sábado, 8 de julho de 2017

Guiné 61/74 - P17557: Lembrete (23): Hoje, sábado, na Tabanca dos Melros (Fânzeres, Gondomar), apresentação do II volume do livro do José Ferreira, "Memórias Boas da Minha Guerra"... Daqui a um bocado, às 10h30, que de manhã é que se começa o dia... E como prenda o autor deixa aqui, em reedição, mais um dos seus microcontos, e que, não é por acaso, tem a ver com o tema da atualidade (do nosso blogue...), o Serviço Postal Militar (SPM), e as suas pequenas misérias e grandezas, já depois do 25 de Abril, no rescaldo da guerra colonial

Capa do II Volume do livro "Memórias
Boas da Minha Guerra", de José Ferreira
(Lisboa: Chiado Editora, 2017)
1. O Zé Ferreira teve a gentileza de convidar o nosso editor Luís Graça para apresentar o segundo volume do seu livro, justamente na Tabanca dos Melros... 

Desta vez conseguiu-se "compaginar" as agendas, como dizem os políticos da nossa praça, e o nosso editor Luís Graça está neste momento à espera que o Zé, vindo de Crestuma onde vive, passe pela Madalena (, localidades do mesmo concelho, Vila Nova de Gaia), para o levar até à Quinta dos Choupos - Choupal dos Melros (que fica em Fânzeres, Gondomar, e onde está sediada a Tabanca dos Melros).

Às 9h45 o Zé Ferreira vem-me buscar e eu estou ansioso por dar um abraço fraterno aos meus bons amigos e camaradas do Norte que vão estar presentes (há 70 inscrições para o almoço), incluindo o meu querido coeditor Carlos Vinhal (e a Dina), o Carlos Silva (um dos régulos da Tabanca dos Melros), o Jorge Teixeira (conhecido como o "bandalho-mor", chefe do Bando do Café Progresso), a par dos penafialenses Joaquim Peixoto, José Cancela e respetivas esposas ("sempre, sempre ao lado dos seus homens"!)...

Estarão, por certo, outros camaradas, incluindo tabanqueiros da grande Tabanca Pequena de Matosinhos. Não tenho aqui a lista dos convivas. Não tenho, por exemplo,  a certeza se o Gil Moutinho, o anfitrião, poderá estar presente, De qualquer modo, estou também ansioso por conhecer a sua "casa", de que tenho ouvido as melhores referências. Espero ainda encontrar outros "melros" como o David  Guimarães (que é aqui da Madalena, mas fez de Espinho a sua terra adotiva), os manos Carvalho (o António e o Manuel), ambos a jogar em casa,  e muitos outros mais... 

O "grande melro", cofundador e coeditor da Tabanca dos Melros, o saudoso  Jorge Portojo (1948-2017) estará seguramente connosco, em espírito: acabou de ser muito  condignamemte homenageado pela Tabanca dos Melros (e pela  tertúlia do Bando do Café Progresso) nó último convívio dos "melros", em 13 de maio passado.
A título de consolo, para quem não puder estar hoje na Tabanca dos  Melros, tomei a liberdade de escolher um dos "microcontos" do nosso escritor, José Ferreira  (que é de Fiães, concelho da Feira, mas que escolheu Crestuma, Vila Nova de Gaia, para amar, orar, viver, trabalhar, escrever e fazer campeões de canoagem!...). Como o tema está na ordem dia do nosso blogue (, aqui nunca se fala diretamente da atualidade do país...), vem a propósito repescar uma história que tem a ver com o SPM e o rescaldo da guerra colonial, já no pós-25 de Abril.

[Com a devia vénia ao autor e ao editor (Chiado Editora, que não vai estar presente porque não faz a mínima ideia onde fica Fânzeres, e só se digna fazer promoções dos seus livros e autores em Lisboa, Porto e Coimbra)...Em boa verdade, o primeiro editor do José Ferreira foi o nosso blogue...]


2. Memórias Boas da Minha Guerra

VÍCIOS ESTRANHOS OU FRUTOS DA ÉPOCA

por José Ferreira

[in "Memórias Boas da  Minha Guerra", vol. II. Lisboa: Chiado Editora, 2017, pp. 184-187] (**)

Regressei de Angola, onde estive a trabalhar, logo após o 25 de Abril de 74. Vim de férias (“licença graciosa”, 4 a 5 meses  com prolongamento). Como funcionário camarário [, da Câmara Municipal de Cabinda], beneficiava de todas as regalias da função pública, às quais se juntavam ainda os benefícios de compensação pelo isolamento e/ou perigosidade. Para receber os vencimentos tinha que me deslocar a Lisboa, ao Ministério do Ultramar (ou Defesa Nacional), ali para os lados de Belém [, ou melhor, na avenida da ilha da Madeira, no Restelo].

Naquele dia, como cheguei mais tarde a Lisboa, aproveitei para almoçar na zona ribeirinha e esperar pelas 14h30 para ir receber o vencimento. Após o almoço, abeirei-me do Tejo, onde me chamou a atenção um jovem cabo miliciano, que olhava o horizonte, lá para o Farol do Bugio.
 – Então, como vai essa peluda? – perguntei-lhe.
 – Peluda, não. Direi mesmo que estou aqui fodido com a puta da tropa. 
– Não me digas? Agora que se deu o 25 de Abril, em que andais por aí à balda, de cabelo à Beatle e livres de ir para a guerra! – interpelei. 
– Pois, pois, mas isto ainda está muito confuso – respondeu o jovem, que continuou: 
– Ainda estão militares a ir lá para fora e o filho da puta do meu sargento quer mandar-me para lá. 
– Mas o sargento tem assim tanta força para isso? – perguntei.
– Este tem. É que eu há dias, no comboio, entusiasmei-me com esta coisa do 25 de Abri, e contei a um furriel a marosca em que o sargento andava envolvido. Pensei que o furriel era miliciano e, afinal, era outro chico e amigo do sargento – confessou o militar preocupado. 

E continuou: 
– Estava a contar sair por estes dias, tenho a namorada já grávida, lá na terra, perto de Amarante, e o capitão, que também deve mamar, já me avisou: "Ganha juízo, se não ainda levas com uma guia de marcha especial"– E continuou: – Os chicos protegem-se uns aos outros. 
– Também nunca gramei esses gajos – disse eu e acrescentei: – Estive na Guiné e passei por muitas merdas, mas procurei afastar-me sempre dessa cambada. Embora tenha de confessar que também havia alguns a merecer alguma consideração. Mas, afinal, como é possível essa preocupação? 
– Trabalho no SPM, Serviço Postal Militar. É por ali que passa toda a correspondência militar, incluindo as encomendas. Aquilo presta-se a muita vigarice. Há cartas em que o dinheiro sai com facilidade e, nas encomendas, há uma percentagem grande que fica por ali. Por outro lado, há encomendas de contrabando que não entram nos registos. E, como eu não queria nada, deixaram-me em roda livre, sem serviço e sempre desenfiado. Só que agora, meti o pé na poça e eles não perdoam. 

E continuou: 
– Há lá um grupo de sargentos e furriéis com o vício de jogar. E jogam forte. Este sargento, quando mete a mão ao bolso, até diamantes lhe aparecem nas mãos. Ele tem um colega que está nos Adidos, ali na Travessa da Calçada, atrás da Ajuda, junto de Lanceiros 2, que, muitas vezes, vai lá jogar. Ainda é mais viciado do que o meu sargento. Mas, agora, anda como uma barata, devido à diminuição de mortes no Ultramar. 
– O que é que isso tem a ver com o assunto? – perguntei. Ele logo respondeu: 
– O gajo deve ser o responsável pelo armazém onde passam os militares mortos. Já estava muito habituado ao rendimento das madeiras caras, que vêm a servir de caixões. Ele deve vender bem essas madeiras exóticas.

Uns seis anos depois, por altura das festas do S. Gonçalo [, em Amarante], participámos [, o meu clube,] numa prova de canoagem no Rio Tâmega. A largada, acima de Fridão, lançava-nos, em pequenas pirogas, para os vários perigos, bem patentes em quedas, rápidos, correntes e redemoinhos. Vencê-los era um prazer incrível. A nossa chegada junto da ponte era um espectáculo. Logo que cortávamos a meta, deleitávamo-nos a olhar para o público ruidoso que ocupava todos os espaços envolventes. Grandes momentos da minha canoagem! Enquanto aguardava a distribuição dos prémios, sinto uma mão no ombro esquerdo: 
– Não se lembra de mim?
– Não, não estou e ver… como – respondi.  Ele continuou: 
– Há uns anos estivemos a conversar em Belém, junto ao rio, estava eu fodido que não sabia que fazer à puta da vida. 
– Sim, sim, já me lembro – respondi e aproveitei logo para perguntar:
– E então, como é que te safaste? 
– Olha, tenho a agradecer muito o teu conselho. Acabei por contar tudo a um oficial de confiança e bem identificado com a revolução. Não o fiz como acusação, mas sim como defesa do que me poderia vir a acontecer. 
– E depois? – perguntei, bastante curioso. E ele continuou: 
– Foi porreiro! Deixaram-me em paz, tratavam-me como um lorde e mandaram-me logo embora. As coisas correram de tal maneira bem, que ainda hoje estou convencido de que foi milagre. Todos os anos aqui venho, ao S. Gonçalo, para agradecer essa graça, juntamente com a mulher e este rapazola que já quer ir para a canoagem. “Nasceu antes do tempo”, mas vai ser um grande campeão.

[Revisão e fixação de texto: LG]
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(**) Vd. também poste de 28 de janeiro de 2012 > Guiné 63/74 - P9411: Outras memórias da minha guerra (José Ferreira da Silva) (13): Vícios ou frutos da época

2 comentários:

Tabanca Grande disse...

Na tropa, a pequena corrupção, o nepotismo, os usos e os abusos poder não são de ontem nem de hoje. O exército é uma "grande instituição", estamos de acordo, mas isso não a isenta de críticas. O "pequeno poder" dos "nossos primeiros", no TO da Guiné, é posto a nu e bem caricaturado, e posto a ridículo neste II volume do livro "Memórias Boas da Minha Guerra"... Nem sempre as relações entre os furriéis milicianos e os sargentos do quadro eram fáceis...Na CCAç 2590 / CCAC 12 tivemos alguns conflitos iniciais que foram resolvidos e ultrapassados com bom senso e inteligência... É um assunto que merece ser retomado. LG

Antº Rosinha disse...

O relacionamento de sargentos do quadro e dos tropas de serviço obrigatório era muito ruim, antes da guerra.

Quando começou a guerra, os sargentos tornaram-se muito mais suaves e mais camaradas.

Como sempre há as excepções.

Como estive na tropa na transição da paz para o terrorismo, vi diferenças como do dia para a noite.