sábado, 9 de janeiro de 2016

Guiné 63/74 - P15598: Estórias cabralianas (91): Alfero Obstetra, mas também Dentista de Balantas... (Jorge Cabral)

Foto: © Jorge Cabral (2008).

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1. Mais uma "estória do alfero Cabral" que nos chegou hoje:


Alfero Obstetra, mas também Dentista de Balantas... 

por Jorge Cabral 

[, foto à direita, em Lisboa, na Sociedade de Geografia em 2008; ex-alf mil, cmdt, Pel Caç Nat 63, Fá Mandinga e Missirá, 1969/71]


Numa noite, aí pelas três horas, fui acordado pelas Mulheres Grandes, que me pediram para levar
uma parturiente a Bambadinca.

Embora a bolanha de Finete estivesse transitável, seria impossível atravessar o rio, acordando o barqueiro. Claro que os partos eram assunto de mulheres e foi com muita relutância que me deixaram observar a situação.  Não só observei, como colaborei activamente no nascimento de uma menina.

A partir de então fui várias vezes chamado a intervir e sempre com sucesso. Não sei como esta minha competência foi conhecida aqui em Portugal, o certo é que há uns anos fui convidado para ser padrinho da Confraria das Parteiras. Convite que aceitei com muita honra.

Foto ©: Jorge Cabral (2016).
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Em Missirá exerci outras especialidades e até fui dentista... Quando cheguei ao Pelotão, existiam quase todas as etnias, Bijagós, Beafadas, Mandingas,  Papéis, Manjacos e um Balanta, além dos Fulas. Pouco a pouco foram transferindo os não Fulas, mas esqueceram-se do Albino, o Balanta.

Desarranchado com todos os Africanos, comia sempre sozinho, mas de vez em quando  apareciam os seus amigos de Fá Balanta e faziam grandes patuscadas...

Um dia surgiu um deles, com um queixal inflamado e o enfermeiro Pastilhas não sabia tratá-lo. Como habitualmente, recorreu ao Alfero. Pedi ao Albino que fosse buscar um alicate ao mecânico Pechincha e também uma garrafa de Constantino. O doente emborcou dois copázios e depois com toda a minha força extraí uma enorme dentola...

Nunca mais houve patuscada dos amigos do Albino, sem aparecer um paciente dentário. Creio que ele partilhava da anestesia.

Finalmente o Albino foi transferido e a minha auspiciosa carreira terminou... Não sei se há Confraria dos Dentistas... Ninguém me convidou... Nem dos Anestesistas...                                                                            

Jorge Cabral
__________

Nota do editor:

Último poste da série > 22 de dezenbro de 2015 > Guiné 63/74 - P15526: Estórias cabralianas (90): A Pátria é um Natal, e o Natal é uma Pátria (Jorge Cabral)

(...) Foi no dia 25 de Dezembro de 1970.

Talvez porque o Spinola nos havia visitado há pouco,  o Sitafá, o puto que vivia connosco, interrogou-me:
– Alfero, o que é a Pátria? (...) 

4 comentários:

Luís Graça disse...

Cabral, rápidas melhoras em relação do problema de saúde que te incomoda...

Mais uma estória adorável... Mas é bom lembrar que o primeiro europeu que quis assistir a um parto, movido pela legítima curiosidade científica, foi um médico alemão, em 1520, em Hamburgo, se não erro.... Disfarçou-se de mulher, acabou na fogueira...

LG

António José Pereira da Costa disse...

Olá Camaradas
Era por estas e por outras pelas quais passávamos que regressávamos "velhos" do "Ultramar".
E isto não se aprendia nos COM, CSM, nas recrutas ou especialidades ou na EPI(s), EPA(s) ou outra similares. E só tínhamos vinte e poucos.
Terá sido este um dos aspectos "positivos" da nossa passagem por África.
Se duvidam, comparem a vossa mentalidade aos 25 anos com a dos homens e mulheres da mesma idade, de hoje.
Se é bom ou mau, não sei dizer, mas, por mim acho que é muito bom.
Amadurecer e ter uma visão mais combativa por iluminada pela experiência de vida.
O resto é publicidade e manipulação.
Um Ab.
António J. P. Costa

Hélder Valério disse...

Sim senhor, gostei!

E, já agora, partilho do comentário de António JP Costa, pois realmente estes aspectos, estas situações, passaram-se quando tínhamos, na generalidade, menos que os 25 anos que são indicados e isso "hoje" faz, também na generalidade, uma enorme diferença.
Também não valorizo se bem ou mal, mas lá que o nosso 'crescimento' foi acelerado, isso foi!

"Alfero", com que então também 'parteiro'? E dentista? E, já agora, que mais? que mais?

Abraço
Hélder S.

Luís Graça disse...

Esta situação não é inédita... Vários de nós, militares desatacados na Guiné, nas mais diversas situações, fomos obrigados a prestar "primeiros socorros" ou "cuidados de emergência médica pré-hospitalar", nomeadamente a civis, sem para isso termos a devida preparação e competência... A máquina de fazer soldados não tinha tempo para nada, muito menos para nos preparar para uma guerra de antiguerrilha...

As situações mais frequentes passavam-se tabancas em autodefesa, onde estávamos temporariamente destacados (uma semana, duas...), ou de passagem, ou de visita, e onde não podíamos contar com o apio dos serviços de médico (oficial médico, 1 por batalhão; fur m,il enfermeiro, 1 por companhia)...

O facto de haver tropa branca, ou um graduado branco no meio de tropa africana, era suficiente para as populações se sentirem à vontade para nos pedir ajuda... As necessidades e carências eram de toda a ordem, do simples curativo à doença diarreica... Havia sempre pelo menos uma caixa de primeiros socorros. E às vezes, com sorte, um 1º cabo auxiliar de enfermagem...

Lembro que, quando ainda era "periquito", em Contuboel, por volta de junho de 1969, quando estávamos a dar instrução de especialidade aos nossos soldados africanos (que passaram a integrar a CCAÇ 2590/CCAÇ 12) ter ido a uma "ponta" comprar bananas e abacaxis... O homen, alteirão, que ia à minha frente, de cabelo rapado, pisou uma "cobra verde" (um víbora venenosa!)... Caiu logo para o lado!... Fiquei atarantado, como imaginam... Levámo-lo para uma morança e alguém se lembrou de, a sangue frio, lancetar a parte da palma do pé mordida e "chupar o veneno"... Lembro-me que se usou a ponta de uma faca de mato, desinfetado a fogo... E foi preciso descobrir alguém sem dentes cariados, para chupar o sangue e o veneno... A verdade é que o homem se safou...

A Guiné também, nesse aspeto e no relacionamento com gentes tão diferentes (pela cultura, língua, religião, hábitos...) foi uma verdadeira "lição de vida"...

Nunca apanhei nenhum parto, mas sei que o Humberto Reis teve que "aparar" uma criancinha em pleno voo, numa boleia para Bissau, de helicóptero... Ele adorava as boleias de "heli", mas tinha que gramar a companhia de uma grávida ou de um doente... Também ele foi parteiro à força... LG

10 de janeiro de 2016 às 07:20 Eliminar