quarta-feira, 22 de junho de 2016

Guiné 63/74 - P16226: (De)caras (41): O cor inf ref José Severiano Teixeira nunca comandou o Centro de Instrução Militar (CIM) de Bolama, pelo que nunca poderia ter sido ele o oficial que puniu, em 1960, o 1º cabo mil Domingos Gomes Ramos, hoje herói nacional da Guiné-Bissau... E mais me disse que nessa época, em Bissau, constava que o Amílcar Cabral oferecia 80 contos (!), para se alistarem no PAIGC, a cada um dos militares guineenses do 1º Curso de Sargentos Milicianos (1959), a que pertenceu o nosso Mário Dias (Joaquim Sabido, advogado, Évora)

1. Comentário de 25 de maio último, do Joaquim Sabido, ao poste P16123 (*)

[foto à esquerda: Joaquim Sabido, ex-Alf Mil Art, 3.ª Cart/Bart 6520/73 e CCaç 4641/73, Jemberém, Mansoa e Bissau, 1974)]


[foto à direita: Joaquim Sabido, hoje, 
advogado, a viver em Évora,; 
é nosso grã-tabanqueiro 
desde 24/8/2010;
tem uma dezena de referências 
no nosso blogue]


Ora bem, Meu Caro Luís, Meus Camaradas de armas;

Aderindo à tua sugestão (vd. comentário a seguir, ponto 2] e para que não subsistisse qualquer dúvida (que eu não a tinha), conversei hoje pela manhã com o sr. coronel inf ref [José] Severiano Teixeira, que continua óptimo de saúde e de memória. 

Quando lhe falei na situação, confirmou que nunca comandou o CIM [Centro de Instrução Militar] em Bolama. Nessa comissão esteve sempre em Bissau. Não se recordou agora do nome do capitão que comandou o CIM em Bolama, mas sabe que era mais novo do que ele, logo, era de um outro curso posterior ao dele.

Assim sendo, como é, dúvidas não subsistem de que não foi o então Capitão Teixeira o oficial que condenou o então 1.º cabo miliciano Domingos Ramos em Bolama. E foi apenas esta constatação que eu fiz, em virtude de tal não se alcançar nem resultar - a meu ver - do relato do Mário Dias. 

Compreendo perfeitamente que o camarada Rosinha (*) se tenha confundido, pois os temas correm aqui e em toda a Net de tal forma vertiginosa, que eu, que ainda tenho que trabalhar e felizmente muito que fazer, não consigo acompanhar como gostaria este blogue.

O sr. coronel Severiano Teixeira (entre outros) é dos tais oficiais competentíssimos que não chegaram ao generalato, às estrelas, por motivos que se prenderam unicamente com o período e a agitação pós-revolução, que são diferentes dos que os da sua competência e capacidade enquanto militares e Homens. Igualmente aconteceu com os senhores coronéis Henrique Vaz e Vaz Antunes. É apenas a minha modesta opinião.

Bom, relativamente ao sr. coronel Severiano Teixeira, quando lhe falei no nome do nosso camarada Mário Dias, de pronto me informou que se lembra muito bem dele, assim como do Pai do Mário.

De forma clara e objectiva se referiu ao então instruendo Domingos Gomes, informando-me que, tal como a maior parte dos integrantes desse curso, ou quase todos, vieram a integrar-se nas fileiras do PAIGC. Tem e guarda lá para casa as fotografias do pessoal desse curso de Civilizados. Assim mesmo me disse, não falhou nada.

Mas o que me pareceu relevante desta conversa de hoje de manhã, foi o facto de o sr. coronel me ter dito que eles foram quase todos integrar e alistaram-se no PAIGC, porque: "o Amílcar Cabral oferecia 80 contos (Pte 80.000$00) a cada um e isso era muito dinheiro para a época". (sic) (***). Se receberam ou não, isso já não sabe. Foi o que constou na época.

Será que o Mário Dias teve algum conhecimento ou ouviu falar deste tema?

Entretanto o sr. coronel foi solicitado por outros circunstantes e eu não o quis incomodar mais. (****)

Um grande e fraterno Abraço para todos os Tabanqueiros e demais pessoal "da Guiné".

Joaquim Sabido
Évora


Amílcar Cabral e Domingos Ramos, em Cassacá (1964).
Foto do Arquiivo Amílcar Cabral. (Detalhe)
Cortesia do porta Casa Comum
2. Comentário da Tabanca Grande (editor), de 24 de maio último, ao poste P16123 (*)

Obrigado, Joaquim Sabido, pela partilha de informação sobre o ex-capitão José Severiano Teixeira, hoje coronel reformado, e felizmente vivo, e a residir em Évora, e para mais teu conhecido e amigo, pai do meu colega da Universidade NOVA de Lisboa, prof Nuno Severiano Teixeira, conhecido historiador militar, nascido em Bissau, em 1957.

Que fique claro: o Centro de Instrução de Civilizados (CIC), em Bissau, Santa Luzia, era comandado pelo capitão Teixeira, pai do professor Nuno Severiano Teixeira. Mais tarde passou designar-se Centro de Instrução Militar (CIM) e foi transferido para Bolama. Não sabemos se o capitão Teixeira também seguiu para Bolama, como comandante do CIM, ou se entretanto terminou a sua comissão e regressou à metrópole.

A história da punição (, traduzida em vários dias de prisão,) do Domingos Ramos, 1.º cabo miliciano, passa-se em Bolama, já no CIM, no terceiro ou último trimestre de 1960, quando estava a acabar o serviço militar obrigatório.

Nada no texto do Mário Dias sugere que o oficial em causa fosse o cap Teixeira. Nem isso é relevante, agora. Há um superior hierárquico do 1.º cabo mil Domingos Gomes Ramos que o pune com prisão. Não sabemos o teor da punição nem podemos avaliá-la.

Nessa época não deveria haver muitos oficiais metropolitanos na Guiné... Mas a verdade é que, segundo o testemunho de um camarada nosso, que está acima de toda a suspeita, o Mário Dias, autor do texto, um dos nossos oficiais terá cometido uma grave injustiça. Ou, melhor essa punição foi sentida como uma grave injustiça pelo Domingos Ramos, filho da Guiné...

Não sei quem teve razão, mas costuma-se dar o benefício da dúvida ao elo mais fraco da cadeia...

Talvez o Joaquim Sabido possa esclarecer essa história com o seu amigo coronel Teixeira. Sendo ele jurista e nosso camarada, e nosso grã-tabanqueiro, sabe as regras da Tabanca Grande: não somos juízes de ninguém... Contamos simplesmente histórias. Cada um faz depois as suas "leituras"... e tira as suas conclusões.

Um abraço, Joaquim Sabido, e manda também um alfabravo ao coronel Severiano Teixeira, com votos  de muita saúde e longa vida para ele, quando o encontrares. Diz-lhe que o blogue da Tabanca Grande está aberto para ele, para as suas memórias escritas e fotos de Bissau dessa época.

Luís Graça, editor
__________________

(***) Em, escudos, para a época (1960), 80 contos era muita massa... Utilizando o conversor da Pordata, seria o equivalente hoje a 34.417, 66 €... Nunca ouvimos essa história, podia ser um simples ato de contra-propaganda das autoridades portuguesas da época... Mas registamos o que nos foi trabsmitido por um canmarada nosso, que vivia em Bissau na epoca e que era ofical português do QP, o hoje cor inf ref José Severiano Teixeira em conversa com o nosso grã-tabanquieiro Joaquim Sabido.

2 comentários:

Anónimo disse...

Amigos
Conheci de relance o Domingos Ramos em Bafatá
Assim, a C.Caç 412 chegou a Bafatá a 9 de Abril de 1963.
Já havia passado cerca de três semanas e um fim de tarde
resolvi ir conhecer o bairro da NEMA, que ficava a Leste da cidade,
pois os outros bairros já os conhecia bem (ROCHA e PONTE NOVA).
Estava destacado na Companhia um cabo Mamadu Baldé (fula-forro)e
pedi-lhe para me acompanhar, tendo ele correspondido ao meu pedido.
Seguimos pela Rua, passamos a casa da D.Rosa, em frente das instalações
do Batalhão 238 e entramos na Nema. Ao virarmos para uma rua transversal
vimos um individuo alto que passou por nós, o cabo estremeceu e disse
Domingos Ramos. Então fixei outra vez o individuo e vi distintamente que
era exactamente igual à fotografia, existente na secretaria da Companhia.
Viramos para trás e corremos para apanhá-lo, mas ele já havia desaparecido.
Entretanto, já tinha tirado a pistola Walter que levava presa no cós traseiro
das calças por baixo da camisa e esta fora das calças.
Depois viemos a correr à companhia, demos o alarme e foram deslocados
diversos pelotões para cercar a NEMA e outros para patrulhar a cidade.
Na altura foram capturados uns tipos suspeitos que acabaram por confirmar
que o Domingos Ramos havia estado dois dias em Bafatá.
Também se veio a saber que ele escapou atravessando o rio Colufe para o
regulado de Badora, em direcção ao sul.
Abraços
Alcidio Marinho

Manuel Luís Lomba disse...

Os militares adquirem uma especial sensibilidade face à injustiça. Tive essa experiência própria.
Invoco o então capitão Vasco Lourenço, de boa idade e recomenda-se, a quem as injustiças do general Bethencourt Rodrigues, então ministro do Exército, em 1969, referidas à sua mobilização para a Guiné,do general Spínola, no seu escrutínio da responsabilidade da morte do régulo de Cuntima, terão sido a causa remota da sua transformação no motor com turbo do MFA/25 de Abril/25 de Novembro.
O herói nacional bissau-guineense Domingos Ramos, o Kant de seu nome de guerra, foi aliciado por Amílcar Cabral para o PAIGC, através do seu irmão Luís, de quem era colega quando era balconista da Casa Gouveia, tendo sido preterido como funcionário das Finanças, após estágio na respectiva Repartição, talvez por efeito da aludida "porrada" sofrida no CIM.
À data em que o Alcídio o viu junto ao quartel, era o comandante da Frente Leste, que havia rendido o comandante Pascoal Costa - despromovido, transferido por fracassar e que morrerá no contexto do cerco e assalto à tabanca de S. João(Fulacunda), executado pela CCav 153 -, sendo suposto a fazer o reconhecimento para o atacar, como a cidade natal do Amílcar e a segunda cidade da Guiné´, objectivo que, a par de Bissau, será deferido no tempo.
Quanto aos seus rendimentos - haverá no mundo algum militar profissional que não perceba ordenado ou soldo? Pela regra do Exército Português, 80 contos corresponderia ao rendimento anual e, como se tratava de "progressistas", talvez incluísse os subsídios de férias e de Natal...
AB.
Manuel Luís Lomba