quinta-feira, 21 de julho de 2016

Guiné 63/74 - P16323: Fotos à procura de...uma legenda (74): A faca de mato... afinal, para que é que servia ?


Guiné > Região do Cacheu > Teixeira Pinto > 35ª CCmds e Pel Rec Daimler 3089 (Teixeira Pinto, 1971/73) > Foto nº 56 do álbum de Francisco Gamelas  > Março de 1972 > Estrada Teixeira Pinto. Cacheu >  O alf mil comando Alfredo Campos, da 35ª CCmds, abre, com a sua faca de mato, uma lata de conversa de fruta, num momento de pausa e descontração.

Foto (e legenda): © Francisco Gamelas (2016). Todos os direitos reservados [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Fotos à procura de... uma legenda  > faca de mato... afinal, para que é que servia ?

Não tenho a certeza se fazia, obrigatoriamente, do nosso equipamento inidvidual durante a guerra colonial... Eu sei que tinha uma, não sei se me foi distribuída pelo exército ou se a comprei no Casão Militar...

No Manual do Oficial Miliciano (1965), era considerada uma arma importante na contraguerrilha:

(...) As armas mais convenientes para serem usadas na guerra da selva, onde a observação e o campo de tiro são muito limitados, são armas de curto alcance, de fácil remuniciamento e fácil transporte sobre terreno difícil. As armas que reúnem melhores condições são a espingarda, a baioneta, a espingarda-metralhadora, a pistola-metralhadora, a carabina, granadas de mão e de espingarda, a catana e a faca de mato. (...) 

In Manual do Oficial Miliciano: parte geral, 1º volume. Edição do Ministério do Exército, Estado Maior do Exército, Rep Instrução,  1965 (*)

As tropas paraquedistas, julgo, usavam uma, especial, da marca espanhola Aitor...

Afinal, para que servia a faca  de mato ? Levantar minas ? Silenciar sentinelas ? Abrir latas de conservas ?  Servir de talher ? Limpar as unhas ?... Ou era só "ronco" ?

Os nossos camaradas de minas e armadilhas não prescindiam dela, a "amiga" faca de mato, O nosso saudoso Luís Faria (1948-2013) tem uma história, reveladora da relação especial que alguns de nós tinham a sua faca de mato (*)...

E o resto da "tropa-macaca" ? Que histórias tem para contar deste utensílio multiusos que faz parte das nossas memórias ?

Fica aqui um interessante desafio (e passatempo) para o fim de semana (**)... Ponham, por favor, uma legenda, na excelente foto do Francisco Gamelas, acima reproduzida... Mandem fotos, mandem histórias, façam comentários... A Tabanaca Grande agradece... LG

___________

Notas do editor:

/*) Vd. poste de 3 de abril de 2008 > Guiné 63/74 - P2717: Exército Português: Manual do Oficial Miliciano (1): A Selva, perigos, demónios e manhas (A. Marques Lopes)



Foto do saudoso Luís Faria (1948-2013),
ex-Fur Mil Inf MA da CCAÇ 2791, 
Bula e Teixeira Pinto, 1970/72

(...) Tinha-a comprado no Porto. Era equilibrada,  adaptava-se muito bem à minha mão, éramos inseparáveis e até dez passos o lançamento não falhava o alvo. Levantou 1032 minas, mas nunca chegou a ser usada em/contra alguém.

Um dia, numa operação na zona de P. Matar, embrulhei (amos) forte e feio. Durante o regresso dei pela falta dela. Por qualquer motivo, desembainhou-se e lá se foi, no campo de batalha. Fiquei bem aborrecido! Era a minha companheira, tinha-lhe um carinho especial e ela transmitia-me uma sensação de segurança. Não tinha hipótese de voltar atrás para a procurar. Por lá ficou, perdida mas não esquecida.

Talvez numa próxima visita aquela zona tivesse a sorte do reencontro, quem sabe?

Alguns dias passados, estava com dois ou três amigos a beber uns copos na tasca do Silva (creio que era o nome) e às tantas uma bajuda abeirou-se deu-me um um pedaço de papel enrolado, disse: 

- É do Furié… - e rapidamente desapareceu, não dando tempo a qualquer pergunta.

Desenrolei o papel e… era a minha faca de mato! (...)


(**) Último poste da série > 20 de junho de  2016 > Guiné 63/74 - P16220: Fotos à procura de...uma legenda (73): O alferes miliciano piloto aviador Carlos Gonçalves em janeiro de 1972, no bar de oficiais de Teixeira Pinto (Lino Reis, cor piloto aviador ref)

5 comentários:

Sousa de Castro disse...

Caros amigos,
A Faca do mato fazia parte do equipamento individual de cada soldado, era um instrumento (ferramenta) útil, como abre-latas afiar paus, se calhar como defesa pessoal, etc. Também servia de ronco (armar aos cágados)quando algumas vezes passeávamos pela tabanca.Eu pessoalmente tive como arma mais activa, para além da G-3 e da faca do mato, a chave de morse, foi essa a minha arma durante 27 meses.

SdC

José Botelho Colaço disse...

A faca de mato no meu tempo 1963/65 não fazia parte do equipamento dos praças soldados e cabos (da tropa macaca) mas a maioria compravas uma vez que tinha outra performance, era mais acessível do que o sabre esse sim fazia parte do equipamento mas a ser devolvido no espólio do equipamento militar. Dos graduados não sei, eu ainda guardo a minha embora muito mal estimada, a começar na Guiné pois foi vítima de um incêndio no paiol em Camamude sector de Bafatá tudo desapareceu ficando apenas a parte metálica, o cabo actualmente é em madeira feito por mim que será possível ver em foto.
Nota: As únicas coisas que nos eram distribuídas sem direito a entregar no fim campanha militar: era a marmita, o prato uma colher, garfo de cabo anãs e um canivete de bolso que também guardo provido de abre latas, cervejas e saca rolhas todo este material era em inox.
Um alfa bravo Colaço.

Tabanca Grande disse...

Camaradas, toca responder ao inquérito de opiniãp "on line", no campo superior esquerdo do blogue:

Para que servia a faca de mato ?

1. Arma de defesa

2. Limpar o sebo ao IN

3. Abre-latas

4. Talher 3 em 1 (faca. garfo, colher)

5. Ferramenta de sapador

6. Adereço / ronco

7. Outras funções no mato ou no quartel

8. "A minha amiga inseparável"

9. Objeto completamente inútil

10. Nunca tive faca de mato

11.Não sei / não me lembro

Anónimo disse...


Valdemar Silva
21 jul 2016 23:37

Assunto - Faca de mato, quase um canivete suiço

É verdade, a faca de mato que era requisitada na Arrecadação, servia
para quase tudo.

Desde o aparar estacas, passando por estripar uma lebre ou galinhola,
desmanchar uma mina na picada e, principalmente, servia às mil
maravilhas para abrir latas, as de quilo, de fruta em cauda, leite com
chocolate, conservas, etc.

Julgo que a maioria dos Furrieis tinha uma faca de mato.
Também havia facas de mato num estabelecimento civil, em Nova Lamego,
iguais às nossas, para venda. Nunca soubemos quem era o fornecedor,
provavelmente algum 'faquir' que as desviava para arranjar uns trocos. Depois tinha que se
ir lá comprar.

Eu comprei a minha e 'vestia' com manga de ronco, como agora se encontra.
Já lá vão 47 anos e ainda está impecável, o aço é de grande qualidade
e ainda é utilizada para abrir alguma lata da mesma maneira que era
utilizada num final de tarde, serenamente, nos finais de tarde não se
ouviam 'embrulhadas', com uma ligeira brisa e o sol a desaparecer,
rápido, a abrir uma lata de cerveja pouco fresca em Guiro Iero Bocari.

Abraços
Valdemar Queiroz

Torcato Mendonca disse...

A Minha Faca de Mato

Aqui mato nada tem a ver com o verbo matar. Por isso o " limpar o sebo" parece-me forte demais.

Tinha e tenho a minha faca de mato. Sofreu transformações ao longo dos tempos. O cabo mais bonito foi feto pelos Mandinças de Fá.
Era e foi objecto multiusos e indispensável ao quotidiniano de um militar. Tenho duas de cobre e outras que sobreviveram a este cavalgar pela vida...por habito alentejano, trago sempre um canivete no bolso. Pode ir variando de tamanho e marca conforme o uso a dar-lhe. O tipo suiço foi objecto de trabalho.Talvez pesadote mas dá geito...continua a auxiliar as chaves e etecetera. Gosto de canivetes e o mais giro é um disfaçado em "cartão de banco ou carta de condução" desse tamanho mais ou menos. Pouco ou nenhum uso pois não é de fiar.

Ab,T