domingo, 29 de dezembro de 2013

Guiné 63/74 - P12520: Em busca de... (233): Pessoal do Destacamento Avançado Móvel de Intendência nº 664 (Moçambique, Tete, 1964/66) (António Ferreira Carneiro, o "brasileiro", ex-1º cabo magarefe, DFA, residente em Custoias, Matosinhos, e membro da Tabanca de Candoz)


Moçambique >  Tete > 25 de fevereiro de 1964 > Pessoal do Destacamento Avançado Móvel de Intendência nº 664 (Tete, 1964/66) > Almoço do 25º aniversário do António Carneiro, 1º cabo magarefe, natural de Candoz, Paredes de Viadores, Marco de Canaveses... Este destacamento cheha a Moçambique uns meses antes do inícío oficial da guerra colonial em Moçambique. As primeiras ações armadas da FRELIMO datam de agosto de 1964.

Foto: © António Carneiro / Luís Graça (2013). Todos os direitos reservados.


1. Já aqui falámos do António Carneiro, a propósito da Tabancas de Candoz... É o mano mais velho de seis irmãos, três rapazes e três raparigas, uma das quais a Alice Carneiro, nossa grã-tabanqueira.  Nasceu em 25/2/1939, filho de José Ferreira e Maria Ferreira.  Esteve imigrado no Brasil entre 1957 e 1963, para grande desgosto do seu pai, que era um proprietário rural conceituado na sua terra.  Em 1957, com 18 anos, o António obteve dispensa do serviço militar para se fixar, a título definitivo, no Brasil.  Pagou, em Viseu, no RI 14, duzentos escudos de emolumentos, em selos, pela sua dispensa militar.

Acabou, por acompanhar, em 1963, um tio materno, emigrado, de regresso à terra. No aeroporto, em Lisboa, o seu passaporte leva logo com o carimbo da PIDE. E é notificado de que deverá regularizar de imediato a sua situação militar. Faz a recruta, aos 24 anos, e é de seguida mobilizado para Moçambique.   Viaja no T/T Niassa. Chega a Tete, em janeiro de 1964, integrado numa subunidade de intendência. A sua experiência profissional (era magarefe no Brasil) é devidamente aproveitada pela tropa.

Seis ou sete meses depois de chegar a Tete,  sofreu em julho de 1964 um grave acidente com uma pistola-metralhadora ligeira, uma UZI, disparada acidentalmente por um camarada que acaba de fazer o seu serviço de sentinela...

O 1º cabo Carneiro irá estar  mais de um mês em estado de coma. Só um milagre o salvou. Hoje tem uma enorme cicatriz, um autêntico fecho 'éclair', de alto a abaixo, do peito à barriga... O tiro perfurou-lhe sete órgãos. É um DFA - Deficiente das Forças Armadas (com cerca de 2/3 de incapacidade)... Acabou por ser evacuado para o Hospital Militar Principal, em Lisboa,  em dezembro de 1964... Esteve dois anos em convalescença...

Afetado por um AVC, muito recentemente, está a ser tratado no Hospital militar do Porto. Gostaria muito de poder  identiificar alguns dos camaradas que aparecem aqui nesta foto (*). Não tem contactos de ninguém (**). Pediu-me, encarecidamente, enquanto cunhado, que divulgasse esta foto no nosso blogue, apesar de ele saber que é um blogue exclusivamente dedicado à Guiné e aos camaradas que por lá andaram nos anos de 1961/74...

Por ele, por um camarada como ele que muito sofreu, e que é DFA,  e pela Tabanca de Candoz, anui a editar-lhe este poste, também na esperança de que possa aparecer alguma pista que nos leve a esta rapaziada retratada na foto acima... (Muito provavelmente já nem todos estarão vivos, e a probabilidade de lerem este pedido é muito baixa; mas pode haver algum filho,  neto ou vizinho que nos visite; vamos também divulgar este apelo pelo Facebook da Tabanca Grande).

Já não é o primeiro apelo dele  que aqui publicamos... O António Ferreira Carneiro era na altura conhecido, no seu pelotão,  como o "Brasileiro". Ao todo, o pelotão era constituído por 25 militares, sendo os graduados 2 cabos, 2 furriéis, 1 2º sargento e 1 alferes.

Pelo que o António me informou, o seu pelotão de intendência era comandado pelo alf mil Patrício, e tinha um 2º sargento, o Touguinha,  além de  dois furrieis (um dos quais açoriano) de cujos nomes  já não se lembra.  O outro cabo, além dele, era minhoto: chamavam-lhe o Cabinho... O camarada que está defronte dele, na foto, era um alentejano... de que também não sabe o nome. São quase 50 anos passados...

Uma análise da foto (, digitalizada, a partir de um original de formato reduzido,) mostra-nos doze jovens, em tronco nu, à volta de um mesa comprida, comendo e bebendo. Há, para além de um garrafão, 15 garrafas de cerveja, das grandes, da marca Mac Mahon, uma das bebidas produzidas em Moçambiquem, na época... Também era conhecida pela 2 M.  A marca rival era a Laurentina. (Recorde-se que, em Angola, eram as marcas Cuca e Nogal).


Marco de Canaveses > Paredes de Viadores > Candoz> c. 1966 > O António Carneiro, na ponta esquerda, seguido do 2º sargento Touguinha... Ao centro, o patriarca da família, fazendo as honras à casa.

Foto: © Luís Graça (2013). Todos os direitos reservados.


2. Depois do regresso do António, do Hospital Militar Principal, em Lisboa, a família recebeu a visita de um camarafa do seu destacamento, o 2º Sargento António Teles Touguinha.  Era natural da Póvoa ou de Vila do Conde, não sei ao certo. O Touguinha foi para o António um verdadeiro anjo da guarda e para a família um grande amigo.  Infelizmente, o Touguinha já morreu (, aos 55 anos, em 1992).

Na foto, podemos ver da esquerda para a direita, o António, de cigarro na boca, o Touguinha e a esposa... O dono da casa, o pai Carneiro (sentado, fazendo as honras à casa, com o copo e a caneca de vinho verde tinto na mão), tem por detrás, de pé, a Alice.. Tudo indica que a foto tenha sida tirada no verão, na época das férias. Além disso, o pai Carneiro (1911-1996) estava com os socos com que costumava andar no campo, a regar o milho. A foto deve ter sido tirada com tripé e temporizador.

Ao fim destes anos todos (meio século!), o António ainda hoje procura malta da sua subunidade bem como o médico que o operou em Tete ("Era a maior alegria que me podiam dar, saber do paradeiro dos meus camaradas de Intendência bem como do médico que me salvou").

 Ele vive em Custóias, Matosinhos. Aqui fica o seu nº de telemóvel: 916 511 550, bem como o telefone fixo: 22 953 4610.  Quaisquer boas notícias a este respeito também podem ser encaminhadas para o endereço de email do nosso blogue. As melhoras para o António, e votos de um ano de 2014 cheio de esperança.  (LG)

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Notas do editor:

(*) Último poste da série > 30 de outubro de  2013 > Guiné 63/74 - P12220: Em busca de... (232): Ex-alf mil cav Alexandre Costa Gomes e ex-fur mil cav Manuel Vitoriano, José Soares, Joaquim Manso, José António Barreiros e António Rio, do Pel Rec Fox 2260, Gadamael, 1970/72 (Manuel Vaz, ex-alf mil, CCAÇ 798, Gadamael, 1965/67)


(**) Vd. poste de 24 de julho de 2010 > Guiné 63/74 - P6780: Os nossos seres, saberes e lazeres (23): O Grupo de Bombos 4 Estações, na Tabanca de Candoz (Luís Graça)

3 comentários:

José Marcelino Martins disse...

Vou partilhar nas várias páginas do facebook de combatentes e grupos de combatentes, para uma maior divulgação.

José Marcelino Martins disse...


PÓVOA DE VARZIM – Vila e sede de concelho, distrito do Porto, nas costas do oceano Atlântico. Tem 21.165 habitantes. Caminho-de-ferro. Tem foral dado por D. Dinis. Pescarias, fábricas. É uma das primeiras praias de vilegiatura. Dotada de belas avenidas, bom porto de pesca, piscina, grande estádio, praça de touros, campo de ténis, teatros, cinemas, clubes, bons hotéis e estabelecimentos comerciais. É zona temporária de jogo, possuindo um magnífico casino. Liceu de Eça de Queirós, Museu Etnográfico organizado por A. dos Santos Graça. Misericórdia e Hospital, com asilo anexo. Dispensário antituberculoso. Casa dos Pescadores. Fabricas de cordoaria, fiação e tecidos, conservas de peixe, curtumes, fogos de artificio, etc. Monumento de Eça de Queirós.

1º GRUPO DE COMPANHIAS DE ADMINISTRAÇÃO MILITAR - Os grupos de administração militar, provisoriamente aquartelados na Póvoa de Varzim, tinham sido previstos para serem parte da guarnição do Porto. As instruções para a execução do Decreto nº 29957 de 24 de Outubro de 1939, Ordem do Exército nº 7 de 28 de Outubro de 1939, criam o 1º Grupo de Companhias de Subsistência, na Póvoa de Varzim. Em 1955, pela Portaria nº 15500, Ordem do Exército nº 7, de 25 de Setembro de 1955, é redenominado como 1º Grupo de Companhias de Administração Militar, que vem a ser extinto pelo Decreto-Lei 181/77 de 4 de Maio, Ordem do Exército nº 5 de 31 de Maio de 1977, por ter sido criado, pelo mesmo diploma, o Batalhão de Administração Militar, que vem a ser integrado na Escola Prática de Administração Militar, transferida de Lisboa, pelo despacho nº 72/MDN/93 de 30 de Junho, publicado no Diário da Republica nº 163, 2ª série de 14 de Julho de 1993.

 Aprontou para os Teatros de Operações de Angola, Guiné e Moçambique:
Angola Guiné Moçamb. Soma
Batalhão de Intendência 1 0 0 1
Chefia Serviço de Intendência 0 1 0 1
Companhia de Intendência 15 0 0 15
Depósito Avançados de Víveres 16 0 0 16
Destac. Avanç.Movél de Intendência 0 0 6 6
Destac. de Intendência 39 9 15 63
Destac.Avançados de Intendência 0 0 4 4
Pelotão de Intendência 67 16 39 122
138 26 64 228

Tabanca Grande disse...

Finalmente, ao fim de estes anos todos (oito anos!), aparece um camarada, que vive em Braga, que conseguiu localizar o "brasileiro", o António Ferreira Carneiro, meu cunhado, irmão mais velho da Alice... Esse camarada, que era 1º cabo, foi testeunha do ocorrido, e transmitiu ao António a sua versão dos acontecimentos... Foi uma grande alegria para o António!... LG