quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Guiné 63/74 - P15355: Direito à indignação (13): "Estou a escrever este texto atabalhoado e a sentir raiva pela forma manipuladora da síntese das baixas do meu batalhão" (António Duarte, ex- fur mil, CART 3493 / BART 3873, e CCAÇ 12, 1971/74)

1. Mensagem de António Duarte


[ex-fur mil da CART 3493, a Companhia do BART 3873, que esteve em Mansambo, Fá Mandinga, Cobumba e Bissau, 1972-1974; foi transferido para a CCAC 12 (em novembro de 1972, e onde esteve em rendição individual até março de 1974); economista, bancário reformado, formador, com larga experiência em Angola; foto atual à esquerda].Data: 11 de novembro de 2015 às 18:41



Assunto:  Guiné 63/74 - P15349: História do BART 3873 (Bambadinca, 1972/74) (António Duarte): Parte XXVII: Alguns números sobre a atividade operacional e a ação psicossocial: 32 mortos (IN), 4 prisioneiros, 113 moranças e 8 toneladas de arroz destruidas ao IN; 132 elementos pop recuperados, 1 mesquita e 9 escolas construídas, 4 reordenamentos iniciados, 2 tabancas reocupadas...


Boa noita, Luís

Perguntas-me se o BART 3873 só teve, efetivamente, dois mortos em combate, sendo um deles milícia....

Esta "manipulação" dos números é curiosa. Efetivamente convinha apresentar um baixo número de mortos em combate.

Então vejamos: da CART 3493, que inicialmente esteve em Mansambo e depois foi para Cobumba, situação que melhor conheço, por ser a minha primeira companhia, há quatro baixas.

O alf António Jorge [Cristóvão] Abrantes, deslocado para as companhias africanas, foi nomeado comandante de um pelotão independente. Fruto de uma discussão com um soldado africano,  foi "varrido" com uma rajada de G3. Era de Viseu e filho de um oficial do quadro, suponho oriundo de sargento. Aconteceu em [18 de] setembro de 72.

Em outubro de 73, morrem em Cobumba dois elementos. Um soldado que não me recordo o nome e o furriel Francisco Galiano,  de Évora, vítimas do rebentamento de uma mina anticarro, levantada de manhã e que por acidente rebentou na arrecadação. A versão oficial era que a mina teria dispositivos retardadores. Provavelmente treta. O rebentamento ocorreu porque alguém fez algo que não devia. 

Por último já em janeiro de 74, morre o furriel Manuel João Roque Trindade ,em Bissau, vítima de uma manobra pouca prudente com uma camioneta, por parte de um condutor. Estava a companhia nessa altura a fazer segurança nos arredores de Bissau. Curiosamente foi ele que levantou a mina que estoirou em outubro e matou dois camaradas. Era de operações especiais, do 1º turno de 71, corajoso, generoso e o campeão dos levantamentos de minas (pessoais e anticarro).

Enfim, sabemos que a estatística é uma ciência "elástica" que dá para tudo. O correto era fazer uma síntese,  arrumando as baixas do batalhão com as causas associadas e assim tudo seria mais transparente.

Destas quatro mortes, só uma é por acidente de viação, mas claramente em serviço. 

Por estas e por outras é que se ouvia dizer aos habitantes portugueses das colónias, sobretudo em Angola, que a maior parte dos mortos era por acidente. Parece redutor, mas convinha manter este perfil.

Quanto à companhia que inicialmente foi para o Xime, a CART 3494 (do Jorge Araújo e do Sousa de Castro), tiveram quatro mortos, que me lembre. O furriel Bento, vítima de emboscada em Ponta Coli, em abril de 72 e mais três soldados afogados no Geba, salvo erro em agosto de 72, aparentemente devido a ordens mal dadas pelo comandante da operação. O Araújo sabe bem a história, já que a viveu ao vivo e a cores.

Penso que a companhia do Xitole, a CART 3492,  teria tido também pelo menos um morto, com acidente de arma de fogo, num destacamento numa ponte onde se passava nas colunas ao Xitole/Saltinho [, Ponte dos Fulas]. A confirmar com alguém da companhia.

Quanto a feridos graves, a CART 3493 teve quatro amputações de pé/perna. Um furriel, dois cabos e um soldado. Feridos ligeiros, teve bastantes, devido a minas anticarro, rebentadas sobretudo em Cobumba.

De facto a história só pode ser escrita daqui a mais 50 anos. Estou a escrever este texto atabalhoado e a sentir raiva, pela forma manipuladora, da síntese das baixas de um batalhão. A minha pena é que daqui a 50 anos não estou cá, para finalmente saber a "verdade"... que eu/nós vivi/vivemos.

De facto das baixas que aqui relato, só uma foi diretamente com o fogo do IN. Mas,  e as outras? Morreram a tomar banho na piscina? A praticar desporto?... Se fosse crente diria "Valha-nos Deus". Os políticos são todos muito parecidos, sejam os do tempo do António, sejam os de agora.

É em alturas como esta que vejo uma das grandes utilidades do teu/nosso blogue. Os homens da história vão ter material para trabalhar e encontrar uma das verdades. Qual, não sei. A minha? A tua? A nossa?

Abraços
António Duarte (Cart 3493 e Ccaç 12 dez 71 a jan de 74)




Mapa referente à distribuição geográfica inicial do contingente do BART 3873 (1972/74), na zona leste, setor L1: Bambadinca (comando e CCS), Xime e Enxalé (CART 3494), Mansambo (CART 3493) e Xitole (CART 3492). Detalhe da carta da província da Guiné, escala 1/500 mil (1961)

Infogravura: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2015).

________________

Nota do editor:

Último poste da série > 7 de fevereiro de 2014 > Guiné 63/74 - P12692: Direito à indignação (12): Por favor, respeitem a verdade dos factos... E, sobretudo, respeitem, os mortos e os vivos… de um lado e do outro da guerra! (Ernesto Duarte)

11 comentários:

Anónimo disse...

Camaradas,

Uma palavra inicial de apreço pelo conteúdo do meu/nosso camarada António Duarte que nos vem agora dar mais um valioso contributo no âmbito do quadro historiográfico do BART 3873, adicionando-lhe mais alguns elementos que, embora referentes às suas diversas unidades orgânicas - as CART's - o complementam.

Prometi, como deixei expresso em correio interno, escrever mais dois/três textos sobre a temática apresentada hoje no Blogue.

Ainda assim, acrescento que referente à morte do camarada Manuel João Roque Trindade [ex-furriel Op. Especiais, da CCS] ocorrida no Hospital Militar, em Bissau, verificou-se a 12MAR1974, a três semanas do final da comissão e consequente regresso à Metrópole.

Porque também fui de «Op. Esp.» dou conta que durante o ano de 1974, o último da guerra colonial, para além do camarada Manuel Trindade, morreram mais dois furriéis OE, o Luís Filipe Pinto Soares, a 07JAN1974, em Canquelifá (que era do meu curso) e o Diogo da Conceição Salgueiro, a 25JUL1974, no Hospital Militar de Bissau, depois de ter sido ferido em Teixeira Pinto. Sobre este tema «Militares do C.I.O.E. "Operações Especiais" mortos em combate na Guerra do Ultramar - 1961-1974» vou fazer um post.

Um forte abraço e votos de um bom dia.

Jorge Araújo.

Luís Graça disse...

António:

Percebo a tua indignação. Na minha companhia, a CCAÇ 12, também se chegou a usar o truque de "mascarar" erros ou desastres nossos para "limpar" a honra ou escamotear a responsabilidade de graduados...

Acho que não manipulávamos os números das baixas... Das "nossas" baixas... Era preciso ter lata de mais para esconder mortos e feridos... Já o número das baixas infligidas ao IN (guerrilheiros e elementos pop), aí podia haver podia haver muita fanfarronice e arbitrariedade... Havia a distinção entre baixas (mortos e feridos) "confirmadas" e "estimadas"...

O PAIGC, por seu turno, também usava e abusava dos números... Em qualquer guerra, todos os comandantes querem ficar bem na fotografia... O capitão quer chegar a major, o major a tenente coronel, o tenente coronel a coronel... E havia milicianos também a fazer batota...

Já na contabilidade dos feridos (graves ou ligeiros), podia também haver alguma batota... Por outro lado ainda, havia a tropa de primeira e a de segunda... Um milícia nosso ou do PAIGC não era a mesma coisa para efeitos de contabilidade final...

Mas o problema, em muitos relatórios de operações e histórias de unidades, são as causas das baixas: casos de presumível suicídio e homicídio eram sempre tratados como "acidentes com arma de fogo"... Era preciso salvar a honra e o o moral das tropas...

A doença, por seu turno, não tem nada a ver com a guerra... A doença é sempre "por causas naturais"...

Julgo que os critérios eram ambíguos nos outros casos: o que era um morto ou ferido em combate ?... E os desaparecidos ? E os "retidos" pelo IN ?

Percebe-se que a questão levantada por ti, e já aqui debatida por alguns camaradas, dá "pano para mangas"... Mas temos que ser cautelosos: nada de generalizações abusivas... Como em tudo, houve casos e casos... Ou não ?

Anónimo disse...

Estava legislado que: "Morte em Combate" é a que ocorre por acção directa ou indirecta do inimigo.

Vamos a exemplos concretos:
- acidente de viatura deslocando-se ou não para zona de operações: morte por acidente
- morte ao manipular a arma individual: morte por acidente
- morte ao montar uma mina: morte por acidente
- morte ao levantar mina IN: morte em combate
- afogamento no decurso ou não de uma operação: morte por acidente
- morte provocada por fogo directo ou indirecto IN, independentemente do lugar onde se registou: morte em combate
- morte provocada por fogo amigo reagindo a contacto IN: morte em combate

Mendes

Luís Graça disse...

Já agora, camarada Mendes, qual é o diploma que consagra essa figura jurídica da "morte em combate" (a que ocorre por ação direta e indireta do inimigo). Obrigado pela dica. LG

Luís Graça disse...

Lidávamos mal (e continuamos a lidar mal) com os problemas do foro psíquico... Por exemplo, a depressão, os distúrbios emocionais, o parassuicídio e o suicídio... En contrapartida, tolerávamos as "monumentais" bebedeiras, aquelas de "caixão á cova" que muitos de nós apanharam, pelo menos uma vez!...

O nosso camarada,médico, Ruio Vieira, escreveu aqui o seguinte:

(...) O medo e em alguns a ansiedade permanente levavam por vezes a depressões, quase todas de carácter reactivo, á situação de guerra por que passavam, que se agravava exponencialmente, com mortos e ou feridos como resultado de ataques, com a falta de notícias dos familiares ou dos amigos, doenças e stress por antecipação. O sentido de perigo constante fazia com que entre camaradas a amizade e a solidariedade fossem a melhor terapêutica para um bom equilíbrio emocional, não obstante o stress pós traumático de guerra seja uma realidade. (...)

(...) O suicídio existia como solução final para pôr cobro a todos os problemas que uma guerra de guerrilhas trazia, nos deprimidos, pelo isolamento, pela solidão, pelo temor e medo constante, pela incerteza, pelo reviver de situações de emboscadas, de explosões, de mortos e feridos que com ele conviveram de perto, por exaustão e perda de fé fosse no que fosse.(...)

22 DE OUTUBRO DE 2014

Guiné 63/74 - P13782: Os nossos médicos (84): Memórias do Dr. Rui Vieira Coelho, ex-Alf Mil Médico dos BCAÇ 3872 e 4518 (14): Onde se fala de doenças sexualmente transmissíveis (con destaque para a blenorragia) mas também de perturbações psíquicas como a depressão e o stresse pós-traumático de guerra

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2014/10/guine-6374-p13782-os-nossos-medicos-84.html

Luís Graça disse...

Não gostamos de falar do suicídio e do parassuicídio... Houve casos, já aqui falados... È bom recordar alguns mais antigos... Claro que o Mussá não "morreu em combate"... O "braço do IN" não era assim tão comprido, embora nos "mentideros" de Bissau se jurasse que os gajos do Pilão eram todos "turras"... O Mussá nunca poderia ser considerado como "morto em combate", ou seja por ação direta ou indireta do IN...LG

________________________


23 DE NOVEMBRO DE 2011

Guiné 63/74 - P9084: Se bem me lembro... O baú de memórias do Zé Ferraz (4): Quando os nossos soldados indígenas se suicidavam...

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2011/11/guine-6374-p9084-se-bem-me-lembro-o-bau.html


(...) Já estava no QG, [em Bissau, em meados de 1969,] quando um dia, por volta do almoço, apareceu lá um jeep da PM [ Polícia Militar]. Queriam falar comigo urgentemente (...)

Disse-me um dos PM:
-Meu furriel, precisa de vir connosco ao Pilão porque esta aí um soldado nativo que nos ameaça com a G3, quando queríamos entrar na sua tabanca [, morança]. Diz que só fala consigo...

Lá fomos. Quando chegámos, os PM tinham montado segurança à volta dessa morança e procuraram dissuadir-me de entrar. Gritei para que soldado me ouvissee. Entro pela casa dentro, aí estava o Mussá, que tinha feito operações comigo no Xime, sentado na cama e semideitado contra a parede, fardado, com a G3 ao seu lado e um enorme punhal fula espetado na barriga de que só se via o punho e uma enorme mancha de sangue coagulado e já seco sobre o seu ventre.

Estava vivo... Falámos e consegui convencê-lo, primeiro a dar-me a G3 e depois a ser levado para o hospital militar onde os médicos o salvaram.

Nunca consegui saber as suas reais razões por detrás deste acto. Soube que infelizmente ele viria mais tarde a consumar o suicídio. (...)

José Marcelino Martins disse...

Sobre a guerra, a morte e as suas causas, muito há, ainda, para contar.
Infelizmente.

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas
A História do BArt. 38753, ao qual pertenci, está escrita com certa fantasia. Há várias imprecisões entre as quais a data da minha apresentação no Xime que surge dois meses depois de ser ter efectivado. Não será importante, mas dá uma ideia da "ligeireza" com que foi escrita. Não sei quem "escreveu" a História da Unidade, mas sei que, às vezes, não havia intenção de branquear nada, mas antes o querer despachar "aquele dever" chato e sem interesse. No fundo quem viesse atrás que fechasse a porta que nós embarcamos para a semana. No fundo, que importava se o tipo morreu em combate ou por acidente. Morreu e pronto.
Lembro que a CArt. 3494 teve um morto em combate e três por acidente no Rio Geba. Tenho ideia que ninguém morreu, por doença, mas que houve vários feridos ligeiros na emboscada na Ponta Coli, em ABR72.
Morreu um milícia no Enxalé, em combate, durante um ataque com armas pesadas.
Tivemos uma apresentação/captura de elementos Pop sob controlo do IN. Julgo que foram 8 entre homens e mulheres e todos de uma só vez.
Foi pouco, mas creio que foi a verdade, pelo menos durante o tempo em que por ali andei.
Um Ab.
António J. P. Costa

Anónimo disse...

Vou tentar encontrar a regulamentação que existia para tipificação das mortes no Exército.
Na FAP vigorava outra tipificação: morte em combate, morte em operações e morte por acidente.
Exemplos: morte resultante de queda da aeronave devido a fogo IN: morte em combate
Uma aeronave faz ataque ao solo e despenha-se por erro técnico ou falha da máquina: morte em operações.
Complicado...
Mendes


JC Abreu dos Santos disse...

... citando:
– «Na guerra, a verdade é a primeira vítima.»
(Ésquilo)

E no pós-guerra, a cada qual sua perspectiva.

Cpts,
JCAS

Joe Camara disse...

Caro Luis Graca muito se fala da morte dos nossos conbatentes e as suas cicutancias e em minha
openiao errada como se e clssificado em combate ou em acidente porque ao pissar o terreno eu creio que estou em campaha, nao fui para nehuma colonia de ferias no meu caso, apanhai uma terrivel doenca que quase me costou a vida fui tratado no canada, agora pergunto,em que circustancias eu fui vitima ? no T.O. ou de ferias? se a unica maneira de provar e com rezultados de laboratorios o que e bastante complicado e o Luis sabe disto,rezumindo TODOS os que (MORRERAM,OU FORAM VITIMAS, DE ACIDENTES DOENCAS TROPICAIS FORAM TODOS VITIMAS DO T.O.)portanto estavamos todos em campanha,tinha uma arma e 5 carregadores com 100 municoes
dia e noite estava em guerra qualquer que por varias razoes sofresse um acidente de viatura
ao momtar uma mina,com apropria arma era ou e conssiderado en servico mas se ao levantar a mina era em combate, eu como soldado se fosse escalado para o que fosse andava sempre armado com as( boas estradas e boms comdutores)quando havia um acidente pernas partidas,bracos,etc.etc.mas se fossemos estes casos eram em combate,haja cabeca para entender toda esta estoria por houje e tudo o Luis que desculpe os erros ortografcos mas
e o melhor que sei.a todos um abraco e quando se lembraram que foram vitimas como eu fui
e passar o que ainda houje me atormenta,vamos serrar os dentes e esquecer,conseguir ultapassar tudo e nao pencar o que um dia mas felizmente acordei

Jose Camara