sexta-feira, 24 de junho de 2016

Guiné 63/74 - P16234: Notas de leitura (852): (D)o outro lado do combate: memórias de médicos cubanos: o caso do cirurgião Domingo Diaz Delgado, 1966-68, segundo o livro de H. L. Blanch (2005) - Parte II: a vida dura nas base de Sara, na região do Oio (Jorge Araújo, ex-fur mil op esp / ranger, CART 3494, Xime-Mansambo, 1972/1974)


Guiné > PAIGC > 1971 >  Frentes, bases e "corredores", segundo o Supintrep, nº 31, de junho de 1971, disponibilizado pelo nosso camarada A. Marques Lopes, cor inf DFA ref . O PAIGC tinha o território dividido nas seguintes frentes: 

(i) Frente São Domingos / Sambuiá; (ii) Frente Bafatá-Gabu (Norte); (iii) Frente Canchungo-Biambe; (iv) Frente Morés-Nhacra; (v) Frente Quínara; (vi) Frente Xitole-Bafatá; (vii) Frente Bafatá-Gabu (Sul); (viii) Frente Catió; (ix) Frente Buba-Quitafine... 

Neste mapa também se indicam as principais regiões... Fonte: Supintrep, nº 31, 13 de Fevereiro de 1971.

Imagem: © A. Marques Lopes (2008). Todos os direitos reservados (*)


Hedelberto López Blanch - Histórias secretas de médicos cubanos.  La Habana: Centro Cultural Pablo de la Torriente Brau, 2005. 248 pp. 

[Prémio Memoria 2001. Prólogo de Piero Gleijeses. Ediciones La Memoria, Colección Coloquios y testimonios].  [La edición de este volumen ha sido financiada por el Fondo para el Desarrollo de la Educación y la Cultura.] [Consult em 31 de maio de 2016]. Djisponível aqui, em formato pdf, no sítio do Centro Cultural Pablo de la Torriente Brau, Havana, Cuba.

O autor é jornalista e escritor, nascido em Havana, em 1947. É ainda autor de outros trabalhos de investigação como  "La emigracion cubana en Estados Unidos: Descorriendo mamparas" (edição espanhol, 1998), disponível na Amazon,com



1. Segunda parte das "notas de leitura" coligidas pelo nosso camarada e grã-tabanqueiro, Jorge Alves Araújo, e enviadas a 22 do corrente. Trata-se de um extenso documento, que vai ter que ser publicado em diversas partes, tendo em conta o formato e as limitações do blogue

Sobre o grã-tabanqueiro Jorge Araújo, aqui fica uma pequena nota biográfica, para "refrescarmos" o seu CV mal conhecido da maior parte dos nossos leitores

(i) nasceu em 1950, em Lisboa; (ii) foi fur mil op esp / ranger, CART 3494 / BART 3873 (Xime e Mansambo, 1972/1974); (iii) fez o doutoramento pela Universidade de León (Espanha), em 2009, em Ciências da Actividade Física e do Desporto, com a tese: «A prática Desportiva em Idade Escolar em Portugal – análise das influências nos itinerários entre a Escola e a Comunidade em Jovens até aos 11 anos»; (iv) é professor universitário, no ISMAT (Instituto Superior Manuel Teixeira Gomes), Portimão, Grupo Lusófona; (v) para além de lecionar diversas Unidades Curriculares, coordena o ramo de Educação Física e Desporto, da Licenciatura em Educação Física e Desporto.

Na sequência do 1.º fragmento publicado no P16224 (**), eis a continuação do relato de algumas das memórias [experiências] vividas na primeira pessoa por três médios cubanos na então  Guiné portuguesa (hoje, Guiné-Bissau), onde se identificam as motivações que os levaram a optar por um dos lados do combate, daí o título que dei a este meu trabalho.

Recordo que o conteúdo de cada texto resulta da tradução original em castelhano (espanhol) das entrevistas publicadas no livro escrito pelo jornalista e investigador cubano Hedelberto López Blanch, com o título «Historias Secretas de Médicos Cubanos», que achei interessante partilhar convosco, relembrando que na linha do tempo essas memórias estão a uma distância de meio século. É isso também que nós continuamos a fazer.

A sua tradução procurou ser o mais fiel possível das ideias expressas pelos diferentes protagonistas, que ficou mais facilitada pela condição de veterano dessa guerra no CTIGuiné.

Porque se trata de uma tradução,  não fazei juízos de valor sobre os diferentes depoimentos, apenas colocando entre parênteses rectos algumas notas avulsas de enquadramento histórico ao que foi transmitido incluindo imagens desse contexto retiradas da Net. (ou dos arquivos do nosso blogue).

No caso da Guiné, são três os entrevistados, por esta ordem: (i) o médico-cirurgião Domingo Diaz Delgado; (ii) o médico de clínica-geral, com experiência em cirurgia, Amado Alfonso Delgado;  e (iii) o médico militar, especialista em cirurgia geral, Virgílio Camacho Duverger. 

Esta será a segunda parte da entrevista ao primeiro médico, o cirurgião Domingo Diaz, sendo que as ocorrências relatadas datam do ano de 1966, ou seja, três anos após o início do conflito. (JA)


2. O CASO DO CIRURGIÃO DOMINGO DIAZ DELGADO - Parte II 

Sumariando as questões colocadas no 1.º fragmento publicado no poste acima indicado, é de relevar que foi com vinte e nove anos de idade e recém-graduado como cirurgião [em finais de 1965], que Domingo Diz Delgado, depois de ter preenchido um formulário solicitando a sua incorporação como internacionalista em qualquer movimento de libertação, recebeu a notificação de que iria para a Guiné-Bissau (, na altura território sob administração portuguesa),  para se integrar na fileiras do PAIGC, como médico.

Após ter concluído o treino físico e militar no acampamento Peti 1, em Pinar del Rio, Domingo Diaz embarca pela calada da noite em 21 de maio de 1966, na companhia de mais dois médicos e outros seis cubanos, com destino à República da Guiné, chegando dezasseis dias depois a Conacri [6 de junho de 1966]. 

Aí chegado, foi recebido por Amílcar Cabral (1924-1973), com quem manteve contactos permanentes durante o tempo em que lá permaneceu: cerca de um mês. Por ter sido nomeado para a Zona Norte, seguiu por via aérea para Dacar a fim de rumar a Zinguinchor, com a viagem de carro a ser feita na companhia de Luís Cabral (1931-2009).

Transposta a fronteira entre as duas Guinés, o primeiro percurso tinha como destino a base de Sambuia [, Zambulla, na versão original...], tendo sido realizado em cinco horas, e com a caminhada a ter deixado os seus pés muito mal tratados, face à inexperiência daquele contexto. 

No dia seguinte nova etapa até à base de Maqué [no Olossato,  Morés, ?], que incluía a travessia do rio Farim em canoas. 

Ao terceiro dia, com os pés cada vez em pior estado, nova caminhada até a base de Morés, alimentando-se do que encontrava pelo caminho, incluindo água. Depois de um dia de descanso nesta terceira base, seguiu-se a última etapa até à base de Sará, aonde chegou no início do segundo semestre de 1966, 

Domingo Diaz aí permaneceu durante seis meses [de julho a dezembro de 1966], na companhia de outros dois médicos cubanos do seu grupo, que entretanto haviam chegado mais cedo, por terem viajado de avião: o ortopedista Teudi Ojeda e o clínico geral Pedro Labarrere. Os três foram os únicos que naquele tempo estiveram na Zona Norte.

Procurando descrever o itinerário realizado pelo médico Domingo Diaz [linha azul no mapa acima], comparando-o com o que foi divulgado cinco anos depois na Suprintrep n.º 31, de 13 de fevereiro de 1971 [P2787 (A. Marques Lopes)], um documento classificado na época como reservado e elaborado pelo gabinete do Comandante-Chefe, verifica-se não existirem diferenças significativas, apenas não constando a referência à base de Maqué, pela discrição situada entre Sambuiá e Morés [P3258] (*).

Para uma melhor identificação geográfica dos itinerários, também designados por “corredores” ligando as diferentes bases do PAIGC, aproveitámos o já publicado pelo camarada A. Marques Lopes neste blogue [P3258] (*), com a devida vénia, reproduzindo o que a este propósito consta no documento oficial  [Vd,, gráfico acima].

Continuação da entrevista com Diaz Delgado (no documento em pdf, a que tivemos acesso, as páginas não estão numeradas. mas o total da entrevista corresponde, no pdf, ao cap X (pp. 65/78).  O Diaz Delgado regressou a Cuba em janeiro de 1968. As notas em parênteses retos são da nossa responsabilidade. 



(vi)  Como entrou na Guiné-Bissau 
e que zona lhe destinaram? 

Nessa época, a Guiné [, hoje Guiné-Bissau] tinha três zonas guerrilheiras, que eram o Norte, o Sul e o Leste (a esta também a chamavam de Madina do Boé, por estar ali um quartel português com esse nome e que era o mais importante da região). Eram zonas guerrilheiras aonde se combatia bastante para as possibilidades que tinham.

Do nosso grupo, muitos foram para o sul, outros para o Leste e a mim me designaram para ir como cirurgião para o Norte. O que aconteceu foi que da Guiné-Conacri não se podia ir directamente para o norte da Guiné -Bissau, mas que havia de dar uma volta pelo leste da Guiné-Conacri, em camiões, e atravessar parte do território senegalês, país que faz fronteira a norte com a Guiné-Bissau e que não era muito amigo dos guerrilheiros e não permitia a entrada de cubanos no seu território.

Portanto, face à cor branca da minha pele não podia fazer a viagem por terra. Então fizeram-me um passaporte que não era, de facto, mas que funcionava como tal. Era um cartão de militante do PAIGC, com nome falso, aonde constava ser natural da Praia, uma ilha de Cabo Verde, e com esse documento fiz um voo, acompanhado de dois guerrilheiros guineenses, até à capital do Senegal, Dacar.

Quando chegámos ao aeroporto tive um problema, pois os fiscais não entendiam aquilo do cartão como passaporte, e os dois companheiros que me acompanharam não o sabiam explicar. De maneira que tive de dar um empurrão ao torniquete que existia no aeroporto e sair até ao carro donde me estava acenando a companheira Lilica Cabral [ou Boal ?], secretária de Amílcar Cabral, e que tinha escritório em Dacar.

Apesar de que o Senegal não apoiava esse movimento, permitia-lhe ter escritórios. Mas também já estavam a par de que havia cubanos nessa guerrilha e tratavam de os detectar. Lilica levou-me a sua casa, aonde permaneci três ou quatro dias até que me dão a conhecer um desertor do exército português, de nome José Augusto e me apresentam como admirador do Movimento e que queria participar na guerrilha contra o seu governo.

[Este alegado desertor do exército português seria o 1º cabo nº 3426/64, José Augusto Teixeira Mourão: vd. Arquivo Amílcar Cabral, pasta 04606.045.134; assunto: Solicita autorização junto das autoridades de Conakry para enviar dois desertores do exército português para Argel. Vd. aqui documento original. em francês].

A este ex-militar deram-lhe  numerosos detalhes e dizem-lhe que sou cubano. Desde aquele momento não fiquei tranquilo e pedi que me mudassem de casa, pois não confiava naquele homem. Mudam-me para outra moradia, onde fiquei mais um dia.

Dali, por terra, percorremos quatrocentos quilómetros, que é a distância aproximada entre Dacar e Ziguinchor, uma povoação do Senegal perto da fronteira com a Guiné. Nesse trajecto tivemos que atravessar um rio e uma faixa de dez quilómetros de largura de outro país denominado Gâmbia.

Quem me levou até Ziguinchor foi Luís Cabral, o irmão de Amílcar Cabral, num Peugeot 400. Cheguei a esse lugar, onde permaneci dois ou três dias. Encontrei-me com os chefes militares mais importantes que actuavam no norte da Guiné,, porque, como era o primeiro cubano que ali chegava, estavam à minha espera.

Reuni-me com o chefe da Frente Norte, Osvaldo Vieira [1938-1974], e outros. Despediram-se de mim e saí com um grupo de combatentes guineenses. Ao chegar à fronteira, parte do colectivo ficou comigo e outra parte permaneceu na povoação de Yiriban, do lado do Senegal.


(vii) Como contava o tempo 
nos trajectos?


Chegámos pela noite à base de Maqué. Nesta região o tempo não se conta pelo relógio, mas pela distância, ou seja, um dia a andar, meio-dia a andar, dois dias a andar, são dois dias para chegar a um lugar. Quando cheguei à segunda base guerrilheira, levava dois dias a andar e estava bastante mal. Deram-me um líquido constituído por uma espécie de leite condensado com água, mas muito quente, e recordo-me perfeitamente que o tomei e caí redondo, não sem antes me ter assustado um pouco, pois quando me dei conta, senti um ruído, um som muito grande que se estava a aproximar, e que era um aguaceiro que parecia um ciclone. Depois acostumei-me, porque não são os aguaceiros a que estamos habituados em Cuba, é outro tipo de som e de força.

No dia seguinte, antes de amanhecer, reiniciámos a caminhada, avançando pelo país até alcançar a base de Morés. Ali, algum tempo antes, a aviação inimiga tinha bombardeado e metralhado esse lugar, e era possível ver os sinais dos destroços. 

A guerrilha tinha cometido o erro de disparar com as suas antiaéreas contra  dois aviões B-26 [ou T-6?  Não creio que tenha havido B-26 a operar na Guiné, em Angola, sim, a partir de 1972...] que sobrevoavam a zona e dessa forma detectaram a sua posição. Dois ou três dias depois veio a aviação e destruiu a base. Nesse lugar estivemos um dia, seguindo, depois, uma nova caminhada até chegar à base onde permaneci cerca de seis meses: Sará.


Guiné > Mapa geral da província > 1961 > Escala 1/500 mil > Posição relativa de Sará e outras bases do PAIGC na região do Oio (a azul) e algumas das principais localidades, em redor (a vermelho) onde em 1966/68 havia tropas nossas....

Infografia: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (2016)


(viii) Em que sítio se encontrava 
essa base?

A base de Sará estava praticamente no centro do território e perto da capital, Bissau, onde pela noite se ouvia a música que chegava de lá. Bissau, a capital, não a conheci, mas segundo me contaram, apesar da pobreza do país, era uma cidade muito bonita, com muitas praias, bares e música. [De Sará, a sul do Oio, até a Bissau, em linha reta devem ser 65 /70 km!... Bafatá, a leste, ficava mais próximo, a c. 40 km].

Aqui já estavam dois companheiros médicos do meu grupo, dos três que saíram de Cuba em avião, o ortopedista Teudi Ojeda e o médico Pedro Labarrere, e os três fomos os únicos que naquele tempo estivemos na Zona Norte.

Chegado a essa base, estava-se a preparar um ataque a Bissau, não para tomar a cidade, nem pouco mais ou menos, mas para manter sempre as autoridades em tensão. Essa acção foi dirigida pelo chefe da segurança do território norte, o cabo-verdiano Irénio do Nascimento. Também participou neste ataque um dos fundadores da guerrilha, e que tinha participado no primeiro ataque que se realizou no início [Tite], e que se chamava Malán Sanhá.

De Sará, estávamos a quatro dias de distância da fronteira [, com o Sengeal, a norte] e não era fácil transportar coisas para lá. Tínhamos um pequeno arsenal de medicamentos, instrumentos cirúrgicos, mas muito rudimentar, para resolver problemas que se apresentassem naquele tipo de conflito. A possibilidade de enviar feridos até à fronteira era muito escassa, pela distância e a maneira de os transportar, e a forma como se movimentava o inimigo.

O acampamento mudava de lugar em certas ocasiões, pois apesar de que nesse tempo era uma base guerrilheira, não se podia permanecer fixo e havia que mudá-lo constantemente para maior segurança. Chegou o momento em que detectaram a base, e a aviação a atacou e a metralhou em várias ocasiões.

De qualquer maneira, nós permanecemos cerca de seis meses nessa base e depois de vários bombardeamentos vimo-nos na obrigação de mudar o hospital para outro lugar que ficava a hora e meia dessa base.


(ix) Tinham enfermeiros 
cubanos?

Éramos só os três médicos e não havia nenhum enfermeiro cubano. Ao ir conhecendo o meio e as situações que se apresentavam, pedimos que nos enviassem esses técnicos de saúde, pois nos eram indispensáveis pelas condições de trabalho.

Entretanto, desde o princípio começámos a formar enfermeiros guineenses. Cederam-nos um grupo de rapazes e raparigas para os treinar. Organizámos um curso durante dois meses e esse pessoal foi distribuído por diversas zonas. Uma parte deles ficou connosco.

(x) Como foram as relações 
com os enfermeiros?

Naquelas condições de vida, não fazes muitas relações, mantendo estreita afinidade só com os companheiros que conheces. Desses enfermeiros guardamos uma recordação indelével. No meu caso particular, ao regressar a Cuba, pude trazer quatro deles com a autorização de Amílcar Cabral, e se graduaram em enfermagem no Hospital Militar Central Dr. Carlos J. Finlay [fundado em 1943, com o objectivo de prestar apoio médico a militares do exército constitucional de Cuba].



(xi) Atendia também 
a população?

Médico cubano [, Diaz Delgado ?] prestando cuidados de saúde
em zona controlada pelo PAIGC. S/l, s/d. [c. 1966/68].
Foto do Arquivo Amílcar Cabral / Casa Comum / Fundação
 Mário Soares.  Com a devida vénia... Ver aqui o original.
Com poucas semanas de estar em Sará, a população vinha-nos visitar assiduamente, não para resolver problemas das feridas de guerra, mas de outras doenças.

Nessa zona são muito frequentes as hérnias abdominais, umbilicais, inguinais, e como forma de ir ganhando a confiança da população, realizei várias intervenções cirúrgicas deste tipo, que são relativamente fáceis.

Tive a sorte de todos os casos evoluírem muito bem, sem infecção, e se algum se complicava, com um pouco de antibiótico o resolvia. Os naturais eram muito sensíveis pois estavam virgens, nunca tinham tomado antibióticos e qualquer medicamento que eu lhes dava os assimilavam perfeitamente.

Para mim o principal trabalho em Sará, durante esses meses, foi a extração de dentes, cinco ou seis por dia, pois ninguém o fazia na região. Tenho um caderno onde registei a quantidade de pessoas que tratei, incluindo o português desertor que me apresentaram em Dacar, que depois se confirmou tratar-se de um agente da Inteligência portuguesa. Esse homem permaneceu preso no Norte da Guiné, convivendo connosco nesse acampamento.

Naquela base vinham-nos visitar constantemente elementos da população que depois, noutras ocasiões, faziam circular a informação da nossa presença, que chegava aos ouvidos dos portugueses. Para nossa segurança e a dos enfermeiros, mudámos o hospital para um lugar secreto com uma pequena porta e sem acesso à população. Éramos nós que nos deslocávamos à base para observar os pacientes, e dessa forma não sabiam onde estávamos instalados. Nos primeiros meses foi quando mais atendi os civis, pois estava fixo no acampamento.


Guiné > Região do Cacheu > São Domingos > CART 1744 (1967/69) > Tabanca ao fundo e instalações do quartel em primeiro plano e no lado direito.

Foto (e legenda): © José Salvado (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


(xii) Depois do Sará 
aonde foi colocado?

Como era cirurgião, foi determinado que para prestar melhor atenção aos combatentes, não permaneceria naquele lugar, e que passava a andar integrado num chamado bigrupo, constituído por setenta e dois elementos, com determinado armamento, os quais realizavam ataques de surpresa em vários sítios.

O chefe desse bigrupo era um comandante guineense de nome Julián [?]. Para chegar até eles tive que cruzar a fronteira, entrar no Senegal até à povoação de Ziguinchor e regressar de novo à Guiné, pela zona de São Domingos, onde existiam uma base guerrilheira e um quartel português com os mesmos nomes.[Em Ziguinchor «, o PAIGC tinha um hospital no qual trabalhou o dr.  Manuel Boal,  português,  natural de Angola, que saiu em 1961 para se juntar aos movimentos nacionalistas, casado com  Lilica Boal (Maria da Luz Boal), nascida em Tarrafal, Santiago, Cabo Verde].

Desta forma, comecei a acompanhar com eles e tive a oportunidade, sem combater, de estar presente em vários ataques. O primeiro foi contra o quartel de São Domingos. O posto médico foi instalado perto daquele lugar. O chefe militar dizia-me, sempre, para não me aproximar muito, pois ficávamos sem enfermeiros e sem mim, e acabava-se o serviço médico.

Esta acção foi importante por três motivos: o ataque foi muito forte resultando em vitória; ficou demonstrado que a guerrilha estava em condições de destruir bases dos portugueses. O objectivo era criar desorientação, acabar com a sua segurança que, até ao momento, estavam habituados a serem os atacantes, e não receber contra-ataque. 

Os ataques às bases começaram com a chegada dos instrutores cubanos à Guiné, que para além de participarem como artilheiros nos combates, treinaram os guerrilheiros no manejo das armas pesadas. Os guerrilheiros realizavam as acções, destruíam o quartel ou uma parte, e retiravam-se. Nunca tentaram conquistá-lo, pois era uma guerra de guerrilha.

Terminada esta operação, depois de ter estado cerca de vinte dias com o bigrupo, os chefes guerrilheiros decidiram para minha maior segurança que deveria cruzar outra vez a fronteira para uma zona pré-determinada e geograficamente mais acessível, até à população senegalesa de Ziguinchor. Isto o tive que fazer várias vezes para chegar à zona de São Domingos, onde se encontrava a base operacional do bigrupo e donde se saía para realizar as acções de combate. Os guerrilheiros guineenses regressavam por diferentes itinerários a esse lugar.


(xiii) Saiu sozinho?

Comigo saíram alguns instrutores cubanos, entre eles Alfonso Pérez Morales (Pina), que era o chefe dos cubanos na Frente Norte. Durante o regresso a São Domingos, realiza-se um ataque ao quartel de Guidaje [, no original, Guilelle, só pode ser gralha: não podia ser  Guileje, que fica no sul, região de Tombali], que foi mais violento que o anterior. Do nosso lado tivemos três feridos. A um deles prestei os primeiros socorros, seguindo com os outros dois. Nessa altura já tinha estado em quase todas as bases guerrilheiras do Norte: Liador, Naga, Maqué, Sará, Morés, Sambuia, realizando todos esses percursos a pé.

Com os feridos não foi possível chegar à base, pois parámos numa zona segura, porque os portugueses tinham quarteis nas áreas onde podíamos fazer a retirada. Quando começavam os ataques, os portugueses metiam-se nos abrigos e quando estes acabavam, sabiam que era a nossa retirada, começando a bater as diferentes zonas por onde poderíamos retirar.

Não era, por isso, muito seguro permanecer na zona, havia que retirar o mais rápido possível. Quando descansámos o suficiente, já tranquilos e sem correr tanto perigo, podemos tratar dos feridos. Um dos homens apresentava uma lesão no músculo, a qual resolvi, a outra situação era mais difícil porque ele tinha sido ferido no pescoço, onde o estilhaço tinha perfurado a traqueia, levantando-se a dúvida de que poderia ter entrado no brônquio e danificado alguma artéria posterior. Fiz-lhe uma traqueotomia no mesmo buraco, onde coloquei um penso, antibióticos e procurei evacuá-lo tão rápido quanto possível, uma vez que estávamos perto da fronteira. Este esforço não deu resultado, pois o ferido veio a morrer com uma hemorragia aguda. Parece que teve uma lesão de um vaso pulmonar e ali não tínhamos possibilidades de fazer placas nem algo que pudesse determinar as consequências da ferida.


(xiv) O que comiam?

Eu tinha que comer o mesmo que eles. A comida era uma vez por dia, pela noite. Numa terrina colocávamos um pouco de arroz com alguns pedaços de carne, ou ossos, e que em algumas situações se passavam entre nós para os chuparmos e, por conseguinte, tudo era feito com as mãos, pois não havia talheres. 

De manhã apanhávamos algum tipo de folhas, e se era de laranja, melhor. Aquecíamos água e mergulhávamos as folhinhas, e isso foi o que tomávamos durante muito tempo. No Norte não havia feijões nem nada, já no Leste tínhamos feijões, mas eram tantos que chegou o momento em que um companheiro só de olhar para um feijão logo vomitava.

Também dependíamos do que se caçava. Tínhamos espingardas de cartuxo. Desenvolvi uma boa pontaria, tanto com a de cartuxo como com a de calibre 22. Às vezes davam-me cartuxos para ir caçar. O que mais matava eram chocas, uma espécie de codorniz ou perdiz, iguais às de Cuba, que tinham uns bons peitos. 

Nestas andanças saía com o chefe guerrilheiro da base de Sará,  Joaquim Furtado, que foi guia de caçadores antes de ser incorporado na luta, e ensinou-me bastante sobre as tácticas que utilizam para caçar gazelas, cabras do mato e outros animais. Furtado, mais tarte, foi ferido na coluna e ficou paraplégico.


(xv) Notícias de Cuba?

A primeira notícia que recebi relacionada com Cuba foi depois de oito meses de estar na guerrilha, no Norte. Foi uma mensagem do chefe da missão, escrita em papel de guardanapo, na qual me informava de algumas coisas. Ao interior não me chegavam cartas, as primeiras foram quando rumei a Conacri [, em março de 1967, evacuado por paludismo]. Ainda guardo a que me escreveu a minha filha mais pequena e que me fez sentir o homem mais feliz do mundo.



Foto da carta da filha do dr. Diaz Delgado (anexa ao livro de H. L. Blanch)


( xvi) Tem outras memórias da estadia em Sará?


Um dia, pela madrugada, chegou à nossa tabanca (assim se chamam as aldeias ali, nas quais existem várias construções que podem ser 7, 8 ou 10) um miúdo que se chamava Kumba [, foto à esquerda, da autoria de Diaz  Delgado, anexa ao pdf], com aproximadamente quatro anos. 

Estava em boas condições gerais, mas com uma grande ferida na perna direita onde se tinha lesionado, vendo-se o osso e as artérias, pois foi na face anterior. Impressionou-me o estado anímico em que chegou, com naturalidade, sem uma lágrima, nem um sinal de dor.

Umas duas horas antes tínhamos sentido o barulho dos disparos a cerca de três quilómetros onde nos encontrávamos. Foi um assalto de surpresa a uma aldeia totalmente desprotegida, aonde não existiam guerrilheiros e praticamente foi arrasada pelos portugueses. Por sorte esta criança foi resgatada e levada ao nosso rústico hospitalito [este diminutivo quererá dizer: posto médico ou enfermaria].

Foi tratada pelo ortopedista Teudi Ojeda e por mim. Lavamos-lhe a ferida que estava muito suja e a saturamos parcialmente, pois não queríamos provocar complicações como por exemplo uma gangrena que poderia surgir no futuro. Durante o tratamento sem anestesia, Kumba manteve-se igual, sem uma lágrima e sem manifestar dor. A esta situação já nos tínhamos habituado,  particularmente na população adulta.

(Continua)

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3. Nota do editor LG:

Jorge: Fica extenso este poste, mas vamos ver... A malta está a habituar.-se à linguagem telegráfica do Facebook, já não tem pachorra (nem tempo) para postes com muita uva e pouca parra... Ora a uva é para se saborear, comer devagar, bago a bago... Os tempos hoje são do pudim instantâneo...

Ironia à parte, é bom chamar a atenção para a entrevista do dr. Diaz Delgado, hoje professor universitário reformado, que deve andar na casa dos 80 anos, se for vivo, como eu espero.

Há um ou outro lapso do autor: os feridos que ele tratou (resposta à  questão nº 13) não podiam ser de Guileje [, Guilelle, no original], que fica no sul, o homem estava na Frente Norte, no Morés e em Sará, a  sudeste de Mansabá... Fez seguramente confusão com Guidaje, ele ou o entrevistador... Sabemos que,  por volta de março de 1967, adoeceu e teve que ser ser tratado em Conacri... Os médicos, mesmo cubanos, mesmo internacionalistas, também adoeciam na Guiné... Aliás, os cubanos não se davam bem com o clima daquela terra... No regresso, será colocado na zona leste, região do Boé...

Por outro lado, era pouco provável em Sará a ouvir a música das discotecas de Bissau... a 65/70 km, de distância em linha reta... Bafatá, a leste, ficava mais perto (c. 40 km)... E mais perto ainda, Bambadinca, a sudeste... Eu,  em Bambadinca, era  capaz de ouvir bombardeamentos dos Fiat G-91 contra Sará ou Sinchã Jobel, mas mais do que isso era difícil... Música de discoteca, mesmo com altas colunas, de Bissau a Sará,  é óbvio que são fantasias do nosso dr. Diaz Delgado, um jovem médico com sangue na guelra e capaz de pecar como qualquer um de nós... . No fundo, o que ele queria dizer é que Sará, por manifesto erro de cálculo,  estava às portas de Bissau (que ele gostaria porventura  de ter conhecido como anónimo "turista")...

Mas no geral, parece-me um depoimento "limpo", sem grandes tiradas demagógicas ou vieses propagandísticos... Não se escondem os desaires e as dificuldades tremendas da guerrilha e da população que vive sob a "proteção" da guerrilha... A começar pela segurança e os cuidados de saúde...

O tal desertor português de que ele fala é mesmo o Mourão... E é muito pouco provável que fosse agente de PIDE... Em 1967 0 Mourão terá seguido, com outro desertor, para Argel... Enfim, outra fantasia (ou fantasma) do dr. Diaz Delgado.

Tive há anos (, em 2000/2002) um aluno cubano, médico, que também combateu em Angola e na Etiópia ou Eritreia (, se não erro)... Era cirurgião plástico e arranjou... uma portuguesa como companheira... Gonzalez Acosta, se bem me lembro, era o seu apelido... Era "crioulo", com traços de "índio"...  Deve estar agora por aí em Portugal,  a labutar pela vida... .

São pessoas generosas, mas pouco críticas...Apesar de uma boa relação professor-aluno, nunca lhe consegui arrancar muitas palavras sobre a sua experiência de guerra em África e muito menos sobre o regime de Fidel Castro... (Ele frequentou mas não acabou o curso de medicina do trabalho na Escola Nacional de Saúde Pública).

A "formatação" ideológica (política, religiosa, militar...) é uma coisa tramada... Para mais numa situação-limite como a guerra em que se tem de tomar partido e ter mentalidade vencedora (ou "predadora")... Jorge, foste "ranger", sabes o que é isso, da "formatação" do combatente de elite ...

Também conheço o lado oposto, um outro médico cubano, opositor do regime, antigo colega do meu filho no Hospital Amadora Sintra, também cirurgião, se não erro, e casado com uma portuguesa... Seu nome (, pelo menos literário), Miguel Pinto, com ascendência portuguesa. (Esquecemo-nos de que Cuba também foi, no passado, um destino de emigração para alguns portugueses, do Minho e de Trás-os-Montes, talvez por influência da Galiza; L Fidel Castro, como se sabe, é de ascendência galega)...

O Miguel Pinto é um escritor de talento, com livros de ficção em português, editados em Portugal, mas muito marcado pela experiência de prisão, oposição e desterro... O seu primeiro  livro,  de inspiração autobiográfica, e que ainda não  li, mas quero ler, chama-se "O ano em que devia morrer" (Edição: Sopa de Letras, 2008, 272 pp).

Mas voltando ao "nosso" dr. Diaz Delgado, a sua entrevista é um documento humano notável, apesar de tudo... Espero que os nossos camaradas saibam-no ler, com distanciamento crítico, sem paixões exacerbadas, e sobretudo saibam-no ler nas entrelinhas... É preciso saber ler nas entrelinhas as palavras escritas dos homens, portugueses, cubanos, guineenses, não importa donde... E ninguém tem o monopólio da humanidade nem da verdade!!

O Blanch, o autor do livro,  deve ser um jornalista "alinhado" com o regime... é bom não esquecê-lo. Peel menos na época... Como era o nosso Amândio Césart (1921-1987) que escreveu páginas exaltantes sobre a nossa "guerra do ultramar"...

As perguntas do escritor são "politicamente" corretas", as respostas do entrevistado parecem-me mais espontâneas e autênticas... Mas o homem, o médico, o internacionalista, o cubano, não podia contar tudo... Pelo menos em 2005... Hoje Cuba está a passar por um período de maior abertura ao exterior e  isso também é uma oportunidade que todos devemos aproveitar... Também nós, ex-combatentes na Guiné, "ainda não abrimos o livro todo"... E a prova disso é já a "antiguidade" deste blogue: mais de 12 anos na Net é obra!...

O pdf (do livro do Hedelberto López Blanch)  não está paginado... Deve ser uma versão preliminar do livro a que o Jorge Araújo teve acesso, e que de resto está disponível "on line", no original, em castelhano... As fotos vêm no fim, o que não é normal num livro em papel...
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5 comentários:

Antº Rosinha disse...

Fabuloso, estás a escrever a verdadeira história Luísgraca.
A guerra "anti-colonial" também tem que ser escrita.
Houve na mesma guerra, a Guerra do Ultramar, a Guera Colonial e a guerra Anti-colonial.
Esta sim, uma verdaeira guerra mundial contra o colonialismo português.
Os médicos cubanos têm muita fama de bons resultados, mas para o povo da Guiné ficaram com uma imagem tão negativa, que passados 5 anos da independência fugiam de dar baixa no Simão Mendes, porque ficaram com a fama que cortavam a perna por uma simples ferida no joelho.
É que continuavam sem meios em paz, tal como acontecia na luta.
Será que os cubanos, que já comandavam as frentes nos seus raides fronteiriços, não teriam participado no desaparecimento de Amílcar Cabral?
É que o comportamento dos Cubanos e Russos em Bissau, quando foi o derrube de Luís Cabral, foi muito estranho de rápida adesão ao golpe de Nino, ao contrário de Suecos, tugas e outros.
Parabéns Luísgraca

antonio graça de abreu disse...

Muito interessante o testemunho.Retrato implacável das imensas dificuldades internas do PAIGC, para estar no terreno e aguentar a luta.

Abraço,

António Graça de Abreu

Anónimo disse...

Poderia ser bastante contundente..mas não o irei fazer por pudor e também por princípios éticos....

Sobre os médicos cubanos há bons e menos bons profissionais como em todo o lado..
Tudo o que se escreve sobre a "medicina cubana" na maior parte dos casos não passa de propaganda.
Já trabalhei em situações parecidas como as descritas no poste ..só que apesar de tudo com outras condições logísticas..dispunha de "kits" de emergência com medicamentos e material para pequena cirurgia esterilizado e descartável.
As dificuldades eram muitas e na maioria das vezes não se conseguiam resolver situações simples.
Como conseguiam medicamentos, material cirúrgico,..etc.etc. se nem alimentos tinham..o seu desempenho seria menos que zero e muito frustrante profissionalmente.

Cuba "fabrica e exporta"médicos na razão inversa da importação de petróleo,e no passado era o "internacionalismo proletário"..perdão, influência política..

C.Martins

Tabanca Grande disse...

Jorge:

Só temos que louvar o teu propósito, didático, sem deixar de ser crítico, de fazer chegar o livro (na parrte que nos interessa) ao conhecimento do público lusófono, incluindo a Guiné-Bissau... É importante frisar que muitos de nós ou alguns (por exemplo, tu , eu...) tivemos confrontos (violentos...) com combatentes cubanos.

E há "mitos" quanto à presença de "enfermeiras cubanas"... Fantasias machistas nossas ? Ao que parece, nunca houve enfermeiras ou médicas cubanas, no TO da Guiné.

15 de outubro de 2005 > Guiné 63/74 - CCXLIII:Op Lança Afiada (1969): (i) À procura do hospital dos cubanos na mata do Fiofioli

http://blogueforanada.blogspot.pt/2005_10_09_archive.html

Esclarece este ponto: nunca houve mesmo cubanas ?... Pelo menos, nunca li referências (cubanas) a mulheres de Cuba ao lado do PAIGC... E, em 1966/68, não havia mesmo,segundo o depoimento do Diaz Delgado. O nosso "Torre e Espada" Raul Folques, em conversa que tive com ele no 10 de junho de 2016, em Belém, garantiu-me ter visto os corpos de duas mulheres, caucasianas, vítimas colaterais da Op Neve Gelada, em 1974. no leste... que ele pensa serem enfermeiras cubanas... O Carlos Matos Gomes também terá escrito o mesmo...

Tabanca Grande disse...

Era bom que o C. Martins e outros camaradas nossos que são médicos, e cirurgiões (estou-me a lembrar do Francisco Silva, do Mário Bravo, do J. Pardete Ferreira e de outros, membros da nossa Tabanca Grande...), pudessem comentar o depoimento do dr. Diaz Delgaedo, do ponto de vista clínico, técnico, ético e deontológico... Fica aqui o convite (e o desafio). LG