sexta-feira, 12 de maio de 2017

Guiné 61/74 - P17348: Notas de leitura (955): “Crepúsculo do Colonialismo, A Diplomacia do Estado Novo (1949-1961)”, por Bernardo Futscher Pereira, Publicações Dom Quixote, 2017 (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 10 de Maio de 2017:

Queridos amigos,
Caminhamos para um novo patamar da historiografia, uma nova geração despojada de atavismos ideológicos disseca o Estado Novo nas suas diferentes facetas.
O embaixador Bernardo Futscher Pereira abalançou-se a organizar a diplomacia de Salazar e já nos deu dois preciosos volumes, um que vai de 1932 a 1949, e agora temos esta obra recomendável a todos os títulos para entendermos o pano de fundo do anticolonialismo e como a vida portuguesa vai decorrer num impressionante claro-escuro, a diplomacia portuguesa tem os seus primeiros espinhos com a criação da União Indiana, da República Popular da China e da Indonésia, será um corolário de tensões que culminará, no fim do ano de 1961, com a queda do Estado da Índia.
Não de discute aqui se aquela intransigência em resistir ao fim do império era ou não uma fidelidade anacrónica. O que a autora observa é que Salazar era o Estado Novo e o Estado Novo era Portugal. E havia um argumento erigido a dogma. Sem África, Portugal não podia existir. Se tudo desabasse, desabava o regime. Como aconteceu.
É uma leitura imperdível, asseguro-vos.

Um abraço do
Mário


Nos anos de chumbo, a chegada do turbilhão anticolonial

Beja Santos

Numa leitura convencional, a década de 1950, aparece na nossa historiografia marcada pelo impulso desenvolvimentista em Portugal. A imprensa, a rádio e televisão davam notícias risonhas, a estabilidade não faltava: construíam-se barragens, importantes equipamentos sociais, encetara-se a euforia da industrialização; o resto era ocultado, não se dava conta de que o regime do Estado Novo enfrentava, a ritmo crescente, a contestação ao colonialismo.
Em “Crepúsculo do Colonialismo, A Diplomacia do Estado Novo (1949-1961)”, por Bernardo Futscher Pereira, Publicações Dom Quixote, 2017, passamos a dispor de um vivíssimo relato histórico da diplomacia do regime de Salazar em tempos de Guerra Fria, onde emergiram aspirações dos povos oprimidos à independência.

À partida, o regime possuía uma imagem simpática por fazer parte da Aliança Atlântica, campeava o anticomunismo. Mas ninguém desconhecia que o primeiro tremor de terra se anunciara com a União Indiana, Goa, Damão e Diu eram porções reclamadas pelo novo Estado. O regime julgava também que a adesão de Portugal às Nações Unidas, traria um respaldo para eventuais pretensões na Ásia e em África. É evidente que também não se ignorava que o novo regime comunista em Pequim não facilitaria as coisas, havia igualmente que agir com delicadeza com a Indonésia. Bernardo Futscher Pereira dá-nos o magnífico relato de toda esta trama diplomática, é uma obra-prima de comunicação, agarra do princípio ao fim iniciados e não iniciados. O regime de Salazar socorreu-se de retórica hábil para procurar fazer esquecer que a presença portuguesa no chamado Estado da Índia, Macau e Timor era ténue, e os Estados à volta poderosos, as soluções militares para resistir eram impensáveis. Futscher Pereira socorre-se lapidarmente de texto para ir relevando o desenrolar dos acontecimentos. Logo um estrato de Barradas de Oliveira num relatório confidencial a Salazar:
“ (…) o nosso contacto com Timor deu-nos a impressão de uma ilha onde os portugueses tivessem acabado de desembarcar, sem tempo ainda para promover o progresso da terra e a cristianização as almas”.
Os acontecimentos sucedem-se a ritmo alucinante na China, a partir de Outubro de 1949, está instalado o comunismo, foram inúmeras as exigências chinesas, houve que ceder até se constituir o modelo que a República Popular aceitou, com regras que definiu, Macau e Hong Kong. Estas pressões são totalmente omitidas à opinião pública, o que se mostra é a pompa com que se recebe o generalíssimo Franco, entretanto trasveste-se o império colonial em províncias ultramarinas. Mas o fenómeno anticolonial vai-se aprofundando, a União Indiana captura Dadrá e Nagar-Aveli, em Bandung reúnem-se líderes que mais tarde constituirão o movimento dos não-alinhados, a expulsão das potências coloniais está na ordem do dia.

Futscher Pereira tem dotes ímpares para animar os acontecimentos e na segunda parte da sua obra, que titula por Choque com o Terceiro Mundo, é particularmente feliz quando põe em marcha as peças do puzzle que passam pelas Nações Unidas a fazer perguntas com base no artigo 73, temos sempre a sensação de que o país vive num cenário glorioso, caso da visita de Isabel II em 1957, segue-se o torvelinho da candidatura Delgado que, para além de ter obrigado o regime a uma escabrosa manigância eleitoral, deixa Salazar definitivamente amargado ao reconhecer que o regime que instituiu está larvado de descontentamento.

A África resvala para a independência, as grandes potências cedem à inevitabilidade, o General de Gaulle desabafa com o diplomata Alain Peyrefitte:
“Acha que eu não sei que a descolonização é desastrosa para África? Que a maior parte dos africanos está longe de ter alcançado a nossa Idade Média europeia? Que vão outra vez conhecer as guerras tribais, a bruxaria, a antropofagia? Que 15 ou 20 anos a mais de tutela nos teriam permitido modernizar a sua agricultura, dotá-los de infraestruturas, erradicar completamente a lepra, a doença do sono, etc? Os americanos e os russos acham que têm vocação para libertar os povos oprimidos e encorajam-nos a exigir cada vez mais. O que devia ter sido escalonado ao longo de 50 anos consumou em dois ou três meses. Mas não nos podíamos opor”.
A independência da Guiné Conacri é o primeiro sinal de alarme, houve mesmo quem pensasse que era dali que partiria o primeiro surto de guerrilha. A crise do Congo faz perder as ilusões, anda-se devagar, retardam-se decisões. Só que 1961é um furacão do princípio ao fim, ainda por cima a eleição de Kennedy iria contribuir para alterar a correlação de forças a favor dos nacionalistas africanos. Portugal passa a ser condenado nas Nações Unidas e no início de 1961 Angola torna-se um barril de pólvora, um antigo aficionado de Salazar, Henrique Galvão, sequestra o navio Santa Maria em alto mar, há parangonas na imprensa de todo o mundo. Salazar reage, procura-se rodear de gente dinâmica como Adriano Moreira, Correia de Oliveira e Franco Nogueira, suspira-se temporariamente de alívio com a reconquista de Nambuangongo. Só que o ano termina para o regime da pior maneira: o Estado da Índia desaparece em poucas horas. O autor questiona sobre a rigidez e a intransigência do regime. Passara a ser doutrina que não merecia discussão: sem África, Portugal não tinha razão para existir, este argumento era obviamente o biombo para outro, como o autor observa:
“O que estava em causa em África não era a sobrevivência do país, era a sobrevivência do regime. Salazar era o Estado Novo, e o Estado Novo era Portugal. A identificação era tão sólida, dogmática e duradoura que não havia margem de flexibilidade e evolução. O rumo estava traçado há muito e era impossível alterá-lo. Zelosos dos seus privilégios, os guardiões do templo da nacionalidade, reunidos em volta de Salazar, não consideravam possível mudar nada sem que tudo desabasse”.

A leitura é imperdível e ficamos à espera do relato correspondente à história diplomática correspondente aos últimos combates.
 ____________

Nota do editor

Último poste da série de 8 de maio de 2017 > Guiné 61/74 - P17331: Notas de leitura (954): Ruy Cinatti e uma viagem a Bolama, 1935, em “O Mundo Português”, revista de cultura e propaganda, arte e literatura coloniais, o seu número 24, de Dezembro de 1935 (Mário Beja Santos)

4 comentários:

Manuel Bernardo disse...

Este e muitos autores de esquerda falam na queda "repentina" da India Portuguesa (invasão com milhares de militares e grandes meios aero-navais (DEZ1961), mas nunca se referem aos grandes massacres feitos pela UPA com o apoio dos americanos, no N de de Angola, a partir de 15MAR1961: à catanada cortaram cabeças de 1200 brancos (homens mulheres e crianças) e 6000 negros, em poucos dias. Daí o "Para Angola e em força" de Salazar.

antonio graça de abreu disse...

Esta citação gostei de ler, estou sempre a aprender com o infatigável labor recensório do Mário Beja Santos:

O General de Gaulle desabafa com o diplomata Alain Peyrefitte:
“Acha que eu não sei que a descolonização é desastrosa para África? Que a maior parte dos africanos está longe de ter alcançado a nossa Idade Média europeia? Que vão outra vez conhecer as guerras tribais, a bruxaria, a antropofagia? Que 15 ou 20 anos a mais de tutela nos teriam permitido modernizar a sua agricultura, dotá-los de infraestruturas, erradicar completamente a lepra, a doença do sono, etc? Os americanos e os russos acham que têm vocação para libertar os povos oprimidos e encorajam-nos a exigir cada vez mais. O que devia ter sido escalonado ao longo de 50 anos consumou em dois ou três meses. Mas não nos podíamos opor”.

Abraço.

António Graça de Abreu

Anónimo disse...

Meus amigos, os resultados estão à vista e o desastre de Africa e do medio Oriente são fruto dos mesmos "aliados" e "amigos" que Portugal tinha.Manuel Bernardo subscrevo o seu comentário, mas infelizmente a memória é curta para muita gente que até diz que só foram mortos colonialistas brancos.Desconhecimeto?
Carlos Gaspar

Hélder Valério disse...

Caros amigos

Devo concordar com o que o António G. Abreu 'respigou'.
Até porque o fez, desta vez, sem disparar nenhuma rajada sobre o "amigo de estimação".
As palavras e as ideias assim atribuídas a de Gaulle parecem promenitórias face à realidade actual mas a frase final "Mas não nos podíamos opor" diz tudo, afinal.

Também as observações de Manuel Bernardo relativamente ao, esse sim, terrorismo lançado pela UPA são pertinentes.
Só não percebo porque é que se torna "necessário" classificar "Este e muitos autores de esquerda".... será algum tique antigo?

Hélder Sousa