sábado, 21 de outubro de 2017

Guiné 61/74 - P17891: Agenda cultural (597): DocLisboa2017, de 19 a 29 de outubro: destaque para dois filmes sobre a África Lusófona, um realizado na Guiné-Bissau ("Spell Reel", de Filipa César, 96') e outro em São Tomé e Príncipe ("O Canto do Ossobó", 99')



1. Está decorrer, de 19 a 29 deste mês, o DocLisboa 2017, o mesmo é dizer, o 15º Festival Internacional de Cinema... E por que se trata, de facto, de um dos mais prestigiados festivais de cinema documental, a níval mundial, é apropriado o slogan promocional, "em outubro o mundo inteiro cabe em Lisboa"...

De acordo com o programa, na Competição Interbacional, "este ano, o Doclisboa apresenta 19 filmes em competição, 12 dos quais em estreia mundial ou internacional. Estão representados 17 países, numa selecção que se caracteriza pela diversidade temática, estética e formal, numa amostra daquilo que é o pulsar do cinema mais actual produzido em todo o mundo."

Em contrapartida, na Competição Portuguesa apresentam-se "11 trabalhos [...que] atravessam vários formatos e universos neste espaço aberto à exibição de criações livres, com as linguagens plásticas e narrativas mais diversas.". E há as outras seções já habituais: Verdes Anos (21 filmes de "novos realizadores", proporcionando  "uma visão alargada sobre a riqueza e diversidade dos trabalhos produzidos em território nacional);  Retrospetiva (dedicada ao cinema checo e quebequiano); Heart Beat; Da Terra à Lua; Riscos: Cinema de Urgência; Doc Alliance... além de Passagens, Atividades Paralelas, Projeto Educativo... (É obrigatório consultar o programa,para o leitor não se perder!...).

Para séniores (, como é o caso da maior parte dos nossos leitores), os preços por sessão são a 3 euros e meio  (Culturgest, Cinema São Jorge, Cinema Ideal) ou 2, 15 € (Cinemateca)... Há "vouchers", de 5, 10 e 20 bilhetes,  ficando cada sessão mais barata.

 No "Observador",  de 18 do corrente, o crítico Eurico de Barros escolheu 11 filmes para 11 dias, de uma vastíssima programação (duas centenas de longas, médias e curtas metragens).

No Público, de 19 do corrente, Jorge Mourinha assina  a crónica "Doclisboa, dez dias de aventuras em rally paper"... onde  escolher é que é o busílis!... Pensando na generalidade dos nossos leitores e na sua ligação à África lusófona, ficam para já aqui duas sugestões deste conhecido crítico cinematográfico

"(...) Nas competições, vale desde já a pena marcar na agenda dois títulos que evocam as memórias do colonialismo e da independência: o assombroso Spell Reel, de Filipa César, finalmente em estreia nacional, em busca do cinema perdido da Guiné-Bissau, e O Canto do Ossobó, de Silas Tiny, que olha para a presença colonial em São Tomé e Príncipe.

"Spell Reel e O Canto do Ossobó serão também projectados em sessões escolares, que têm lugar entre as 10h30 e as 14h, e que, para aqueles que tiverem essa disponibilidade, são este ano abertas ao público" (...)

Spell Reel

ESTREIA PORTUGUESA

PRIMEIRA OBRA
Filipa César | 2017 | Alemanha, Portugal, França / Germany, Portugal, France | 96’
Sinopse:

Um arquivo de material audiovisual em Bissau. À beira da ruína completa, as imagens testemunham o nascimento do cinema guineense enquanto parte da visão descolonizadora de Amílcar Cabral, o líder da libertação assassinado em 1973.
Sessões  > 26 OUT / 18.45, São Jorge – Sala M. Oliveira27 OUT / 10.30, Culturgest – Grande Aud. | Sessão para escolas aberta ao público
Ver aqui o "trailer" (2' 00'')

O Canto do Ossobó
The Song of Ossobó



ESTREIA MUNDIAL

Silas Tiny | 2017 | Portugal | 99’

Sinopse:

Rio do Ouro e Água-Izé foram das maiores roças de produção de cacau em São Tomé e Príncipe durante o período colonial português. Milhares foram marcados pelo trabalho forçado equiparado à escravatura. Regresso ao meu país, para encontrar os vestígios desse passado.

[Silas Tiny é o nosso conhecido realizador de "Bafatá Social Clube",  2012, 78']

Sessões > 23 OUT / 22.00, São Jorge – Sala M. Oliveira
26 OUT / 14.00, São Jorge – Sala 3 | Sessão para escolas aberta ao público
__________

Nota do editor:

7 comentários:

Tabanca Grande disse...

Muitos lisboetas distraídos não sabem da história que está por detrás do Palácio Valle Flor, um dos mais emblemáticos edifícios da cidade de Lisboa, situado na Rua do Jau, n.º 54, no Alto de Santo Amaro.

Adquirido ao Estado, pelo Grupo Pestana, em 1992, foi restaurado, depois de anos de degradação, e transformado em unidade hoteleira de luxo, o famoso Hotel Carlton Pestana Palace... Foi mandado construir por José Constantino Dias (1855-1932), transmontano de Murça, o "rei do cacau", que pôs, no início do séc. XX (entre 1912 e 1915) São Tomé e Príncipe no mapa, transformando a ilha no 1º produtor mundial de cacau...

A sociedade Valle Flor era o grande empregador das roças de cacau, em São Tomé. Vd.

http://www.asrocasdesaotome.com/

José Constantino Dias começou como simples emigrante, em 1871... D. Carlos irá agraciá-lo com o título de Marquês de Valle For, em 1907.

Vd. aqui fotos do hotel:

https://www.pestana.com/pt/hotel/pestana-palace/fotos?gf=home&ca=hotel

Eis o o que se pode ler sobre o edifício no sítio da SM Lisboa:

http://www.cm-lisboa.pt/equipamentos/equipamento/info/palacio-vale-flor-hotel-carlton-pestana-palace

Por iniciativa de José Constantino Dias, Marquês de Vale-Flor, este palácio foi construído na primeira década do séc. XX, (entre 1902 e 1907),traduzindo ainda o espírito eclético do século anterior,com projecto inicial do arq. Nicola Bigaglia e projecto de alterações do arq. José Ferreira da Costa em colaboração com o arq. Ventura Terra.

De planta centralizada o edifício organiza-se em torno de um pátio,desenvolvendo-se,o seu núcleo principal,em 4 andares,sendo o último amansardado.

Para além deste núcleo central, o palácio inclui a capela,os jardins e as antigas cocheiras,construídas do outro lado da rua,as quais se apresentam cobertas por escamas de ardósia e mantêm com o edifício principal um diálogo urbanístico e estilístico muito equilibrado.

No interior do palácio merecem destaque alguns compartimentos pela riqueza da sua decoração com peças artísticas de várias procedências e pela intervenção de artistas portugueses,nomeadamente Carlos Reis, Eugénio Cotrim, Constantino Fernandes,entre outros.

Classificado como Monumento Nacional é hoje o Hotel Carlton Pestana Palace. Esta classificação é um conjunto que inclui o palácio, Casa da França,cocheiras e garagem,assim como todo o jardim murado e as construções decorativas que o integram.

Tabanca Grande disse...

A roça Rio do Ouro. a sede da Sociedade Agrícola Valle Flôr. É descrita como “mblemática pela sua dimensão e imponência arquitectónica, é ainda hoje, uma das mais impressionantes estruturas agrícolas”, e “integrava o mais avançado sistema ferroviário de todo o arquipélago, estabelecendo a ligação entre as suas dependências e o porto, localizado em Fernão Dias.”

http://www.asrocasdesaotome.com/rocas/rio-do-ouro/


Quanto à roça Água Izé…

“Situada junto à baía da Praia Rei, a roça Água Izé é famosa por ter pertencido ao principal proprietário de origem negra – João Maria de Sousa Almeida. A roça era a sede da Companhia da Ilha do Príncipe tratando-se de uma das maiores e importantes unidades agrícolas do arquipélago. A roça desenvolve-se sob forma de “cidade”, num plano de declive vencido por pequenos socalcos . Servida directamente pela estrada nacional que a atravessa e liga a cidade de São Tomé à Vila de Angolares, Água-Izé não tem entradas nem limites bem definidos. A sua organização de “roça-cidade” é composta por uma malha quadriculada que forma ruas, bairros, jardins e praças.”

http://www.asrocasdesaotome.com/rocas/agua-ize/


Fonte:

As Roças de São Tomé e Príncipe
de Rodrigo Rebelo de Andrade e Duarte Pape. Lisboa: Tinta da China, 2013, 240 pp.

Sinopse do livro:

Há um local especial em África, mesmo único nas suas características, que, embora de reduzidas dimensões e limitada geografia - duas pequenas ilhas no Golfo da Guiné -, contém um conjunto arquitectónico e territorial inigualável. Trata-se do arquipélago de São Tomé e Príncipe e das suas cidades, mas sobretudo das suas celebradas roças. Em As Roças de São Tomé e Príncipe, os arquitectos e investigadores Duarte Pape e Rodrigo Rebelo de Andrade dedicaram-se ao levantamento e estudo dos espaços e da arquitectura histórica deste arquipélago. E alcançaram, na verdade, a edição mais aprofundada, inovadora, esclarecida e polifacetada que se conseguiu até hoje.

https://www.wook.pt/livro/as-rocas-de-sao-tome-e-principe-rodrigo-rebelo-de-andrade/15237129

Tabanca Grande disse...

... Mas e bom saber que a família Valle Flor também tinha "consciência social", tendo dado origem ao Instituto Marquês Valle Flo, um importante parceiro na cooperação com a Guiné-Bissau:

Historial do IMVF:

(..."O IMVF nasceu há 66 anos, pela mão da Marquesa de Valle Flôr, Dona Maria do Carmo Constantino Ferreira Pinto, de forma a perpetuar a memória de seu marido, o Marquês de Valle Flôr.

O objetivo inicial da instituição foi o apoio à investigação na área da saúde (doenças tropicais) e a assistência à população mais carenciada, especialmente em São Tomé e Príncipe. Nos anos 80, com a entrada na Comunidade Económica Europeia, o IMVF iniciou uma nova fase, respondendo a novas orientações para a Cooperação com os países africanos de expressão portuguesa.

Estende as suas áreas de intervenção, lança novas pontes com o espaço CPLP e assume como missão agir nos países de língua portuguesa, com as pessoas e pelas pessoas, em prol de um desenvolvimento global nos domínios da Saúde, da Educação, dos Direitos Humanos, da Capacitação Institucional, da Segurança Alimentar, da Reabilitação e da Ajuda Humanitária de Emergência.

Hoje, com 66 anos de trabalho, o IMVF procura responder aos desafios do presente, ciente de que a crise económica mundial veio acentuar as dificuldades das populações mais vulneráveis. "
http://www.imvf.org/index.php?pagina=9

Tabanca Grande disse...


O que é o "trabalho forçado" ?

Convenção nº 29 da OIT - Organização Internacional do Trabalho, adoptada em 1930, e só ratificada por Portugal em 1956:


http://www.ilo.org/public/portugue/region/eurpro/lisbon/pdf/conv_29.pdf


Art. 2 — 1. Para os fins da presente convenção, a expressão ‘trabalho forçado ou obrigatório’ designará todo trabalho ou serviço exigido de um indivíduo sob ameaça de qualquer penalidade e para o qual ele não se ofereceu de espontânea vontade.

Tabanca Grande disse...

Ainda o art 2 da Convenção 29 da OIT - trabalho forçado...


2. Entretanto, a expressão ‘trabalho forçado ou obrigatório’ não compreenderá, para os fins da presente convenção:

a) qualquer trabalho ou serviço exigido em virtude das leis sobre o serviço militar obrigatório e que só compreenda trabalhos de caráter puramente militar;

b) qualquer trabalho ou serviço que faça parte das obrigações cívicas normais dos cidadãos de um país plenamente autônomo;

c) qualquer trabalho ou serviço exigido de um indivíduo como conseqüência de condenação pronunciada por decisão judiciária, contanto que esse trabalho ou serviço seja executado sob a fiscalização e o controle das autoridades públicas e que dito indivíduo não seja posto à disposição de particulares, companhias ou pessoas privadas;

d) qualquer trabalho ou serviço exigido nos casos de força maior, isto é, em caso de guerra, de sinistro ou ameaças de sinistro, tais como incêndios, inundações, fome, tremores de terra, epidemias, e epizootias, invasões de animais, de insetos ou de parasitas vegetais daninhos e em geral todas as circunstâncias que ponham em perigo a vida ou as condições normais de existência de toda ou de parte da população;

e) pequenos trabalhos de uma comunidade, isto é, trabalhos executados no interesse direto da coletividade pelos membros desta, trabalhos que, como tais, podem ser considerados obrigações cívicas normais dos membros da coletividade, contanto, que a própria população ou seus representantes diretos tenham o direito de se pronunciar sobre a necessidade desse trabalho.

http://www.ilo.org/public/portugue/region/eurpro/lisbon/pdf/conv_29.pdf

Tabanca Grande disse...

Sobre o trabalho escravo e o trabalho forçado no colonialismo português, vd. artigo de Margarida Seixas:

O trabalho escravo e o trabalho forçado na colonização portuguesa oitocentista: uma
análise histórico-jurídica

Revista Portuguesa de História – t. XLVI (2015) – p. 217-236 – ISSN: 0870.4147
DOI: http://dx.doi.org/10.14195/0870-4147_46_12

https://digitalis-dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/38191/1/O%20trabalho%20escravo%20e%20o%20trabalho%20forcado%20na%20colonizacao.pdf



Tabanca Grande disse...

Sobre op realizador de "O canto do Ossobó:"

Silas Tiny nasceu em São Tomé em 1982 e com apenas 5 anos emigra com a família para Portugal.

Antes mesmo de concluir o curso de realização na Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, em 2013, Silas realiza a sua primeira longa-metragem documental Bafatá Filme Clube (2011), em que reflete sobre a importância que a vila de Bafatá, na Guiné-Bissau, teve no período colonial e a sua posterior desertificação, através um cinema desativado que fora a alma da vila até à independência em 1975 - ainda hoje este lugar é guardado pela figura fantasmagórica de Canjajá, o antigo projecionista.

Actualmente, trabalha na pós-produção de dois documentários Constelações do Equador e Casa Decana.

https://www.divinacomedia.pt/o-canto-do-ossobo