domingo, 3 de janeiro de 2016

Guiné 63/74 - P15569: Historiografia da presença portuguesa em África (68): As colónias portuguesas: a província da Guiné, vista em 1884, em livro da biblioteca do povo e das escolas (Lisboa, David Corazzi, Lisboa, 2ª ed.) - II (e última) parte (António J. Pereira da Costa, cor art ref)


Capa do livro "As colónias portuguesas", 2ª ed. Lisboa: David Corazzi, 1884, 63 pp., (Col "Biblioteca do povo e das escolas", 25)

[Sobre a casa editora David Corazzi, ler aqui: tratou-se de uma caso de grande sucesso,. no mercado livreiro de Portugal e do Brasil; A coleção "Biblioteca do Povo e das Escolas" totalizou 237 livros, publicados durante 42 anos, entre 1881 e 1913.  "Os volumes eram publicados quinzenalmente, nos dias 10 e 25 de cada mês, cada um com rigorosas 64 páginas, em formato de 15,5 X 10 centímetros , de composição cheia. A edição dos dois primeiros volumes foi de 6 mil exemplares cada. A partir do terceiro volume começaram a ser impressos 12 mil exemplares de cada vez. A tiragem subiu para 15 mil exemplares a partir do volume 10. A cada seis volumes, os livros recebiam uma única encadernação de capa dura, constituindo uma série. Ao longo dos 42 anos em que a coleção circulou, foram encadernadas 29 séries."]









pp. 26-30



O rei dom Luís I, de Portugal (1885). Fotografia de Augusto Bobone. 
Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda. Imagem do domínio público. Cortesia de


Comentário dos editores: É espantoso que, antes da separação (administrativa) da Guiné e de Cabo Verde, em 1879, o recenseamento da população guineense, que estava debaixo da bandeira portuguesa, fosse exatamente de 6154 habitantes, distribuídos por 1386 fogos, circunscritos a Bolama, Bissau e Cacheu... Estes números dão-nos uma ideia do "raio de ação" da soberania portuguesa no tempo da Monarquia Constitucional.  Em 1879 era rei Dom Luís I... E o primeiro governador da província portuguesa da Guiné era Pedro Inácio Gouveia (1881-1884), um homem belicoso, conhecido por "frasquinho do veneno"...

Dos povos da Guiné, há um destaque para os mandingas, "os mais civilizados, industriosos e ativos dos povos de África" e, para mais, "alegres, dóceis e amigos dos europeus" (sic)... Reconhece-se que a província está atrasada em muitos aspetos a começar pela "instrução pública": na época só havia 7 (sete) escolas primárias, todas para rapazes, obviamente... Indústria colonial não havia e a pouca agricultura que existia estava nas mãos dos caboverdianos...

O orçamento da província era deficitário, sendo a principal receita a provenientes dos direitos alfandegários... O défice orçamental era suprido por "subsídios da metrópole" (sic)... Não se fala de "imposto de palhota", mas de "contribuição predial"... Findo o "odioso" (sic) comércio de escravos, que alimentou "grandes fortunas", o principal produto de exportação, no ano econonómico de 1877/78, era já a mancarra (40 milhões de litros)... As principais casas comerciais eram... francesas, e Marselha o principal porto europeu para os produtos provenientes da (e destinados à) Guiné... Havia um vapor, da carreira da África ocidental,  que escalava todos os meses  Bolama...

O tom do livrinho era de otimismo em relação ao futuro do território, na  condição de "continuar a reinar a paz com os gentios"... Falsa ilusão: a chamadas "campanhas de pacificação" já estavam em marcham, desde 1882 e iriam até meados dos anos 30 do séc. XX com o objetivo de assegurar a ocupação efetiva do território... (LG).


1. Continuação da publicação dos excertos da obra "As colónias portuguesas" (Lisboa, 2ª edição. 1884) enviados em suporte digital, pelo nosso camarada António J. Pereira da Costa 

[,cor art ref, ex-alf art na CART 1692/BART 1914, Cacine, 1968/69; ex-cap art e cmdt das CART 3494/BART 3873, Xime e Mansambo, e CART 3567,Mansabá, 1972/74]... 

II (e última parte) (**)


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Nota do editor:

2 comentários:

Antº Rosinha disse...

Este livro é verdadeiramente um achado para este blog.

Para compreendermos bem o que este livro representa para a nossa Guerra do Ultramar, temos que olhar para a data do livro, 1884.

Ora se foi em 1880 a celebérrima "conferência de Berlim" que divide em fatias toda a África entre a França, Espanha, Portugal, Inglaterra, França e Bélgica, isso quer dizer que tinha iniciado a tal "pacificação" de todos os africanos do Cairo à Cidade do Cabo.

Ora se ainda demoraram vários anos a materializar a geografia com marcos todas aquelas fronteiras, imagine-se em mais de 70 países, milhões de africanos em 2 geraçãoes, saberem onde se encontrava o seu país, se ainda não havia GPS.

De 1980 a 1960 são 80 anos, pois a fronteira de Cabinda ainda em 1960 (independências subsarianas) não estava completamente definida entra Portugal, França e Bélgica.

E a Guiné-Bissau, ainda após essa data 1984, ainda andou com trocas e baldrocas com o Senegal e a Guiné Conacry.

Os mapas por fotogrametria (fotografia aérea) apenas se vulgarizou já nos anos 50, após a II guerra mundial.

Como foi possível obrigar tantos milhões de africanos a respeitarem umas bandeiras distribuídas conforme saiam da gaveta, numas fronteiras que pouca gente conhecia?

Enfim, «tudo se cria» mas está «sobrando» para todos.





António José Pereira da Costa disse...

Olá Camarada
Tens razão! Mas a questão das fronteiras e do como a África foi dividida (com a faca de matar o porco) é o coroar do processo colonialista e nunca colonizador que vinha desde a descoberta. E esse será o pior. No fundo, para quê consultar ou entrar em linha de conta com o sentir e ser de populações atrasadas e não susceptíveis de ser incluídas na ordem internacional moderna?
O tom optimista com a descrição é feita torna o documento muito verdadeiro e credível, sendo de excluir qualquer tentativa de denegrir ali se passava.
A principal característica deste género de documentos e mostrar-nos, nas entrelinhas e às vezes não só, o que por ali sucedia. Durante mais de cem anos sabia-se que as coisas não estavam bem e que estávamos fumando tranquilamente, sentados num barril de pólvora.
Varria-se para baixo do capacho. Depois, quando a revolta surgiu já nada havia a fazer.
A mim, o que mais me frustra é que as coisas não melhoraram como fim do colonialismo e os dirigentes, especialmente os "Históricos", hoje vêm dizer que não era "isto" que queriam.
Eles que queriam "tomar o destino nas suas próprias mãos" ou não se aplicaram a fundo ou não tinham competência e nesse caso não deveriam ter-se "estabelecido".
O pior é chegarmos à conclusão de que tudo não passou de um equívoco.
Um Ab.
António J. P. Costa