terça-feira, 21 de junho de 2016

Guiné 63/74 - P16222: Álbum fotográfico de Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863 (Teixeira Pinto, 1971/73) - Parte IV: As lavadeiras de Canchungo




Foto nº 22 > Março de 1973 > Teixeira Pinto > Crianças junto do lavadouro.(1) 



Foto nº 23 > Março de 1973 > Teixeira Pinto > Crianças junto do lavadouro.(2) 


Foto nº 19 > Teixeira Pinto > Fev 1972  >  Lavadouro público.


Foto nº 20 >  Teixeira Pinto > Março de 1973 > As lavadeiras no lavadouro público 


Foto nº 21 > Teixeira Pinto > Fev 1972 > A roupa a corar ao sol, nas imediações do lavadouro



Foto nº 21 A > Teixeira Pinto > Fev 1972 > A roupa a corar ao sol, nas imediações do lavadouro (aspeto)



Foto nº 21 B > Teixeira Pinto > Fev 1972 > A roupa a corar ao sol, nas imediações do lavadouro (aspeto)


Foto nº 17 > Junho de 1972 > Saídas de Teixeira Pinto para o Cacheu


Foto nº 18 > Junho de 1972 > Saída de Teixeira Pinto para o Pelundo,



Foto nº 24  > Outubro de 1972 > Teixeira Pinto > Venda livre no meio da Avenida. À  esxquerda a Maria Helena Gamelas



Fotos (e legendas): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]




1. Continuação da publicação do álbum fotográfico do Francisco Gamelas , ex-alf mil cav., cmdt do Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73), adido ao BCAÇ 3863 (1971/73) [foto tual à direita] (*).


Francisco Gamelas, que é engenheiro eletrotécnico de formação quadro superior da PT Inovação reformado, vive em Aveiro, e publicou recentemente  "Outro olhar - Guiné 1971-1973. Aveiro, 2016, ed. de autor, 127 pp. + ilust. P.reço de capa 12,50 €. (**)

Os interessados pode encomendá-lo ao autor através do seu email pessoal franciscogamelas@sapo.pt. O design é da arquiteta Beatriz Ribau Pimenta. Tiragem: 150 exemplares. Impressão e acabamento: Grafigamelas, Lda, Esgueira, Aveiro.


2. Sobre as fotos de hoje, tomamos a liberdade, com a devida autorização do autor, de reproduzir o poema que ele escreveu no seu livro: "As lavadeiras" (pp. 48-51).

Todos nós nos recordamos da nossa lavadeira (, memso tendo esquecido o seu nome), e do dia da entrega da roupa lavada e da recolha da roupa suja... Sem dúvida, que era um dia que trazia alegria, cor, beleza e humanidade à parada do quartel...

O Francisco traça aqui um quadro pitoresco, bem humorado mas nem por isso acrítico desse verdadeiro "serviço público" que nos prestavam as nossas lavadeiras. Quase todos os militares tinham a sua lavadeira, pelo menos nos aquartelamentos onde havia população ou famílias de milícas ou de soldados do recrutamento local.

Uma ou outra lavadeira, em meios mais "urbanizados" (sede de circunscrução, sede de posto, em geral nas localidades mais importanmes, sede de batalhão...) também podia fazer "favores sexuais", mas, por mor da verdade e da honra de todos, há que dizer que eram a exceção. E se o faziam era por "livre consentimento"...

Na Guiné, e contrariamente ao que alguns poderiam pensar, nunca nos comportámos como verdadeiros "ocupantes militares",,, Até por que muitas bajudas ou mulheres grandes que completavam o seu magro orçamento familiar com o serviço de lavadeira, eram filhas, irmãs ou parentes dos nossos camaradas guineenses... Fulas ou mandingas em Bambadinca, manjacas em Teixeira Pinto...

O Francisco ainda se lembra do nome da sua lavadeiera, era a Aline, era uma verdadeira "instituição", pertencente à "cavalaria": passava do velhinho "alfero das Daimler" para o periquito que o vinha render...Dedica-lhe inclusive um ternurento poema; "A minha lavadeira Aline" (p. 54), que começa assim; A Aline 'herdou-me'... Mas quem quiser saber o  resto, que compre o livrinho...

O autor também  tem inclusive, no livro, duas fotos da sua "Aline" com a sua "Lena"... A Maria Helena Gamelas, quando chegou a Canchungo, também herdou muito naturalmente a  Aline... Em Roma faz como os romanos...E, calhar, lá em casa, a Aline também fazia o resto da lide doméstica, já que a Maria Helena era.professora de português na escola local, não era apenas a senhora do senhor alferes...

Curioso, noutros territórios como Angola ou Moçambique, havia maior tendência para recorrer aos homens para os serviços domésticos... Caso dos "mainatos", em Moçambique, que lavavam e engomavam a roupa... Não sei se as nossas praças, no TO da Guiné, ganhando mal, se podiam dar ao luxo de ter uma lavadeira... que poderia custar 50 a 100 pesos por mês... Nem todos teriam lavadeira, muitos lavavam a sua própria roupa, que também não era muita... E ao fim da comissão (se durasse até ao fim da comissão) estava feita em farrapos,de tanto uso e de tanto ser batida na pedra da margem do rio...Aliás, velhinho que se prezasse andava com o camuflado todo esfarrapado e desbotado...

Recordo-me bem da minha lavadeira, em Bambadinca, mas já não do seu nome... Era jovem, mandinga, já não era bajuda,  tinha um filho ou filha, de tenra idade... A mãe tinha pelo menos um "filho do vento", de uma ligação com um militar que estivera,  em Bambadinca, talvez do início da guerra... Nunca explorei essa história, mas sei que a minha lavadeira era um mulher "marcada pela vida", "antipática", "amarga", "sofrida"... De vez em quando, perdia-me roupa, nunca a penalizei...

Por outro lado, havia graduados, privilegiados, que tinham morança fora do quartel... Em Bissau, em Bambadinca, em Bafatá, talvez em Teixeira Pinto,  e em muito poucos mais sítios,  por razões de segurança... Nalguns casos eram casados e podiam ter uma "empregada doméstica"...

Tenho ideia de que em Bambadinca as lavadeiras tinham acesso, infornal, aos quartos de oficiais e sargentos... E alguns (poucos...) tinham "intimidades" com as lavadeiras...  Provavelmente era contra as mais elementares regras de segurança (e de bom senso). mas em sítios como Bambadinca tudo podia acontecer... Quem é que não estava farto da guerra, a começar pelos soldados básicos que tinham alucinações, com elefantes à noite a pastar junto ao arame farpado, e terminando no topo da hierarquia, com os oficiais superiores do batalhão que viviam em pânico só com a ideia do Spínola de lhes aparecer, assim  de repente,  de helicóptero, vestido de Pai Natal, e com um par de patins como prenda ?... (LG)


 As lavadeiras

por Francisco Gamelas


Serviço público por excelência,
este de nos lavar a roupa suja.
Ranchos de jovens mulheres nativas
cuidavam de manter apelativas
as roupas dos brancos, cuja
paga era duma esmola a evidência.

Além da roupa, num ou noutro caso,
também prestavam outros serviços.
Quando a procura é muita, é natural
que a oferta surja de forma banal.
Mas, os eventuais mulatos castiços
não se viam, e não seria por acaso.

Nos dias das lavadeiras, o quartel
fervilhava de trouxas nas cabeças
de jovens negras esguias e brilhantes
que uma miríade de cores exuberantes
cobria generosamente como  peças
dum quadro vivo evoluindo a granel.

Um zumbido de  assobios, gargalhadas
e ditos jocosos cria uma núvem sonora
que agita e envolve magotes de militares
junto das lavadeiras, dando-se, eles, ares
e elas, cúmplices, não se põem de fora
jogando nos risos e falas embrulhadas.

É um momento de escape e libertação, 
talvez mais para eles do que para elas,
tudo sem excessos comportamentais,
em espaço aberto, à vista dos demais.
A festa é curta, não deixando mazelas.
Há que retomar cada um a sua função.

Francisco Gamelas. In "Outro olhar - Guiné 1971-1973*,  ed. de autor,  Aveiro, 2016,  pp. 48-51,

_______________

Notas do editor:

(*) Último poste da série > 14 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16201: Álbum fotográfico de Francisco Gamelas, ex-alf mil cav, cmdt do Pel Rec Daimler 3089, ao tempo do BCAÇ 3863 (Teixeira Pinto, 1971/73) - Parte III: Canchungo e o amor em tempo de guerra

(**) Vd. 20 de maio de 2016 Guiné 63/74 - P16113: Nota de leitura (840): “Outro Olhar, Guiné 1971-1973”, por Francisco Gamelas, edição de autor, 2016 (Mário Beja Santos)


7 comentários:

Tabanca Grande disse...

Há histórias deliciosas no nosso blogue sobre as “nossas lavadeiras” que trocavam e perdiam peças de roupa, com a maior das naturalidades… Uma dessas histórias é do Tony Borié… de que reproduzo. a seguir, a parte final:

27 DE NOVEMBRO DE 2012 > Guiné 63/74 - P10729: Do Ninho D'Águia até África (30): As lavadeiras (Tony Borié)

https://blogueforanadaevaotres.blogspot.pt/2012/11/guine-6374-p10729-do-ninho-daguia-ate.html

_________________

(…) “Mas havia um dia, em que ela, quase nunca se enganava, e até colocava a tal flor de cheiro sobre a roupa, esse dia era ao final do mês, e antes de entregar a roupa, estendia a mão e dizia:
- Dá patacão, é fim de mês.

Às vezes, pagavam com notas do Banco Nacional Ultramarino, e ela nunca dava o referido troco, e dizia:
- Mi, “patacão ká tem”, está bem assim.

O Curvas, alto e refilão, dizia:
- Filha da p..., para ela, o mês só tem três semanas!. Qualquer dia mato-a!” (…)

________________

Que delícia!... "Dá patacão, é fim de mês!"... Estou a imaginar a cena!...

Ainda está por estudar o real impacto que teve, na praticamente inexistente economia monetarizada daquela pobre gente, a presença da nossa tropa no TO da Guiné, entr 1961 e 1974...

Já não me lembro quanto é que se pagava no meu tempo (Contubol e Bambadinca, 1969/71) à lavadeira, tenho ideia que eu pagava 100 pesos... Era mandinga, a minha lavadeira, e a mãe tinha um filho de um militar, branco, coisa pouco habitual entre os mandingas... Mas em Bambadinmca havia "refugiados de guerra" e gente que comia o pão que o diabo amassava...

As praças pagavam 50 pesos, se não erro... Acho que havia alguma equidade na tabela de preços das lavadeiras... O capitão, o major e o tenente coronel deveriam, por essa ordem, pagar mais, mas eles não vêm ao nosso “confessionário”, tirando algumas honrosas exceções...

alma disse...

Também eu, no tempo em que as minhas estórias eram apreciadas,publiquei aí, A Lavadeira, o Sobretudo e uma Carta de Amor, 20 de Julho de 2006. ABRAÇO J.Cabral

Tabanca Grande disse...

Alfero Cabral, a malta continua a apreciar-te, as fontes de Missirá e de Fá é que parece terem secado... Ou então foi a ASAE lá do sítio que as mandou fechar... Ou será que os chineses já lá chegaram e desviaram a água do Rio Geba... ? Ou o Patrício Ribeiro, que está a "eletrificar" o leste, do Xime a Buruntuma... Noto um crescente nº de visitas ao nosos blogue, por parte dos nossoa amigos da Guiné-Bissau... Já toda a gente computa... e tem página no Facebook...

Vamos recuperar essas estórias cabralianas das lavadeiras... Saúde e boa estação das chuvas, que deviam ter começado há um mês... Ab. grande. LG

alma disse...

Acredito que tu, mais uma dúzia de Camaradas, tenham durante estes mais de 10 anos, apreciado as minhas " estórias".Obrigado!Não sinto qualquer dificuldade em escrever,desde miúdo..Porém, fiel ao que prometi, em Dezembro de 2005,para o Blogue,só escreverei, directa ou indirectamente, sobre a minha estadia na Guiné.Possuo uma experiência de 40 anos, na Advocacia e no Ensino e como deves calcular, acumulei milhares de "estórias"... É interessante que muitos Ex- Combatentes, conhecem-me é do Facebook..Interessante e sintomático..GRANDE ABRAÇO! J.Cabral

Tabanca Grande disse...

Jorge, não nego a "popularidade" do Facebook: é fácil, é barato e dá milhões...

Arrumou os blogues, o Facebook, já ninguém tem pachorra para escrever, ler, comentar os blogues...

Ainda não sei o que fazer, temos que conversar, mas um dia destes estamos para aqui meia dúzia de mecos a falar para o boneco...

O blogue dá trabalhar, ler dá trabalho, escrever dá trabalho, comentar dá trabalho... A malta está a desertar, a malat está a abandonar o barco, doze anos é muito tempo e a vida é tão curta!... Hoje arrisquei abrir um "inquérito on line" sobre as lavadeiras... Mas quem vai responder ' E com que verdade ?... Meti uma "cunbha" no Facebook, pode ser que a coisa funcione...

Tenho a sensação de que está tudo dito, escrito, divulgado, fotografado... Já não segredos, não há histórias,,, Mas sem o Facebook é a nalta já não passa... de manhã à noite, deita-se com o Facdebook, levanta-se com o facebook, cura as insónias com o Facebook....

A malta vai apanhar uma grande depressão se lhe tirarem o Faceboook... O nosso blogue, esse, pode já acabar amnanhã, ninguém vai ao seu funeral... Tornou-se uma droga coletiva, é instantâneo, é como um rapidinha, e dá uma sensação de poder, de impunidade, de omnisciência...

Jorge, prometeste-me uma "estória cabraliana", passada cá, na santa parvónia, muito antes da era do Facebook, espero... Mas não tenhas pressa, que "a vida é curta, a arte é longa, a oportunidade é fugaz, a experiência enganosa, o julgamento difícil" (Hipócrtaes dixit, muito0 antes de Crito, de Alá e dos bons irãs do poilão da Tabanca Grande que nos protegem... Amen.

Tem uma boa noite... LG

Tabanca Grande disse...

Tabanca Grande
21 jun 2016 23:21
.
Francisco, aqui tens a parte IV do teu belíssinmo álbum.

Tenho procurado tratar com carinho as tuas fotos, e os teus textos...Reproduzi o teu pitoresco, bem humorado mas não acrítico poema sobre as lavadeiras... E até foi pretexto para um dos nossos periódicos "inquéritos on line"... (Vd. canto superior esquerdo do blogue).

Tenho colocado também os teus postes no nosso facebook (Tabanca Grande):

https://www.facebook.com/profile.php?id=100001808348667

Perdoa-me não ter ainda tido tempo para "ver" os textos poéticos que me mandaste sobre Aveiro. Mas estou "cheio" (até ao teto) de trabalho... E, claro, ainda tenho a "nota de leitura" sobre o teu livro para completar e publicar... Tu meresces um texto como deve ser...

Um bom resto de noite. Luís

Anónimo disse...

francisco Gamelas
22 jun 2016 12:31


Olá Luís, bom dia.

Mais uma vez, um trabalho impecável: sensibilidade, bom gosto e trabalho bem feito. Obrigado.

Quanto ao texto que te enviei sobre uma crónica ainda não publicada do tempo da Guiné - Sobre o signo do medo - juntamente com a qual te enviei dois poemas sobre Aveiro, não há pressa, nem tinha que haver. Na medida do interesse do blogue gerirás como achares mais oportuno, respeitando os teus afazeres, obviamente. Se te passar pela cabeça publicar os meus poemas, por favor, não o faças sem me dizer. Terei que tos enviar, de novo, pois algumas pequenas alterações foram feitas e, a serem publicados, gostaria que o fossem na sua última versão.

Ainda sobre a nota que pretendes publicar sobre o meu livro "porque eu mereço um texto como deve ser", deixas-me um pouco encavacado. É que, do ponto de vista formal, este meu livro, tenho-o como um "divertimento", sério no que afirma, mas informal na forma encontrada, sem nenhumas aspirações literárias ou algo parecido. Aliás, se eu adivinhasse que iria ter este apoio, teria investido muito mais na "confecção" do livro. Vocês (TU) mereciam esse acréscimo de cuidado. Mas, como não sou um internauta, ignorava a vossa existência, até que o meu genro me enviou o vosso link, já o livro estava na gráfica. De qualquer modo, fico muito sensibilizado por mais este carinho e atenção.

Achas então que o blogue está em fase de abrandamento, particularmente quando se compara com o Facebook? Se assim é, é uma pena. Claro que escrever, ler, pensar dá trabalho e estamos no temo de consumir e deitar fora. Mas TODOS sabemos que esse caminho se esgota no nada, se eliminarmos as pessoas que teimam em pensar e partilhar o que pensam com os outros. Das baboseiras ditas na hora, sem reflexão, não sai sumo algum. Mas, pelos vistos, parece ser a fruta da época.

Um grande abraço.

FG

PS: espero ver-te algures por estas férias.