terça-feira, 28 de abril de 2015

Guiné 63/74 - P14536: Bibliografia de uma guerra (70): A Mina, do livro "Guerra na Bolanha", de Francisco Henriques da Silva, Âncora Editora, Lisboa, Março de 2015

1. Mensagem do nosso camarada Francisco Henriques da Silva (ex-Alf Mil da CCAÇ 2402/BCAÇ 2851, , Mansabá e Olossato, 1968/70; ex-embaixador na Guiné-Bissau nos anos de 1997 a 1999), com data de 18 de Abril de 2015:

Meu caro Luis Graça e todos os camaradas e amigos desta tertúlia,
Como o prometido é devido, aqui estou a enviar um excerto da minha obra “Guerra na Bolanha - de estudante, a militar e diplomata” (Âncora Editora, Lisboa, Março de 2015).
O episódio aqui relatado consta de páginas 159 a 161 do livro em apreço e é ilustrado com uma fotografia autêntica da época da autoria de Maurício Esparteiro.
Recordo que, em tempos, enviei para o blogue um relato do ataque a Mansabá em 3 de Abril de 1969 que também integra a obra.(*)
O lançamento foi efectuado em 17 de Março em Oeiras, mas será feita uma sessão de apresentação em Lisboa, na Sociedade Histórica da Independência de Portugal em 5 de Maio, pelas 18 horas, para a qual estão todos convidados e de que oportunamente enviarei para estas mesmas páginas um lembrete.

Saudações amigas
Francisco Henriques da Silva
(ex-Alferes miliciano de infantaria da CCaç 2402
e ex-embaixador em Bissau 1997-1999)


A Mina

Um pouco mais adiante, no nosso percurso para Bissorã é detectada uma nova mina e desta feita, coube-me a mim, como especialista em explosivos, levantá-la. Armado apenas com uma faca de mato lá fui desempenhar-me dessa ingrata tarefa, pedindo a todos que se afastassem pelo menos uns 50 metros e se refugiassem por detrás dos troncos das árvores.
À boa maneira lusitana, existia sempre um ou outro mirone, que, apesar dos avisos e das proibições, das ordens berradas pelos furriéis, iam ver as minas e manifestavam muita curiosidade em saber como se desmontavam. A certa altura irritei-me, tive de parar o que estava fazer e pedi ao meu “guarda-costas”, que estava para ali a olhar feito parvo, que se retirasse:
– Mas eu estou aqui para protegê-lo, meu alferes – disse-me ele.
– Oh, homem, não proteges nada! Vamos mas és os dois para o galheiro em menos de dois tempos! Além disso parece-me que esta mina está contra-armadilhada! Isto é perigosíssimo! – retruquei.

O que é que se passa pela nossa cabeça quando estamos a desmontar uma mina com cerca de seis quilos e meio de trotil? Sabemos que qualquer erro seria, como diziam os nossos instrutores em Tancos, o primeiro, o único e o fatal. Nesse momento tudo nos incomoda, as pessoas, o arvoredo, a areia seca do arremedo de estrada em que nos encontramos, os ruídos indefinidos da floresta, as formigas que, indiferentes, passeavam num carreiro ali ao lado; alguém que assobiou lá ao longe, sem qualquer motivo; o fumo de um cigarro que o furriel deitou ali bem perto de nós, há minutos. E depois o que nos passa em flashes sucessivos pela cabeça: os eléctricos amarelos de Lisboa, tão perto do nosso coração e tão longe; a namorada que já não tínhamos, mas que podíamos ter; a última música dos Beatles, que era bem gira; os pais, os irmãos e a avó, com os seus límpidos olhos azuis e o seu ar autoritário; os estudos inacabados; a estupidez incomensurável da guerra naquele país ignorado e que poucos sabiam localizar com exactidão no mapa. Enfim, o que é que, em boa verdade, não nos passa pela cabeça?
Mas, atenção: temos de nos concentrar, o importante é desactivar a mina, tão depressa quanto possível, mas sem grandes pressas. Temos medo? Creio que não. Estamos apenas apreensivos. Como é que isto se define? Não sei. A juventude e alguma inconsciência que a caracteriza acaba com qualquer vislumbre de medo e a prudência não é para aqui chamada. Vamos a isto? Vamos! Mãos à obra.

Olossato - Levantamento de uma mina
Com efeito, ao escavar a terra sob a parte inferior da caixa de madeira da mina anticarro, deparei com algo de estranho, que não sabia exactamente o que era. Parecia-me um arame, junto com um objecto redondo metálico em forma de pastilha. Não percebi muito bem o que era, mas estava desconfiado. Não conseguia, porém, escavar mais, até porque podia desequilibrar a mina e se esta estivesse contra-armadilhada podia dar por terminada a minha comissão na Guiné e começar de imediato outra no Além. Acresce que, à torreira do Sol, estava com as mãos suadas e sujas de terra. Não podia continuar. Lembrei-me de um alferes sapador que, umas semanas antes, lá para o Sul, ao tentar desactivar uma mina, com as mãos suadas, deixou escapar o percutor e ficou feito em carne picada, que, segundo me contaram, mal cabia toda dentro de um quico. Para rematar, com todos os acontecimentos do dia, estava enervado com pequenas coisas e não com a mina propriamente dita ou seria por causa dela? Parei para descansar, beber um gole de água, puxar de um cigarro. Sosseguei. Mas não tinha chegado ao fim das minhas tribulações.

Chamei a minha gente, para conferenciar com os furriéis e um dos condutores.
– Meus amigos, aquela mina deve estar contra-armadilhada e eu receio que não consiga dar conta do recado. Alguém tem sugestões? Podemos rebentá-la no local. É o que se costuma fazer e é uma hipótese a considerar. Mas vamos, antes, tentar retirá-la com o guincho do Unimog. O que é que acham?

À falta de melhor, com uma ou outra hesitação, acabaram todos por concordar. Então expliquei-lhes o que pretendia fazer:
– Como esta coisa pode rebentar imediatamente ou a meio caminho, quando estiver a ser puxada, nunca se sabe, o pessoal vai-se afastar ainda mais. Portanto, recuam todos para uma distância segura. Vamos esticar o cabo até ao limite, depois vamos passá-lo pelo ramo daquela árvore – e apontei com o dedo para uma árvore próxima –, em seguida, vamos prender o gancho às pegas laterais da mina que são de corda. Finalmente, com toda a calma, içamo-la. Quando estiver no ar baixamo-la muito, mas muito, lentamente. – e voltando-me para o condutor – Percebeste? Atenção! Tudo pode acontecer. Deixem-se de brincadeiras! Isto é a sério! Não quero aqui ninguém de ninguém!

Todo o pessoal se abrigou a uma distância razoável do local, internando-se na floresta e escondendo-se atrás das árvores e dos morros de baga-baga. Com esta dispersão, corria-se o risco de sermos emboscados ou de alguém colocar o pé numa mina antipessoal. Porém, não houve nada. Os guerrilheiros assentaram a mina e terão ido à sua vida. Bom, procedemos com o maior cuidado. A mina elevou-se no ar, aí um metro ou um pouco mais. Não aconteceu o que quer que fosse. Depois baixámos o cabo muito devagar até repousar novamente no solo, ao lado do buraco, onde se encontrava previamente. Não estava contra-armadilhada como se temia, mas o inimigo havia deixado uma moeda de 25 tostões metropolitana presa a um clipe grande de escritório (!). Da estupefacção passei ao riso. Mas que ideia aquela! Desarmei, com segurança, a mina e a companhia lá ficou a ganhar 2000 escudos, que era o prémio por mina anticarro detectada e levantada (em geral, 1000 escudos para quem a descobria e outros 1000 para quem a levantava). O dinheiro reverteu, como habitualmente, para o fundo comum.

O resto da estrada foi cuidadosamente picada até ao subsector de Bissorã, cuja tropa, quase toda originária dos Açores, já estava preocupada com a nossa demora e alguns dos graduados, num acto meio-tresloucado foram ter connosco, ao limite da respectiva área, de bicicletas motorizadas!

A loucura não paga imposto.
C’était notre drôle de guerre!
____________

Notas do editor

(*) Vd poste de 7 de novembro de 2014 > Guiné 63/74 - P13858: Memórias de Mansabá (34): As amêndoas da Páscoa de 1969 (Francisco Henriques da Silva)

Último poste da série de 23 de maio de 2013 > Guiné 63/74 - P11616: Bibliografia de uma guerra (69): "Guiné - Terra que aprendemos a amar", mais um livro em sextilhas do nosso camarada Manuel Maia

7 comentários:

Anónimo disse...



Camarada Francisco H. da Silva:

Nesses momentos de concentração necessários a todos os especialistas de minas e armadilhas, não haverá dúvida que a adrenalina sobe em flecha e todos os minutos atingem uma dimensão temporal excessiva pelas memórias e pensamentos que perpassam pelas mentes com tanta velocidade mas apesar disso com tanta nitidez. A sensação é a mesma que experimentamos quando nos encontramos em perigo de morte iminente. Lembro-me de já ter passado por essa experiência, a situação não a consigo recordar.
Há algum tempo o nosso camarada Mário Gaspar, também especialista em minas e armadilhas fez outro relato semelhante no blogue, que também me impressionou muito.
Gostei e gostei que vos tivesseis safado, desse e doutros perigos.

Um abraço

Francisco Baptista

J. Gabriel Sacôto M. Fernandes (Ex ALF. MIL. Guiné 64/66) disse...

Meu caro Francisco da Silva:
Emocionou-me o teu relato do levantamento da mina e só não te mandei parar, porque, estando tu a descrever a acção, certamente ela tinha sido bem sucedida.
A minha forte emoção, deve-se ao facto de ter eu, como comandante de um pelotão em operação de segurança assistido a uma situação semelhante em 1965, na estrada de Catió para Cufar, em que o infortunado furriel Silva, do BC 619, especialista em minas e armadilhas, bem sucedido em acções semelhantes anteriores, ter, subitamente desaparecido numa nuvem de fumo negro.
Malditos e estupidos prémios que tantas vidas, ingloriamente ceifaram.
Um abraço,
João Sacôto
ex Alf. Mil.

Carlos Vinhal disse...

No dia 6 de Outubro de 1970 ouvi o alferes de minas e armadilhas da minha Companhia morrer vítima da explosão de uma mina antipessoal. Minutos depois fui chamado para continuar o trabalho que ele não havia acabado. Nesse momento prometi a mim mesmo nunca tentar sequer levantar alguma.
Em Dezembro de 1971 levantei uma mina anticarro mas recorrendo ao processo de a deslocar com auxílio de uma corda.
Carlos Vinhal
ex-Fur Mil Art MA
CART 2732
Guiné, 1970/72

Luís Graça disse...

"Drôle de guerra, cést ça!"... Não se pode traduzir á letra, que é uma expressão idiomática... Sim, "drôle de guerre", que ironia!... E no final, de levantar a mina e de teres suado as estopinhas, foste beber um copo, que bem merecias!...

Soberba descrição de uma situação-limite como era aquela de detetar e levantar uma mina... Que terror noss inspiravam as minas, A/C e A/P... sei do que falo, porque também caí numa anticarro, aos 20 meses... E vi os seus efeitos desvastadores noutras ocasiões...

Parabéns pela escrita e pelo livro... A título de consolação, somos até agora os combatentes que mais escreveram sobre a sua guerra, na história de Portugal!... Acho que, nesse capítulo, o nosso blogue tem dado uma ajuda...

JD disse...

Olá Camaradas!
Eu também fui a Tancos tirar essa especialidade: "mines and bloody tracks". Recordo ainda a primeira lição administrada e a frase lapidar: "nunca se armem em parvos".
Depois, com o calhamaço daquelas matérias, umas seiscentas páginas, fiz uma selecção informativa.
Levantei as minas que me couberam em sorte, sempre caixotes a/c, mas nunca pus as mãos por baixo, na base do caixote.
É que o disparador automático "rato", funcionava por descompressão, e podia estar assente numa base artificial de areia, deslocável com qualquer deslize de material, e dar-se-ia a descompressão. O que eu fazia, era como referiu o Carlos Vinhal: escavava lateralmente, fazia um laço apertado em redor da mina (a corda e o saco de sapador acompanhavam-me nas colunas), com puxões movimentava a mina... e prontos!
Outro cuidado que às vezes negligenciava, era correr as margens da picada em busca de um qualquer cordão detonante, para além de uma verificação sobre a eventualidade de companhia(s) a/p.
Depois de ter colocado o pessoal a recato (quando na excitação eles obedeciam à instrução de imobilização), a alguns metros de distância e em prevenção de emboscada, dedicava-me às tarefas com a faca de mato, mas tranquilo, pois não estava a correr riscos.
Num episódio da História da C.Caç.2679 é que suei as estopinhas, mas não vou repetir-me. E os prémios foram sempre para o Foxtrot saciar as sedes na cantina, na medida em que, tanto eu, como quem a(s) detectava não andávamos sós e sem protecção. Como diziam os mosqueteiros: todos por um... e com controle de riscos.
Abraços fraternos
JD

JD disse...

A propósito do "rato", uma peça desconhecida para a maioria, informo de que se tratava de uma aplicação perigosa, também para quem a colocava. O "rato" era armado, e não podia movimentar-se, a partir do momento em que a mina era assente.
Talvez por isso, os mofimentos fizeram pouca ou nenhuma utilização dele.
Do que temos tido conhecimento, é de minas armadilhadas, tipo fornilho, comandadas à distância, e deflagradas por dispositivo electrico, ou por cabo detonante. Daí, a importância da verificação das margens das picadas, de que o episódio de Guileje é um bom exemplo de destruição e morte. E foram várias as deflagrações desse tipo.
Abraços fraternos
JD

Francisco Henriques da Silva disse...

Muito obrigado pelos vossos comentários e pelo interesse demonstrado por esta obra que não tem grandes pretensões. Vou enviar mais um um ou dois textos para o blogue. Para além da guerra, propriamente dita, interessou-me, ainda mais, o pós-guerra, isto é como voltámos e como nos integrámos na sociedade portuguesa da época. Esses são os temas que eu entendo deverem ser abordados, com mais insistência, pois para muitos a reintegração e adaptação não se realizaram sem dificuldades, passe o eufemismo.
Abraço a todos
Francisco H. da Silva