sábado, 1 de julho de 2017

Guiné 61/74 - P17531: Memória dos lugares (362): A vibração dos espectros: Uma semana depois da calamidade, o regresso a Pedrógão Grande (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Junho de 2017:
Queridos amigos,
Antropologicamente, um lugar é um território de afinidades, de laços afetivos, de redes de comunicação, de pertença associativa, de conhecimentos humanos, ali se organizam festas, se fazem peditórios, se acompanham os mortos ao cemitério. Uma semana depois daquele estranhíssimo fenómeno da natureza, tinha que regressar, é um género de olhar ao espelho côncavo o que se distorceu, o que jamais regressará ao nosso olhar, tal como foi.
Mas o dado essencial da viagem de peregrinação passa pelas gentes do lugar. Valia a pena ouvi-los, dizem coisas que não circulam nas reportagens nem nas imagens televisivas. Quem ali ficou, depois do devastador vendaval da interioridade, de quem os citadinos não gostam de falar, quer continuar e recuperar. Por isso os abracei tão comovidamente, aquele gente não deserta, não se rende, prosseguirá, daí o meu orgulho por eles.

Um abraço do
Mário


A vibração dos espectros: 
Uma semana depois da calamidade, o regresso a Pedrógão Grande

Beja Santos

Faz-se a viagem com o coração contrito, o objetivo maior é ir abraçar aqueles que sobraram do inusitado vendaval de fogo, os amigos e conhecidos do Outeiro do Nodeirinho, Figueira, Casal dos Matos, Outão, Graça, Pereira. Para contornar os territórios assombrados e calcinados, contorna-se por Vila de Rei, segue-se pela Sertã, aporta-se a Pedrógão Pequeno. Tirando o cheiro a queimado que se evola por quilómetros, ali para os lados de Cabeçudo, Sertã, não há nenhum espetáculo de desgraça, registo que Pedrógão Grande enquanto vila saiu incólume à tormenta do fogo, e do alto da barragem do Cabril, só se avista uma mancha escurecida que no fim da tarde daquela sexta-feira não permite antever qualquer palco de desolação. Começa-se o novo dia enfrentando a realidade do ambiente que o viandante habitou bem mais de 10 anos. Aqui havia pinhal frondoso, as irmãs Maria e Amélia cultivavam couves e tomate, o tio Eduardo tinha o seu campo de batata e a pérgula a encimar o poço cobria-se de vinha, um vinho morangueiro. Por aqui passou o diabo à solta, vai começar a lenta regeneração.





Penitencio-me de nada saber sobre estes estranhos fogos, que não são tornados, que cospem em todas as direções, que devoram vidas até deixar ossos carbonizados. Mas o que aqui se passou, diz-me o tio Jacinto, foi que a ventania em remoinho fez saltar as telhas e as fagulhas em golfão comeram a madeira, derrubaram as paredes, devoraram móveis e utensílios. O estranho é o apaziguamento em ver que estas paredes-mestras, o mais nobre valor da casa, o belíssimo pátio, feito e refeito, estão prontas para a ressurreição, momentos houve em que me atravessaram pensamentos loucos, vou-me lançar ao trabalho, voltar a comprar a ruína, os sonhos nunca desfalecem, pôr isto de pé deu trabalho e peras, por aqui andou gente aos gritos de alegria, elogiando o que é típico e conforme a tradição. Nunca se sabe até onde pode ir esta minha loucura em voltar, em recomeçar…



O carro aproxima-se de Casal dos Matos, ela ali está, rodeada de um oceano de cinzas, troncos vergados, marcas da passagem do Inferno, biótipos reduzidos a um escombro. Tanto assim é que quando quis comprar um boião do precioso mel desta restinga da Serra da Lousã o senhor Eduardo Paiva foi perentório: acabou, não sei alguma vez mais por aqui passarão abelhas, se haverá carqueja. Não posso adivinhar o que será o novo mundo vegetal do nosso lugar. Ao certo, quando o carro se aproximava, tive a ilusão de que os telhados estavam perfeitos, não passou de ilusão, até porque aquele poste quebrado assinalava a pujança do diabo à solta.



É aquela sensação ambivalente do sentimento da perda de uma coisa que nos custou ideal e foi berçário de felicidade e ao mesmo tempo olha-se para a ruína e diz-se: as paredes de pedra resistiram, a linda varanda está como estava, arranja-se a jangada da vinha e para o ano vão aparecer os cachos dourados. Deus permita que isso venha a acontecer, seja qual for o obreiro da tremenda empreitada, desta mortandade pôr vida ridente.


Chegou a hora de conversar e consolar com gente sofredora. Pelos caminhos, circulam viaturas da televisão, a terra carbonizada e as gentes que cá ficam é pasto mediático. Mas quem cá ficou vive noutro comprimento de onda. Não se diz nem mesmo se confessa, mas há um cadinho de culpa coletiva, todo este plantio até à berma das estradas, todas estas árvores comburentes, esta estouvada indústria da madeira, este restolho e estas carumas abandonadas, ninguém as ignora, espera-se a boa vontade de Deus, muitos proprietários seguiram os filhos e netos, sabe-lhes bem receber de tempos a tempos algum dinheiro da venda da madeira. Fala-se com gente que escapou por minutos da estrada da morte, alguns desses intelectuais de pacotilha que agora vociferam e, qual familiares do Santo Ofício, andam à procura dos responsáveis a todos os níveis, e fica-se com a sensação do que aqui aconteceu foi fenómeno raríssimo, podia ter sido o sol a rodopiar e a deixar a terra em escuridão, as chamas pareciam trazidas por maratonistas olímpicos, chamas que dançavam a toda a volta e confundiam quem queria proteger as suas vidas e as suas casas. Faz-se a peregrinação, abraça-se quem perdeu gente, casas, culturas e aguarda alguma justiça, por compensação. Entre todos estes espectros, depois de beijar e estender a mão a tanta gente que se prepara para refazer a vida e que foi educada na resignação, quem aqui veio de passagem sente-se impelido a regressar. É este o fogo da imaginação, por isso é que existem lugares que nos marcam para toda a vida.
É assim, porque o futuro a Deus pertence.
____________

Nota do editor

Último poste da série de 24 de junho de 2017 > Guiné 61/74 - P17507: Memória dos lugares (361): Mindelo em plena II Guerra Mundial, visto por Manuel Ferreira (1917-1992) (João Serra)

Sem comentários: