampamento 6 PPSH queimadas.

Destruídos meios vida. NT sofreram 2 feridos ligeiros. Batida Mort 81 mata (Mambonco 8H5- 17) ouvidos muitos gritos de dor. Fuga IN direcção (Mambonco 8G6 -32).

31 [de Março], 17h00 encontrada cadeira vigia e 2 granadas RPG-2 (Bambadinca 1A8-95). Gr[upo] IN estimado 6/8 elementos emboscou NT 2 LGFog, RPG-2 e PPSH cerca de 5 minutos.

IN fugiu reacção NT impossibilitadas perseguição virtude forte ataque abelhas causou diminuição física bastantes elementos. NT tiveram 1 ferido ligeiro e 1 ferido grave, 1 doente grave esgotamento.


Transcrição MSG 1404/C Com-Chefe (Oper): COMCHEFE MANIFESTA SEU AGRADO REALIZAÇÃO RESULTADOS OBTIDOS OP TIGRE VADIO.


2. Comentário de L.G.:


Relim não é poema


Participei nesta operação,
a Operação Tigre Vadio,
que era pressuposto durar dois dias.
Um passeio a Madina/Belel.
Um patrulhamento ofensivo,
a travessia de um rio,
uma excursão a um santuário da guerrilha,
uma visita de cortesia,
aos homens do mato,
ali tão perto,
para retribuição de outras visitas de cortesia
que eles nos faziam,
aos destacamentos de Missirá e de Finete,
e à navegação do Geba Estreito.
Em boa verdade,
só te faltou o autocarro autopulman,
com ar condicionado
e bar aberto.

Éramos só tropa-macaca,
como convinha,
sempre era mais barato:
pretos de primeira da CCAÇ 12
e do Pel Caç Nat 52,
mais alguns brancos de segunda,
os açoreanos
da vinte e seis trinta e seis.
Levámos dois cantis de água por cada G-3 (...).

O que é que um gajo pensa,
aos vinte três anos,
de Missirá a Salá
e daqui a Sancorlá,
em bicha de pirilau,
escuro como breu,
a alma tensa,
o corpo lasso,
o capim mais alto
que as searas de trigo da tua terra,
a fustigar-te as trombas ?
Um gajo não pensa nada,
não tem tesão
para pensar,
apenas para sobreviver
a mais um operação...

Era pressuposto haver um reabastecimento
no dia seguinte,
como manda o mais elementar bom senso
e a experiência operacional do passado
(vd. Operação Lança Afiada
em que um em cada seis foi evacuado).

Caminhámos toda noite.
Penosamente.
Era pressuposto a guerra parar
às dez horas da manhã.
Às dez em ponto.
Porque o clima é quem mais ordena,
e não o relógio do comandante.
Cortaram-nos as voltas.
Os tipos do PAIGC
(não me apetece dizer IN)
cercaram-nos pelo fogo.
E quanto a Deus
e às abelhas selvagens da Guiné,
a gente nunca sabia exactamente
de que lado estavam.

Temerariamente,
decidimos brincar ao gato e ao rato.
catorze horas, no píncaro do dia,
com uma temperatura brutal
e os cantis vazios...
Havia ali uma dúzia de casas
de colmo e de adobe,
mesmo a jeito ou por azar,
para a gente despejar
as nossas granadas de bazuca
e de morteiro oitenta e um.

Nós, quem ?
O major da Dornier, do PCV,
a quem as casas estragavam a vista
nos seus passeios matinais
pelo corredor do Oio.
Ainda não havia os Strellas,
a temível arma dos arsenais
do inimido,
que haveriam de pôr o homem
borrado de medo
e definitivamente em terra.

Alguém puxou dos galões
e decidiu fazer um golpe de mão.
Ou melhor: mandar fazer,
que eu nunca vi nenhum cão grande,
de capitão para cima,
andar cá em baixo,
com a tropa-macaca,
com a puta da canhota nas mãos.

A escassas semanas de acabar a comissão.
P'ra ficar bem na fotografia.
E para pôr no curriculum vitae
e impressionar o Caco...
Um senhor major qualquer
do BCAÇ 2852,
que gostava de andar de Dornier
e que queria chegar a tenenente-coronel.
Um herói de opereta.

Quem ?
Quem é que manda nesta merda,
quem comanda esta tropa-macaca ?
É uma imensa cobra
que se desloca nas terras do Infali Soncó,
espantando os bichos e os irãs,
destruindo tudo à sua passagem.
Não se lhe vê nem o rabo
nem a cabeça.

Entretanto, já alguém,
o Beja Santos,
o nosso tigre de Missirá,
tinha ido buscar, de heli,
o reabasteciemnto de água
a Bambadinca.
Não voltou.
Alguém dos nossos (?!) terá,
intencional ou inadvertidamente,
disparado uma rajada que atingiu o heli
(soube isto agora,
pelo relato dramático do Beja Santos) (1).
O heli foi para Bissau, para a oficina,
e o Beja Santos ficou retido no Xime.

A verdade é esta:
O PCV falhou, o heli falhou.
O cadeia de comando quebrou-se.
Ou porventura alguém quis matar
o tigre de Missirá.
O ataque de abelhas fez o resto,
enquanto o cabrão do comandante do PCV
foi bater a sesta em Bambadinca.

No regresso ao Enxalé,
sofremos brutalmente.
Eu sofri,
que a dor não para dá
para partilhar.
Sofri brutalmente a desidratação,
o esgotamento físico.
A insolação.
O absurdo.
A desumanidade.
Tive miragens.
Bebi o próprio mijo,
esgotado o soro.
Mastiguei as ervas do orvalho,
esgotada a água.
Desesperei,
perdida a esperança.
Bebi sofregamente a água choca dos charcos.
Amparei os mais desgraçados do que eu.
Transportei os nossos feridos.
Consolei os mais desesperados.
Fiz as minhas obras de misericórdia,
segundo o Evangelho de São Mateus.
Não deu nenhum tiro de misericórdia
porque nunca dei nenhum tiro em combate.
Mesmo cristãmente,
odiei o PCV,
Bambadinca,
as fardas, os galões,
a tropa, a guerra,
Herr Spnínola,
a Guiné.

Um homem,
mesmo o cristão que eu não sou,
tem que odiar
para sobreviver.

Amigos e camaradas,
depois de tantos anos,
releio o relim
e há qualquer coisa que mexe em mim.
O relim não é um poema.
Um poema épico ou dramático.
É sim, tão apenas,
Um esquema telegráfico
da guerra
para os senhores que estão em terra.

O relim faz economia
dos quilos de merda
que destilaste,
que destilámos.
Das miríades de abelhas kamikazes
que arrancastes do cachaço.
Dos gritos de dor
que ecoaram pelas matas de Madina/Belel.
Dos teus gritos
e dos gritos dos desgraçados elementos pop
que morreram à hora da sua sesta.
Das paredes do estômago
coladas uma à outra pela fome, a sede.
A lassidão do corpo, a tensão da alma,
sem um colchão
para te estirares,
sem um ombro amigo
para morderes de raiva.

Não, nunca mais irei esquecer Madina/Belel.
Eu e mais 250 homens combatentes
(oito grupos de combate),
fora um número indeterminado de civis, nativos,
contratados ou arrebanhados
como carregadores
(para transporte p à cabeça,
como no tempo do Teixeira Pinto,
de granadas de morteiro,
de bazuca,
de jericãs de água, etc.).
E que largaram tudo,
ao primeiro ataque
do exército das abelhas do Cuor,
quiçá treinadas na China.

Ah, esqueci-me de mencionar o médico
da CCS do BCAÇ 2852,
o Alferes Miliciano Médico
Saraiva (tinha esquecido o nome),
que o Beja Santos
deve ter conseguido aliciar
à última hora,
face aos casos graves de desidratação,
insolação,
intoxicação...
O pobre do doutor
(ninguém tratava ninguém por doutor
lá no cu do mundo,
longe do Vietname)
ficou em terra,
perdeu a boleia do heli
e conheceu o inferno do Cuor.

Meus senhores,
o Relim não é um poema,
é um exercício de economia,
um tratado
de estética,
um compêndio de gramática,
um fait-divers com que se brinca,
um escarro na cara do Zé Soldado,
entre duas partidas de King
na messe dos oficiais de Bambadinca.

Que nos valha, ao menos, o RDM,
o Regulamento de Disciplina Militar,
é mais grosso,
tem mais papel,
é coisa que se vê
e que em último caso serve
para limpar... o cu.

Fonte:

Extractos do Diário de um Tuga.
Abril de 1970 / Julho de 2006

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Nota de L.G.

(1) Vd. posts de:

29 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P924: SPM 3778 ou estórias de Missirá (4): cão vadio disfarçado de tigre (Beja Santos)

27 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P918: Operação Tigre Vadio (Março de 1970): uma dramática incursão a Madina/Belel (CAÇ 12, Pel Caç Nat 52 e outras forças)

sexta-feira, 30 de Junho de 2006

Guiné 63/74 - P929: Felizmente falharam os tiros no heli (João Parreira)

Guiné > Grupo de Comandos Fantasmas > Março 1965 - "O Morais com bigode a meu lado (centro) com outros camaradas dos Fantasmas a aguardar o regresso, após operação à Base de Benifo, a oeste de Sinre.

Foto: © João Parreira (2006)


Caro Luís Graça: Não consegui resistir à tentação de escrever estas linhas quando vi um Alouette que aparece hoje no blogue (P924) (1), pois trouxe-me velhas recordações.

Isto, porque quando fui ferido nas costas em Maio de 1965, em Cacine, durante o trajecto de madrugada para Bissau, e em zonas diferentes, tentaram alvejar o heli por 2 ou 3 vezes, não posso precisar.

Tinham-me injectado morfina e colocado de barriga para baixo numa maca de lona colocada no lado exterior direito do heli. Quando dos primeiros tiros e no meio da minha sonolência pensava:
- Oxalá que nenhuma das balas acerte na maca pois fico furado!- E naquela altura nem me passou pela cabeça que podiam acertar no heli. Mais à frente novos tiros, mesmo pensamento mas já desejoso que o heli chegasse ao Hospital. No lado esquerdo do heli colocaram o corpo do camarada que faleceu a meu lado (2).


Um abraço

João Parreira

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Nota de L.G.

(1) Vd. post de 29d e Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P924: SPM 3778 ou estórias de Missirá (4): cão vadio disfarçado de tigre (Beja Santos)

(2) Vd. post de 3 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74- CCCXXX: Velhos comandos de Brá: Parreira, o últimos dos três mosqueteiros

(...) "Mensagem do Virgínio Briote:

(...) "E agora pede para entrar o João Parreira, uma das lendas vivas dos velhos comandos de Brá. Andou pela Guiné toda, viu camaradas a morrer mesmo ao lado dele, foi evacuado no mesmo heli que transportou para Bissau o corpo do Furriel Morais. E tanta coisa que o João pode contar, se quiser!" (...)

Mensagem do João Parreira:

(...) "Noutra operação, a 6 de Maio, efectuada a um acampamento situado na mata a SW de Catungo (Cacine), em que foi capturado grande quantidade de material de guerra e sanitário, o Grupo (reduzido a 22 homens) teve 10 feridos, entre eles o Capitão de Artilharia Nuno José Varela Rubim que mais tarde ficou a comandar a Companhia de Comandos.

"Em virtude de ter sido ferido com alguma gravidade fui evacuado de heli para o Hospital Militar em Bissau, bem assim como um grande amigo e camarada, o Furriel Joaquim Carlos Ferreira Morais, que, infelizmente, faleceu a meu lado e do qual ouvi a última palavra.

"Como era amparo de mãe, e não tinha meios financeiros, teve que ser feita uma subscrição a fim de se angariar fundos para que o corpo pudesse regressar a Portugal.

"Com a extinção do meu Grupo, que estava reduzido a pouco mais do que meia dúzia de homens fui integrado num dos dois restantes, os Camaleões, os quais também acabaram por desaparecer, tal como o outro, os Panteras, devido a muitos dos seus elementos terem terminado a comissão e estarem a aguardar o embarque.Deste modo deixaram de existir os três primeiros Grupos de Comandos formados no 1º Curso e tornou-se necessário criar o 2º. Curso, no qual participei" (...).


Lisboa, Belém, 10 de Junho de 2006 > 13º Encontro Nacional de Combatentes >
O João Parreira, à esquerda, e o Miranda, à direita: dois veteranos dos velhos comandos de Brá. O Miranda, do Grupo Os Panteras, foi instrutor do Parreira, do Grupo Os Fantasmas.

Créditos fotográficos: © Luís Graça & Camaradas da Guiné (2006)

Vd. também posts de:

15 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXXI: Comandos: a equipa dos Fantasmas (1964)
13 de Dezembro 2005 > Guiné 63/74 - CCCLXV: Brá, SPM 0418 (3): memórias de um comando (Virgínio Briote).

(...) "Novembro de 64, dia 28. Na estrada de Madina do Boé para Contabane, a uma escassa centena de metros do pontão sobre o rio Gobige, os Fantasmas detectaram uma mina anti-carro. Levantaram a mina e simularam o rebentamento. Ficaram emboscados nas proximidades cerca de 2 horas. Viram um grupo IN aproximar-se e afastar-se logo que deram pela presença de mulheres na estrada. Uma hora depois viram um elemento IN a fugir. Afinal, estavam em igualdade de circunstância, todos sabiam da presença uns dos outros.

"No dia seguinte voltou com o grupo ao local. Meteu-se com alguns soldados no Unimog mais pequeno à frente, e encaixou dezasseis militares no Unimog maior atrás. A 1ª viatura passou, a outra, uma dezena de metros atrás, não. Pisou uma mina. Ao mesmo tempo que em cima deles caía uma chuva de balas de armas automáticas, o Unimog incendiou-se e as munições explodiram como foguetes num arraial minhoto. Quase todos os homens foram projectados a arder. 7 mortos logo ali e três feridos graves. Tinham partido 22 de Bissau, regressaram doze. Com o grupo dizimado, poucos dias depois arrancou com os restantes para uma operação" (...).

Guiné 63/74 - P928: Pensamento do dia (1): Cadetes, estamos na idade sexy (Paulo Raposo)


Mafra > Escola Prática de Infantaria (EPI) > 1968 > Cerimónia do Juramento de Bandeira > Desfile dos novos militares onde se integrava o Paulo Raposo, frente ao Convento de Mafra. Amanhã, 1 de Julho, eles voltam lá, para o Grande Encontro da 2ª Incorporação, de 10 de Abril de 1967, do Curso de Oficiais Milicianos da EPI...

Foto: © Paulo Raposo (2006)


É assim a vida:
aos 10 ser criança;
aos 20, selvagem;
aos 30, ou domado ou nunca;
aos 40, sábio;
aos 50, rico;
aos 60, ou bom ou nunca...

Julgo que já estamos na idade sexy, portanto...

Somos a geração de OURO.

Mas... será que nós estamos em condições de passar aquilo que nossos pais sofreram, calados, com o nosso afastamento?

Será que nossos filhos têm o espírito de sacrifio que nós tivemos?

Vai um abraço quebra-costelas para o pessoal todo.

Paulo Lage Raposo

PS - No próximo sábado, dia 1 de Julho, em Mafra, às 11h00 grande encontro de ex-cadetes da 2ª incorporação de 1967! (1)

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Nota de L.G.

(1) Vd. post de 7 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXXXII: Encontro do Curso de Oficiais Milicianos da EPI, 2ª Incorporação de 1967

Guiné 63/74 - P927: O blogue dos nossos testemunhos, lembranças, saudades, emoções (J. L. Vacas de Carvalho)

Fão, Esposende > 1994 > Encontro da malta de Bambadinca (1968/71): CCS do BCAÇ 2852 (1969/71), CCAÇ 12 (1969/71), Pel Rec Daimler 2206 (1970/71) e outras unidades adidas. Na foto, da esquerda para a direita, o Reis, o Sousa, o Carlão e o Vacas de Carvalho.

Foto: © Humberto Reis (2006).


Texto do Zé Luís Vacas de Carvalho, velho companheiro das lides de Bambadinca (ex-Alf Mil Cav, Pelotão Daimler 2206, 1970/71)

Luís:

Tenho visto, lido e acompanhado o blogue que tiveste a iniciativa (boa) de fazer e coordenar.

Só te quero dizer que, ao longo destes meus anos de vida (e se Deus me quizer dar mais alguns, serão bem vindos), raramente me emocionei. Mas os testemunhos, lembranças, saudades, dos que participaram estão a levar-me a uma nova dimensão.

Os tempos da Guiné são, com orgulho, lembranças de amigos, e são ao mesmo tempo tristezas dos que ficaram. Ficaram muitas amizades. Ainda hoje sonho com a Guiné. Vejo-me em Bambadinca, outra vez. Revejo amigos e situações.

Mas estas nossas conversas, são muito mais reais.... São participações, estados de alma, são elos que não se quebram (não têm nem nunca virão a ter que ver com opções politicas ou ideológicas).

Pelo que nos uniste, pelas memórias, pelas recordações, pela saudade (?), abraço-te, com amizade.

Zé Luis

Guiné 63/74 - P926: As emoções de um regresso (Paulo Santiago, Pel Caç Nat 53) (3): Saltinho e Contabane

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Contabane > O Paulo Santiago com o canhão sem recuo 82 B-10


Guiné > Região de Bafatá > Saltinho > 1972 > Parada do quartel. O Pel Caç Nat 53, comandado pelo Alf Mil Paulo Santiago, estava aqui em reforço da unidade de quadrícula(originalmente a CCAÇ 2406, 1978/70, que pertencia ao BCAÇ 2852, com sede em Bambadinca)

Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Saltinho > Fevereiro de 2005 > Memorial da CCAÇ 2406 (Os Tigres do Saltinho)


Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Saltinho > Fevereiro de 2005 > À noite na Pousada do Saltinho: Abdu, Santiago e Sado.



Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Saltinho > Sinchã Sambel > "Eu, com a Fatemá e o meu filho João Francisco" (PS)



Fiz uma paragem no meu relato após o meu encontro com o Buba em Bambadinca, no dia 6, ao início da tarde.Vejamos o que se passou no resto do dia.

Saindo em direcção ao Xitole, acompanhamos durante alguns quilómetros, a antiga picada, situada à direita da estrada actual. Durante a minha comissão nunca fui para o Saltinho utilizando aquela picada.

Continuando a viagem,vejo a certa altura uma placa a indicar Mansambo, à direita, 2 Kms. Mais uns quilómetros chegamos ao Xitole, que contornamos sem parar. Estou aos saltos para chegar ao Saltinho.

Passamos Cambessê, segue-se Ura Candi, a pulsação aumenta, repentinamente avisto a Ponte do Saltinho e de seguida está o Pedro a dirigir-se para o estacionamento da Pousada do Saltinho. Penso que saio do jipe com lágrimas nos olhos. Aquele edifício está igual exteriormente, ali era o edifício do comando, tem outras cores, tem umas letras pintadas,mas o formato é mesmo, é aquilo que permanece na minha memória desde a minha primeira chegada em fins de Outubro de 190. Mais um forte murro no peito... está ali à frente dos meus olhos um memorial da CCAÇ 2406. Já o tinha visto no mesmo local quando cheguei em 1970. Faço uns instantes de silêncio.

Sento-me finalmente na esplanada frente ao bar, onde estão de passagem para Bissau três casais de italianos, vindos da zona do Cantanhês, que possivelmente acham estranho o meu comportamento e me interrogam se estou com algum problema. Explico num italianês o que estou a sentir. Bebemos umas cervejas e falamos de Roma que não conheço.

O João está cansado, vai descansar para o quarto que nos fora destinado. O Sado e o Pedro vão ao outro lado do rio a Sincha Sambel, antigo reordenamento de Contabane. Fico sózinho, percorro todo aquele perímetro onde se situava o quartel, tiro fotografias, encontro vestígios de ruínas e imagino o que ali se encontrava há trinta e três anos atrás. Há coisas que não consigo descrever, apenas sentir.

Vem o Rui, encarregado da pousada, chamar-me pois anda o homem grande à minha procura-era o Abdu, mandinga, chefe de tabanca do Saltinho, negociante de vacas e magarefe de serviço na 2701, e, soubemo-lo mais tarde, homem do PAIGC na zona... Abraçamo-nos fortemente e, penso, que consegue estar mais emocionado que eu própio. Sentamo-nos a lembrar o arroz à Abdu que ele fazia de forma magistral. Pergunta-me por muitos ex-militares da 2701, por alguns dos meus furriéis do 53, falamos de vários assuntos, até sobre canhotos, aqueles cachimbos tradicionais.

A conversa é interrompida pelo Pedro que diz estarem à minha espera em Sincha Sambel. Digo ao Abdu que continuamos a conversa à noite ali na estalagem. Sigo com o Pedro para Sincha Sambel e agora começa a ser difícil descrever o que se passou. Vou tentar.

Vivi durante os meus últimos três meses, opção minha apoiada pelos furriéis,e, melhor dito,vivemos em Contabane, que passou a ter o nome actual após a morte do Régulo Sambel. Sucedeu-lhe o filho Suleimane, 1ºcabo do Pel Caç Nat 53. O Suleimane veio para Portugal em 2004 para ver se conseguia receber qualquer pensão por um ferimento recebido em combate. Juntaram-se algumas vontades, fui duas vezes prestar declarações e a coisa estava encaminhada. Entretanto o Suleimane tem o filho Alfa a trabalhar no Aeroporto de Madrid e foi para Espanha em Novembro de 2004. Soube em Sincha Sambel, através de outro filho, que chegara a Lisboa vindo de Madrid, precisamente a 4 de Fevereiro e estava muito chateado
por não me poder receber aqui na sua morança.

A viúva do Sambel, Fatemá, mãe do Suleimane e também avó do Sado, fez-me uma recepção que ainda hoje me faz vir as lágrimas quando a recordo. Foram umas duas horas de abraços,de coisas que diziam eu ter feito e eu não me lembrava , eram mulheres aí dos seus quarenta anos que me tocavam e diziam Santiago... com um ar incrédulo como perguntando é mesmo ele que está aqui. O João tinha ficado a descansar na Pousada, foram buscá-lo, abraçaram-no, os miúdos não o largavam,chegou uma altura em que pegou numa criança ao colo e já estavam outras
a puxar-lhe pela camisa para ele as agarrar. Tenho um filme que é mais esclarecedor que quaisquer palavras.

Já noite o Sado vem dizer-me: a minha avó tem ali um cabrito para te oferecer. Digo-lhe não poder aceitar, faz-lhe falta a eles. Responde-me que seria uma desonra não aceitar. Acedo, iremos comer cabrito no dia seguinte ao almoço.

Regressamos à Pousada, onde o jantar já está frio e, passados uns instantes, para a recordação ser mais forte avaria o gerador.

Ouvi o nome do Xico Allen, pela 1ª vez, aqui na Pousada do Saltinho.


Continuarei o relato, por hoje estou cansado
Manga di mantenha

Paulo Santiago

Ex-Alf Mil do Pel Caç Nat 53,

SPM 3948

quinta-feira, 29 de Junho de 2006

Guiné 63/74 - P925: A formação de companhias de milícias em Bambadinca (J. L. Vacas de Carvalho)


Guiné-Bissau > Zona Leste > Estrada Xime - Bambadinca > Carreira de tiro > 1971 > O Alf Mil Cav José Luís Vacas de Carvalho, comandante do Pel Daimler 2606, foi também instrutor de tiro de "duas ou três companhias de milícias", numa altura em que aumentava a escalada da guerra e se intensificava o esforço de africanização das NT.
"Eu estou atrás do General Spínola. Ao meu lado direito está (parece-me) o Fabião e logo a seguir o Polidoro Monteiro. E atrás, de óculos escuros, parece-me ser o Tomé".

Foto: © J.L. Vacas de Carvalho (2006]


Guiné > Zona Leste > Xitole > 1970 > O Alf Mil Cav J. Vacas de Carvalho, comandante do Pelotão de Reconhecimento Daimler 2206 (Bambadinca, 1970/71), à chegada de uma coluna logística ao Xitole.

Foto: © Humberto Reis (2006)
Texto do Vacas de Carvalho (conhecido, entre os amigos, por Zé Luís):


Para vossa Informação, fui instrutor de tiro, de 2 ou 3 companhias de milícias, em 1972. Vou ver se descubro, uma foto minha com o General Spínola. A carreira de tiro era no caminho do Xime, aproveitando-se um desterro quando foi feita a estrada alcatroada para o Xime.

Não sei se consegues ver alguma coisa. A foto é já antiga, como podes calcular. Mas se reparares, eu estou atrás do Gen Spínola (1). Ao meu lado direito está (parece-me) o Fabião e logo a seguir o Polidoro Monteiro (2). E atrás, de óculos escuros, parece-me ser o Tomé (2).

E quando quizeres aparecer por Montemor-O-Novo para tomar um copo com o [Paulo] Raposo, é só dizeres. E isto é extensivo a todos.

Um abraço
J. Vacas
PS - O Pelotão Daimler 2206 ( mais conhecido entre o IN pelas Tartarugas de Bambandinca) teve como unidade mobilizadora o RC 6, no Porto e chegou à Guiné no dia 6 de Janeiro de 1970. Chegou no navio Uíge e partiu de avião (um dos primeiros) em 14 de Dezembro de 1971. Um abraço do Zé Luís

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Notas de L.G.

(1) É visível o distintivo da arma de cavalaria na boina do Vacas de Carvalho que, para além disso, usava bigode.

(2) O Polidoro Monteiro era o comandante do BART 2917.

(3) Major Mário Tomé. DE 1970 a 1972, comandou, como capitão, a CCAV 2721 (Olossato e Nhacra). Um dos seus alferes era o nosso Paulo Salgado, actualmente a exercer funções, como cooperante, na administração do Hospital Nacional Simão Mendes, em Bissau: vd post de 20 de Setembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCI: CCAV 2712 (Olossato e Nhacra, 1970/72)

Guiné 63/74 - P924: SPM 3778 ou estórias de Missirá (4): cão vadio disfarçado de tigre (Beja Santos)

Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Helicóptero da FAP, um Alouette III... Às vezes, era o heli do nosso descontentamento, da nossa raiva e do nosso desespero, como aconteceu na Op Tigre Vadio (1)... Ainda hoje o Beja Santos não sabe quem disparou sobre o heli: " (...) Foi nessa altura que pedi um helicóptero para ir buscar água a Bambadinca. Negociámos uma clareira com o oficial aviador e, ao levantar, uma rajada estilhaçou o vidro. Ainda hoje me interrogo sobre a proveniência do fogo, e longe de mim insinuar que foi gente menos calma entre os nossos"...

Foto do arquivo pessoal de Humberto Reis (ex-furriel miliciano de operações especiais, CCAÇ 12, Bambadinca, 1969/71).

© Humberto Reis (2006).



Post do Beja Santos, ex-alf mil, Pel Caç Nat 52 (Missirá e Bambadinca, 1968/70). Acabei de lhe dizer: "Já viste o relatório da Op Tigre Vadio ? Tu, que foste, na prática, o comandante da operação, deves saber muito mais coisas… Vou publicar o teu relatório da mina na estrada de Finete, se não vires inconveniente… A malta gostou muito da tua carta ao Alcino"…

O Beja Santos respondeu-me, logo a seguir, na volta do correio:

Meu caro Luís, recebo sempre com satisfação as novidades do blogue. Por razões de organização mental, já que o blogue naturalmente mexe comigo, vou deixá-lo fechado até acabar os exames e as responsabilidades inadiáveis. Já fiz frequências em Santarém, tenho agora a 4 na Faculdade de Ciências e Tecnologia, seguem-se exames a 10. Estamos a trabalhar a todo o vapor num documento destinado ao Ministério da Educação, que terá que ficar pronto até 30 de Julho.

Acresce que tenho um curso em Bruxelas de 17 a 19 e entretanto tenho que enviar para o Instituto Piaget um texto de 50 páginas sobre as tendências actuais do consumo em Portugal.
Só o Tigre de Missirá é que pode aguentar esta disciplina de ferro... Tu entras casa adentro com o edifício da Messe Sargentos e Oficiais e a memória não para de esvoaçar. Com o Tigre Vadio (1) ainda foi pior, não pela operação em si em que o maior susto foi voar num helicóptero com os vidros despedaçados por uma rajada de metralhadora, mas pelo tempo duríssimo que começou em 1 de Janeiro e se prolongou até Abril.

Encurtando razões, não posso misturar sentimentos e comoção da nossa guerra com o trabalho presente. E uma coisa que aprendi muito com a nossa guerra é que há tempo para tudo. Tu terás acesso às minhas memórias, gradualmente. Fico contente sabendo que muitos dos nossos camaradas apreciaram a carta para o Alcino. A seu tempo também escreverei ao Paulo Raposo, de que guardo muita saudade, e àquele nosso camarada de Mansambo que questiona as diferentes guerras e classes de intervenientes. Fico-me por aqui e passo a escrever ao sabor da memória. Teu, Mário Beja Santos.

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Cão vadio disfarçado de tigre

por Beja Santos

Soube da Tigre Vadio (1) em finais de Fevereiro de 1970, quando o Major de operações de Bambadinca me convidou para um passeio numa Dornier sobre os céus do Cuor. Foi uma viagem que permitiu medir o crescimento militar e populacional de Madina/Belel e a sua ligação a Sara/Sarauol, uma enorme base do PAIGC com um hospital de campanha.

No regresso desse prolongado voo de reconhecimento, o oficial informou-me discretamente que lá para os finais de Março eu iria revisitar Madina. Era o que menos me interessava a 15 dias do meu casamento, que se veio a realizar na Sé Catedral de Bissau. O ano tinha-se iniciado da pior maneira. Desde que, em Novembro anterior, passara a prestar serviço em Bambadinca, não havia um dia de descanso: colunas ao Xitole, correio a Bafatá, noites na ponte de Undunduma, patrulhamentos alucinantes à volta da pista, toda ela bem iluminada, operações no Xime, emboscadas, segurança nas obras do alcatroamento da estrada Xime-Bambadinca...

Ora na noite de 31 de Dezembro [de 1969] coube-nos montar emboscada na estrada para Mansambo (2) A noite foi agitada com uma enorme bebedeira da malta do Xime que por volta da meia noite resolveu fazer fogo de obus, metralhadora e talvez dilagrama. Quando lhes liguei perguntando se queriam apoio, foi uma conversa de loucos.

Pelas 6 horas da manhã apareceu o Setúbal com um burrinho (Unimog 411) e deu-se uma fatalidade: ao subir para a viatura, o soldado Quebá Sisse inadvertidamente meteu o dedo no gatilho e disparou uma rajada sobre o soldado Uam Sambu que estava sentado ao meu lado. Em segundos, caiu-me um moribundo nos braços, corremos à desfilada para a enfermaria, pediu-se uma evacuação Y mas o Uam já chegou morto a Bissau. Cherno, nos dias seguintes, mostrava por toda a Bambadinca o meu camuflado com buracos das balas que não tinham morto o meu desditoso soldado mansoanque.

Em Fevereiro [de 1970], tive uma das baixas mais dolorosas em toda a minha vida, com a morte do Carlos Sampaio no norte de Moçambique. Eu fizera amizade com o Carlos no colégio dos Jesuítas, depois em Direito e depois em Letras. O Carlos era filho do grande pintor Fausto Sampaio, irmão da Teresa Costa Macedo e da Maria José Sampaio, conservadora de museus. Nunca me recompus desta baixa, tal a falta que ele me faz.

E Fevereiro e Março foram meses que puseram à prova toda a minha energia moral. Desde um furriel que me escorregou no saibro da picada e meteu um dedo mindinho no tapa-chamas (desastre que tem a probabilidade de 1 para 10 milhões) até às operações no Xime e Burontoni (2), tudo me aconteceu. Guardo esse tempo uma invenção que um dia oferecerei ao Estado Maior de qualquer exército em guerrilha: sair em patrulhamento com o acordo da equipa dos obuses que ficam com uma folha em papel manteiga com referências exactas às da força que parte para o combate e pedir fogo quando há emboscada ou detecção pela força inimiga. Deu-me imenso jeito na Ponta do Inglês, quando fomos cercados em Março (3).

Foi com imenso constrangimento que regressei a Missirá, onde guardei tantos amigos, dolorosas e boas recordações. Vivi a Tigre Vadio (1) do princípio até meio. Passo a explicar. Saímos à frente com um destacamento, Março é aquele tempo em que chove às 10 da noite, o capim fica molhado até de madrugada, volta a chover e chega um calor tórrido a partir do meio dia que leva a partir a lama que entretanto se colou ao camuflado. Foi uma viagem extremamente penosa e, meia hora antes de se desencadearem os combates referidos no relatório (1), a sede estava instalada e já havia insolados.

Foi nessa altura que pedi um helicóptero para ir buscar água a Bambadinca. Negociámos uma clareira com o oficial aviador e, ao levantar, uma rajada estilhaçou o vidro. Ainda hoje me interrogo sobre a proveniência do fogo, e longe de mim insinuar que foi gente menos calma entre os nossos. O que interessa é que quando cheguei a Bambadinca, o Comandante [do BCAÇ 2852] (4) perguntou-me porque é que eu deixara o teatro de operações. Olhei-o a direito e perguntei-lhe se ele sabia o que era um estado de desidratação total, desafiando-o a vir comigo...

Lá regressei à mata cheio de garrafões, o helicóptero dançava com os vidros partidos, a ligação ar/terra não se fez e o oficial convidou-me a desembarcar com os garrafões num sítio qualquer. Perguntei-lhe se ele tinha consciência que não estávamos num filme de aventuras na selva e então levou-me até ao Xime, dizendo que regressava a Bissau e que depois da reparação me viria buscar. Até hoje. Dormi no Xime, sem nenhum êxito na tentativa de comunicar com as forças do Tigre Vadio (5).

Só na manhã seguinte é que apareceram os grupos de combate completamente exaustos. Juro que desconheci a elevada façanha nos combates trocados, embora os meus soldados me tenham referido a existência de um contacto perto de Madina. Tenho que procurar o Cherno para saber pormenores e depois darei conta do que ainda tiver na memória (trouxe o Cherno em 1991 quando trabalhei como cooperante na Guiné; o Cherno foi preso em 1977 por ser furriel dos comandos africanos, sofreu horrores na prisão do Cumeré onde foi obrigado a matar outros presos e a enterrá-los...)

Eu era um cão vadio neste tempo, um tarefeiro da guerra, ex-comandante de Missirá e Finete, combatendo onde era preciso, recoveiro, carteiro, merceeiro, levando catering a gente esfomeada...O Tigre de Missirá interrogava o futuro da guerra, vivia com o coração agitado questionando qual o futuro para todos os seus soldados. A realidade encarregou-se de ultrapassar a ficção.

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Notas de L.G.

(1) Vd. postd e 27 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P918: Operação Tigre Vadio (Março de 1970): uma dramática incursão a Madina/Belel (CAÇ 12, Pel Caç Nat 52 e outras forças)

(2) Possivelmente na famosa Missão do Sono, em Bambadincazinho, na Estrada Bambadinca-Mansambo...





Guiné > Zona Leste > Sector L1 > Bambadinca > 1970 > Vista aérea da tabanca de Bambadincazinha (D), a sudoeste de Bambadinca, a escassas centenas de metros do centro (A)....
Em primeiro plano, a estrada nova (C) para o Xime (posteriormente alcatroada) e, mais acima, a antiga estrada (B), paralela à pista de aviação.... Atravessando a tabanca de Bambadincazinho (D), seguia-se em estrada (picada...) até aos aquartelamentos de Mansambo, Xitole e Saltinho (E). Vê-se ao fundo a bolanha de Bambadinca... Era em Bambadincazinho que ficava a antiga Missão do Sono, em cujas instalações ficava, todas as secções, um Grupod e Combate para velar pelo bom sono dos seus senhores ofciais superiores do batalhão que dormim no quartel, a menos de um quilómetro...

Foto: © Humberto Reis (2006)


(3) O Pel Caç Nat 52, então aquartelado em Bambadinca desde Novembro de 1969, participou nas seguintes operações entre Janeiro e Março de 1970:

Op Topázio Valioso > 2 dias, com início a 30 de Janeiro, às 7h00, para batida na região de Sul Rio Buruntoni, entre este rio e o seu afluente. Dest A: CART 2520, a 2 Gr Comb; Pel Caç Nat 52; Dest B - CCAÇ 2404, a 2 Gr Commb; Pel Caç Nat 63. Sem contacto nem vestígios.

Op Rinoceronte Temível > 2 dias, com início a 8 de Março, às 16h30, para detecção de vestígios IN na região de Xime-Madina-Colhido-Ponta Varela - Poidon - Xime. As NT eram compostas, para além do Pel Caç Nat 52, pela CART 2520, a 3 Gr Comb. Contacto com o IN e destruição de meios de vida no Poindoin (cerca de três toneladas de arroz e casas da população).

Op Jaqueta Lisa > 2 dias, com início a 22 de Março, às 16h30, para detecção de vestígios IN na região de Xime- Ponta Varela - Tarrafo -_ Margem Esquerda do Rio Geba - Foz do Corubal - Poindon - Xime. Forças: CART 2520, a 3 Gr Comb, reforçada com o Pelk Caç Nat 52. Com contacto e sem consequências.

Fonte: História da Unidade: BCAÇ 2852 (Bambadinca, 1968/70). Bambadinca: Batalhão de Caçadores 2852. 1970. Cap. II. Documento reservado.

(4) Tenente coronel de infantaria Jovelino Pamplona Corte Real que, em Julho de 1969, tinha substituído o Ten corn inf Manuel Maria Pimentel Bastos (mais conhecido pelo diminuitivo Pimbas), transferido por motivos disciplinares.

(5) O médico da CCS do BCAÇ 2852 (que teve vários, entre eles o David Payne Rodrigues Pereira, psiquiatra), na altura, o Alf Mil médico Saraiva (que reside em Vila Nova de Gaia, segundo preciosa informação do nosso camarada Humberto Reis), veio no helicóptero de reabastecimento com o Beja Santos, para prestar assistência médica aos casos mais graves de intoxicação (devido ao ataque de abelhas) e de desidratação... Acabou por ficar em terra uma vez o que o helicóptero, danificado, já não voltou... Deixou o Beja Santos no Xime e zarpou para Bissau...
O Dr. Saraiva acabou por aguentar, de pé firme, o resto do dia e toda a noite e toda a manhã, acompanhando-nos na nossa extremamente penosa vaigem de regresso, até ao aquartelamento do Enxalé. Onde quer que ele esteja, daqui vai um abraço para ele. Era muito raro um médico ir para o mato. O mesmo acontecendo com os furriéis enfermeiros...
O Zé Luís Vacas de Carvalho, que foi comandante, em Bambadinca, do Pelotão Daimler 2046, lembra-se bem dele: "Estivémos com ele`há 2 anos em Ferreira do Zêzere. Penso que é médico (ainda) em Gaia. Lembro-me uma vez que o Piça, entornou um jipe cheio de gaiatos e, como eu queria ir para medicina, estive a ajudá-lo a fazer curativos"... Se alguém souber do seu paradeiro, que entre em contacto connosco... Gostaríamos de conhecer a sua versão dos acontecimentos: por certo que nunca mais terá esquecido a Op Tigre Vadio... (LG)

(LG)

Guiné 63/74 - P923: As emoções de um regresso (Paulo Santiago, Pel Caç Nat 53) (2): Bambadinca


Guiné > Zona Leste > Bambadinca > Março de 1972 > O Caco [General Spínola] de visita à carreira de tiro de Bambadinca. À sua direita, o Polidoro Monteiro, ten-cor, comandante do BART 2917. À direita do Polidoro segue o Coronel Costa, do CAOP 2. À minha frente [eu estou de bigode e óculos escuroso], de farda nº 2 está o comandante do BART que substituiu o 2917.

A carreira de tiro situava-se 1 a 2 Km para lá da ponte de Undunduma, indo em direcção ao Xime. Imagina os arrepios que eu e o Vacas (era o oficial de tiro) sentíamos quando havia instrução de tiro nocturno. Era um local para cacimbados. Esta foto e a seguinte, a da formatura foram tiradas em meados de Março de 1972" (PS)

Esclarecimento adicional: Em Março de 1972 houve a sobreposição do BART 2917 com o BART comandado pelo velhinho (parece que foi um termo utilizado pelo Caco) que aparece de farda nº 2 na
foto. No dia seguinte àquela ser tirada, o Polidoro foi levar-me a Galomaro, para eu ir para o Saltinho. Nunca mais o vi. Penso que regressou a Portugal com o BART 2917 em fins de Março ou princípio de Abril de 1972 (PS).


Guiné > Zona Leste > Bambadinca > Março de 1972 > Visita de Spínola a uma nova companhia de milícias, formada em Bambadinca.



Guiné > Zona Leste > Bambadinca > Finais de 1971 ou princípios de 1972 > Noite de copos. Ao lado do Paulo, de bigode, de camuflado, na ponta da mesa, está o Alf Mil Machado, à civil, de óculos, a fumar, da CCS do BART 2917 (Bambadinca, 1970/72). Era minhoto, natural de Riba d'Ave. Antes da tropa, trabalhava numa cooperativa local. Daí a gente chamá-lo "Bilocas da Cuprativa". Tinha um excelente relacionamento com a malta da CCAÇ 12. Tocava viola. (LG). "O alferes magrinho, à esquerda do Machado, já não me recordo do nome dele, mas era da CCS" (PS)



Guiné-Bissau > Bafatá > Fevereiro de 2005 > ZA> tia do Pedro, mãe dos dois miúdos. Ele, por sua vez, é filho de uma fula e de um balanta, antigo guerrilheiro, e hoje oficial superior das Forças Armadas Guineenses. A moça muito bonita é irmã do Pedro. O João e o Sado estão no lado direito.



Guiné-Bissau > Região de Bafatá > Bambinca > Fevereiro de 2005 > O reencontro do Paulo Salgado com um antigo soldado do Pel Caç Nat 53, o Bubacar, o Buba . O Paulo esclareceu o seguinte:

"Cheguei a Guiné em 27 de Outubro de 1970 e regressei em 12 de Agosto de 1972 . Nunca estive com o 53 em Bambadinca. O Pel Caç Nat 53 estava e continuou em reforço da CCAÇ do Saltinho. Andámos em operações por Dulombi, Galomaro e Aldeia Formosa (...). Fui em Out de 1971 para Bambadinca para comandar a instrução da Companhia de Milícias que terminou em 24 de Dezembro de 1971, dia em que apanhei uma boleia do Spínola para o Saltinho onde fui passar o Natal. Regressei a Bambadinca no início de Janeiro de 1972 para comandar outra companhia de instrução até meados de Março, tendo regressado de seguida ao Saltinho".

Fotos: © Paulo Santiago (2006)


II parte do relato da viagem do Paulo Santiago e de seu filho João Francisco à Guiné-Bissau em Fevereiro de 2005, na semana do Carnaval....

Há um mês atrás (24 de Maio de 2006), o Paulo tinha-me enviado a seguinte mensagem que não cheguei a inserir no blogue:

Camarada

O teu blogue permitiu-me ter uma conversa cibernética com o Vacas de Carvalho. Há muitos anos, mais de 25, possivelmente, que não falava com aquele amigo. Diz-me o Zé Luis que será possível encontrar mais amigos através do teu blogue.

Como não sou grande expert nisto da Net, não sei se recebeste umas fotos que enviei para o blogue.

Manga de cumprimentos

Paulo Santiago
(ex- Alf Mil Pel Caç Nat 53, Saltinho,1970/72)

PS - O nome Cabral diz-me alguma coisa  Já li algumas "estórias cabralianas" Será que foi ele que me falou na história do cajado do Beja ? Não havia também um Furriel Duque muito cacimbado que roía noz de cola?

Lembro-me da cara do David Guimarães. As companhias do Xitole e Saltinho tinham contrato com uma avioneta que ía todas as semanas levar correio e transportar pessoal que vinha ou regressava de férias
Comentário de L.G.: Num mês o Paulo já está aqui a blogar connsco e a enviar-nos material (textos e fotos) muito interessante, fazendo-nos partilhar as emoções do seu regresso, em Fevereiro de 2005, à sua/nossa amada Guiné... Bem hajas, Paulo, pela sua generosidade e disponibilidade. L.G.
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Dia 5 de Fevereiro de 2005, Sábado

O meu amigo, Ten-Cor Rui Ferreira, ex-Alf Mil da CCAÇ 1420, de 1965 a 1967 e mais tarde Capitão Miliciano - no comando da CCAÇ 18, altura em que o conheci, estacionada no Quebo -, pediu-me para visitar o ex-Furriel Mil Carlos Solai,  daquela companhia.

Sábado fui com o meu filho, João, e o Sado ao estabelecimento comercial que o Rui me tinha indicado, propriedade daquele ex-Furriel. Fomos informados por um funcionário que o patrão estava em casa com problemas de saúde. Procurámos na morada indicada, encontrando o Solai,  lúcido, a recuperar de um AVC, que o deixou muito diminuído fisicamente.

Apesar disso falámos de uma viagem amalucada que ele, o Rui e mais dois ou três quadros da CCAÇ 18, fizeram do Quebo (Aldeia Formosa) para Bafatá com passagem pelo Saltinho, deixando-me durante três dias uma mini-moto Honda, que utilizei para andar por locais onde podia andar e também por outros onde não deveria passar...Era o cacimbo a fazer efeito.

Falámos também da viagem, que ele, Solai, fez a Portugal e da passagem pela casa do Rui, em Viseu. O João gravou na camâra uma mensagem para o Rui.

À tarde não saímos da residencial. Devido ao Carnaval fecham ao trânsito grande parte das ruas de Bissau. É só desfiles. Não é época boa para ir à Guiné.

 Dia 6 de Fevereiro de 2005, Domingo
O meu amigo Sado pediu um Land-Cruiser a um primo para irmos ao Saltinho. Às 8 horas foi buscar-me à residencial e demos início a uma jornada que me marcou profundamente.

Além do João e do Sado, ía o Pedro, um moço impecável, filho de um balanta e de uma fula, o pai guerrilheiro, hoje oficial superior das FA. O Pedro foi o nosso condutor e também cameraman. A pergunta que tinha na cabeça ao sair de Bissau era:
- Como vamos, por estrada, chegar a Bambadinca, a Bafatá, ao Xitole e ao Saltinho ?

Passamos o aeroporto. Daqui para a frente nunca tinha transitado de viatura auto. Passamos por locais, cujos nomes não me são estranhos: Nhacra, João Landim, Jugudul... Aparece uma placa a indicar Portogole, à direita.

Andamos mais uns quilómetros e uma placa indica Circunscrição Florestal do Oio, e lembro a fama desta zona no meu tempo de militar. Outra placa: Matecão. A pulsação acelera-se. Mando parar o jipe. Eu estive aqui nesta zona, talvez em Dezembro de 1972, após a ocupação do Matecão [Mato Cão, na carta de Bambadinca].

A favor da maré, utilizando um Sintex com motor de 80 CV, eu, o Polidoro Monteiro, o Vilar, o Alferes do Pelotão de Morteiros e o soldado barqueiro, descemos a toda a velocidade o Geba, de Bambadinca para o Matecão. Penso que seriam dois grupos de combate da CCAÇ 12 que lá se encontravam [no destacamento]. Os ataques eram quase diários e, por vezes, mais que um, não havia abrigos nem valas, unicamente buracos individuais, dispostos em círculo, onde cabiam os colchões.

Regressamos com a maré, tendo ficado no destacamento o Ten-Cor Polidoro (1). Abro um parêntesis para dizer que conheci vários tenentes-coronéis, mas só dois me mereceram respeito: o Polidoro e o Agostinho Ferreira, de Aldeia Formosa, mais conhecido por Metro e Oito.

Voltemos a 6 de Fevereiro de 2005. Quando menos esperava entramos em Bambadinca, por um sentido completamente desconhecido para mim. Seguimos para Bafatá. Quero ir visitar o Sanhá. Esta estrada já me é familiar, vejo uma placa a indicar a cortada para Cossé (Galomaro). O Sanhá foi cabo no Pel Caç Nat 53 e actualmente é militar da GF [Guarda Fiscal]. Está em serviço para Pirada, fico com pena por não o encontrar.

São horas de almoço, em Bafatá não há restaurantes,voltamos a Bambadinca onde o Sado conhece um. Almoçamos bife e muita cerveja. O Sado, como bom muçulmano, bebe sumo.

Voltamos à estrada e começamos a subir para a parte mais elevada de Bambadinca, dizendo-me o Sado que o quartel continua a ter militares. Peço ao Pedro para virar e parar aí uns 50 metros da porta de armas, a mesma do nosso tempo. Nenhum deles acredita que nos deixem entrar no quartel. Há um militar que se me dirige, e informo-o que estive naquele quartel em fins de 1971 e início de 1972. Será que posso fazer uma visita ? Manda-nos entrar.

Pergunto se podemos filmar e, após consulta a um oficial, autoriza que utilizemos a câmara. Visito, com o Pedro a filmar, a zona ocupada pela messe e quartos. Estou muito emocionado.

Chega entretanto um senhor à civil que me apresentam como Comandante. Muito simpático. Falamos da Bambadinca dos anos 70 e do Xime e do Saltinho. Falamos a mesma língua, diz-me ele. Despedimo-nos com um forte abraço.

O grande centro populacional situa-se agora na parte mais elevada de Bambadinca, na estrada para o Xitole.

O Sado tinha uma surpresa para mim. Manda parar o jipe e pede-me para o acompanhar. Dirigimo-nos a uma casa e eis que aparece o meu antigo soldado Bubacar, o Buba. Vêm-me as lágrimas, trinta e três anos. Estamos os dois muito emocionados. Andamos os dois a pé à beira da estrada. Ele é motorista de camião. Pergunto se há por ali mais algum elemento do 53. O Iero Seidi viveu ali mas já morreu, quem vive perto é o Mamadu Jau. Peço-lhe para o avisar, quando regressar do Saltinho, pararei ali para estar com eles. Acabamos a falar de futebol para descontrair. Despedimo-nos até ao dia seguinte.

Estamos no início da tarde de 6 de Fevereiro de 2005 e vou deixar o resto do dia para outro Post.

Um abraço
Paulo Santiago
ex Alf Mil do Pel Caç Nat 53
SPM 3948

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Notas de L.G.

(1) Vd. post de 26 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P914: As emoções de um regresso (Paulo Santiago, Pel Caç Nat 53) (1): Bissau

O Sado é oficial superior da Guarda Fiscal da Guiné-Bissau e grande amigo do Paulo, visita da sua casa quando vem a Portugal.

Guiné 63/74 - P922: Memórias do Pel Mort 4574 (A. Santos): O mauzão do Hitler de Nova Lamego


III parte da história do nossa fotogaleria... Resumindo: estás óptimo, embora de cabelos já grisalhos, para um homem que há seis anos iam morrendo (e matando a mulher), debaixo de um camião TIR... Pois, o António é um grande lutador, um excelente contador de estórias, um grande conversador, um grande depositário das memórias do Gabu... Fico à espera que ele arranje tempo e disposição para nos contar as peripécias dramáticas que ocorreram na região do Gabu nos últimos meses antes do fim da guerra e que levaram, por exemplo, ao abandono de Quanquelifá por parte das NT... Nunca esteve no mato, em actividade operacional - segundo pecebi - mas pelos seus seus auscultadores passaram
muitas notícias classificadas... Esses tempos de Nova Lamego deixaram-lhe os nervos em franja... Há uns anos atrás senti necessidade de pedir apoio psicológico, considerando-se vítima de stresse pós-traumátcio de guerra... Apesar de referenciado pelo seu médico de família, chegou á conclusão que o processo é pouco ou nada amigável: é preciso arranjar testemunhas presenciais que testemunhem as situações relatadas, etc. Conclui, em suma, que é mais fácil a um camelo entrar no buraco da agulha do que um desgraçado de um cacimbado da Guiné obetrr psicológico por parte do Serviço Nacional de Saúde ou dos Serviços de Saúde Militares, ao abrigo da Lei nº 146/99, de 16 de Junho de 1999, que veio instituir o “apoio às vítimas de stress pós-traumático de guerra”.

Nos termos deste diploma, o conceito de “deficiente das Forças Armadas” passa a ser alargado ao cidadão português, militar ou ex-militar, que seja “portador de perturbação psicológica crónica resultante da exposição a factores traumáticos de stress durante a vida militar” , quer no teatro de guerra, quer no desempenho de missões humanitárias e de paz ou de acções de cooperação técnico-militar no estrangeiro.

Ao Estado cabe a criação de uma “rede nacional de apoio” às vítimas de stress pós-traumático de guerra, em no âmbito do Serviço Nacional de Saúde e do Sistema de Saúde Militar, em articulação com as organizações não governamentais (ONG). A essa rede incumbe “a informação, identificação e encaminhamento dos casos e a necessária prestação de serviços de apoio médico, psicológico e social”. Essa rede foi entretanto criada pelo D.L. nº 50/2000, de 7 de Abril, vindo a Portaria nº 647/2001, de 28 de Junho, estabelecer os termos do respectivo financiamento. (LG)


Texto do António Santos, com data de 24 de Junho de 2006:


No dia seguinte, começou a sobreposição, que durou uns quinze dias já não recordo bem. Os transmissões e os condutores foram emprestados à CCS do BCAV 3854 para entrar na escala de serviço da mesma, assim como já era feito pelo pelotão que fomos render.

Nós, os transmissões, fomos apresentados ao Alf Mil de Trms, Pinto Ferreira, que foi um excelente chefe: confiava nos seus homens, nunca o vi valer-se dos galões... Eu fui para o posto rádio mexer em aparelhos que na especialidade nunca tinha visto, como o AN-GRC-9, por exemplo: era utilizado quase sempre em grafia, mas também era muito bom para fonia principalmente para ouvir notícias e relatos de futebol.



Guiné > O Rádio AN-GRC-9 Foto: © Afonso Sousa (2005)
Dois ou três dias depois ao chegar ao posto de rádio para mais umas lições, fui enviado para o centro de mensagens, porque o camarada Vasco, que estivera lá, não se adaptou às cifras e códigos... Fui e fiquei até receber o meu pira, sim!.. Dois meses e uma semana depois de acabar a comissão e já depois do 25 de Abril, ainda recebi rendição, exactamente no dia 24 de Julho de 1974 , portanto faz hoje 32 Anos.

A velhice lá partiu de regresso às suas vidas e nós ficámos a contar os dias e a entrar na rotina. Faltava-nos conhecer o mauzão de Nova Lamego, o 2º comandante do BCAV 3854... Tinha que ser de cavalariam, viemos depois a saber o seu nome: Martins Ferreira, de alcunha Hitler... embora o comandante, esse, é que tinha (tem) nome a atirar para o alemão, de seu nome completo António Malta Leuschner Fernandes, Ten-Cor de Cavalaria... Era um tipo completamente diferente, tinha os seus dias mas na maioria deles era bastante calmo... O Hitler berrava com toda a gente, só não berrou com o actual Coronel Marcelino da Mata, mas isso é história para mais tarde.

Após a formatura e o blá blá para os praxados, sempre os mesmos, lá fomos para um palacete com pouco tempo de construção mas vazio, sem camas, situação que se manteve por uns dias. Aí chegados apareceu o bendito do homem encarregue do SPM e aquilo é que foi um distribuir de cartas, acumuladas, situação que nunca mais se repetiu durante os dois anos que se seguiram.

Estava eu de costas viradas para a porta sentado em cima de um dos meus chouriços (saco com parte da mobilia), a ler com sofriguidão as notícias que as primeiras cartas em solo Guinéu me davam conta do meu pessoal em Portugal, que nem prestava atenção às notas de cem escudos que vinham por entre a correspondência e que eu, parvo ou talvez inocente, na resposta dizia que não era preciso enviarem dinheiro porque era tudo muito bom, a comida era do melhor e não nos faltava nada (tenho a certeza que a grande maioria do pessoal dizia o mesmo)... Então não é que acreditaram e muito raramente chegava uma notita!... E a falta que elas vieram a fazer, tanta bazuca que ficou por ser bebida... Pelo que nos tempos que se seguiram quando recebia uma, o Rei fazia anos.

Nisto ouvi uma voz que me pareceu conhecida:
- Está aqui alguém de Lisboa ? - Olhei para trás, porque de Lisboa ou eu ou o Graça, e era o Gregório Gil Gaudêncio, um amigo de alguns anos, que eu nem sabia estar por ali, pertencia à CCAÇ 3565, que foi uma companhia de apaga-fogos, fogueiras e até incêndios, e talvez o maior, em 1973, que foi construir de raíz, do nada, um destacamento em pleno Cantanhez, foi obra.

Acto contínuo grande abraço e convite a largar as cartas, pois tinha muito tempo para as ler, experiência de velhinho com 3 meses daquelas andanças... Lá fomos conhecer os cantos à cidade, leia-se, cafés e afins, beber umas cervejas, estava no início e ainda não era artilheiro com especialidade para bazucas, mas ganhei experiência rapidamente.

Nova Lamego, escrevo sempre assim, porque na época Gabu Sara era a zona administrativa, funcionava como espécie de Distrito, da qual Nova Lamego era a Capital, o administrador era Cabo Verdiano, de seu nome Salomão, embora a região do Gabu, muito mais ampla, já existisse antes dos Portugueses chegarem aquelas paragens, e é o nome actual, como todos sabemos.

Nova Lamego ao tempo era um terra pequena embora fosse considerada como a 3ª mais importante da Guiné, depois de Bissau e Bafatá. Tinha um hospital civil, um cinema, uma cadeia, uma igreja católica, e uma mesquita tudo à dimensão da terra.

Guiné > Zona Leste > Nova Lamego > 1972 > No Cine Gabu, da esquerda o Gregório Gil Gaudêncio, o António e o Graça (mais tarde seu compadre, padrinho do seu filho Pedro).
Guiné > Zona Leste > Cine Gabu > O preço do bilhete de cinema era, na época, de 10 pesos... segundo o António Santos... Tal equivalia a quatro maços de tabaco, de tipo SG Filtro (que custava 2$50 cada maço)...
Foto: © Afonso Sousa (2005).

No entanto em termos militares era o inverso, ao sector L3, estavam atribuídos na época: Caop 2, Pmc, a CCS do BCAV 3854, com as suas 3 Companhias de Cavalaria (3404, 3405 e 3406), a CCAÇ Independente 3565, a CCAÇ5, 1 Pelotão de Obuses, 1 Pelotão de Rec Daimler, 1 Pelotão de Morteiros, 1 Pelotão AAA, 8 Pelotões de Milícias e, em 1973, 3 Pelotões de GE Milícias, estes treinados em NL pelos homens do então Alferes graduado Marcelino da Mata. E mesmo assim os turras escorregavam por entre os dedos do pessoal.

No dia seguinte, no local do quartel novo de NL, lá vou para o reforço, posto de vigilância que ficava no canto direito junto à estrada alcatroada e as moranças a 100 metros ou pouco mais do arame farapado ... Soube mais tarde que foi uma partida do Hitler, ele gostava de pregar cagaços aos piras, mas esta podia ter-lhe saído caro (pelo menos, moralmente), como se verifica mais à frente...
Mas tambem não é menos verdade que quem se lixa é sempre o mexilhão... Eu que não tinha nenhuma experiência de reforços, nunca antes os fizera - idem para os dois camaradas designados para o posto - chegada a hora lá fomos, os três trms, todos porreiros... Digo fomos porque entretanto convenci o Graça a fazermos os dois turnos seguidos, porque ele estava a passar um mau momento psicológico e com a companhia um do outro a coisa passava melhor...

Conversámos durante algum tempo, não me lembro hoje do quê, até que o amigo Graça adormeceu e lá fiquei sozinho a olhar para o arame e para as moranças, não fosse sair de lá algum turra, tudo isto iluminado por holofotes alimentados por um gerador... Junto ao posto tínhamos uma vala e um abrigo com uma Breda, nas paredes da vala estavam embutidos bidões, ou parte deles, com cunhetes de munições, granadas de vários tipos, enfim uma fartura a constratar com a falta de balas de G-3 na viagem de Bissau para NL (1).

No arame farpado havia aqui e além garrafas de cerveja penduradas aos pares, ainda não tinha percebido bem para quê, mas não demorou muito pois um esquilo saltou para o arame, as garrafas tinlitaram, assustei-me, saltei para a vala e agarrei na Breda pois o instinto dizia-me que aquilo não era assunto para a minha G-3... No meio disto tudo tive calma suficiente para tentar perceber o que se passava e acabei por não carregar nos botões da Breda... Mas que esteve quase, esteve!.. E pronto foi... o meu 3º cagaço! (1)

______________

Nota de L.G.:

(1) Vd. posts de:


8 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCXXXIV: Nunca digas jamais (António Santos, Pel Mort 4574/72, Nova Lamego)

29 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCCXI: Os cagaços de um periquito a caminho do Gabu (A. Santos, Pel Mort 4574/72)


24 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P892: Memórias de Nova Lamego com o Pel Mort 4574/72 (A. Santos)

quarta-feira, 28 de Junho de 2006

Guiné 63/74 - P921: A Cripta dos Combatentes no Cemitério do Alto de S. João, Lisboa (José Martins)

Texto do José Martins, extraído do III Capítulo do seu livro Refrega, ainda inédito (2000).

A CRIPTA


Procurando no dicionário a palavra cripta encontrei: CRIPTA, s.f. (gr. Kripte, lat. Crypta); subterrâneo de igreja onde antigamente se enterravam os mortos; caverna subterrânea; catacumba.

Não é que não saiba, de há muito tempo, o seu significado. O que me levou a buscar no dicionário a palavra, é que senti o inverso quando, pela primeira vez, desci à Cripta dos Combatentes instalada na ala ocidental do Cemitério do Alto de S. João, em Lisboa.

Não deixa de ser uma gruta subterrânea, obra da ideia e da mão do homem, para aí depositar os restos mortais dos seus camaradas, que combateram pela Pátria a partir da I Grande Guerra, e foram membros da Liga dos Combatentes.

É um lugar de paz, dentro de outro local de paz.

No exterior, mais não é que um pequeno promontório encimado pela figura majestosa de um militar em sentinela, ladeado por pequenos canteiros que se destinguem dos outros circundantes, pela sua simplicidade. A simplicidade dum cemitério militar.

Na cabeceira de cada canteiro, apenas existe uma lápide encimada pela Cruz de Guerra da Liga dos Combatentes, identificando o nome, patente, teatro de operações em que esteve e data do falecimento do militar, que ali descansa.


Logótipo da Liga dos Combatentes. Foto: Liga dos Combatentes (2006) (com a devida vénia)


Mas estas campas, em formatura, são apenas a antecâmara da cripta, para onde todos serão transladados.

Junto à porta de entrada da cripta, uma lápide recorda João Jayme de Faria Affonso, no XX aniversário da sua morte (30 de Novembro de 1966), e que foi um dos fundadores da Liga dos Combatentes. A porta baixa não nos obriga a baixar a cabeça para que possamos nela entrar, somos nós que, naturalmente, nos curvamos respeitosamente perante o passado que ali vamos encontrar.

Ao descer os primeiros degraus da escada, deparamos com várias lápides evocativas de visitas ou homenagens de nacionais ou estrangeiros, a todos os que ali se encontram, no seu conjunto, ou a alguém, em especial, e que se encontra na cripta.

“AOS MORTOS DA MARINHA MERCANTE NACIONAL
HEROICA E MÁRTIR NOS SACRIFICIOS PELA GREI
10 DE AGOSTO DE 1963”


“SOUVENIR FRANÇAIS
TEMOIGNAGE DE RECONNAISSANCE
AUX ANCIENS COMBATENTS PORTUGAISES
10-NOVEMBRE-1953”

“HOMENAGEM DOS COMBATENTES FRANCESES E INGLESES
AO MAJOR PILOTO AVIADOR ÓSCAR MONTEIRO TORRES
MORTO EM COMBATE NA FRANÇA A 22-11-1917
URNA 5289”

Lá em baixo, apesar de se encontrar dentro da cidade, o silêncio é total. A configuração é de uma camarata onde, arrumada por corredores estreitos e em múltiplos beliches, se encontram dormindo o sono eterno aqueles que, devido à sua condição de combatentes, ganharam o direito de ter ali lugar.

Não há nomes, não há patentes, não há datas, apenas … números. Afinal, na morte, todos somos iguais.

Quem quiser homenagear com a sua visita algum combatente em especial, basta solicitar ao funcionário, através do nome, que após pesquisa num simples mas bem organizado ficheiro lhe indicará o número da urna, assim bem como a sua localização. Na ficha podem encontrar-se alguns elementos de caracter pessoal.

Só quem desce aquele lugar é que sente o peso da história. Sente o pulsar do patriotismo e heroísmo daqueles que, encerrados em pequenas urnas, cerram fileiras como já o haviam feito quando combatiam em França e em África, levantando bem alto o nome de Portugal.

Muitos não repousam neste local. Uns porque ficaram nas trincheiras da Flandres, nas matas africanas ou em cemitérios militares junto dos cenários de guerra (1). Outros ficaram sepultados junto às igrejas das suas terras, que os viram nascer, crescer e partir, e aonde nem todos regressaram.



Guiné > Bissau > 1966 > Cemitério onde ficaram sepultados os primeiros combatentes da guerra colonial. Há placas funerárias de militares de origem metropolitana que vão, pelo menos, até 1968. O estado de abandono do cemitério faz doer o oração, diz-nos o Marques Lopes, que esteve lá recentemente, em Abril de 2006, com o Xico Allen (LG).


Foto: © Virgínio Briote (2005)


Assim como na Batalha, ninguém sabe o nome daqueles que lá repousam, aqui, na Cripta, só os familiares e amigos, já informados, sabem onde encontrar aquele ou aqueles que recordam.

Para os outros que a visitam, aquele lugar, apenas identifica o Marechal Manuel de Oliveira Gomes da Costa, um dos oficiais que comandou tropas expedicionárias em África, Índia e em França durante a Grande Guerra. Foi transladado para aquele local, todo forrado a mármore preto, na data do centenário de seu nascimento (14 de Janeiro de 1863 - 14 de Janeiro de 1963), homenageado pela Liga dos Combatentes.

Este deve ser o local de culto a todos os Combatentes Portugueses, desde a Fundação da Nacionalidade até ao fim dos tempos ...

Para este local deveriam ser transladados os restos mortais de todos aqueles que encontraram a sua última morada nos cemitérios militares ou civis que se encontram nas terras do então Ultramar, e cujas famílias não tiveram a possibilidade de reclamar o seu “regresso a casa”, mas, sobretudo, daqueles que encontraram a sua última morada no próprio local do combate.

José Martins

8 de Setembro de 2000

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Nota de L.G.

(1) Vd. posts de

28 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P920: Os soldados paraquedistas tombados e sepultados em Guidage (José Martins)

28 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P919: Vamos trasladar os restos mortais dos nossos camaradas, enterrados em Guidage, em Maio de 1973 (Manuel Rebocho)

30 de Maio de 2006 > Guiné 63/74 - DCCCXIX: Do Porto a Bissau (23): Os restos mais dolorosos do resto do Império (A. Marques Lopes)

Guiné 63/74 - P920: Os soldados paraquedistas tombados e sepultados em Guidage (José Martins)


Guiné > Guidage > CCAÇ 4150 (1973/74) > Tabancas. Segundo informação do Manuel Rebocho (Sargento-Mor Paraquedista, na Reserva, que esteve em missão na Guiné, de Maio de 1972 a Julho de 1974), morreram 4 soldados paraquedistas, no dia 23 de Maio de 1973, durante a execução da Operação Mamute Doido, junto à tabanca de Cufeu. (... ) "Três destes Soldados [foram] enterrados, tal como um elevado número de Soldados do Exército, junto ao arame farpado, do lado de fora, do Destacamento de Guidage". O Manuel Rebocho tem feito uma campanha a favor da trasladação dos restos mortais dos seus camaradas paraquedistas e dos demais soldados do Exército. Mas até agora em vão (1).

Legenda e foto: © Albano M. Costa (2005)

Texto de José Martins, ex-Furriel Miliciano de Transmissões, CCAÇ 5, Canjadude (1968/70)

Caros Luís (Graça) e Manuel (Rebocho):

Estou inteiramente de acordo (1).Defendo esta ideia, pelo menos, desde 8 de Setembro de 2000, data em que escrevi um texto a propósito da visita que fiz ao Cemitério Militar e Cripta dos Combatentes no Alto de S. João, em Lisboa (2).

Segundo os meus registos, os soldados tombados em Guidage são ANTÓNIO DAS NEVES VITORIANO, JOSÉ DE JESUS LOURENÇO E MANUEL DA SILVA PEIXOTO, mobilizados do RCP [Regimento de Caçadores Paraquedistas] e naturais de Castro Verde, Cadima e Gião, respectivamente.

Vamos em frente! Custa menos trazer os corpos dos nossos camaradas para cá do que saber, através dos jornais, que a sua campa é devassada para utilizarem as pedras tumulares noutros locais.

Um abraço do
José Martins
___________

(1) Vd. post anterior

(2) Texto do livro inédito REFREGA, a inserir oportunamente no nosso blogue (LG)

Guiné 63/74 - P919: Vamos trasladar os restos mortais dos nossos camaradas, enterrados em Guidage, em Maio de 1973 (Manuel Rebocho)



Guiné > O sargento paraquedista Manuel Rebocho (Maio de 1972/Julho de 1974), hoje Sargento-Mor Paraquedista, na Reserva, e doutorado pela Universidade de Évora em Sociologia da Paz e dos Conflitos (tese de doutoramento: "A formação das elites militares portuguesas entre 1900 e 1975").

Fotos: © Manuel Rebocho (2006)


Texto do Manuel Rebocho, Sargento-Mor Pára-Quedista, na Reserva, que foi operacional na Guiné (Maio de 1972/Julho de 1974, hoje doutor por extenso, pela Universidade de Évora, e um dos mais recentes membros da nossa tertúlia. O apelo do Manuel Rebocho merece, desde já, o meu apoio, extensivo - julgo eu - ao resto dos camaradas e amigos da Guiné. Eu ignorava completamente esta situação de abandono, puro e simples, de camaradas mortos em combate!... Só o desnorte do regime político de então e dos responsáveis das suas Forças Armadas é que pode explicar esta situação infamante... Mas para já temos de saber quantos são, quem eram, a que unidade pertenciam, donde eram naturais... É uma boa ocasião para sensibilizar a opinião pública portuguesa para o drama de toda uma geração que fez a guerra colonial e que recusa ser uma geração envergonhada, culpabilizada, esquecida, e menos ainda uma geração de coitadinhos... Reivindicamos o direito à memória e à dignidade (LG)


Meu caro Luís Graça

Embora um pouco demorado e contra o meu habitual, junto te envio as duas fotografias que me solicitaste.

Quanto à tua pergunta, se sou doutorado ou doutorando, digo-te que sou doutorado em Sociologia da Paz e dos Conflitos. A tese que defendi subordinei-a ao tema “A FORMAÇÃO DAS ELITES MILITARES PORTUGUESAS ENTRE 1900 E 1975”.

Aproveito para te agradecer, bem como ao Humberto Reis, a vossa disponibilidade para colocarem, no blogue, a carta militar de Guidage (2). Iguais agradecimentos dirijo ao Albano Costa por me ter enviado a fotografia de Guidage, tirada de satélite.

O meu interesse por Guidage tem fundamentos científicos, na medida em que concluí que as consequências negativas para as nossas tropas, durante os combates que tiveram lugar naquela zona, durante o mês de Maio de 1973, se ficaram a dever a erros grosseiros de planeamento e execução das operações militares.

Objectivamente, a morte dos quatro Soldados Paraquedistas, no dia 23 de Maio, durante a execução da Operação Mamute Doido, junto à tabanca de Cufeu, deveram-se, segundo a minha investigação, a erros que eu não admitia a qualquer dos três cabos da minha Secção. E o pior, e de todo injustificável, é que três destes Soldados forem enterrados, tal como um elevado número de Soldados do Exército, junto ao arame farpado, do lado de fora, do Destacamento de Guidage.

Guiné-Bissau > Região do Cacheu > Novembro de 2000 > A bolanha de Cufeu.
Foto e legenda: © Albano M. Costa (2005)
Tenho procurado apoios para a transladação dos restos mortais destes camaradas (Páras e do Exército), para os cemitérios das suas terras Natal, por considerar inconcebível este abandono, dos corpos de jovens que morreram no cumprimento de obrigações que a Pátria lhe impôs. Apoios que ainda não consegui. Mas também te digo, que não conheço a palavra desistência.

É que, para além de tudo o que se tem dito, sobre as motivações que conduziram ao Golpe Militar de 25 de Abril de 1974, uma coisa ninguém refere, mas eu sei: enquanto decorriam os combates em Guileje/Gadamael e Guidage, (lembro que o abandono de Guileje se verificou no dia 22 de Maio e estes combates em torno de Guidage, de que te estou a falar, decorreram no dia seguinte), Spínola dirigiu uma carta ao Ministro do Ultramar dizendo-lhe que não tinha meios para continuar a Guerra.

Ressalta daqui, e o Investigador não o pode ignorar ou esconder, que os combates de Guileje/Gadamael e Guidage constituíram formas de pressão de Spínola sobre o poder central para negociar a Guerra.

Então, os homens que morreram nestes combates e, sobretudo, os que ali foram enterrados, constituem-se, quanto a mim, como os grandes mártires “por Abril”. Os outros, bem os outros... Esses trataram da vidinha.

Neste sentido, continuarei a trabalhar para que os nossos camaradas tenham uma sepultura condigna. É o mínimo que eu me sinto na obrigação de fazer.

Já agora, se encontrares o Albano Costa, não te esqueças de lhe dizer que no blogue nos tratamos todos por tu.

Um grande abraço do
Manuel Rebocho
__________

Notas de L.G.:

(1) Vd. post de 14 de Junho de 2006 > Guiné 63/74 - P877: Nós, os que não fazemos parte da história oficial desta guerra (Manuel Rebocho)
Meus caros tertulianos

(2) Em 22 de Junho últim, o Manuel Rebocho escreveu a seguinte mensagem para o Humberto Reis:

Meu caro amigo Humberto Reis:

Cumpri uma comissão de serviço como pára-quedista, na Guiné, entre 1972 e 1974. Venho investigando aquela guerra que, se por uma lado foi igual a muitas outras, também é certo que apresenta algumas espeficidades muito particulares e até atípicas.


Venho agora investigando os combates em torno de Guidage, no mês de Maio de 1973. Para este estudo estou a servir-me das cartas militares que estão no nosso blogue, porém, falta uma que é muito importante: a carta que contém a povoação de Guidage,que fica por cima da carta de Binta.

Como me parece que é o meu amigo quem coloca as cartas no blogue, venho pedir-lhe que faça mais um esforço e cologue lá também a já referida carta de Guidage.

Com o abraço bloguistaManuel Rebocho


O Humberto respondeu no dia seguinte (e deu-me conhecimento do teor da resposta):

Amigo Manuel Rebocho:

Aqui no blogue funciona apenas o tu, sem postos nem títulos. Sobre o teu pedido informo-te que não sou eu que insiro o material no blogue, mas sim o Luís Graça, pois eu em termos informáticos sou um aprendiz de principiante. Julgo que num CD que já dei ao Luís, lá está a carta de Guidaje para inserir no blogue, logo que ele tenha disponibilidade para tal. Portanto, em breve o teu pedido vai ser satisfeito. Faz-me lembrar os programas da rádio dos discos pedidos. Qualquer coisa que precises é só pedir, depois logo se vê se pode ser satisfeito, ou não.
Um abraço,

Humberto Reis

Eu, por meu turno prontifiquei-me a arranjar-lhe o mapa de Guidage, com a seguinte nota (27 de Junho de 2006):

(i) Gostava de ter duas fotos tuas: uma dos bons velhos tempos e outra mais recente, para pôr na nossa fotogaleria…

(ii) Depois arranjo-te o mapa de Guidage… O Humberto Reis é que é o patrão… Entrego-mos digitalizados, eu reduzo-lhes a dimensão e ponho-os em linha (‘on line’) nas nossas páginas na Net… É uma tarefa que requer tempo e paciência…

(iii) Há dias escrevi-te o seguinte (no nosso blogue), espero que tenhas lido, já que não me respondeste: “Meu caro Manuel Rebocho: O José Casimiro Carvalho já me tinha falado em ti. Ex-combatente da Guiné e doutorado (ou ainda doutorando ?) em sociologia, estás duplamente em casa, que é como quem diz: deves sentir-te confortável na nossa tertúlia virtual. Como já cá estás dentro, faz o favor de cumprir a praxe: 2 fotos, uma estória... ou as estórias que quiseres, porque o nosso hobby era a blogoterapia... Escrevemos, contamos estórias, mostramos as nossas fotografias, investigamos, apontamos o dedo à muralha de silêncio que se faz à nossa volta, a geração que fez a guerra colonial e que a perdeu (ou talvez não, por que como diz o Leopoldo Amado, a guerra colonial é apenas uma das faces da moeda; poderemos ter perdido a guerra, mas ganhámos a paz, ou pelo menos estamos a tentar conquistá-la)...

Boa saúde, bom trabalho!
Luís Graça

terça-feira, 27 de Junho de 2006

Guiné 63/74 - P918: Operação Tigre Vadio (Março de 1970): uma dramática incursão a Madina/Belel (CAÇ 12, Pel Caç Nat 52 e outras forças) (Luís Graça)

Esboço do Sector L1 / Zona Leste (Bambadinca) > Vd. legenda

Fonte: História da CCAÇ 12: Guiné 69/71. Bambadinca: Companhia de Caçadores nº 12. 1971.

Infografia: © Luís Graça (2005)


Extractos de:

História da CCAÇ. 12: Guiné 1969/71. Bambadinca: Companhia de Caçadores 12. 1971. Capítulo II. 26-28.

Documento policopiado, elaborado pelo ex-furriel miliciano Henriques, com a colaboração e a cumplicidade de muita gente, a começar pelo sargento Piça que me abriu todas as gavetas e dossiês da sua secretaria, posteriormente mandado classificar como reservado pelo comandante da unidade, Capitão Brito, e distribuído, à sua revelia, aos quadros metropolitanos da CCAÇ 12 - alferes, furriéis. sargentos e um ou outro cabo - na véspera da sua rendição individual, em finais de Fevereiro e princípios de Março de 1971...

Não creio que tenha sido nenhum crime de alta traição ou de lesa-pátria, crime cuja autoria, de resto, assumi, publicamente, quando tive o grato prazer de encontar o meu antigo comandante, em Fão, em 1994... Não foi, de resto, nenum acto heróico: o regime de Salazar-Caetano estava já a cair de podre em 1971 e o longo braço da PIDE/DGS já não podia chegar a todo o lado...

Entendi, na altura, que aquele documento, feito com seriedade e até profissionalismo, embora limitado nas suas fontes, pertencia antes de demais aos milicianos e aos soldados do contingente geral que em Maio de 1969 tinham vindo no Niassa, sob o guião da CCAÇ 2590, para dar origem à CCAÇ 12, uma das uniddaes da "nova força africana"... Pertencia a eles e aos nossos 'nharros' que deram o seu melhor na defesa daquilo que eles pensavam ser o seu 'chão', as suas raízes, a sua identidade, os seus interesses, os seus aliados (1)... Infelizmente, poucos sabiam ler português. Hoje estou infinitamente arrependido de não ter deixado uma cópia ao José Carlos Suleimane Baldé.

De qualquer modo, a sua divulgação, ontem como hoje, é - para além de um direito, o direito inalienável à memória individual e colectiva ! - é também uma homenagem a todos os combatentes, de um lado e de outro, incluindo o então capitão Brito, hoje coronel, que era um homem afável e civilizado no trato, um elogio que eu só faria a poucos militares do quadro permanente dos muitos que conheci em quase três anos de tropa e de guerra... A história da unidade foi uma encomenda dele, nas vésperas de ser promovido a major, tendo-me pago com um louvor - incómodo, para mim - dado pelo comandante do BART 2917: contradições que o império tecia!...)
(LG).


(9) Março de 1970: Op Tigre Vadio ou uma operação com sucesso à península de Madina/Belel


Esta foi porventura a mais dramática operação conjunta que a CCAÇ 12 efectuou enquanto esteve de intervenção ao Sector L1, às ordens do Comando do BCAÇ 2852 (2).

A missão confiada às NT era bater a área de Madina/Belel, no regulado do Cuor, a fim de aniquilar as posições IN referenciadas do antecedente e eventualmente capturar a população que nela vivesse.

As informações de que se dispunha era que devia existir 1 bigrupo (3) nesta região, pertencente à base do Enxalé e dispondo de 2 Morteiros 60, 1 Metralhadora Pesada Coryonov, além de armas ligeiras (Metr Degtyarev, Esp Kalashnikov, Pist Metr PPSH, etc). Admitia-se também que este bigrupo estivesse reforçado com 1 grupo de Mort 82, pertencente ao Grupo de Artilharia de Sara-Sarauol [a noroeste de Madina/Belel, vd. carta de Mambonco].

A última operação com forças terrestres realizara-se em Fevereiro de 1969, mas as NT não atingiram o objectivo devido à fuga do prisioneiro-guia e ao accionamento dum engenho explosivo que alertou o IN. Verificar-se-ia ainda vários casos de insolação (Op Anda Cá) (4).

Mais recentemente, forças heli-transportadas destruiram vários acampamentos na área de Mamboncó, reagindo o IN com mort 60 na região de Belel durante a Op Prato Verde(em 5 de Março).

Participaram nesta operação [Op Tigre Vadio] as seguintes forças:

- CCAÇ 2636 (2 Gr Comb) + Pel Caç Nat 52 (Dest A)

- CCAÇ 12 a 3 Gr Comb reforçados (Dest B)

- Pel Caç Nat 54 + 1 Esq Mort 81 / Pel Mort 2106



Guião da CCAÇ 2636 a companhia açoreana a que pertenceu o nosso camarada João Varanda (Có/Pelundo e Teixeira Pinto, 1969/70; Bafatá, Saré Bacar e Pirada, 1970/71).
(5)

Foto: © João Varanda (2005)

Desenrolar da acção:

Em 30 de Março [de 1970], as forças empenhadas na Op Tigre Vadio concentrar-se-iam em Missirá, iniciando às 23h a marcha em direcção ao objectivo. Por falta de trilhos e por dificuldade do terreno, muito arborizado, não foi possível fazer a progressão por itinerários paralelos, como estava inicialmente previsto, pelo que o Dest B teve de seguir na rectaguarda do Dest C.

Sancorlá só foi atingida pelas 2.45h por dificuldades de orientação dos guias, o que ocasionaria, de resto frequentes paragens no decorrer da acção.

Às 4.40h houve uma paragem de meia hora para descanso do pessoal.

Atingir-se-ia Salà às 7h e Queba Jilã às 8h, não se tendo detectado até aqui quaisquer sinais da presença ou passagem do IN e utilizando-se sempre um antigo trilho, muito arborizado dos lados, o que impossibilitava a progresso por colunas paralelas~.

Depois de um novo auto em que se entrou em contacto com o PCV, as NT atingiram o início da península onde depararam, pelas 9h, com uma extensa cortina de fogo, em frente a Madina, pelo que foi necessário pedir ao PCV novas indicações e orientação, uma vez que já não se podia cumprir o plano estabelecido para a batida a desenvolver em linha conjuntamente pelos Dest A e B.

Dada ordem pelo PCV para seguirem na direcção W, torneando a queimada linear feita pelo IN, as NT encontrariam um trilho muito batido no sentido N/S e na direcção de Belel. Seguindo o trilho, iriam detectar por volta das 14h um acampamento IN do lado direito, composto por oito moranças de colmo e 7 de adobo. O Dest A tomou imediatamente posição para o assalto enquanto 1 Gr Comb do Dest B se dispunha de maneira a cortar a retirada ou o eventual afluxo de reforços vindos de Madina e os outros montavam à rectaguarda e à direita a fim de interceptar quaisquer fugas para N.

Desencadeado o assalto com bazuca, foi abatida imediatamente a sentinela e incendiadas as barracas de colmo. Como IN reagisse com RPSH e RPG-2 enquanto iniciava a fuga para NW, foi aberto fogo de armas automáticas, dilagrama e morteiro 60.

O Dest C, instalado na rectaguarda dos grupos de assalto fez fogo cm os dois Mort 81, batendo a mata para onde os elementos IN se refugiaram. Os Gr Comb que montavam segurança à direita, viram aparecer na orla da mata vários grupos fugindo para norte, pelo que imediatamente abriram fogo, tendo uma das granadas caído no meio dum grupo de 3 elementos que não mais foram vistos. Numa rápida batida à orla da mata, encontraram-se muitos rastos de sangue que conduziam à mata onde o IN se internou.

Depois do assalto foram referenciados mais 11 elementos abatidos e nove rastos nítidos de sangue na direcção NW, além de ouvidos gritos de dor nas imediações. Na busca realizada ao acampamento, verificou-se haver numa das barracas a arder 6 armas carbonizadas que pareciam ser Pist Metr PPSH (6). Também foi vista uma bicicleta no meio do incêndio, o que vinha comprovar a utilização por parte do IN daquele meio de transporte e comunicação no “corredor do Oio”.

As 8 casas de colmo arderam completamente, tendo-se depois completado a destruição das 7 casas de adobe, assim como de todos os meios de vida existentes.

Foi impossível recolher ou capturar armamento ou munições pois o fogo ateado desenvolveu-se rapidamente, começando também a mata a arder devido ao vento que soprava.

No assalto ficou ferido o soldado Mauro Balbé (3° Gr Comb da CCAÇ 12), com um tiro no antebraço, além dum outro soldado do Pel Caç Nat 52 com um estilhaço de granada de RPG-2 no peito.

Devido ao ataque de abelhas, muito material e munições (principalmente o que era transportado pelos carregadores) ficaram abandonados, não tendo sido possível a sua recuperação total. Entretanto, não se conseguiu pedir mais evacuações devida à avaria dos micros do único AN/PRC-10 que nessa altura ainda funcionava, nem aliás a DO e o helicóptero com o reabastecimento de água chegariam já a localizar as NT naquele dia.

O Rádio AN_PRC 10
Imagem: © Afonso Sousa (2005) (7)

Os Dests continuaram a progressão a corta-mato em direcção a Enxalé, transportando os feridos em maca e amparando os elementos mais debilitados.

Devido à escuridão e à vegetação densa, os Dests começaram a fraccionar-se, perdendo-se a unidade de comando, enquanto o Pel Caç Nat 52 caminhava na vanguarda orientando-se pela bússola, uma vez que os guias davam provas de não conhecer a zona. A progressão tornava-se, de resto, cada vez mais penosa devido aos crescentes casos de esgotamento físico e psicológico provocado pela marcha quase ininterrupta durante uma noite e um dia, e sobretudo pela desidratação e pelo ataque de abelhas.

Pelas 22h, as várias fracções dos Dests que, embora seguissem trilho feito pelo Gr Comb que ia na frente, não tinham ligação visual ou contacto-rádio, entre si, estacionaram para pernoitar a uns 8 quilómetros do Enxa1é.

Ao amanhecer reiniciou-se a marcha, depois dos 3 Dests se reorganizarem, tendo o grupo da frente atingido o Enxalé por volta das 10h com o auxílio do PCV que orientou o deslocamento. A maior parte do pessoal, porém foi transportado de viatura a partir do cruzamento de São Belchior, depois de se ter dessedentado com água trazida em bidões.
Em resultado da acção das NT, o IN sofreu 15 mortos (entre referenciados e confirmados), 10 feridos confirmados e baixas prováveis, não sendo possível discriminar os elementos combatentes dos elementos pop.
Desta operação o Comando colheu os seguintes ensinamentos:

- A surpresa conseguida deve-se ao facto de se ter atingido o objectivo pelas 14h, hora que o IN abranda a vigilância por que sabe que as NT fazem habitualmente um alto entre as 11h (8). Outra razão foi ter-se convencido que as NT retiravam devido à cortina de fogo que havia lançado ao capim.

-Um ataque de abelhas tem pior consequências que uma flagelação, pois que naquele caso as NT entram em estado de pânico, abandonando armamento e equipamento num instinto de defesa e tornando impossível a manobra de comando.

Transcrição da Mensagem 1404/C do Com-Chefe (Rep Oper):

COM-CHEFE MANIFESTA SEU AGRADO REALIZAÇÃO RESULTADOS OBTIDOS OP TIGRE
VADIO.
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Notas de L.G.

(1) Vd. post de 3 de Maio de 2005 > Guiné 69/71 - XI: O Sector L1 (Xime-Bambadinca-Xitole): Caracterização (2)

(...) "Colaboração dos fulas com as NT

Os fulas, que são a maior etnia do sector, desde o princípio da guerra que se têm mostrado fiéis as NT mas a sua colaboração é profundamente influenciada por vários factores.

Apontam-se como factores positivos: (i) o tradicional respeito dos fulas às nossas autoridades;(ii) a rivalidade existente entre a etnia fula e as restantes etnias da Guiné, especialmente os mandingas e os balantas;(iii) e ainda a hostilidade dos chefes fulas em relação ao PAIGC.

E como factores negativos:(i) a ausência de um sentimento de nacionalidade;(ii) a islamização;(iii) o receio do potencial IN;(iv) e sobretudo o estado de regressão em que a etnia fula se encontra (em virtude da estrutura tribal em que vive, da poligamia e economia de autoconsumo que pratica, da vida contemplativa que adopta, da perda de qualidades de trabalho, etc.).

Mas duma maneira geral a população fula do sector (e em especial a dos regulados de Xime e Badora) tem prestado colaboração activa as NT, aceitando a autodefesa, alistando-se voluntariamente no Exército e nas forças militarizadas, combatendo o IN e resistindo aos seus ataques. Embora não haja uma fronteira étnica definida, o fula mostra grande apego ao seu chão donde não quer ser desenraizado.

(2) vd. post de 29 Junho 2005 > Guiné 69/71 - LXXXVIII: O baptismo de fogo da CCAÇ 12, em farda nº 3, em Madina Xaquili (Julho de 1969)

(3) 1 bigrupo= 50/60 homens. Vd post de 10 de Janeiro de 2006 > Guiné 63/74 - CDXXXVI: Um bigrupo, quantos homens eram ?

(4) O relatório da Op Nada Consta será publicado em breve. Nela participou o nosso camarada Beja Santos, na altura comandante do Pel Caç Nat 52. O seu prisioneiro-guia estava confiado à guarda dos homens desta unidade, destacada em Missirá. Nesta operação realizada em Março de 1970, a Op Tigre Vadio, o comandante das forças terrestrs também foi, prática, o Alf Mil Beja Santos. Esta era, de resto, a sua zona de acção e era de Madina/Belel que, quase sempre, vinham as forças de guerrilha atacar Missirá e outros objectivos das NT...

(5) Vd. posts de:

22 de Outubro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLIII: Notícias da açoreana CCAÇ 2636 (Bafatá, Contuboel, Saré Bacar, Pirada)

19 de Dezembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCCXC: CCAÇ 2636 (Bafatá, 1970/71) (6): Mimos do PAIGC em Mansomine

(6) Mais conhecidas, entre as NT, por costureirinhas.

(7) Vd. post de 2 de Julho de 2005 > Guiné 69/71 - XCIV: Um alfa bravo para os nossos Op TRMS (1)

(8) Vd. post de 14 de Novembro de 2005 > Guiné 63/74 - CCLXXXIX: Op Lança Afiada (IV): O soldado Spínola na margem direita do Rio Corubal

(...) A Op Lança Afiada decorreu durante 11 dias. As temperaturas verificadas neste período foram as seguintes: Máxima à sombra – Entre 39 e 43,6 graus centígrados; Máxima ao sol – Entre 70 e 74,5 graus centígrados. Estes números são elucidativos. Por um lado justificam que um homem necessite muita água (entre 8 a 10 litros por dia). Por outro lado aconselham as NT a deslocarem-se e a actuarem ou de noite ou ao amanhecer. Entre as 11 e as 16h, o melhor é parar, se possível à sombra (...).