domingo, 8 de novembro de 2015

Guiné 63/74 - P15339: (In)citações (77): "O boato fere como uma lâmina", lia-se em cartazes nos corredores da Máfrica... Qual teriam sido, camaradas, os maiores boatos que ouvimos durante as nossas comissões ? (Vasco Pires, ex-alf mil art, cmdt do 23º Pel Art , Gadamael, 1970/72; bairradino na diáspora lusitana do Brasil desde 1972)

1. Mensagem do nosso camarada Vasco Pires 

[, foto atual, à esquerda do grã-tabanqueiro Vasco Pires, que no passado século, por volta de 1970/72, lá no cu de Judas, na África profunda, em terras de Tombali, num sítio chamado Gadamael,  foi bravo artilheiro, comandante do 23.º Pel Art, numa guerra que já se varrei da memória dos povos;  bairradino até à medula, é outro camarada da diáspora lusitana: vive no Brasil esde 1972]

Data: 13 de outubro de 2015 às 14:41
Assunto: BOATO


Bom dia Luis e Carlos, cordiais saudações.

Tenho acompanhado essas perguntas "online"; sem dúvida estão dinamizando o blog, e, quem sabe, ajudando a afastar o Dr. Alemão.

Tempos atrás, lendo uma matéria, lembrei de cartaz que vi em um dos quartéis por onde passei,  talvez "Máfrica" [, EPI, Mafra]. Dizia: "O boato fere como uma lâmina " (se não falha a memória).
Quantos boatos não passaram na nossa vida militar?

Muitos fabricados pela contra-informacão, outros gerados pelos nossos medos. Logo propagados nos "jornais da caserna".

Aqui fica a minha modesta sugestão para mais uma pergunta "online": Qual o maior boato que ouviste  na tua comissão?

Forte abraço

VP

2. Comentário de LG:

Obrigado, Vasco, pela tua sugestão, para mais vinda do outro lado do Atlântico, o grande oceano que tivemos de domar e vencer para poder chegar ao Índico e criar a autoestrada da globalização... Vencendo mil e um medos, mitos,  lendas, boatos, pragas, perigos...

Sei dúvida que o boato (para mais em, tempo de guerra e de fim de uma época) é tema que se presta a um bom debate... Concordo que o boato (nas nossas organizações, comunidades e sociedades) é uma uma lâmina que fere... Mas é uma lâmina de dois gumes, usada por uns e por outros sobretudo em situações de luta pelo poder, marcadas pela ambiguidade, a incerteza, a conflitualidade...

Mas, tal como formulas a pergunta, não  podemos  pô-la no nosso inquérito "on line"... Por razões técnicas, o nosso servidor, o Blogger, só nos deixa fazer um pergunta de cada vez... E essa pergunta tem de ser fechada, isto é, tem de ser seguida das várias respostas hipotéticas à pergunta...  

Explicando-me melhor: a uma pergunta como a que formulas "Qual o maior boato que ouviste  na tua comissão?", teremos que ter uma meia dúzia (no máximo) de situações ocorridas, no TO da 
Guiné, entre 1961 e 1974, e que poderíamos designar como "grandes boatos"... 

Num período de tempo tão grande (1961-1974), e passado já um meio século, é difícil fazer esse exercício de memória... Mas fica aqui a tua ideia louvável e o teu desafio estimulante... Houve pequenos e grandes  boatos, ao longo da guerra, e sobretudo no início e no fim, afetando o nosso estado de espírito (individual) e por certo o moral da tropa... 1973 (Guidaje, Guileje, Gadamael, assassínio de Amílcal Cabral,  aparecimento do Strela nos céus da Guiné, o medo do MiG, a saída de Spínola, o Marcelo Caetano refém dos "ultras" do regime...) deve ter ido sido um ano fértil em boatos... Mas também o de 1970 (massacre do chão manjaco,  morte - física - de Salazar, invasão de Conacri,...).

Enfim, fica aqui um espaço para a produção de textos sobre o boato "cá e lá", na metrópole e na Guiné!... Venham eles!

Lembrei-me que tenho um texto, com mais de dez anos, sobre "o país-do-diz-que -disse"... Com a amavável complacência dos nossos leitores, volto a reproduzi-lo aqui. Foi publicado originalmente no meu blogue que antes de ser o blogue "Luís Graça & Camaradas da Guiné" (sobretudo a partir da II Série, 1/6/2006), chamava-se simplemente Blogue-Fora-Nada (I Série)... No final, em 31/5/2006 tínhamos um tertúlia com 111 membros... O blogue nesse épcoa apresentava-se assim:

"blogue-fora-nada. homo socius ergo blogus [sum]. homem social logo blogador. em sociobloguês nos entendemos. o port(ug)al dos (por)tugas. a prova dos blogue-fora-nada. a guerra colonial. a guiné. do chacheu ao boe. de bissau a bambadinca. os cacimbados. o geba. o corubal. os rios. o macaréu da nossa revolta. o humor nosso de cada dia nos dai hoje.lá vamos blogando e rindo. e venham mais cinco (camaradas). e vieram tantos que isto se transformou numa caserna. a maior caserna virtual da Net!"


13 FEVEREIRO 2005

Socio(b)logia - XIII: O país-do-diz-que-disse

Não há pachorra!...
Abre-se a televisão
Ou sintoniza-se a rádio
E corre-se um sério risco
De ouvir a mesma notícia
Ad nauseam:
Alguém
(Um candidato a primeiro-ministro,
Um candidato a candidato,
Um amigo do candidato,
Um amigo do amigo do candidato,
O seu assessor de imagem,
O primo da terra,
A ex-amante...)
A dizer que não disse o que disse,
Ou melhor: Não disse, meus senhores,
O que os jornais disseram
Que ele disse
Ou o que o jornalista achava
Que ele deveria dizer.

Este estilo comunicacional
Tem muitos cultores,
E ficou defintivamente consagrado
Com a seráfica Zezinha:
"Você sabe que eu sei
Que você sabe".
Há uma variante tropical
Deste estilo de não-assertividade
Inventada pelos portugas:
"Eu sei que você sabe
Que eu sei que você sabe
Que é difícil de dizer",
Diz a brasileira Marisa Monte,
Na sua canção "Eu sei"...

No país-do-diz-que-disse
Impera a lei da fofoca,
Do boato pidesco,
Da intriga palaciana,
Das bruxas feias e más,
Dos meninos birrentos e queixinhas,
Dos santinhos de pau carunchoso,
Do título de caixa alta,
Da delacção inquisitorial,
Da saloiice do Zé Povinho.
Faz-se do boato notícia,
Da insinuação verdade
E da anedota tese doutoral.

Não tenho pachorra,
Ponto final!
_____________

Nota do editor:

Último poste da série > 1 de agosto de 2015 > Guiné 63/74 - P14955: (In)citações (76): Fiquei chocado com a Guiné que conheci em 17 de Janeiro de 1967 (Mário Vitorino Gaspar)

6 comentários:

Luís Graça disse...

Vasco, tenho ideia que Bissau fervilhava de boatos, mal a gente punha os pés naquela terra verde e rubra, tórrida e húmida, acabados de desembarcar dos T/T Niassas e dos Uíges...

O boato, alimentado pela malta do "ar condicionado", devia ter uma função qualquer: não tanto a de aterrorizar (e pranchar) os "piras", como sobretudo a de !"aclimatizar" os pesadelos de quem vivia no bem bom de Bissau, às portas de Tite e de Nhacra...

Lembro-me de ter escrito, no ainda "Blogue-fora-nada" (que o Carlos Vinhal teve a grande pachorra, paciência e ciência) de exportar, poste a poste, para o nosso atual blogue, "Luís Graça & Camaradas da Guiné":

(...) "Chegam-nos novos documentos sobre o mítico aquartelamento de Guileje que, já no meu tempo (1969/71), na zona leste, era cantado pelos nossos soldados, a par de Gadamael... Contavam-se estórias, reais ou imaginárias, de fé e de coragem, dos nossos camaradas que aguentavam a frente sul... É pena terem-se perdido as letras dessas canções e o teor dos boatos e das notícias que nos chegavam, a Bissau, a Bambadinca, a Bafatá. (...)

14 DE DEZEMBRO DE 2005

Guiné 63/74 - P349: Guileje, terra de fé e de coragem

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2005/12/guine-6374-ccclxvii-guileje-terra-de-fe.html

Luís Graça disse...

Um poste sobre o boato, da autoria de um dos nossos grandes contadores de histórias, o Juvenal Amado (que vai, dentro de dias, lançar um livro seu, com a chancela da Chiado Editora):


7 DE FEVEREIRO DE 2008

Guiné 63/74 - P2510: Estórias do Juvenal Amado (2): O boato: nós, o Sardeira e a Maria Turra (J. Amado, CCS/BCAÇ 3873, Galomaro, 1972/74)

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2008/02/guin-6374-p2509-estrias-avulsas-14-o.html


(...) O bom do Sardeira (...) tinha por missão ir às Duas Fontes (...), local a 6 km do quartel, com o Unimog, mais conhecido por burro do mato, encher o autotanque de água.

E assim durante muito tempo, logo de manhã, com uma Secção de homens armados, lá ia picada fora aproveitando para dar boleia às bajudas (...) que, nisto de andar de carro, estavam sempre prontas.

Iam... e depois vinham.

O meu amigo Sardeira usava uns óculos que mais pareciam o fundo de duas garrafas, tal era a grossura das lentes. Mais tarde, no nosso primeiro almoço de confraternização, passados vinte anos, em Seia, reparei que ele não trazia os famosos óculos. Quando lhe perguntei por eles, com ar maroto respondeu-me que os tinha deitado fora, mal tinha saído do Niassa em Lisboa. Verdade ou não, deixa de ser sempre tema de conversa e brincadeira, entre nós quando nos juntamos. (...)

Mas voltando atrás no tempo, o camarada ia encher o autotanque, duas vezes de manhã e duas vezes de tarde. Assim foram passando os meses e como foram passando, ele foi abrandando o cuidado e, de vez em quando, pegava na viatura e lá ia ele direito às Duas Fontes, sem escolta.

Escusado será dizer que, em situação de guerra de guerrilha, esta atitude era uma tonteira e era assunto de conversa entre nós. Até que ele passou a ir mais vezes sem escolta do que com ela.

Nós, meio a sério meio a brincar, dizíamos:
- Qualquer dia ainda te lixas - e ele respondia a gozar que éramos medricas e que não havia perigo nenhum.

O tempo foi passando. Um dia lá vinha ele a chegar do seu passeio, o Caramba gritou-lhe que ele estava a forçar a sorte. Ele riu-se e disse que não havia azar, ao que o Caramba retorquiu:
- Ah, pois, vai ter com o Narciso das transmissões que ele diz-te o que a Maria Turra (...) disse sobre apanhar o condutor da água de Galomaro à mão!

O Sardeira mudou de cor e num riso um bocado amarelo, ainda disse:
- Estás a gozar!

O Caramba disse muito sério, na sua forma falar de alentejano dos quatro costados:
- Não se está vendo? Andas brincando com a sorte.

Nós entretanto, fartámo-nos de rir, mas a mentira passou a ser uma verdade e nenhum de nós se desmanchou.

A estória correu o quartel e à boa maneira de quem conta um conto, acrescenta um ponto, a peta alastrou.

O que foi certo é que o camarada passou a querer mais segurança e nunca mais lá foi buscar o precioso líquido, sozinho. (...)

Luís Graça disse...

Mais um outro poste, sobre o boato, desta vez da autoria do nosso grã-tabanqueiro António Graça de Abreu:

12 DE FEVEREIRO DE 2012

Guiné 63/74 - P9475: Excertos do Diário de António Graça de Abreu (CAOP1, Canchungo, Mansoa e Cufar, 1972/74) (8): Boatos, em Lisboa, de ameaças de ataques a aviões da TAP... e de bombardeamentos aéreos aos nossos aquartelamentos

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2012/02/guine-6374-p9475-excertos-do-diario-de.html

Luís Graça disse...




Os três crivos da comunicação nas organizações

O Francisco, que trabalha na Pê Jota (vulgo, Judite), foi promovido. Logo na manhã seguinte, para agradar ao seu superior hierárquico, saiu-se com esta:

- Ó Chefe, nem imagina o que me contaram sobre a Adriana! Disseram-me que

ela...

O Chefe, que é fã do blog do JPP [, José Pacheco Pereira], interrompeu-o abruptamente, não o deixando sequer terminar a frase:

- Calma aí, ó Francisco!... Por acaso já confirmaste essas informações ? Usaste os três crivos da comunicação humana ?

- Os três crivos ? Nunca me falaram disso nos cursos de formação por onde tenho passado...

- O primeiro, meu menino, é a VERDADE. Tens a certeza de que o que me ias dizer sobre a Adriana é realmente verdade? Podes jurar pela tua honra ? Olha que a honra de um homem vale mais do que os três vinténs!

- Bem, em boa verdade, só sei o que me contaram ontem à noite num bar do Bairro Alto!

- Então a história está mal contada e não passou pelo primeiro crivo. Passemos agora ao segundo crivo, que é o da CAMARADAGEM... Por acaso gostarias que alguns dos teus colegas da Pê Jota também dissessem de ti, ou da tua mulher, o mesmo que tu me ias contar sobre a Adriana?

- Pensando bem, não, Chefe!...

- Então a tua história também não passou pelo segundo crivo!... Vamos agora ao terceiro, que é o da RELEVÂNCIA. Achas mesmo necessário contar-me esse facto? É relevante para alguma investigação em curso ? É importante para o serviço ? Tem um algum valor acrescentado para todos nós ? Ou é melhor esquecê-lo, sabendo tu e eu que ambos temos mais que fazer nesta casa ?!

- Não, Chefe, tem toda razão, o melhor é mesmo esquecer o assunto. E vamos ao trabalho!, replicou o Francisco, envergonhado com a lição de moral que o Chefe acabava de lhe pregar.

- Pois é, Francisco, as pessoas seriam muito mais felizes e as organizações muito mais eficientes e eficazes se usassem os três crivos nas suas relações e comunicações... Se queres ser um bom profissional nesta casa nunca percas o sentido da justiça e da equidade, e não queiras ser igual a tantos outros, ou seja, medíocre... Sabes porquê ? Há três tipos de pessoas neste mundo: (i) As Pessoas Inteligentes, que falam sobre Ideias; (ii) as Pessoas Banais, que falam sobre Coisas; e, por fim, (iii) as Pessoas Medíocres, que só sabem falar (mal)... dos Outros!


Moral da história: Pensando bem, há uma enorme diferença entre ser chefe e ser líder... O gajo da PJ parece-me mais pertencer a esta última espécie. Foi rapaz para andar nos escoteiros ou Mocidade Portuguesa... Mas será que esta história tem mesmo como mural-ao-fundo a Rua Gomes Freire (a tal que, ainda por cima, ostenta o nome de um grande patriota português)?

09 OUTUBRO 2003

Estórias com mural ao fundo - IX: Os três crivos da comunicação

http://blogueforanada.blogspot.pt/2003/10/estorias-com-mural-ao-fundo-ix-os-tres.html

Vasco Pires disse...

Boa tarde Luis,
Cordiais saudações.
Sera que esse "país do diz que disse",não será filho bastardo (legítimo?) do Santo Ofício?
Forte abraço.
VP

Luís Graça disse...

Eu Sei

Marisa Monte

Um dia eu vou estar a toa
E você vai estar na mira
Eu sei que você sabe
Que eu sei que você sabe
Que é difícil de dizer
O meu coração
É um músculo involuntário
E ele pulsa por você
Um dia eu vou estar contigo
E você vai estar na minha

Enquanto eu vou andando o mundo gira
E nos espera numa boa
Eu sei, eu sei
Eu sei

http://www.fisica.ufmg.br/~nuno/docs/Musica/MMonte/Eu_sei.html