quinta-feira, 21 de julho de 2016

Guiné 63/74 - P16322: As minhas crónicas do tempo da Diamang, Lunda, Angola (1972-1974) (José Manuel Matos Dinis) - Parte VII: a cultura da "responsabilidade social"...


Fonte: Companhia de Diamantes de Angola : breve notícia sobre a sua actividade em Angola (Diamang). Lisboa : Companhia de Diamantes de Angola  (Diamang), 1963.


1. Mensagem do José Manuel Matos Dinis:

Foto à esquerda:

José Manuel Matos Diniz, 

(i)  ex-fur mil at inf, CCAÇ 2679,Bajocunda, 1970/71;

(ii) nosso grã-tabanqueiro e adjunto do régulo  da Magnífica Tabanca da Linha, Jorge Rosales;

(iii) depois do seu regresso a casa, a Cascais, em janeiro de 1972, vindo da Guiné, rumou até Angola, em maio de 1972;

(iv) vai viver e trabalhar na Lunda, na melhor empresa angolana na época, a famosa Diamang - Companhia de Diamantes de Angola, com sede no Lundo;

(v) aqui casou (por procuração), aqui nasceu o seu primeiro filho:

(vi) desafiado por nós justamente a falar da sua experiência angolana em meia dúzia de crónicas memorialísticas,  aceitou galhardamente o desafio e já foi além, do prometido (*).


Data: 12 de julho de 2016 às 22:11

Assunto: As minhas memórias do tempo da Diamang, Lunda, Angola - parte VII

Caros amigos Luís e Carlos,

Aqui vai a parte VII das memórias, agora com uma divulgação sobre métodos aplicados naqueles azimutes, que já revelavam alguma modernidade de gestão. Infelizmente, até o pessoal mais qualificado podia não intuir o alcance de algumas orientações, mas que existiam... lá isso existiam, e tinham como preocupação o primado do ser humano.

Enquanto não me mandarem parar, e tiver alguma coisa para contar, levam comigo.

Abraços fraternos
JD


2. As minhas crónicas do tempo da Diamang, Lunda, Angola (1972-1974) (José Manuel Matos Dinis) - Parte VII: uma cultura de "responsabilidade social"

Quando um empregado chegava à Lunda, recebia tapetes, tecidos para cortinados, lençóis... e uma grossa pasta-arquivo com inúmeras ordens de serviço, onde, em princípio, poderiam ser encontradas as diferentes orientações do ponto de vista técnico e social. Também recebi, mas não li mais do que uma dúzia, pelo que muitas das matérias ali tratadas nem tive conhecimento delas, e algumas, em leituras posteriores, constatei que teriam muito interesse para a melhoria da condição de vida dos trabalhadores e familiares.

Esta culpa de que me retrato, tem a ver com a enormidade da pasta, e com a escassez de tempo para além do horário normal de trabalho, mas, principalmente, porque a Companhia não se interessou pela criação de programas de aferição, difusão, melhoria e tratamento das matérias ali expostas.

A dar conta desse género de preocupação social, leia-se com alguma delícia uma passagem:
Com os trabalhos da Companhia «a tenebrosa Lunda abriu-se como flor exótica, e os benefícios da civilização e da cultura entraram nela como bênção do céu. À riqueza diamantífera que ela oferecia, riqueza do adorno e de coisas sumptuárias, como de indústria e ciência, respondia a Diamang com riqueza de princípios de desbravamento, de elevação humana... Por muito estranho que possa parecer aos detractores (e das obras insignificantes não os há) ou aos ignorante (e de todas as obras os há), a Companhia deixa, praticamente, tudo o que tira na própria Província».

De algumas coisas  tão evidentes e de tanta grandeza e importância, a par de outras de mero sentido lúdico, já dei parcial conta e significado da vitalidade para a região e para a província, mas não posso subscrever a parte relativa ao investimento local, bem como aos empréstimos financeiros ao Estado, na medida em que não tenho elementos de consulta sobre valores de produção e vendas, nem dos valores relativos a encomendas, investimentos, importações e outras despesas.

É do conhecimento geral que a Companhia beneficiava de sérias isenções sobre importações, mas também é verdade que fazia empréstimos ao Estado mediante juros simbólicos e insignificantes. Este extracto tem apenas uma intenção, a de mostrar como sob a forma de relatórios, também pode ser possível fazer expandir mensagens de carácter social com vista à inclusão das classes, que todos sabemos, não acontece com a velocidade de um clique. Ali havia aquela preocupação, e aos diferentes quadros é que poderia imputar-se a responsabilidade sobre o desleixo de delas não tomarem conhecimento nem fazê-las aplicar.

«Nunca impôs superioridades raciais, mas bateu-se e bate-se pela fraternidade humana e pela igualdade perante a lei, embora partindo da 'igualdade de méritos', como é próprio das sociedades progressivas».

Não foi, seguramente, sempre assim, mas é consolador que houvesse preocupações dessa índole.

«Estabeleceu, assim, nas tais terras tenebrosas, o nervo criador e trepidante da 'civilização adequada', que se estendeu desde a 'humanização do clima' até à 'humanização do silvícola', desde a plantação da mandioca e da citrina até à protecção às grávidas e à infância».

Em 4 de Dezembro de 1920 celebrou-se um contrato com o Alto-Comissário que fixava uma grande região de "claims", e em contrapartida, a Diamang obrigava-se:

a) a intensificar os trabalhos de pesquisa e exploração de diamantes nas áreas concedidas, de forma a aproveitar, o mais possível, as concessões;

b) a dar à Província, em acções inteiramente liberadas, 5% de todo o capital já emitido ou que o viesse a ser;

c) a entregar à Província, anualmente, 40% dos lucros líquidos;

d) e, ainda, a emprestar à dita Província 400.000 libras, em duas prestações iguais...

"Presentemente, nos termos dos contratos celebrados em... e 10 de Fevereiro de 1955... tem a Província direito a 50% dos lucros da Companhia, o que representa para as finanças de Angola uma participação verdadeiramente notável».

O distrito da Lunda, como, aliás, grande parte do território angolano até aos anos sessenta, representava uma fase embrionária de desenvolvimento social, fortemente influenciado pelas tradições tribais, na medida em que a presença dos brancos que levaram os primeiros métodos e instrumentos de trabalho e organização, circunscrevia-se às regiões urbanas e arredores. Deve ter-se em conta o imenso território da província, e a escassez de população, apresentando baixíssimo índice de habitante por quilómetro quadrado.

A Diamang carecia de grande número de pessoal indiferenciado, que a Lunda não podia proporcionar, pelo que também recorreu ao regime dos contratados, trabalhadores que eram deslocados desde grandes distâncias. O processo não se pode classificar de dignificante, pelo contrário, pois havia angariadores que ofereciam prendas a certos sobas, que designavam as pessoas a transferir. Só uma minoria se fazia acompanhar das famílias, pois a grande maioria eram jovens robustos e solteiros, que, geralmente, acabavam por cruzar laços de sangue com mulheres locais.

Inicialmente viviam em casas de construção tradicional, e as aldeias não dispunham de quaisquer infra-estruturas. Com o decorrer dos tempos e a prosperidade da Companhia, que também se reflectia nos salários de milhares de trabalhadores, o que aumentava a massa de capital circulante, houve nítida evolução, quer do modelo das casas da população que não beneficiava de habitação fornecida, quer nas infra-estruturas das aldeias, que incluíam latrinas, pontos de água, e por vezes banhos públicos e tanques de lavagem.

"Em matéria de trabalho houve o reconhecimento de que as populações africanas, pela sua debilidade económica e correspondente pouco desenvolvida divisão do trabalho, não estavam em condições de eficazmente, defender os seus direitos e interesses dentro de um sistema caracterizado pelo salário. Por isso, o Estado, cumprindo o assumido dever de protecção, criou em benefício delas o regime do indigenato, de características que o especializaram em face de outras formas de intervenção estadual, também usadas em favor das classes economicamente débeis. Estes regimes caracterizavam-se por uma regulamentação protectora, particularmente apertada e paternalista».

Aqui estamos em presença de um discurso com base no pensamento oficial que foi tão severamente criticado pelos opositores ao regime. Peço, por isso, a vossa diligência para o criticarem com liberdade e fundamento, não esquecendo a particularidade da época (1963), e os regimes congéneres nas países anglófonos e francófonos dali vizinhos.

O processo de evolução social estava em marcha acentuada. Segundo a Companhia, «não se trata de fornecer ao trabalhador alimento suficiente e racional, habitação higiénica e confortável, salário justo e equacionado com as possibilidades das empresas e as necessidades familiares do trabalhador, mas, e muito principalmente, de acompanhar de perto a evolução psicológica correspondente à alteração do sistema tradicional de vida, inevitável quando o salário vem substituir os recursos angariados segundo as formas próprias das economias de subsistência». 

Por essa altura também foi dada atenção às condições do trabalho feminino, embora só um reduzido número de mulheres trabalhasse para a Companhia.

A Diamang teve ainda a preocupação de em África estabelecer a progressiva valorização e ligação das raças brancas e de cor. Melhorar as condições de vida dos nativos, zelar pelo seu bem-estar, elevando-os na escala dos valores sociais e económicos (com o contributo da escola e da igreja), eram objectivos que estavam na base de toda a organização. Para isso houve que considerar os trabalhadores africanos segundo os conceitos de:
a) grau de educação social;
b) grau de evolução profissional;
c) modalidade contratual.

A primeira qualificação revela a ponderação sobre o trabalhador desde o mínimo da evolução, até à situação de cidadania adquirida e em que o seu regime é equiparado ao do trabalhador europeu.

(Continua)


3. Comentário do editor:

Zé:  Qual a fonte? A referência bibliográfica? As fotos não são tuas... No nosso blogue, temos que pôr estas coisas, como manda a lei...

Ouras coisa: dizem que o acionista belga da Diamang  é que influenciava as decisões e a cultura da empresa: caso da criação do Museu, por exemplo... A colonização e a "pacificação" do Congo, transformada em "couto privado" do Leopoldo II, da Bélgica, são das páginas mais negras da história do colonialismo em África... Acho que fomos uns "meninos de coro" ao lado deste gajo, hoje acusado de genocídio... O que sabes dos "belgas"?

Um abraço.
Luís



Congo ex-Belga > c. 1920 > "Troféus de caça"...  Uma visão europocêntrica (imperial, pedradora, paternalista,,,) de África. Fotos de Victor Jacobs (digitalizadas e editadas por LG.). 

Fonte: Louis Franck - Le Congo Belge, Tome I. Bruxelles: La Renaissance du Livre. 1928. p. 152, [Exemplar, raro, gentilmente disponibilizado pelo meu amigo e vizinho de Alfragide, eng. agrº Francisco Freitas, nascido no antigo Congo Belga, hoje República Democrática do Congo.  O autor, Louis Franck (1868-1937) foi um político, belga, de origem flamenga, jurista, escritor, antigo ministro de estado e antigo ministro das colónias; interessou-se por questões como a colonização belga no Congo, o atvismo flamengo, etc.;  fundou a École coloniale supérieure,em  Anvers, em 1920, mais tarde, em 1923, Université coloniale de Belgique].


4. Resposta do José Manuel Matos Dinis, com data de 13 do corrente:

Olá, Luís, tens razão.

A fonte é uma publicação da Diamang, datada de 1963, sob o título Companhia de Diamantes de Angola: Breve notícia sobre a sua actividade em Angola. Não faz referência a restrições sobre publicações. É uma edição própria. 

No meu tempo não havia belgas, apesar de uma participação no capital que a Forminiére detinha. Mas foram os belgas que intuíram da existência de diamantes em Angola, tendo em conta a proximidade geográfica das jazidas, e a continuidade das condições morfológicas e geológicas do território. 

Também foram eles a dar impulso à prospecção e a entenderem-se com o Governo para o inicio das explorações. Isso está na Net. 

Meninos de coro? Claro que sim, apesar de termos tido exemplares dados à exploração do preto considerado subproduto da humanidade. Norton de Matos, que pretendeu dignificar o tratamento dado aos nativos, foi corrido depois de o Parlamento o ter desancado com o argumento de bon-vivant, mas só fazia um trabalho encomendado, que incomodaria o Norton. A A.N. desconsiderou-o tanto, que o senhor foi demitido por duas vezes, e durante esse período o regime foi de difícil explicação, entre o liberal e o esclavagista.

O curioso, é que foi o desencadear da guerra, que permitiu um fluxo importante de colonos, mais apetrechados, que ajudaram à mais brilhante expansão sócio-económica da iniciativa dos portugueses.  Se o Brasil foi em tempos o orgulho de país irmão, não sei se Angola quereria romper os laços, mas seria, certamente, uma sociedade moderna e exemplar, porque todo o crescimento era equilibrado e reflexo dos níveis de progresso atingidos.

Um abraço,
JD


5. Resposta de LG, no mesmo dia:

Obrigado, Zé, confirmo, encontrei a referência na Porbase - Base Nacional de Dados Bibliográficos:

Companhia de diamantes de Angola : breve notícia sobre a sua actividade em Angola (Diamang). Lisboa : Companhia de Diamantes de Angola(Diamang), 1963.

É suficiente.

Ab.
LG
_________________

Nota do editor:

Último poste da série > 4 de julho de  2016 > Guiné 63/74 - P16265: As minhas crónicas do tempo da Diamang, Lunda, Angola (1972-1974) (José Manuel Matos Dinis) - Parte VI: singela homenagem ao etnólogo e antigo diretor do Museu do Dundo, João Vicente Martins (n. 1917)

10 comentários:

Tabanca Grande disse...


Zé: A história não se faz a preto e branco, e muito menos se escreve. Há "sangue, suor e lágrimas"... Os portugueses têm tendências para as análises sumárias (que, em geral, tendem a lever às execuções sumárias)... Com a Diamang, e outras empresas que foram "marcos" da colonização de África, quer europeias, quer mais especificamente portuguesas, acontece o mesmo que aconteceu com a CUF - Companhia União Fabril... Como eu costumo defender aqui no nosso blogue, não devemos diabolizar nem santificar nada nem ninguém...

Voltando à Dimang, sobre a qual passei a conhecer um pouco mais, com as tuas crónicas... É preciso sempre contextualizar... A "política social" da Diamang sofreu, por certo, muitas influências... Estás a citar um documento de 1963... Ora nessa altura a empresa já tinha 40 e tal anos...

"Fundada em 1917, a Diamang – Companhia de Diamantes de Angola, sucede a uma empresa de prospecção, a PEMA – Pesquisas Mineiras de Angola. Esta empresa fora constituída em 1912, com o propósito de proceder à delimitação de jazidas diamantíferas no Nordeste de Angola, na bacia hidrográfica do Cassai, numa área de fronteira com o Congo Belga concessionada à Forminière – Société Forrestière et Minière du Congo, cuja exploração mineral fazia prever a continuidade das jazidas do lado português da referida bacia hidrográfica.

"Foi, de resto, sob o impulso da Forminière que se criou a PEMA, a qual transmite os seus direitos de prospecção e exploração à Diamang em 1917. A Diamang é constituída com capitais portugueses – da firma Henry Burnay & Companhia, depois Banco Burnay e do Banco Nacional Ultramarino; belgas – da Société Générale de Belgique e da Mutualité Coloniale; franceses – da Banque de l’Union Parisienne, e dos Estados Unidos da América – do grupo Ryan-Guggenheim. A este grupo inicial virão a juntar-se outros ao longo do tempo."

Fonmte: diamang digital
http://www.diamangdigital.net/index.php?module=content&id=2

A Diamang Digital é "um projeto de digitalização e disponibilização em linha de materiais documentais, fotográficos e fonográficos da ex-Diamang - Companhia de Diamantes de Angola, em arquivo na Universidade de Coimbra".

Tabanca Grande disse...

A história da Diamang não pode ser desligada do contexto (económico, político, social, etc.) de Angola e de África. E, naturalmente, de Portugal, que em 1926 passou a ter um regime político de exceção (ditadura militar) que se tornou, em 1933, em regime de partido único (o Estado Novo).

Do ponto de vista jurídico-constitucional, houve um retrocesso, quando comparamos a monarquia constitucional, no séc. XIX, com os regimes políticos que se lhe sucederam: até 1914 não havia a figura do chamado "indigenato"... Pelo contrário, era reconhecida (embora não praticada...) a assimilação formal da população das colónias com a da metrópole...

O "estatuto do indígena", já previsto na lei 277, de 15 de agosto de 1914, diferenciado para cada colónia, e a aprovar por cada governador, vai-se efetivar com a ditadura militar em 1926: "Estatuto político, civil e criminal dos indígenas de Angola e Moçambique" (decreto 12533, de 30 de outubro de 1926)... É esse diploma que consagra, jurídica e doutrinariamente, o infeliz conceito de "indígena"...

Seria ocioso aprofundar esta questão aqui.. Mas é bom lembrar que o regime de indigenato só foi abolido, já no contexto da guerra colonial, pelo decreto-lei 43893, de 6 de setembro de 1961...

Era ministro do ultramar Adrinao Moreira.

Vd. aqui o diploma, em formato pdf:

https://dre.pt/application/file/180951

Anónimo disse...




Meu caro camarada José Dinis:

Continuo a seguir com interesse a história da Diamang, que tu conheceste por dentro pois estiveste envolvido na sua dinâmica, como funcionário diligente e interessado. Na verdade muitos como eu, pelas notícias que nos chegavam através dos nossos conterrâneos que por lá trabalhavam ou que tinham estabelecimentos comerciais nos arredores em Saurimo ou próximo, tínhamos a ideia que a Diamang era um estado dentro do Estado. Dos comerciantes que tinham estabelecimentos próximos da área da Diamang, também se falava, logo após a descolonização, que alguns tinham trazido algumas "pedras" e estavam bem na vida. Na verdade um deles, ou foi com pedras ou com outras economias comprou bons prédios nas avenidas novas de Mogadouro. De um primo meu também comerciante, as pessoas falaram das tais "pedras" embora nunca tivesse feito tanta demonstração de riqueza. Amigo José Dinis, pelo que entendi e peço que me confirmes, caso saibas, havia alguns nativos, que se dedicavam à prospeção clandestina e que depois iam vender o produto encontrado aos comerciantes.
Continua a fazer história para não perdermos a memória do que fomos.
Um grande abraço. Francisco Baptista

JD disse...

Caríssimo Francisco,
Havia. O garimpo era uma forma de se alcançar algum dinheiro, para compras ou vidas mais ambiciosas. O garimpo, ainda durante o meu btempo, foi severamente reprimido por autoridades, e, constava, por um snipper a bordo de um heli, que actuaria na região do rio Cuango, de onde se extraíam as melhores gemas.
A Companhia também era um estado dentro do estado, pois exercia a autoridade em imensa área do território angolano. E a Companhia dava solução directa a muitas coisas: energia, assistência médica e hospitalar, construção e manutenção de estradas, pontes, aeródromos, escolas, etc;para além de apoiar e subsidiar outras actividades, quando era solicitada.
Portanto, tanto fazia papel de boa, como de má. Mas temos que ser sérios, exerceu uma influência benfazeja na região, para além dos empréstimos e outras iniciativas a favor do Estado.
Dentro da Companhia, no exercício de funções, também houve funcionários que se governaram. Há entre nós, pelo menos dois outros antigos empregados, pelo que não devo estar a mentir, sob pena de ser chamada à pedra. Mas as estórias ainda não acabaram.
O que posso dizer-te com toda a certeza, é que ter ali trabalhado, foi fascinante.
Um grande abraço
JD

Antº Rosinha disse...

Talvez a Diamang fosse em Angola a única Companhia que melhor imitava as grandes companhias inglesas alemãs belgas e francesas em África.

Quando Bismark, leopoldo II e as outras potências inglaterra e França, (Cecil Rodhes e outros)dividiram África em Berlim, era simplesmente para dividir a exploração dos recursos naturais, ouro diamantes, volfrâmio, madeiras e o que aparecesse.

Estavam-se nas tintas para os africanos, nem para escravos os queriam, pois estes já estavam a ficar muito exigentes, já queriam trocar a tanga de pele de gazela por tirylene, e a querer uma retrete para o preto ao lado da do branco além da escola para o preto ao lado da do branco.

Então ensaiaram o neo-colonialismo a que chamaram independências e abandoram em África os pobres dos portugas sozinhos que foram os últimos europeus, (Europeus?, só se forem de segunda, dizem aqueles sacanas),a sair de África e a deixar os diamantes sem sangue, a ficar como todos os outros diamantes, petróleos e volfrâmios completamente ensanguentados.

Honra a Mandela que não deixou que os boers fossem expulsos de sopetão e as riquezas continuam na África do Sul.

Sorte dos sul-africanos e azar das zebras, búfalos e girafas da Rodésia, Zimbábué de Mugabe, que já vende em leilão todos os animais das reservas de caça por falta de água, que morrem à sede (jornais)

A guerra de Pirada e Guidage visava principalmente a Lunda do Comandante Vilhena, pai do museu do Dundo e os Bothas da África do Sul, o cone de África.

Os Guineenses eram, e são o mexilhão.

JD, é difícil explicar, mas sabes que também não leio pela tua cartilha, és mais Norton e Galvão como eram muitos imperialistas eu sou mais Antoninho da calçada.

Nós nunca podiamos imitar aqueles grandes exploradores.

Fui teu colega 1 mês, comia no refeitório dos solteiros no Cafunfo, já contei.

Grandes e complicadas vidas, mas que mundo estuporado.

Não deixemos cair a "peteca" (bras.)

Falta muito para contar o fim dos impérios!

Torcato Mendonca disse...

OLá Rosinha, podias contar mais "sobre o muito que falta". O colonialismo á portuguesa, a construçáo dos Impérios e o fim (o fim????....a nova forma de explorar...). Sabes muita "tralha" e ficava aqui, neste espaço, plasmado por um Homem das Áfricas.

Gostei! Não quer dizer que concorde com tudo...Um abração do Torcato.

Ab,T.

JD disse...

Olá Rosinha,
Aprecio sempre o que escreves, embora a maior parte das vezes sem que as aprofundes. Estou como o Torcato a pedir-te para pores no papel, e deixares o teu contributo para a nossa informação.
Como sabes a história não se escreve num clique, por vezes são necessários anos para sistematizar e interpretar as informações. Não sou seguidor de Norton nem de Galvão, embora os tenha na conta de africanistas ricos em humanidades. Galvão escreveu romances que o caracterizam no carácter, e Norton teve na Assembleia Nacional os maiores inimigos, geralmente representantes dos interesses empresariais em Angola. E teve um inimigo particular, que foi ministro e opositor de Salazar, o advogado Cunha Leal, accionista da Companhia de Diamantes. Não há linearidades, antes, depara-mo-nos com deltas de interesses, que umas vezes parecem harmonizar, e outras parecem espingardar.
Não tenho o saber nem a experiência suficientes para fazer relatos históricos sobre Angola, apesar de me interessar pelas suas envolventes. Procuro não ser seguidista, e neste post, se calhar, não o evitei em boa medida, pois na verdade, as habitações modelares retratadas eram apenas para uma minoria de trabalhadores. Por outro lado, nem nós estávamos preparados para melhorar as condições de vida das populações, pelo contrário, alguns, ainda amealhavam com trabalhos de fotografia que vendiam aos nativos.
Em inúmeros casos faltou-nos vocação e educação para ajudar ao desenvolvimento mais acentuado dos povos com quem partilhàvamos as vidas. Tal como aqui, na metrópole, onde é tão rara a cidadania activa.
Um abraço
JD

Antº Rosinha disse...

Ó Torcato, embora tivessemos sido os pioneiros em criar o futebol euro-africano, (até os suecos já têm avançados pretos "uscuros" e "claros"), não fomos nós a ensinar os africanos a fugir a nado pelo mediterrâneo para a Europa.

E nós apenas levámos macaenses para Angola e Moçambique, não levámos a China em peso.

Torcato, a verdadeira exploração/colonização de África está no princípio.

E mais, tenho que andar devagarinho para não espantar muita gente aqui deste blogsforanada, de maneira... tem paciência Torcato.

Antº Rosinha disse...

JD, como posso aprofundar, sem me afastar muito de Bajocunda, Pirada e Buruntuma?

Aqui, no blogsforanada, sou visita e não podemos permitir que os verdadeiros combatentes da Guiné se afastem. pois tenho a certeza que incomodo algumas vezes.

Mas JD, ser anti-colonialista ou colonialista em África, são termos que são muito diferentes vistos por europeus que estiveram ou viveram lá, ou só passaram por lá.

E aqui, mesmo tu que deste o coiro na Guiné, escreves com pesinhos de lã.

Aprofundar?

Calma!

Mendes Matos disse...

Estive cerca de um ano na Lunda, quase sempre dentro do «Estado da Diamangem», com fronteiras ou postos de controlo, comissão militar. Fui ao cinema onde havia lugares para brancos, assimilados e negros. Percorri a Lunda Norte, do Cassai ao Cuango, passando por Andrada, Dundo, Lóvua, Cuilo, Caungula, etc. Encontrei conhecidos em Andrada, em Chingufo, no Dundo e não Lundo. Estive em explorações de diamantes. Em Dundo, conheci José Redinha e o Dr Videira, entre outros. Na milícia da Diamang, encontrei um colega de escola primária. Num festival de folclore, acompanhei o Professor Hernani Cidade, que visitava a Diamang. Frequentei a grande biblioteca, no Dundo. Percorri centenas de aldeias, fazendo um arremedo de recenseamento da população e implantação das sanzalas. Observei a mucanda dos rapazes, a iniciação das raparigas, tomei parte em caçadas e batuques. Era uma Angola diferente. Um irmão de um soldado, que não foi militar, foi a Angola em negócios e chegou a Henrique de Carvalho. Como não podia entrar na Diamang, sem salvo-conduto, para visitar o irmão, foi num carro militar, clandestino, para o Dundo. Aí, vestiu uma farda do irmão e esteve 8 dias no edifício da Estação Meteorológica da Diamang, que estava à espera de aparelhagem. Para sair da Diamang, em avião comercial, um funcionário da Diamang comprou bilhete para um familiar se deslocar a Luanda e, no seu lugar, foi o intruso, que um jipe militar levou ao naeroporto, em Portugália. Fascinado pela Lunda, escrevi um artigo para o «Diário Popular», com o título «Lunda, Terra Enfeitiçada».