terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Guiné 63/74 - P15581: Agenda cultural (451): Junta de freguesia de Vila Franca de Xira, dias 13 e 20 deste mês, às 21h30, exibição dos filmes "O mal amado" e "Acto dos Feitos da Guiné", respetivamente, de Fernando Matos Silva (que foi fotocine na Guiné em 1969 e em Angola, 1970)




O Mal-Amado (1973) é um filme português, com realização de Fernando Matos Silva, e produção do Centro Português de Cinema, cooperativa que agrupava então uma boa parte dos jovens cineastas do "Novo Cinema". A obra foi proibido na época, e o seu negativo apreendido. O filme só foi estreado em 3 de maio de 1974. A preto e branco, em 35 mm, tem a duração de 97 minutos. Argumento e diálogos: Álvaro Guerra, J. Matos Silva e F. Matos Silva.

O filme é protagonizado por grandes senhores do teatro português, aliás um senhor, João Mota, ator e encenador (que esteve na guerra colonial três anos, em Angola, nos Dembos de 1966 a 1968, como fur mil) e uma senhora, Maria do Céu Guerra...

E o filme tem,  como pano de fundo,  justamente a guerra colonial e as dilacerações provocadas pela guerra na sociedade portuguesa: Com 25 anos, João, o "mal amado", decide abandonar os estudos, pouco antes de ir para a tropa. O pai, Soares, é um  funcionário público zeloso, que sabe mexer os seus cordelinhos no Portugal de então, arranjando ao filho um emprego temporário. Vai trabalhar num escritório, rodeado de  mulheres. A chefe Inês, percebendo que  o João se move num círculo de poder, vais transferir para ele uma paixão frustrada pelo irmão, morto na guerra colonial. Apesar do estatuto social e da sofisticação de Inês, o João tem olhos é para Leonor,  uma colega, uma mulher de perfil mais tradicionalista, com quem começa a namorar. Num acesso de ciúme, Inês acaba por matar João com um tiro de pistola. O filme está classificado como "drama social".  Ver aqui o genérico.



O documentário "Acto dos Feitos da Guiné" É parte de material filmado na Guiné em 1969 e 1970 para um retrato da relação histórica da colonização portuguesa com a compreensão de África. O filme de Fernando Matos Silva tem marcas autobiográficas e conjuga imagens documentais – imagens de guerra, cruas e extremas, a preto e branco – e de ficção – sequências a cor que encenam um “Acto” onde os “feitos” são contados por personagens que representam diretamente voltadas para a câmara. (*)


1. A pedido da  Associação Promotora do Museu do Neo-Realismo,  com sede em Vila Franca de Xira, junto divulgamos este evento cultural à volta do cinema como arte, com a marca de dois homens que passaram pelo TO da Guiné, o realizador (e antigo "fotocine), alentejano, Fernando Matos Silva,  e o escritor, vilafranquense, Álvaro Guerra (Vila Franca de Xira, 1936 - Vila Franca de Xira, 2002):

Junta de Freguesia de Vila Franca de Xira, às 21h30:

13/1/2015 - Exibição do filme de ficção "O Mal Amado" (Portugal, 1973,  97 min) (argumento e diálogos: Álvaro Guerra, J, Matos Silva e F. Matos Silva)

20/1/2015 - Exibição do documentário "Acto dos Feitos da Guiné"  (Portugal, 1988, 85 min) (argumento: Margarida Gouveia Fernandes e Fernando Matos Silva)

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Nota do editor:

(*) Vd. último poste da série > 4 de janeiro de 2016 > Guiné 63/74 - P15574: Agenda cultural (450): "Acto dos Feitos da Guiné", filme de Fernando Matos Silva (Portugal, 1980, 85 min): exibição na Cinemateca, Lisboa, 3ª feira, dia 5, às 18h30. Sessão apresentada por Catarina Laranjeiro, seguida de debate com o autor (que foi realizador militar, Guiné, 1969, e Angola, 1970)

6 comentários:

Luís Graça disse...

Tinha um convite da Catarina Laranjeiro para ir ver o filme na Cinemateca e fui, ontem, mas devo dizer que o documentário do F. Matos Silva dececionou-me, ou melhor, não me entusiasmou... A mim e ao João Sacôto, que representávamos o blogue... Não sei se havia na sala mais alhum antigo combatente, para além do realizador do filme (que era fotocine, em 1969, e que diz que percorreu boa parte da Guiné, indo inclsuive a Buba).

Fiz uma intervenção no fim, para dizer isso mesmo ao realizador... As imagens de guerra que ele utiliza, não são dele mas dos franceses (a equipa da ORTF, que captou a emboscada no sector de Bula, em 1969, Op Ostra Amarga) e do realizador sueco Lennart Malmer (que documentou a cerimónia da proclamação da independência da Guiné-Bissau em 24 de setembro de 1973)...

O documentário do FMS tem o mérito de vir contra a corrente; depois do 25 de abril, ninguém queria ouvir falar da guerra colonial!, muito menos a malta do Grupo dos Nove, que saiu reforçada com o 25 de novembro de 1975 e que estava no conselho da revolução... Por isso o filme passou despercebido: apareceu em má altura, ia contra a corrente... Por outro aldo, o golpe de estado do 'Nino' Vieira em 1980 foi um terr+ivel balde de água fria para os amigos e admiradores do PAIGC...

Comecei a escrever coisas sobre a guerra colonial no "Jornal", nessa época (1980), numa iniciativa do Afonso Praça... Eu e outros antigos combatentes.. A malta começou a "exorcizar os fantasmas da guerra colonial" (a frase era minha). Passadas umas largas semanas houve pressões do Grupo dos Nove para acabar com o dossiê "Memórias da Guerra Colonial"... Foi o que Afonso Praça mo garantiu. Infelizmente ele já não está entre nós... Deu-lhe material (fotos, cartazes, etc.) para se fazer uma exposição que nunca viria a realizar-se. Também ele foi combatente, em Angola, recorde-se... O "Jornal" estava próximo do grupos do Nove e cedeu ás pressões, dizem, do Costa Gomes...

O filme do FMS foi filmado no Alentejo e em Bolama, é uma mistura teatro, cinema de ficão e documentário... Mas do "fotocine" FMS temos pouca coisa... Refiro-me a cenas de guerra... Ele disse-me que os chefões não estavam interessados em filmar a guerra, a não ser algunas cenas para efeitos de propaganda na retaguarda (as LFG, da marinha, por exemplo, a "varrer" as margens dos rios, e os fuzlleiros nos zebros em alta velocidade!)...

Além disso, o FMS pôe o Amilcar Cabral a falar em francês, sem legendas em português... Eu disse-lhe que era um insulto à memória do português Amílcar Cabral!... Por outro lado, ele integra no filme o material dos outros, sem qualquer contextualização, e sem referir no fim esses créditos, o que me parece ética e deontologicamente reprovável... Quem não conhecer esse material, julga que é do realizador!....

Enfim, é um documentário datado, o que não lhe tira alguns méritos... Não o vi na época... Hoje já não tem a memsa "novidade"... Faz uma leitura redutora, ideológica, estereotipada da história da nossa presença na Guiné e sobretudo da guerra colonial (que foi também uma "guerra civil", com, guineenses a combater em lados diferentes)... Não é decididamente a história que vamos contar aos nossos netos...

Luís Graça disse...

Para o João Sacôto que não conhecia o vídeo da ORTF (televisão francesa):

Vou pôr aqui o link para ele poder consultar:

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2007/12/guin-6374-p3333-op-ostra-amarga-ou-op.html

Disse ao Virgínio Briote, em email:

O vídeo, disponível em www.ina.fr, tu conhece-lo bem, compraste inclusive os direitos de "téléchargemenmt" para visualização no nosso blogue, e conseguiste apanhar a Geneviève Chauvel, a perturbante repórter do Paris-Mach , que tinha feito a cobertura de várias guerras mas nunca tinha vista nada parecido...

Recordo o que na altura escrevi, na introdução a esse poste do Virgínio Briote:

15 DE DEZEMBRO DE 2007
Guiné 63/74 - P2351: Vídeos da Guerra (6): Uma Huître Amère para a jornalista francesa Geneviève Chauvel (Virgínio Briote / Luís Graça)

http://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2007/12/guin-6374-p3333-op-ostra-amarga-ou-op.html


A jornalista francesa (hoje, escritora, autora de romances históricos) Geneviève Chauvel terá sido uma das raras mulheres, jornalistas, estrangeiras, a testemunhar uma cena de combate no TO da Guiné, no período da guerra colonial, embebed (como se diz agora, depois da guerra do Iraque) numa unidade das NT...

Na sequência de contactos com o actual Coronel, na reforma, Sentieiro , o nosso co-editor, o ex-comando Virgínio Briote, localizou, na Internet, a bela e misteriosa jornalista francesa e tem-se correspondido com ela...

Hoje damos conta desse aventura... à procura do tempo perdido... Nas fotos, acima, a Madame Geneviève Chauvel (e não Chaubel, como erradamente procurámos na Net...), tal como pode ser vista na sua página pessoal...

Como editor do blogue, manifesto aqui publicamente o meu apreço pelas diligências feitas pelo VB, a sua persistência, a sua inteligência emocional, a capacidade de utilização da sua rede de contactos sociais (ou não tivesse sido ele um homem do marketing farmacêutico, a par de um andarilho da Guiné)...

E já agora, uma última curiosidade, talvez um pouco mórbida, ou roçando mesmo o mau gosto: será que em Bula ou em Bissau alguém se lembrou de traduzir, para a nossa amiga Geneviève, o nome da operação em que ela participou ? Ostra amarga, "huître amère"... com mais o irónico pormenor de, em França, em Paris, as ostras portuguesas, até aos anos sessenta/setenta serem conhecidas simplesmente como "les portugaises": eram as melhores do mundo, para o exigente palato do parisiense...

Esta, na Guiné, foi mesmo uma ostra amarga para todos... Coincidência ou não, na mesma altura, ao virar da década de 1960, a portuguesa desaparecia dos viveiros dos ostreicultores de França e da mesa dos consumidores franceses, devido a uma estranha doença: (...) Portugaise ('crassostrea angulata') : Espèce d'huîtres creuses introduite dans le Bassin d'Arcachon au milieu du 19ème siècle. Les huîtres portugaises disparurent du Bassin au début des années 1970 à la suite d'une maladie ...(LG)....

J. Gabriel Sacôto M. Fernandes (Ex ALF. MIL. Guiné 64/66) disse...

Também vi o documentário e como o Luiz Graça, também não gostei, digo mais, senti-me ridicularizado como soldado Português que fui e não renego. O nosso país, a sua História e os nossos antepassados são muito mal tratados (até parece um acto masoquista).
Com receio da subida da minha tenção arterial, saí logo que a projecção terminou, desculpa Luis e obrigado pela companhia.
Um abraço de camarada,
JS

J. Gabriel Sacôto M. Fernandes (Ex ALF. MIL. Guiné 64/66) disse...

Obrigado Luis pelo link para o vídeo da ORTF.
JS

Antº Rosinha disse...

São as tais Guerras dos "JOAQUINS FURTADOS" da vida, que eu, eu, exclusivamente alcunho, temos que ouvir e assistir até morrermos.

Como a "luta continua", o Luís Graça, e os editores não podem desistir com estas pequenas desilusões.

Carlos Esteves Vinhal disse...

Não vi o documentário, logo não quero e não posso fazer juízos de valor, mas tenho para mim que há uma faixa etária, mercê de alguma formatação ideológica e por não ter participado na guerra, que acha que tem direito a julgar a nossa geração à luz daquilo que apreendeu no pós 25 de Abril. Nada mais errado. Fazer história não é julgar nem rotular. Houve outro tempo e outro regime, que não este mais arejado, que sustentava um império multicultural, multirracial, e até multicontinental, para o qual não tinha arte nem engenho para manter. Daí a guerra, mais que justa para os movimentos independentistas.
Os combatentes do ultramar não são a escória da sociedade actual nem as cinzas de um regime totalitário, somos cidadãos com plenos direitos, dignos do nosso passado e do nosso presente.
Carlos Vinhal
Ex-Fur Mil
CART 2732
Guiné - 1970/72