terça-feira, 20 de junho de 2017

Guiné 61/74 - P17491: Blogoterapia (286): Uma memória daquele espaço em Casal dos Matos, Pedrógão Grande (Mário Beja Santos)

Casal dos Matos, Pedrógão Grande, tinta da china de João Viola (2007).



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70) chegada há minutos ao nosso Blogue:

Queridos amigos,
Reconstruí uma casa no lugar de Casal dos Matos, freguesia da Graça, concelho de Pedrógão Grande. Era uma casa arruinada num ponto ermo, dentro de uma extensa floresta. Foi um empreendimento maravilhoso, por sorte encontrei artesãos que recuperam a traça original. Fui ali muito feliz e tive gente muito feliz à minha volta, por largos anos.
Desde o primeiro segundo em que ocorreu a tragédia que houve um tremor de que a hecatombe anunciada ali tivesse chegado. Quando se falou em Nodeirinho, ponto de passagem obrigatório até Casal dos Matos, ficaram poucas ilusões. A todos que me telefonavam e escreviam, caso do Luís Graça, punha sempre esperança de que a tempestade de fogo não tivesse derrubado aquele meu sonho de amor. Ao fim da tarde, falando com o proprietário seguinte, o desengano teve a sua hora, Casal dos Matos ficara reduzida a cinzas.
Aqui deixo esta memória, dedicada a todos os que morreram naquele absurdo vendaval da natureza.

Um abraço do
Mário


Uma memória daquele espaço em Casal dos Matos, Pedrógão Grande

Beja Santos

Tudo aconteceu em ritmo vertiginoso quando achamos em estrada de terra batida as ruínas de uma casa cheia de caráter, teria sido morada de agricultores, dava para perceber pela configuração dos espaços, o que restava da cozinha, os sobrados em escombros, pedaços ferrugentos das alfaias agrícolas. Negociou-se com as quatro irmãs e respetivos maridos, elas eram as herdeiras de Manuel Simões, conhecido na terra pelo nome de “Arrependido”, casado com D. Arlinda, que aguentou as lides agrícolas e domésticas enquanto o marido andava por Franças e Araganças a juntar dinheiro para aumento de património. Naquela casa morreu o Arrependido, 20 anos ali ficou em derrocada.

Comprada a ruína, houve que encontrar mestre para refazer muros, reforçar as paredes, pôr novas divisões na casa, substituir na íntegra o telhado, reconstruir o telheiro, respeitar as artes de carpintaria nos seus usos e costumes, fazer cozinha, casa de banho, combater humidades, afastar salitre, o mais que se sabe. Houve sorte em encontrar Manuel Carlos, de Castanheira de Figueiró, foi um bom artífice para a arrancada dos melhoramentos e mais sorte se teve com o carpinteiro, senhor Carlos Paulino, da Ribeira de S. Pedro, em Figueiró, com quem se fez amizade, tão forte fora a cumplicidade no conserto das padieiras, no rasgar das janelas, na reconstrução das cantoneiras, no admirável telheiro, na varanda, no aproveitamento das velhas serras, bancos, no arranjo das pipas e dornas. Meses e meses e aquela alegria em ver erguer-se a casa, no estreitamento de cumplicidades com o eletricista, o senhor. José Carlos, o senhor Henrique que murou o pátio a rigor, refez-lhe o caráter, quando sobrou dinheiro reforçou-se a solidez das paredes, tudo em bela pedra, removeu-se a lama e cimentou-se a preceito, ficou uma casa sólida, com um esplêndido forno à entrada, com belo lajedo, mais tarde fez-se a biblioteca que se encheu com milhares de livros, aproveitavam-se as suas sombras frescas para leituras e ouvir bem alto as óperas de Wagner. E até se comprou uma carroça ao senhor Eduardo, marido de uma das quatro irmãs, a Amélia, lá veio o senhor Carlos Paulino dar-lhe vida, olear as rodas, com auxílio de um correeiro a máquina ficou em funcionamento, só faltava uma égua para haver passeios e ir até Figueiró ou a Pedrógão Grande. Famílias e amigos de diferentes proveniências aqui chegaram. Aqui arribou um historiador britânico com mulher e três filhos, despedida mais comovente e agradecida não há lembrança; aqui uma senhora luso-grega acabou um livro, organizaram-se almoços, foi uma casa onde reinou a felicidade.

Depois aumentou-se o sonho, dois compradores com espírito de aventura meteram-se numa andança mais séria e refizeram uma casa na barragem do Cabril, tem pela frente um panorama de dezenas de quilómetros, belo jardim. Havia que tomar uma decisão, era um sem razão possuir duas casas distanciadas por escassos quilómetros.

Aconteceu um milagre ou acaso muito feliz. Bateu à porta de Casal dos Matos um senhor que disse que amava perdidamente aquela casa, já lá tinha ido vezes em conta com um mediador imobiliário, desesperava se lhe recusávamos a venda. No acerto do negócio aconteceu uma troca, os proprietários receberam um andar em Tomar, com vista para o Convento de Cristo. Sempre a rezingar, saiu-se daquela casa com lágrimas nos olhos, tão intensas eram as memórias, os familiares e amigos recebidos, o deixar e retirar trastes, aquele amontoado de recordações espúrias desde a rega do jardim e a satisfação de ver crescer um rododendro que dá flores brancas, mas enfim deixava-se proprietário a estimar aquela empreitada, ficava a doce lembrança de ali chegar em noites quentes e sentir os fortes odores dos pinheirais e até o canto do rouxinol, com os seus concertos da madrugada, dulcificando os nossos espíritos.

Qualquer pretexto era bom para passar por ali e admirar aquelas telhados irregulares que se espraiavam pela casa, pelo pátio, pelo lugar do forno, algo ia mudando ao longo dos anos, na região, da terra batida passou-se para o alcatrão, sempre com um aperto de coração em cada visita havia mais mortos e os vivos não queriam regressar, é uma região onde faltam crianças, fecham escolas, terrenos aráveis enchem-se de silvado.

Quando vem a notícia do vendaval de fogo em Pedrógão Grande, tudo fiz para desviar a atenção, só que os telefonemas e os contactos chegaram em catadupa, alguém que vivia na Austrália, um outro que se estabeleceu em Singapura, imagine-se até camaradas da Guiné, da CCAÇ 2402, que por ali tinha andado, quando organizei a confraternização em Figueiró dos Vinhos, e o presidente da autarquia possibilitou dois autocarros que andaram a percorrer todo o concelho; eram telefonemas de manhã à noite, como é que está a casa, e eu sempre a dar respostas tranquilizadoras, e súbito aquela notícia catastrófica do Nodeirinho, a imagem dos carros calcinados na estrada que liga a Castanheira ou a Figueiró. Havia que ganhar coragem, e então telefonei ao proprietário seguinte, sempre com rodeios, até que veio a machadada da verdade: Casal dos Matos estava reduzida a cinzas, imagine-se a única coisa que resistira àquele fogo devorador fora a salamandra, estava no canto cozinha, era um verdadeiro bálsamo para as noites frias de Inverno. Desatei a choramingar, já tinha perdido uma casa na guerra, em 19 de Março de 1969, noite quentíssima, parecia ferver, os guerrilheiros do PAIGC vieram com balas incendiárias, o colmo das moranças ardeu como tochas, num instante, fiquei com os ferros da cama que pertencera ao professor Eduardo Cortesão, quando ele se aboletava em Missirá devido a um projeto de palmeiras de Samatra, no rio Gambiel. Já choraminguei os mortos do Nodeirinho, povoação familiar, era ponto de passagem obrigatório quando se vinha pelo IC 8, aqui se infletia no Outeiro do Nodeirinho, depois Figueira, depois Casal dos Matos. É um mistério como todas estas recordações nos avassalam a mente, os mortos ganham vida, oiço gritos na taberna do senhor Eduardo, converso com o António Manuel, que vive da profissão de bate-chapa e que acabará naquela cruel agonia que é a esclerose lateral amiotrófica, oiço as vozes das irmãs Amélia e Maria que estão a apanhar tomate e daqui a um bocado entram portas adentro com a oferta de um grande saco, é tomatada para a semana inteira. É uma dor imensa, sei que se irá diluindo, só a memória triunfará, no sonho que se pôs de pé, do enlace das estimas, nos doces acolhimentos, sei que irá vincar-se essa memória de Casal dos Matos como aquele preço que representa a construção de uma casa, de um local amorável, onde se recebia sempre de braços abertos.

Em 2007, o meu amigo João Viola ofereceu-me uma belíssima tinta-da-china com a entrada de Casal dos Matos. Se o momento é de amargura porque tudo está em cinzas, e Pedrógão Grande sofre como nunca sofreu com tal vendaval, aqui se deixa o desenho de João Viola a mostrar como se sonhou e se realizou uma casa como outros sofreram para a pôr de pé.
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Nota do editor

Último poste da série de 2 de março de 2017 > Guiné 61/74 - P17098: Blogoterapia (285): Quando o sol escurece (António Eduardo Ferreira, ex-1.º Cabo Condutor Auto)

1 comentário:

Tabanca Grande disse...

Mário, é um texto que revela muito da tua maneira de ser e estar na vida.

Esta casa já não era tua, mas as recordações dela ninguém tas pode tirar, nem sequer este dantesco incêndio que limpou Pedrógão Grande do mapa... A casa, a nossa casa, é algo que faz parte de nós, algo tão íntimo que a sua perda (por catástrofes naturais, guerras, etc.) gera um profundo sentimento de luto...

Lembro-me do Pepito falar-me da sua casa no Quelelé, em Bissau, assaltada, roubada, violada, esventrada, incendiada, na guerra civil de 1998/99... O que lhe doía mais era a perda das suas referências: fotos, livros, discos, cartas, escritos, dossiês, objetos mais pessoais... Mas ele soube dar a volta, porque "desitir era perder, recomeçar era vencer"... Recordo-me de ele me falar de alguns vizinhos que lhe levaram, passados uns tempos, restos de fotos queimadas...

Pois é,temos que fazer o luto desta tragédia! E depois arregaçar as mãos para repensar a nossa floresta e o nosso país... litoralizado!